sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Ano Novo, escrita leve

 

Agora estou a reunir forças para um efetivo despertar, ou seja, um réveillon absolutamente verdadeiro à disposição de algumas viradas que considero fundamentais. Esse esforço inclui uma sincera mentalização para que possamos - nós, passageiros neste sofrido planeta - termos um pouco mais de equilíbrio entre vendavais, terremotos e dias de brisa, sol ameno ou frio suportável. Ah! E menos chiliques de extremismos que nada ajudam. Só confundem os incautos e inocentes de plantão. 



Doce ilusão dirão alguns. Mas é preciso esse pensamento otimista, essa crença de que os humanos saberão respeitar as regras de uma vida sem tantos sobressaltos. Cinemas! Voltarei aos cinemas de shopping. Vamos prestigiar aqueles telões enormes, que me fizeram sonhar em ser um galã, herói de capa e espada. Ainda guri, morei em Rio Pardo e lá  tinha o Cine Coliseu a me ensinar a ser fã de filmes de cowboy e a viver minha primeira paixão. Ah! Saudades da linda Romy Schneider em “Sissi, a Imperatriz”. 



Enquanto digito, recebo uma mensagem meteorológica prevendo sol com muitas nuvens e pancadas de chuva e alta probabilidade de formação de arco-íris! Tudo que eu precisava para encerrar esse difícil 2024. A visão daquelas tiras coloridas suspensas na atmosfera e um girassol da cor do cabelo de minha musa, conforme escreveu o mineiro Lô Borges - parceiro de Milton Nascimento. “E se eu morrer, não chore não. É só a lua. É seu vestido cor de maravilha nua…Ainda moro nesta mesma rua. Como vai você? Você vem? Ou será que é tarde demais?



Como está a iniciar um 2025 novinho em folha, nada é tarde demais, Tudo o que for bom pode ser sonhado, projetado ou criado. E o ruim, podemos nos esforçar um pouco e eliminar, pegar pelo rabo e jogar na lixeira para - igual a um notebook - deletar para todo o sempre. Sim, podem me criticar, dizer que fantasiei. Mas o sonho é um primeiro passo na criação de um novo projeto de vida. Todos juntos, todos com respeito às diferenças que, na verdade, representam a necessidade de mudanças, como folhas perdidas de um antigo calendário.  Até lá! 



O pinheirinho trêmulo

 

Era véspera daquela típica confusão doméstica dos finais de ano. A agitação das crianças, os tios comentando a decoração e os donos da casa atarefados em receber a todos. É sempre assim, o 24 de dezembro passa voando. Da cozinha chegava aquele aroma de assado, alguém se concentrava na finalização de um arroz à grega e uma sogra fofoqueira apontava para as compotas de frutas que, de acordo com ela, estavam “aguadas”. Sem querer parecer totalmente bruxa, justificava: “minha nora é muito querida, mas deixa a desejar nos doces”.


A árvore natalina já sacudira duas vezes e o pai, zeloso com o investimento que fizera em lâmpadas, bolas coloridas e um presépio feito em cerâmica, acompanhava atento a movimentação. Bob, o cachorro da família, um velho pastor alemão, cruza a sala carregando entre os dentes o bigode e a longa barba do Papai Noel. E lá se foram os tios no encalço do bicho, lento, mas decidido a não entregar sua captura. Foi convencido, pelo olhar raivoso do pai e uns biscoitos caninos que a dona da casa reservava para os momentos de recompensa. Dessa vez, o fazia por uma causa maior.


Recuperaram a barba, meio babada, mas salva. Nada que o sopro quente de um secador não resolvesse. Por trás da porta, um dos guris observava a cena, sem entender bem de onde surgira aquela imensa barba. Aceitou a desculpa de que era para um boneco que colocariam enfeitando na chaminé da casa. Curioso, perguntou, mais de uma dezena de vezes onde estava o tal Noel de mentira, mas se fizeram de surdos e a dúvida foi vencida em troca de algumas balas e pirulitos que surgiram dos bolsos milagrosos dos avós. Afinal, é para isso que eles servem. Adoçar os pequenos, ora!


Poucas horas antes da meia-noite, serviram o jantar. Era uma tradição e uma maneira de evitar que a fome deixasse os convidados entupidos de petiscos típicos da época, como nozes e castanhas.  A danada da árvore natalina seguia balançando mesmo com as estacas de madeira que haviam colocado para evitar surpresas desagradáveis. Na hora certa foram entregues os mimos, entre abraços, brindes e algumas lágrimas saudosas por aqueles que já haviam partido.


De repente, sem mais nem menos, a árvore balança de um lado para o outro e, imitando um imenso pinheiro nativo, desaba no chão arrastando bolas coloridas, lâmpadas e os mimosos cartões que os familiares haviam deixado. Ao se aproximarem do vaso, perceberam um par de patinhas sujas e dois olhinhos assustados saindo de um túnel cavado no entorno da árvore. 


O mistério se resolvia ali. Fred, o porquinho-da-índia que sumira um dia antes, havia decidido voltar às origens. Longe da gaiola onde vivia, cavou um túnel perfeito entre as raízes plásticas. Tudo muito bem encoberto entre pinhas coloridas e fitas decorativas, disfarce perfeito e decorativo.  E foi assim, às gargalhadas, que celebraram mais um Natal. Dessa vez com a ajuda do pequeno Fred, responsável por tornar inesquecível aquela noite.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O Papai Noel que saiu do lixo

 Ar de gente cansada nas repartições ou entre abraços apertados em milhares de celebrações natalinas. Estou asfixiado por tanta ansiedade, tanta contabilidade. A televisão insiste com dicas para quitar dívidas ancestrais – limpar a ficha – e voltar a consumir. A engrenagem precisa continuar a girar. Ao voltar de (mais) uma destas festas de final de ano, cruzei por municípios entre os vales do Rio Pardo e Taquari e percebi muitas lojas de portas abertas à espera de consumidores. 

