segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

DESCASADO TATUÍRA, A ORIGEM

Joaquim chegou ao verão no melhor estilo "em busca do tempo perdido". Recém divorciado, aceitou como uma espécie de aquecimento para a vida louca, ir ao aniversário de um familiar em Cidreira. Convenhamos que não é o lugar mais apropriado para tal fim mas, mesmo assim - entre tios e tias - conheceu a filha de um ex-chefe. O ambiente caseiro não permitiu que rolasse nada excepcional. Aliás, “ficaram” e ele, aos 47 anos, naquele sábado quente, compreendeu o real significado deste pré-namoro. 


Descasado em férias ignora as filas no supermercado, a interpraias maltratada das nossas cidades litorâneas e todos os riscos e fiascos típicos da temporada. Só precisa de bebida gelada e uma boa conexão wi-fi para auxiliar na busca de parceria em sites de relacionamentos (que ele jurara jamais entrar). 


Abandonou o veraneio típico de comilanças, carteado e sol para, na segunda-feira, avançar rumo às praias onde o agito é maior. Em Capão, conheceu uma psicóloga – ou melhor – foi reconhecido por ela que o via com frequência na clínica onde trabalhava. Ele e a ex-esposa haviam tentado terapia de casais, antes dela, nos intervalos das sessões, encontrar a solução nos braços de um engenheiro civil.


A psicóloga era divertida, mas talvez por cacoete profissional,  insistia em analisar cada palavra e movimento deste meu amigo que, como bom divorciado, estava cansado do monitoramento feminino. Mochila nas costas, seguiu para Atlântida. 


Lá, em busca da fêmea ideal, descolada e feliz,  conheceu uma empresária do ramo de cosméticos. Bonita, já madura e com ar de quem não perde tempo, não hesitou em convidá-lo para um espumante ao final da tarde. Tudo corria bem se não fosse a descoberta, na pior hora, de que ela era casada. O marido quase batia à porta!


Escapou porque o sujeito enviou um whatsapp. "Tô chegando amorzão!" Avisar, colegas maridos, sempre pode evitar tragédias ou terríveis constrangimentos!  Desolado, decidiu tentar a sorte nas praias de Florianópolis. Nada de momentos turvos e ondas de chocolate.


Desistiu quando uma simpática argentina, em um destes botecos da moda, sei lá em que praia da ilha, insistiu que dividissem uma caipirinha. Mesmo à meia luz,  embora bonita e cheirosa, não conseguia largar o telefone. Sua filha ligava a toda hora via whatsapp, direto de Corrientes. Assim, nada rolou além de um mimoso besito. 


No dia seguinte, experimentou Garopaba. Na casa alugada por amigos, divertiu-se muito. Cozinhou, bancou o DJ na noite, mas como todos eram casados, não atingiu seu objetivo de um rápido namoro de verão. 


Nos bares, encontrou dezenas de outros casais e alguns solteiros, a maioria homens. Por onde andavam elas, as solteiras que em seus dias de casado, o atingiam indiscretamente com olhares sedutores. Prometiam tudo!


E assim, à moda tatuíra, com quem vai se enterrar na areia da depressão, voltou às praias gaúchas. Ali poderia conversar com amigos e familiares. O tio – aquele de Cidreira – insistiu que o acompanhasse em uma pescaria na Lagoa. Aceitou, por falta de coisa melhor. 


E foi nessa pescaria que voltou a ver a filha do ex-chefe. Ela adorava pescar, coisa rara entre mulheres. E foi aí que iniciou seu grande teste amoroso de quarentão. Pescar, decididamente, não estava no projeto de Joaquim, típico macho da espécie que, ao chegar à meia-idade, só pensava em festa, para compensar o  passado monótono.


Circulara por quase todo litoral norte e não chegara ao porto desejado, Agora retornava de uma  bem sucedida pescaria na Plataforma de Cidreira onde observara a lua, o mar enquanto o tio e Cristina, se mantinham focados na pesca. 

Não fugia às suas responsabilidades, sabia que transformar o resultado daquela pesca em alimento era com ele e não reclamou na interrupção de sua jornada em busca de sereias festeiras.Preparou um jantar especial, na casa de Cristina. 

