quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Virada acidentada

Aconteceu mais ou menos assim: véspera de Ano Novo,  preparativos acelerados para a ceia e lá se foi a energia elétrica.  Pararam os motores do filtro da piscina, a bomba quem enchia a caixa d’água, esfriou o ferro que passava os lençóis do quarto de hóspedes e, é claro, os ânimos de quem receberia familiares e amigos para o reveillon. A empresa fornecedora de energia não prometia nada, dizia que buscava pela origem do problema. Em casa, se buscava qualquer coisa que iluminasse. Porque não compramos um gerador? Onde estavam as velas?  

A previsão era de lua cheia. Chegou a se pensar em mesa no pátio, ao luar. Romântico, mas nada prático. A luz azul da lua poderia ser coberta por nuvens! Velas ao vento? Tétrico e improvável demais! Lampiões, lanternas? Não havia. Mas por volta das 21h, retornava a energia para alívio de quem tinha muita bebida e sorvetes a esquentar no refrigerador.

 

A tranquilidade durou pouco. De repente, roncou uma torneira. E outra! E o vaso não dava descarga! A caixa d'água estava totalmente vazia. A bomba que deveria encher os reservatórios, queimara com a queda de energia.  Ou seja, havia luz, mas a família estava a seco! 

 

As cisternas que ecologicamente guardam água da chuva para o jardim e limpeza da casa, foram a alternativa. Banho, só de bacia, como antigamente. Todo igual a alguns séculos atrás. Era isso ou o banho frio na piscina. 

 

No primeiro dia útil daquele fatídico ano, foi consertado o abastecimento doméstico de água. E aí sim, um segundo brinde coletivo. Feliz Ano Novo! Depois de acompanhar o noticiário – a insensatez do trânsito e excessos de bebida e suas vítimas – todos que haviam enfrentado um dia de racionamento, chegaram à conclusão de que estavam muito bem, obrigado!

 

Em 2023, o negócio é não cair em depressão. Eu sei, os 365 dias passados foram de extremismos, milhares de rachas homéricos entre familiares e amigos, mas achar que a casa vai cair a qualquer momento, também não resolve. Dificuldades, maldades e tropeços de toda natureza,  não escolhem hora, mas decidir como enfrentá-los é o possível. Equilíbrio, serenidade e objetivos bem definidos são fundamentais. Caso falte luz, acenda uma vela. Triste mesmo é se tornar um ser humano desiludido, sem energia interior e vencido pelo inesperado. 


Mais um conto de Natal

Se na televisão pode haver uma sequência de filmes natalinos, por que não crônicas com esse tema, baseadas em fatos reais? Então, vamos lá: no início de novembro, a única boneca da pequena Érica, sumiu. 

O desaparecimento de sua “filha” de pano a fez chorar muito. De família humilde, a menina consolou-se na esperança de que o Papai Noel, quem sabe, lhe trouxesse outra. Talvez uma igual a de suas primas ricas, com rostos de louça. 

Essa história aconteceu nos anos 30, tempos onde não existiam brinquedos em plástico. A maioria era em madeira ou tecido e muito caros, importados da Europa.

Na hora dos presentes, Erica foi a primeira a sentar em volta da árvore. Esperava o bom velhinho e seus pacotes encantados. Meias e ceroulas para os tios, pijamas para os avós, carrinhos e livros infantis para os primos e ela aguardando, de olhos fixos no saco de linhagem que se tornava cada vez mais magro. 

Ao chegar sua vez  os olhinhos de Érica, brilhantes de alegria, não esconderam uma ponta de decepção ao ver uma bonequinha idêntica a desaparecida. Com roupas novas, mas com os mesmos olhos azuis. Até as manchas se pareciam! 

Nos dois anos seguintes, se repetiu o "sequestro" da cada vez mais gasta boneca de pano, que sempre voltava de roupas novas para a desencantada Érica.

Assim, aos sete anos, não acreditava mais no nada bom velhinho. Irritava-se quando seus pais, constrangidos por não poderem presenteá-la com brinquedos novos, diziam que ela não ganhara o que pedia, por causa de uma teimosia, de uma briga com os irmãos e outros pequenos pecadinhos, tão pequeninos que ela nem lembrava mais. 