As pessoas se dividem entre o estresse e esgotamento em um período em que valorizo a  leveza de intenções. Mas o mundo, sempre em crise, entre ameaças ao sistema econômico, especulação com moedas, bota em fuga Papais-Noéis ou, em casos de absoluto extremismo, os trajam ridiculamente de branco. Não toquem no meu amigo Noel, por favor! 


Final de ano é tempo de balanço. E uma das piores contabilidades  é o fatídico ajuste de contas com o nosso íntimo. Metas esquecidas ou superadas depois de muito sacrifício. Ausência daqueles que não estarão conosco na ceias especiais. Gente que partiu por doença, ou velhice, muitas vezes em rupturas que sempre deixam marcas. Mas é um tempo voltado a paz e reconciliação. A contabilidade, o presente ideal, a fila imensa nas grandes lojas, nada disso é pior do que o júri malfeito de nossas possíveis culpas ou  enganos.


Lembro que num destes natais do passado, eu andava atordoado por todos esses motivos e outros. Enfim, estava a me sentir um minúsculo verme perdido entre tanta música e decoração de gosto duvidoso. Eu estava lá – hora meio apagado, ora a acender no tranco – feito essas pequenas e, às vezes, irritantes lampadazinhas chinesas de Natal. Foi quando em uma das mais movimentadas ruas de Porto Alegre percebi uma cena típica da cidade e da época. Pai e filho, classificadores de lixo, no entardecer do dia 23, antevéspera de Natal.


O menino segurava na mão esquerda um desses bonecos articulados. Um super-herói qualquer. Não dava para perceber a cor da capa. Apenas que estaria em boas condições – não fosse lhe faltar uma das pernas. Por mais que voasse, um herói daquele porte também dependia das pernas para pisar no chão firme. O pai, com a cara enfiada em um saco de lixo, revirava tudo, “Eu vi cair aqui”, disse ele. Lá pelas tantas, voltou com algo que parecia a perna do boneco. Foi ao carrinho, puxou uma caixa cheia de pregos e parafusos. Revirou até achar o que queria. Deitou o boneco na calçada e com uma faca pequenina – transformada em chave de fenda, ou bisturi – sei lá, recolocou a perna no super-herói. Mas não devolveu ao filho.


“Agora só vais brincar com ele no Natal. A tua irmã também vai ganhar um presente do Papai Noel.” Cético, afinal havia juntado o presente no lixo, o menino disse, convicto: “Isso não existe, pai.” Sem perder tempo, o homem indagou ao menino de onde tinha caído aquele brinquedo? E por que perdera um parafuso? Ora, havia sido jogado lá de cima, do trenó de Noel. E viera com tanta força que quase se quebrara todo. Caíra no lixo porque em casa não tinham chaminé, nem fogão a lenha. Colocou o brinquedo ao lado de outro, uma boneca de cabelos arrepiados que deveria preparar para a filha, talvez.


E percebi ali, que toda adversidade, tudo o que contraria a lógica ou nos tira o foco, se resolve com determinação e boa vontade. Está em cada um de nós e não se compra com cartões de crédito. O verdadeiro espírito natalino resiste à aspereza da vida, porque se alimenta das lições que conseguimos aprender entre decepções e conquistas durante um ano, ou toda uma existência. Então, paz! Assim não nos faltará fôlego, neste Natal!

domingo, 8 de dezembro de 2024

Da lama ao chope bem tirado

Sábado passado acompanhei um amigo à Arroio do Meio. Ele faria uma visita comercial a uma cervejaria da cidade. Cheguei lá e fiquei impressionado com a estrutura bacana e organização do espaço que produz sua própria bebida. Está funcionando a pleno, sempre lotando com público local e visitantes. Mas é um recomeço no pós-cheias. E as cenas que vi, a partir daquela tarde, circulando pela cidade despertaram em mim a certeza de que a reconstrução se faz assim, com trabalho e criatividade. A espera de um Natal igualmente solidário que avista, ali adiante um 2025, quem sabe, menos sofrido.


Em Eldorado do Sul, onde moro, vejo a força de toda comunidade pela reconstrução. O ano está sendo cruel conosco, pobres mortais, mas para todo drama sempre temos uma nova escrita e, quem sabe, menos sofrida em com trechos sintonizados em uma necessária recuperação. E é claro, mantendo um ritual de cobrança aos organismos públicos para que façam a sua parte. Temos uma ponte a reconstruir. Com urgência. A nossa contribuição – além de um intenso voluntariado – são os impostos pagos, ora!


Em meio toda essa tragédia ambiental, também acompanhei o luto de amigos, em Porto Alegre, que perderam familiares repentinamente. Esse 2024 passa uma régua muito rasa nas fragilidades humanas. Muitas perdas materiais e humanas. Perdi um amigo, derrotada por uma doença cruel. Somos frágeis, limitados em situações como essa. E por isso mesmo, depois de tanta lama, já me programo para uma próxima ida aquela cervejaria no Vale do Taquari. 


Vou cruzar todas as estradas de chão que forem necessárias, mas brindarei com um chope vencedor.  Aceito sugestões, outros locais. Ergueremos taças em todos! Campeões da sobrevivência em um ano que nos testou de todas maneiras possíveis. Eu sei, faltam poucos dias para uma virada e temos ainda muitos desafios a enfrentar. Aquelas pessoas que se prendem à desesperança, permanecem eternamente lambuzados pelo lodo das tragédias impostas pela vida. Sofrem em dias de sol, temendo a próxima tormenta. 