Ouviu histórias de pescador,  outras de vida. Cristina também era divorciada, perdera o marido para um professor de inglês. O vinho verde português que acompanhou a janta, arejou os espíritos, transformando melancolias em boas gargalhadas. 


Ao final da noite, o tio, alegando cansaço, voltou para casa. Ele permaneceu, com a desculpa de  lavar a louça e embalar para congelar os filés de peixe restantes. Naquela noite e nas duas seguintes, trocaram confidências de pele, suspiros carregados em maresia e espumantes gelados. 


Foram à praia juntos. Sem dar as mãos, isso representaria algum tipo de compromisso. Um acordo extraoficial. Mas tinha convicção que encontrara a companhia ideal, em uma pescaria, longe da tensão frenética dos bares da moda e seus drinks duvidosos. 


Na hora de retornar – as férias estavam encerradas para Joaquim – ela ainda permaneceria, o sentimento era de uma paz sem bandeira, de um armistício na batalha dos afetos mal resolvidos.


Embora decidido a não querer mais compromissos duradouros, sentia-se como aqueles peixes rebeldes que lutam contra a linha que os segura, já irremediavelmente fisgados. E só por isso que, com um fio de voz, perguntou da viabilidade de um reencontro.


"Melhor deixar assim. Foi tão bom, tão natural que não precisamos correr o risco de transformar esse momento em rotina, ou desilusão lá adiante. Ficamos só com a parte boa. Nosso vínculo será esse momento, breve, mas gostoso", respondeu Cristina.


Divorciado de carteirinha, macho independente acusou o golpe. Estava sucumbindo a seus próprios e argumentos. Disfarçou com bom humor. “Na semana que vem então, o velho capitão busca outro porto para ancorar”. Nem olhou para trás ao sair.


Percebera naquele momento que fora o maior pescado daquela noite na Plataforma de Cidreira. Ela fazia pesca esportiva. Fisgava só pelo prazer, para depois devolver ao mar. Intacto, embora a marca do anzol, às vezes, não curasse apenas com um beijo de adeus.


sábado, 15 de janeiro de 2022

Quem sabe não seria a vez dela acrescentar emoção à rotina de sua vida?


  Lá no fundo, bem ao fundo, alguém acenava. Uma mão solta no ar, quase sem corpo, desfocada contra a luz do sol. A semana começara difícil. Sabia do calor extremo de Porto Alegre. E das ameaças de todos os vírus. Pensou em ligar para o marido. Três dias distante. Três dias sem trocar uma ideia, sem carinho. Quem a observasse naquele momento pensaria que rezava, em voz baixa. Olhar sério, compenetrado na calçada à beira-mar no centro de Florianópolis. Mas era a luminosidade que reduzia a definição da vista já cansada. Sinal da idade e da teimosia em não consultar um oftalmologista. Virou-se de costas e retomou a caminhada.


Em plena crise, era um bom momento nas constantes viagens a trabalho que lhe causavam enjoo. Pior, passaria o final de semana sozinha. Mas alguns clientes insistiram para uma reunião no sábado ao meio-dia. “Esses caras não têm família?” Mas ela ainda era a renda mais alta em casa. Os filhos já adultos estavam independentes, mas o esposo remava contra a maré.


Pequeno empresário no Brasil é escravo de muitos patrões e vítima da sede por impostos e das instabilidades de mercado. Às vezes desconfiava que ele – talvez cansado dessa diferença – buscasse casos extraconjugais para “sentir-se mais macho, já que no salário perdia”, sem dar-se conta do preconceito que alimentava.


Seria fácil. Sempre em viagens de negócios em função da atividade que exercia, atendia um grande público feminino. Era marceneiro, e dos bons! Produzia peças para artesanato. Mas não, não cometeria tal desatino ao lembrar a italiana “muito sem graça” que encomendara entalhes para a próxima Páscoa.


“Coisa simples”, dissera o marido, não fosse a grande quantidade de outras encomendas, para tantas outras clientes. A italiana era a favorita dele. Vá lá, ela encomendava muito. Mas detestava quando chegava com sotaque forte e gestos largos para elogiar, repetidas vezes, as virtudes do esposo. “Ai tem…” pensava.