Papai Noel era rancoroso. E pão-duro! Érica odiava aquele velhinho suado que a presenteava, ano após ano, com a mesma desilusão. Um sonho cada vez mais desbotado e remendado. 

Cresceu com esse rancor guardado. Casou e, embora a vida fosse mais folgada, insistiu em ensinar aos filhos que aquele velho, geralmente de barbas artificiais, era coisa do comércio.

"O Papai Noel de vocês somos nós". As crianças a ouviam, mas achavam que a mãe, sempre correta, desta vez fazia injustiça com o bom velhinho. O piá mais novo chegou a argumentar que, mesmo pobre, Jesus recebera os três reis magos com presentes em ouro - que valia muito - e também, incenso e mirra (o que é isso afinal?) mais baratos. 

Levou muito mais tempo para Érica compreender o gesto de seus pais. Na verdade, tentavam manter aceso o espírito natalino nos filhos. Dar-lhes uma esperança, um estímulo para melhorar sempre. A mesma boneca com roupinhas novas, feitas pela mãe durante a madrugada, era o que podiam dar, além da ceia.

 Erica acredita que, em sua preocupação, os pais  erraram ao deixá-la afastada da realidade. Filhos não têm vergonha do aperto dos pais. Serão  solidários. 

Ela sentiria orgulho da mãe, ao saber que ajudara a fábrica de brinquedos lá do Pólo Norte, remendando a boneca que tanto amava. E aquela noite especial, quem sabe, seria realmente feliz, como diz a canção.

Papai Noel no Lixo

Ar de gente cansada. Falta de ar nas lojas, nas repartições, nos abraços apertados entre milhares de celebrações natalinas. Muitos asfixiados por tanta ansiedade, tanta contabilidade. A televisão insiste com dicas para quitar dívidas ancestrais – limpar a ficha – e voltar a consumir. A engrenagem continua a girar. Quem não se cuidar, não for solidário acumula estresse e esgotamento. A crise mundial e as ameaças ao sistema econômico  botam para correr os Papais-Noéis. Não é só isso, ou melhor, não é por aí que se avalia a angústia da grande maioria.

Final de ano é tempo de balanço. E um dos piores balanços é o fatídico ajustar de contas que fazemos conosco. Metas esquecidas ou superadas depois de muito sacrifício. Ausência daqueles que não estarão na ceia de Natal. Por doença, falecimento ou outras rupturas que sempre deixam marcas. Mas é um tempo de paz, de esperança. A contabilidade, o presente ideal, a fila imensa nas grandes lojas, nada disso é pior do que o júri malfeito de pecados.

Lembro que num destes natais do passado, eu andava atordoado por todos esses motivos e outros. Enfim, estava a me sentir um minúsculo verme perdido entre tanta música e decoração de gosto duvidoso. Foi quando em uma das mais movimentadas ruas de Porto Alegre que percebi uma cena típica da cidade e da época. Pai e filho, classificadores de lixo, no entardecer do dia 23, antevéspera de Natal.

O menino segurava na mão esquerda um desses bonecos articulados. Um super-herói qualquer. Não dava para perceber a cor da capa. Apenas que estaria em boas condições – não fosse lhe faltar uma das pernas. Por mais que voasse, um herói daquele porte também dependia das pernas para pisar no chão firme. O pai, com a cara enfiada em um saco de lixo, revirava tudo, “Eu vi cair aqui”, disse ele.

Lá pelas tantas, voltou com algo que parecia a perna do boneco. Foi ao carrinho, puxou uma caixa cheia de pregos e parafusos. Acho que eram centenas deles. Revirou até achar o que queria. Deitou o boneco na calçada e com uma faca pequenina – transformada em chave de fenda, ou bisturi – sei lá, recolocou a perna no super-herói. Mas não devolveu ao filho.

“Agora só vais brincar com ele no Natal. A tua irmã também vai ganhar um presente do Papai Noel.” Cético, afinal havia juntado o presente no lixo, o menino disse, convicto: “Isso não existe, pai.” Sem perder tempo, o homem indagou ao menino de onde tinha caído aquele brinquedo? E por que perdera um parafuso? 