A saída é enxaguar os apuros com muita ciência e prevenção, mas sem abandonar a alegria de viver. Celebrar o encanto da vida que se renova a cada instante. Eu, por exemplo, estou aqui a enfrentar o que chamam de melhor idade – apesar das dores e tristes despedidas – e tentar vencer as enxurradas com as muitas mãos que – unidas – rumam a favor da mais digna sobrevivência onde, cada vez mais, é exigido incluirmos  mais cuidado e respeito ao planeta onde vivemos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A nação dopamina e o equilíbrio

Eu venho de uma geração onde as coisas nunca foram tão disponíveis ou acessíveis. Amava ouvir música, mas os vinis eu comprava juntando pilas. Até chegar lá, namorava as capas nas lojas ou buscava algum disco esquecido, perdido nos cestos de descontos. Era assim que eu conseguia um certo equilíbrio, em minha ansiedade juvenil. E hoje? Imagino como agem os jovens ou os meus parceiros veteranos na sociedade de consumo que, de certa forma, nos brinda com as portas do prazer e consumo instantâneos. Todos viramos “clientes especiais”. 

Se eu desejo um som novo, está direto em vídeo no YouTube Music, ou plataformas tipo Spotify e outros. E essa ânsia, essa facilidade leva a estourar nossos limites de dopamina - esse neurotransmissor que, a partir do sistema nervoso central, banha o organismo de todos os mamíferos em pura sensação de prazer e satisfação. É ela que nos impulsiona como vício a um consumo quase descontrolado, semelhante ao nosso cãozinho de estimação, que abana a cauda em êxtase, quando oferecemos aquela ração extra sabor artificial de carne.
  
Tive uma colega, em tempos passados, que consumia desenfreadamente e, até chegar ao equilíbrio, precisou de muito remédio tarja preta e psicanálise. Lembro daqueles olhos vidrados, viciados em consumo extremo. Então, antes de atingirmos esse pico doentio, recomendo a leitura de “Nação Dopamina”, assinado pela psiquiatra norte americana Anna Lembke que relata, em impressionante pesquisa, a crise dos vícios modernos que não incluem drogas ingeridas mas a dopamina, aquele produto químico produzido pelo próprio corpo.


A autora nos leva a refletir sobre os exageros modernos que - ao contrário de meus dias passados - onde o acesso as coisas que eu curtia levavam um tempo próximo a eternidade, hoje nos oferecem, quase como imposição,  diversão, compras ou sexo. Está tudo no pacote assinado digitalmente, ou não. Quantas vezes você, leitor, se vê obrigado a bloquear certas ligações que te oferecem, não apenas os golpes do crime organizado, mas produtos variados, “dopamina digital 24 horas por dia”, ressalta a psiquiatra em sua pesquisa sobre o preço altíssimo de sermos governados “pela próxima dose”.   

Eu controlo as minhas crises consumistas, estimuladas por toda essa oferta instantânea, me concentrando em trabalhos manuais, pequenos reparos domésticos que me exigem algum tipo de concentração. Ouvir música também afasta essa tentação imediatista ao conduzir para uma liberação da uma deliciosa  “dopamina do bem”. 

Afinal, escuto vinis comprados a base de alguma espera e que resultaram em prazer, sem aflição ou ansiedade, a partir do contato da agulha no sulco aberto a um tango, um samba raíz, música clássica ou, ainda mais efetivo, às minhas bandas favoritas de rock.  Tudo em perfeito equilíbrio, aliás, feliz com os pequenos e saudáveis eventos cotidianos. O resto, diria o rei Roberto Carlos: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A proclamação da Repúbica


"Não há nenhuma razão, é isso que está errado, não aceitar nossa condição de mulher, de boneca sentimental, mas o que fazer! Mas por que usamos tanto o coração? Ai que tédio, ser tão sentimental... Por que não ser de pedra, como os homens? Mas é inútil querer imitá-los. Temos que nos conformar em invejá-los"
Púbis Angelical - Manuel Puig

Outra crônica de casal. Mas essa história aconteceu há pouco tempo e tem a ver com o 15 de Novembro, feriado da proclamação da república brasileira. O movimento que explodiu lá em 1889 derrubando a monarquia, incentivou Jane a se rebelar contra Jonas, o marido. Ela o acusava de transformar uma bela união estável em um reinado absolutista. Ele o imperador máximo e ela, uma típica rainha do lar, onde o cetro se transformava em vassoura.

 

Jane sabia que, em parte, a culpa era dela. Incentivara mimos demais no início da relação e  Jonas abusava. Por exemplo, exímio cozinheiro na fase de namoro, conquistou a esposa com risotos variados e ainda era carinhoso, gentil e vigoroso amante. Toda semana lhe oferecia flores, ou mimos como livros e doces especiais da confeitaria favorita dela. 


Jonas alegava que assim, manteria a doçura na medida certa para os momentos mais amargos da vida que, inadvertidamente, chegaram apesar dos quindins e outras guloseimas. O marido não se conformou com as queixas. Sentiu-se igual ao Jonas bíblico, preso à barriga de uma baleia. Mas se essa era a sua missão, se esforçaria mais  para voltar a ser o marido que a fazia feliz. 


Jonas reclamou do sufoco nos últimos tempos. Ambos haviam sofrido com o coronavírus, a casa onde vivem, escapou por poucos das cheias, mas todos seus amigos haviam sido afetados.  E de bom esposo, quem sabe, havia se tornado um sujeito assustado com as tragédias naturais. É claro que ela não caiu nessa desculpa. E xingou a acomodação em todos os níveis. Todos! 