Longe de casa, em Florianópolis, em um hotel lotado, cercada de turistas querendo festa e executivos bem resolvidos financeiramente, todos cheios de disposição para uma aventura instantânea, e “tu ainda preocupada com o marido que vive uma situação muito diferente”, recriminou-se. O pobre deveria estar, naquele exato momento no atelier, trabalhando, bem escondido em uma rua simples, sem charme, sem paisagem bonita, na distante zona norte de Porto Alegre.


Quem sabe não seria a vez dela acrescentar emoção à rotina de sua vida? Aquele diretor da empresa concorrente lhe sugerira um vinho. Sem compromisso. Quebrar o gelo, trocar ideias de trabalho. “Sei…” Em casa, o maridão no trabalho e ela, solitária, carente, insatisfeita. Arrependeu-se na hora. O sol era só uma mancha no céu bem limpo e aquela visão distante – a da mão que acenava – ganhava forma, embora ainda imprecisa.


“Para de pensar bobagens, guria”. Ligou para o marido. Conferir é prevenir, sentenciou. Um funcionário atendeu. O marido fora entregar encomendas. Uma delas para a tal artesã italiana. O sangue ferveu de tal maneira que a paisagem paradisíaca da beira-mar de Floripa, ganhou tons vermelhos de ciúme.


Então era isso: uma entrega especial. E para ela, nem um telefonema de boa noite? Homens! “E eu boba, insisti para ele fazer dieta. Agora perdeu uns quilinhos e já se sente um galã!” Ao mesmo tempo, a imagem desfocada que antes parecia lhe acenar, ganhava forma. Vinha em sua direção. Era um homem. E se fosse bonito, adeus boa moça!


Quando a imagem ganhou definição, a poucos metros de seus incrédulos olhos, um novo choque: com um sorriso imenso e familiar, camiseta, jeans muito surrado e a barba por fazer – ali estava ele. Não o provável amante, mas o marido a lhe fazer uma surpresa. A primeira em tantos anos e com certeza, na hora certa.


Depois do abraço e beijo cheio de culpa e saudade, soube que ele decidira por uma folga “Vim dar uma incerta”, brincou. Só não contou que a passagem fora adquirida graças ao pagamento antecipado de uma cliente. Isso mesmo, a italiana. Ela não entenderia.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

O legado de cada um para 2022 e além


A vida passa tão rapidamente que não nos damos conta de coisas boas que poderíamos deixar gravadas em nossa história. Nada revolucionário, ou midiático, mas ações cotidianas que serviriam de inspiração aos jovens ou exemplo a ser citado pelos mais velhos. 


Em 2022 a natureza, a saga viral que nos contagia vai obrigar a mudanças lentas, mas urgentes. Sim, não preciso ser vidente. Basta respirar fundo e olhar o entorno de garras afiadas e bafo quente a secar as possibilidades de chuva e a alimentar a vitória do inço sobre o que realmente nos alimenta. 


Na maioria das vezes, nos acomodamos em algum ilusório conforto material, ou nos impomos a um ritmo alucinado que engole o tempo, em nome da luta pela sobrevivência. Atitudes que embrutecem o espírito, envolvidas na indiferença que, fatalmente nos jogarão a um vácuo existencial 


É sonho digital influencer a render centenas de publicações que muitas vezes pela falta de conteúdo ou pressa em ser original. E ser único em meio a multidão que digita é uma infinita busca por um buraco negro que vem engolindo afoitos ideológicos na mesma proporção de outros, inferentes.


Tantas portas para abrir, mas as chaves, sempre nas mãos dos mais rápidos, nos levam a essa disputa insana pelo que imaginamos ser a realização pessoal. E não adianta rezar, ajoelhar pedindo bênçãos e ajuda aos desvalidos se, logo a seguir, voltamos a nos encerrar em projetos alienados ao entorno social.


Tantas vezes nos recriminamos, sofremos com as vilezas cotidianas, mas permanecemos acomodados e atentos aos relatos que julgamos importantes para nossas fantasiosas bibliografias. Como em tudo na  vida real, marketing de influência só funciona se beneficia não apenas a você, mas efetivamente ao Outro.