Ora, havia sido jogado lá de cima, do trenó de Noel. E viera com tanta força que quase se quebrara todo. Caíra no lixo porque em casa só tinham chaminé de fogão a lenha. Colocou o brinquedo ao lado de outro, uma boneca de cabelos arrepiados que deveria preparar para a filha, talvez.

E percebi ali, que toda adversidade, tudo o que contraria a lógica ou nos tira o foco, se resolve com determinação. Está em cada um de nós e não se compra com cartões de crédito ou depende de paciência no comércio vil e interesseiro. O verdadeiro espírito natalino resiste à aspereza da vida, porque se alimenta das lições que conseguimos aprender entre decepções e conquistas durante um ano, ou toda uma existência. 

Então, paz para não nos faltar ar, fôlego, neste Natal!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Toda mulher é meio Leila Diniz

No verão toda mulher é mais atraente. Me desculpem os apologistas dos estúdios da alta costura que idolatram o frio e a elegância do vestir. Ainda prefiro a estação do despir. O calor pode atrapalhar um pouco a aproximação, mas permite sacar as vestes com um exercício mínimo e prazeroso. O calor libera, dá um xeque-mate na auto-censura.
É difícil eu sei, desviar o olhar dos trajes minúsculos a rasgar calidamente o pudor. O desfile de macia epiderme massageada por filtros e hidratantes, alegra e estimula. Mas é aí que entra uma outra questão de igual fundamento: atitude e respeito. Enfrentar o calor não é tão difícil quanto a necessidade das mulheres de se impor diante do machismo e preconceito ainda existentes e discriminatórios.
Nesse 2022 que chega a seus últimos dias, se completam 50 anos do falecimento da atriz Leila Diniz. E lembro que, até o final dos anos 60, o mundo, muito maís do que hoje, era dos homens. Esses podiam ousar, viver seus relacionamentos, aventuras extra conjugais e tudo passava batido sem muitas condenações. Agir feito uma espécie de cafajeste garantia uma estrelinha no carteirinha do macho raiz. E condenações leves.
E foi nesse tempo que Leila, jovem e bela atriz de novelas açucaradas, levantou a bandeira dos direitos iguais. Da liberdade de agir como bem entendesse não apenas no trabalho, mas em sua intimidade. Cafajeste? E daí?
Eu era guri, saindo da adolescência e lembro de Leila Diniz posando grávida e de biquíni, em Copacabana. Escândalo! Hoje, a mulherada está livre para circular com seus lindos barrigões nas areias de todo o litoral brasileiro.
E a histórica entrevista ao “Pasquim”? Entre outras declarações afirmou: “Você pode amar muito uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo”.
A ditadura, na época, não perdoou. Embora tenha tido sucesso como atriz de cinema em filmes como “Todas as mulheres do mundo”, ou atuado em novelas clássicas, “O Sheik de Agadir”, de Glória Magadan, por exemplo, precisou se refugiar para não ser detida.
As “mocinhas” da época dependiam do rótulo da santidade, já os “galãs”, podiam derrapar em seus compromissos como uma espécie de "cafajestes do bem", ou algo assim.
Era da natureza deles, diziam os conservadores e ela, assim como outras tantas, queria a liberdade à esses mesmos comportamentos sem o risco de agressão moral. Então, ao falarmos sobre a relação entre o verão e o feminino, o fundamental é que a atitude da mulher seja respeitada sem parecer eternamente desafiadora.
Rita Lee já disse que toda mulher é meio Leila Diniz. Nenhuma merece um apedrejamento moral. Aliás, mesmo encoberta em trajes longos, burcas fechadas, é direito de toda mulher expressar sua personalidade.
Leila Diniz morreu, aos 27 anos, vítima de acidente aéreo ao voltar de um festival de cinema na Austrália, em 1972. Eu nunca esqueci uma frase sua - entre tantas, muito bem humorada, mas séria, sobre essas doenças do preconceito de gênero:
“A mulher brasileira deveria ir menos ao psicanalista e mais ao ginecologista”.

Falou e disse, bicho!