E foi aí que acendeu a luz de emergência na cabeça de Jonas. E partiu para um plano que o livrasse da barriga de qualquer baleia doméstica. Jurou que, a cada virada de mês - sem uma data específica - celebrariam a proclamação da “Repúbica” dos países baixos (revisores, sem o L mesmo). Uma forma marota de afirmar que além dos acepipes que ela se habituara em mais de uma dezena de anos, seria um exemplo dedicado de fervoroso amante. 


Jane achou justo e divertido, mas desconfiou de alguns termos do acordo como, “na virada de mês” ou “sem data definida”. Sentiu nessas palavras  um certo tom de procrastinação à caminho. Mas não bancaria a insensível.  E só por isso, deixou o alerta de que, em caso de rompimento do acordo proposto, iria buscar uma comemoração fora de casa, sem direito a queixas ou condenações. 


Ainda citou o próprio Jonas que, no período inicial da relação proclamava:  “O amor elimina o hormônio do estresse, libera endorfina, aquela  sensação prazerosa” e, aparentemente, havia assumido uma condição de marido relaxado. Era um Jonas de castigo, na barriga da baleia do comodismo. Mas se na criação da república brasileira houve um compromisso pela unidade, ela exigia rigorosa fidelidade às antigas promessas do casal. Era isso ou ele sofreria um autêntico golpe de estado, bem lá, na tal “repúbica.” 




quarta-feira, 30 de outubro de 2024

ELE, ELA E A CRISE

 

Os olhos estavam cansados daquela paisagem. Lá ao fundo, alguém acenava. Uma mão solta no ar, quase sem corpo, desfocada contra a luz do sol. A semana começou difícil. Pensou em ligar para o marido. Três dias distantes. Sem trocar uma ideia, sem carinho. Quem a observasse naquele momento pensaria que rezava, em voz baixa. Olhar sério, compenetrado. Mas era a luz do sol que interferia no horizonte e reduzia a definição da vista já cansada. Sinal da idade e da teimosia em não consultar um oftalmologista. Virou-se de costas à luz para retomar a caminhada. Era seu melhor momento nas constantes viagens à trabalho que lhe causavam enjôo.


Pior, passaria o final de semana sozinha. Os clientes insistiram para uma reunião no sábado ao meio-dia. “Esses caras não tem família?” Mas ela ainda era a renda mais alta da família. Em casa, os filhos, já adultos, eram independentes, mas o esposo remava contra a maré imposta por rendimentos baixos. Pequeno empresário no Brasil é escravo de clientes instáveis e vítima da sede por impostos dos governos e das instabilidades de mercado. Sozinha, às vezes desconfiava que ele – talvez cansado dessa diferença – buscasse casos extraconjugais para “sentir-se mais macho, já que no salário perdia”, sem dar-se conta do preconceito que alimentava.


Seria fácil. Ela sempre em viagens de negócios ele, em função da atividade que exercia, atendia uma mulherada imensa. Era marceneiro, e dos bons! Produzia peças para artesanato. Mas não, não cometeria tal desatino. Lembrou a italiana sem graça que encomendara 40 trenós para uma feira de Natal. “Coisa simples”, disse o marido, não fosse a grande quantidade de outras encomendas, para tantas outras clientes. A italiana, uma coroa bonitona nos seus quase 60, era a favorita dele. Vá lá, ela consumia muito. Mas detestava quando chegava com sotaque forte e gestos largos para elogiar, repetidas vezes, as virtudes do esposo. “Aí tem...” pensava, embora ele garantisse ser apenas uma boa cliente. Nada mais.


Longe de casa, em Florianópolis, em um bom hotel, cercada de executivos de grandes empresas, bem resolvidos financeiramente e cheios de disposição para uma aventura instantânea, e ela ainda preocupava-se com o marido, que vivia situação muito diferente. O pobre deveria estar, naquele exato momento no atelier, trabalhando, bem escondido,naquela rua simples, sem charme, sem paisagem bonita, na distante zona norte de Porto Alegre. “Nem barba ele faz quando não estou. Mas fica muito charmoso,” pensou, ao lembrar os pelos eriçados a arrepiar sua pele sensível.


Quem sabe não estava na hora dela mesma acrescentar emoção a rotina de sua vida? Aquele diretor da empresa concorrente lhe sugeria um vinho. Sem compromisso. Quebrar o gelo, trocar projetos de trabalho. “Sei...” Em casa, o maridão entalhando Noéis e ela, solitária, carente, insatisfeita. Arrependeu-se na hora. O sol era só uma mancha no céu bem limpo e aquela visão distante – a da mão que acenava – ganhava forma, embora ainda imprecisa.


“Pára de pensar bobagens, guria”, disse para si mesma. Ligou para o marido. Conferir é prevenir, sentenciou. Chamou, chamou. E nada! Muitos minutos depois, um funcionário atendeu. O marido fora entregar encomendas. Uma delas para a tal artesã italiana. O sangue ferveu de tal maneira que a paisagem paradisíaca da beira-mar ganhou tons vermelhos do ódio que a cegou ainda mais. 


Então era isso: uma entrega especial. E para ela, nem um telefonema de boa noite? Homens! “E eu boba, insisti para ele fazer aquela dieta. Agora perdeu uns quilinhos e já se sente um galã!” Ao mesmo tempo, a imagem desfocada que antes parecia lhe acenar, ganhava forma. Vinha em sua direção. Era um homem. E se fosse bonito, adeus, boa moça!


Quando a imagem ganhou definição, a poucos metros de seus incrédulos olhos, um novo choque: com um sorriso imenso e familiar, camiseta, jeans surrado e a barba – aquela barba por fazer – ali estava ele. Não o provável amante, mas o marido, seu marceneiro a lhe fazer uma surpresa. A primeira em tantos anos e com certeza, vinda na hora certa. 


Depois do abraço, do beijo cheio de culpa e saudade, soube que ele decidira por uma folga “Vim dar uma incerta”, brincou.  Só não contou que a passagem fora adquirida graças ao empréstimo de uma cliente. Isso mesmo, a italiana. Ela não entenderia.    

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Quem ri do rato


 Organizava cadernos e papéis em minhas entulhadas gavetas - um trabalho quase psicanalítico - quando achei a carta de uma ex-colega, lá dos anos 80, tempos em que ainda se escrevia a mão, coisa anterior ao e-mail e redes sociais. Ela agradecia minha solidariedade, após uma fase depressiva e dizia achar graça dos exageros, da brutal carência e falta de amor próprio que a levara ao gesto extremo de tentar acabar com a própria vida. 


E o fez com requintes de estilo. Redigira um texto de frases feitas, citações de grandes poetas e ainda gravara um último adeus – voz compungida – entremeada por soluços da mais pura e sincera mágoa contra o mundo cruel. Ó dor! Um momento assim é realmente devastador, especialmente no caso dela, casada com um pacífico e dedicado professor europeu, que chegara ao Brasil para uma curta temporada esticada pela paixão. 


Ele só retornou quando o amor fez as malas e antecipou-se ao adeus. Partiu de repente, sem adeus. Sem aviso. Ela chrou o que pode. Sentia-se pior do que o mais vil dos seres humanos e assim, sufocada por uma devastadora torpeza, mirou-se no reflexo das mágoas  e perguntou: “és afinal, uma mulher ou uma desprezível ratazana”? E se pôs a roer a estima feito minúsculo camundongo.


Correu à dispensa onde guardava produtos de limpeza. Encontrou um pacote de veneno granulado.  O antigo Ri-do-Rato. Abriu o espumante francês que reservara para o fatídico jantar romântico que celebraria os cinco anos de vida a dois. As primeiras taças para lhe dar coragem, as demais para ajudar a digerir as quase dez pílulas.  E assim, brindando ao seu final trágico, entre lágrimas  e gargalhadas, embebedou-se.


De repente uma dor lancinante lhe torceu os intestinos. Era a ação do veneno. Um calor, uma força estranha, como se algo se movesse descontroladamente em seu ventre e tentasse rasgar-lhe as entranhas. Era o fim chegando, imaginou. E correu ao banheiro, onde de forma nunca antes vista, uma brutal, uma avassaladora diarreia a prendeu ao vaso. Morreria daquela maneira estúpida, humilhante? Após mais alguns longos e sofridos minutos tudo passou. E sentiu-se melhor. Muito melhor. Aliviada. Vazia.


O veneno deveria estar vencido, imaginou. Quando examinou outra vez o pacote, percebeu que ingerira um forte laxante que seu ex escondera ali. Ela tinha mania por dietas agressivas com esse tipo de medicação. Voltou à razão e abriu outro espumante. Desta vez para brindar ao homem que a jogara ao fundo do poço e que, de alguma maneira, a salvara do limbo.


Estava pronta, pós catarse, ou melhor pós diarreia, para ser feliz ou simplesmente curtir seu novo momento. Independente e lúcida. “De alguma forma, dele ficou aquele último gesto de carinho", escreveu ela, que voltou a namorar. "Sem grandes expectativas, porque assim, dói menos", aprendeu.


quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Voto ou Inconsciência

Na semana passada, por pouco não ultrapassei erradamente um acesso rodoviário. Esbravejei contra a falta de sinalização. Foi aí que meu caroneiro, discretamente, apontou a imensa placa, com seta e velocidade limite indicadas. Tudo perfeito, não fosse a pichação com riscos que a encobriram totalmente. E aí me dei conta de que a maioria gosta de criticar administrações públicas mas esquece sua parte nisso. 


Com certeza não foi um parlamentar sem noção quem destruiu a sinalização. Talvez tenha sido um sujeito que a toda hora, critica os políticos. É fácil dos candidatos despreparados e da falta de ação nas esferas governamentais. Queremos que se cumpram as leis, mas  aceitamos deixar nosso rabo preso a uma placa destruída de trânsito.


Vejo militantes, muitas vezes, constrangidos ao divulgar as propostas de seus candidatos, como se fosse um pecado, uma guerra santa que desmerece, indiscriminadamente, o esforço de tantos. Serão todos assim? Anular os votos em protesto é uma promissória em favor dos que lucram com a miséria, com a ignorância. Os maus políticos.


Outros reclamam das propostas, da mesmice apresentada em ralos minutos nos meios de comunicação. Querem originalidade, mas em seus cotidianos, o que fazem para tornar a vida melhor, menos repetitiva? Alguns quando chamados na escola porque o filho aprontou, por exemplo, desabam em ira contra os mestres, na defesa irracional dos rebentos. 


E os que praticam pequenos delitos? Receptam, por exemplo,  fios de cobre que escurecem vias urbanas sustentadas com nosso caro imposto! Usam o carro da firma para assuntos pessoais e, se as taxas são muitas, sonegam. Pagar o imposto e cobrar sua aplicação correta, seria bem mais ético. É fundamental ler as propostas que, afinal, representam o nosso futuro. 


Candidato não brota em  árvore. É um sujeito igual a nós, que bota a cara a bater por gostar de política. E se ele entrou nessa para se locupletar, na próxima votação, o povo que é atento, o pune nas urnas. Nem precisa conspirar nas redes sociais. Mas alguém aí fiscaliza? Lembra em quem votou na eleição anterior? Que feio! Anotemos tudo, então. 


Está na hora de limpar a política do conchavo espúrio, do interesse exclusivamente pessoal. Pensar no coletivo faz o indivíduo andar melhor, mais seguro, dono de seu nariz. Não desligue o rádio e a TV, anote e se faltou criatividade, sugira algo melhor. Porque o maior mal está à espreita dos que se omitem. 


Fique atento: alguns têm um título eleitoral em uma mão e uma arma na outra.  Nós que ocupamos as mãos com o trabalho que carrega o país, vamos levar o título eleitoral  no bolso esquerdo ou direito do peito e transformar esse documento na arma que dispara saúde, cultura, segurança e oportunidades. 


Aquilo que prometem apenas nós, gente do povo, pode fazer valer, se usar corretamente a urna eleitoral. Portanto, atenção ao horário gratuito, que não tem nada de gratuito e pode custar caro aos que se omitem. Dê essa chance a você mesmo e, se antes não funcionou, faça um mea culpa, vote outra vez. Mas nunca,  jamais, se omita.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

A musculatura da felicidade

Uma querida amiga curtiu minha crônica  Divertida Mente. “Enfrentamos a  ansiedade. Estamos juntos nessa.” Eu fiquei pensando sobre como esse mal vem arrastando gente boa, dedicada aos afazeres diários e os obriga a enfrentar o risco do desânimo para quase tudo. Aquela sensação de fugir das coisas boas quando, vejam só, o importante é justamente estar aberto a tudo que nos melhore o humor. 


Lembro da vez em que fiquei me enrolando para ir ao aniversário de um amigo, vizinho de porta. E o que aconteceu? Meu pai literalmente me empurrou para fora de casa. Ao chegar na festa, tudo passou. Foi uma noite bacana de risos e alegria. Se eu tivesse seguido em casa, o enjoo teria continuado, firme e talvez, mais forte. 



Na semana passada li um extenso artigo da norte-americana Alicia Meuret, professora de psicologia que, de certa forma, confirma o acerto de meu velho. O  ilustre leitor encaramujado pode me perguntar: E quando falta aquele empurrão amigo? Bom, aí é que entra o exercício proposto por esse estudo psicológico, ou seja, reforçar ou criar “uma  musculatura da felicidade,” o que não é participar de uma academia de fisiculturismo (mas se lhe fizer feliz, vale). 




Meuret percebeu que adultos com depressão ou ansiedade ao participarem de sessões de psicoterapia focadas em aumentar as emoções positivas, tiveram melhoras consideráveis em relação a outros  grupos cuja terapia se concentra em reduzir as emoções negativas.  O estudo valoriza o que classifica de sensibilidade à recompensa e a partir daí gerenciar suas emoções. 



Por exemplo, eu não queria ir à festa. Estava no auge da depressão comum para muitos na adolescência, mas ao chegar lá, aos poucos fui absorvendo o astral que celebrava com humor, risos e oferecia lembranças que dariam energia a essa tal musculatura de experiências felizes. E isso vale até para aqueles que têm dificuldade em viver situações prazerosas - a anedonia - como se chama cientificamente.



Isso não significa que preciso fingir não ter problemas psicológicos, o que Mauret orienta é basicamente criar alternativas para se atingir a alegria e, quando chegarmos a esses momentos, valorizá-los, criar lembranças agradáveis. “Comece planejando uma atividade por dia que deixará você feliz”, aconselha a psicóloga. 



Algo tipo de se presentear com uma comidinha favorita, ligar para um amigo, ou dar uma escapadinha a uma confeitaria. Sei, você não eliminou as coisas ruins, mas criou memórias positivas. Pode parecer piegas mas, em meu caso, funciona muito bem. Bate uma sensação ruim, eu fecho os olhos e volto aquela lembrança boa que cultivei - o som de uma música, do vento ou um dia de muita luz. 



Muitas vezes nem lembro direito o que aconteceu, ou onde vivi aquele momento alegre. O importante não é ter um registro quase fotográfico, mas amplificar a  sensação de que permanecerá ali, tatuada na musculatura de recompensas boas.  Afinal, não temos uma borracha que apague a  dor, frequente em dias de tantos malfeitos. Mas valorizar o que nos eleva a estima, como diz, jocosamente, um amigo, “parece difícil, mas não é fácil”


quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Divertida Mente no espelho

Aconteceu algumas vezes em minha adolescência. Eu acordava, na madrugada, com uma sensação estranha, um peso asfixiante e palpitação fora do comum. Algo como em filmes de suspense, ou terror. Mas os monstros todos estavam guardados lá dentro, embolados em minha imaginação de guri. Certa vez a coisa foi tão forte que desmaiei de pura ansiedade. Imagino o susto de meus familiares. O barulho seco no piso de madeira e o gemido de dor. Mas passada a crise, todos os fantasmas sumiam  e eu voltava, assustado, para a cama.  Esse quadro só aliviou um pouco a base de medicação tarja preta que, um ano depois,  abandonei para enfrentar, sem farmácia, meus problemas.


Lembrei desses dias ao assistir - ao lado de minha neta - a história da jovem Riley, personagem da filme Divertida Mente 2 que, nesta segundo roteiro, enfrenta as mazelas da transição da infância ao amadurecimento. Aquela Sala de Controle Emocional do primeiro filme, se vê obrigada a uma adaptação a esses novos tempos, onde as emoções explodem e ganham tons dramáticos, entre a alegria inocente da infância e os novos sentimentos de tristeza, raiva, medo e ¨nojinho" aquele soberba juvenil.


E aí lembrei das “muletas” psicológicas que encontrei na música. Batia uma ansiedade e depressão mais forte e lá estava eu a ouvir Help! (Socorro!) dos Beatles, “Me ajude a voltar a ter os pés no chão, por favor!” ou “Satisfaction” dos Rolling Stones, onde a lamúria era contra a busca de satisfação pelas coisas ditas boas da vida “ eu tento, tento e não consigo”. Na época eles gritavam por mim e, na semana passada, o inteligente roteiro da Pixar, me lembrou - em cores bem definidas - o temperamento de um jovem em crise existencial.


Recomendo o filme aos papais e mamães e, lógico, aos filhos, para que sintam, com bom humor, como é normal essa fase onde a tristeza muitas vezes bate papo com a depressão e nos deixa assustados e intimidados com a sociedade. Todos tão certinhos e nós, esquisitos, de voz ruim, corpos em mutação e com desejos confusos, aparentemente inadequados. No filme cada emoção possui uma cor específica, lida com o inconsciente e o desenvolvimento da personalidade e aquela sombra assustadora que é a ansiedade. 


Era a missão de ser um bom filho, um colega legal e ter notas satisfatórias apesar da ânsia que sufocava quando eu dependia de conhecimento gramatical para uma boa redação. Ah! E sem  esquecer a diferença entre complemento nominal e adjunto adnominal. Inferno! E nem vamos passar pela matemática. Por favor! Terminou o filme e eu estava tranquilo. Apesar da idade adulta, percebi que ainda guardava o exemplo do adolescente que recusou o alívio medicamentoso de antidepressivos.


Chorar alivia, buscar identidade em uma "multidão fantasiada de gente", conforme cantei em versos que escrevi, te leva a um grupo semelhante e, nessa trilha, nunca se está sozinho. Aprendemos entre erros, acertos, mãos dadas ou negadas. Tudo é construção. Basta abrir os olhos, assumir a realidade que a fantasia se transforma no escudo que espanta a tristeza, essa chata mal amada que insiste em nos impor desânimo  no dia-a-dia. Eu reagi - com ou sem pílulas - é em nosso interior que está o espírito divertida mente.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

FARINÁCEOS E UMA DIETA



Meus amigos sabem que cozinhar é mais do que um hobby para mim. Leio tudo, sobre o que nos alimenta e gera satisfação a cada nova receita.  Assim, não resisti ao tema proposto pelo médico norte-americano David Perlmutter em seu livro, A Dieta da Mente, que encontrei em um sebo, no Centro Histórico de Porto Alegre. Sem meias palavras, ele afirma que os carboidratos podem destruir o cérebro humano. 


Não importa se é farinha branca, ou integral - rica em fibras, sais minerais e vitaminas. O médico e  pesquisador garante que o efeito é igualmente devastador: epilepsia, ansiedade, enxaquecas, depressão e redução da libido, estão na imensa lista de problemas provocados, segundo ele, pela ingestão de farináceos. Medo! Estamos em pleno inverno, período em que me considero o Master Chef  das carbonaras e outras gordices.


Em outras palavras, o livro promete provar que não são apenas fatores genéticos os responsáveis por danos ao cérebro, mas tudo aquilo que ingerimos. Para isso, apresenta relatos e entrevistas com a transformação de pessoas que estariam na trilha da demência e recuperaram - aleluia! - a saúde mental, por meio de uma dieta rica em “gorduras boas” que, segundo ele, facilitam o emagrecimento sem que se perca a cabeça.


Ele criou um programa de quatro semanas para garantir um “cérebro saudável, vibrante e aguçado - sem medicamentos”. A publicação inclui uma lista de receitas e metas fáceis de cumprir mesmo para nós, os abobados da farinha. “O plano de ação de Perlmutter prova que você pode assumir o controle de seus genes, recuperar o bem-estar e manter a saúde e a vitalidade por toda a vida”, aeeegura o prefácio do livro.


Assim, lá vai mais uma publicação entre muitas contestadas, em sua efetividade – voltada aos gordinhos - grupo ao qual me incluo. Somos refratários a movimentos radicais  pelo emagrecimento. A nossa rotina é iniciar dietas que nos expiem a culpa e raramente concluí-las. Afinal, mesmo acima do peso, conseguimos trabalhar. Tampouco nos falta amor, afinal sempre podemos conquistar alguém, literalmente, pela barriga.


As publicações, dicas e dietas milagrosas se repetem quase diariamente. Nos anos 80, eu lembro do médico João Uchoa e seu best-seller “Só é gordo quem quer”. Fiz e consegui até alguns bons resultados. Isso durou até denunciarem o autor por não validar cientificamente suas dicas. Agora surge essa, que ameaça: além de gordo, posso estar me idiotizando à base de carboidratos.


De qualquer maneira, aprendi que a melhor receita é aquela que não te proíbe nada, mas reduz quantidades a níveis que afastem os perigos da gula. Em boca fechada não entra o alimento que aumenta o peso e reduz o QI. O segredo de toda a dieta, se chama equilíbrio. O problema é que para atingi-lo, pelo menos eu, ainda não consegui uma boa e deliciosa receita.


segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Papai Sabe Tudo

 Acreditem, o tempo das meias, cuecas e gravatas de gosto duvido como presente para homens, já passou. A libertação das mulheres, que as colocou no mercado de trabalho e na vida pública em geral, também permitiu aos homens uma outra e definitiva libertação no caminho do lar.


O macho provedor, totalitário e muitas vezes irascível, se viu pressionado a tornar-se um sujeito preocupado com a harmonização – aproveitando uma palavra da moda – entre o trabalho e o lazer, passando por detalhes nunca antes imaginados para quem se considera um verdadeiro exemplar de seu gênero.


Hoje somos muitos a administrar as compras do supermercado, em listas que nós mesmos construímos, se possível em parceria com todos envolvidos na família. Estes, que antes negociavam diretamente com a patroa, hoje ouvem respeitosamente os patrões, igualmente zelosos e detalhistas. Se gerenciam atividades no escritório, porque não o fazer em casa?


Toda essa conversa é para se chegar a conclusão de que, no Dias dos Pais, o foco é outro também. Pai, pelo menos o modelo que defendo, não fica achando que ninguém o ama se for esquecido ou receber um telefonema de última hora do filho para dar o “parabéns pelo teu dia”. Mas se existe a disposição para se comprar um bom presente, as opções agora são muito maiores. Ora, pai também é gente.


Homens com eu, antes restritos a grandes chefs em restaurantes, agora experimentam a estressante culinária doméstica. Com diferenças, ao contrário das mulheres, que aprendiam de mãe para filha e assim, na maioria das vezes refratárias às novidades, os novos donos de casa passam a curtir essas coisas inventadas para facilitar a vida na cozinha. Aparelhos para cortar, ralar e ajudar na tarefa cotidiana, são presentes muito bem vindos. Os homens de hoje, são os maiores consumidores de bons livros de culinária.


Enfim, tudo aquilo que ofendia uma dona de casa. Porque  a prendia na cozinha, é libertador para o macho da espécie, que pode usar os músculos antes úteis para abater javalis, agora perfeitos para sovar o pão com ervas, acompanhamento perfeito em um assado em carnes adquiridas legalmente> Pai é exemplo!


E por favor, não vamos confundir homens de verdade com esses doentes que vitimizam familiares, em notícias trágicas de jornais. Nós, os caras que amam do fundo de nossos corações os filhos gerados, somos responsáveis por lhes deixar a lição  de que a verdadeira força e determinação de todo homem deve ser voltada à proteção de seu lar.


Se antes, éramos orientados a sermos rudes e distantes, hoje recebemos nossos rebentos de peito aberto nas cozinhas de nossos lares. Um espaço magnífico onde as mul, heres dominaram, muitas vezes por intimidação e que, pelo que observo hoje liberam com muito gosto a seus parceiros de vida amorosa. Muitas mulheres contribuíram também para essa nova paternidade. E nem falo do Woman's Lib dos anos 60.


Eu, por exemplo, fui criado ajudando em casa, minha mãe dizia que homem de verdade, não se torna dependente de mulher nenhuma. "Deve ser parceiro em todas as funções domésticas". Afinal, hoje em dia, ambos trabalham alertava,  esquecendo que, em casa, meu pai seguia a cartilha antiga, não sabia fritar um ovo. Mas secava a louça e batia maionese. Era o acordo deles. Eu respeitava.


Então pessoal, estou sabendo que as boas casas de utilidades do lar que sobreviveram as cheias, recuperaram estoques para os bons filhos presentearem os papais donos-de-casa ou aqueles ainda a moda antiga mas gente fina.  Às compras então, estão esperando o que?

quarta-feira, 31 de julho de 2024

Tempero picante na cozinha do amor


Na semana passada, um amigo de longa data confidenciou que precisava dar um jeito em seu casamento. Não, ele não queria separação. Tudo o que pretendia era
“apimentar” a relação de 21 anos. Mas bastou eu sugerir – falando sério – alternativas como  visita a uma sex shop, para voltar a encaramujar-se. Teme a reação da esposa que, por mais de uma vez, reclamou da frieza do marido. Tentei argumentar que se isso está acontecendo é porque ela espera pela iniciativa dele. Qualquer movimento nestas horas é sempre positivo. Na cozinha do amor, temperos picantes sempre são bem vindos.



Ele prometeu que iria buscar uma solução. Lembra que já desistiu da ideia romântica de ir a Gramado, por exemplo. Andaram pela Serra e não passaram do jantar a luz de velas. “Acabamos comendo muito e, ao chegar ao hotel, apenas dormimos”. No dia seguinte, o clima estava desfeito, ambos de ressaca e indispostos, trocaram a paixão por uma caminhada e compras.


O pior é que ele anda tenso. Quer resolver a questão logo, desencantar. A mulher já desconfia que arrumou uma amante “E não é nada disso”. A intimidade quando vira o fio, torna tudo mais comum, menos sensitivo e o prazer a dois precisa de algum estímulo. Ele disse que tentou com palavras, enviou uma mensagem sacana via whatsapp que funcionou, mas quando chegaram em casa, esqueceram de dar continuidade a proposta. 


Encabulados, comentaram o trabalho, os filhos e as contas que precisavam ser pagas. Acabei criticando uma certa imaturidade na relação que mantinham. Após longos anos de vida a dois, dividindo angústias e contas a pagar, não conseguiam buscar, também juntos, uma alternativa à monotonia? 


A intimidade do cotidiano pode roubar aquelas faíscas do novo, mas permite um melhor entendimento da reação de cada um. Saber o que se curte mais – desde o tempero do feijão com arroz, àquele que dá sabor à sexualidade. O entendimento de seus próprios limites e capacidade de superação é uma das vantagens dos relacionamentos duradouros. De qualquer maneira, entreguei a ele o endereço de uma loja que vende artigos eróticos – desde roupas até brinquedos para gente grande – será uma barreira enorme a vencer. 


Eu mesmo não sei se teria coragem de entrar em um desses estabelecimentos. Mas em caso de emergência, vale tudo que possa unir e reavivar o prazer. Desde que sem forçar a barra. Se a vida de casados é pragmática demais, com tudo certo, tudo bem encaixadinho na administração do lar, é possível que outras partes desse quebra-cabeças não se encaixem mais com tanta facilidade.


Ousar é a melhor saída, demonstra interesse e afeto, ao contrário do adeus, sempre nefasto e doloroso. Espero que meu amigo consiga vencer essa barreira e, na fase mais estável de sua relação, reacenda aquela chama que insiste em virar fumaça. Sempre vale a pena.


terça-feira, 23 de julho de 2024

As contas do adeus


 Todos os dias ela contabilizava os minutos, os segundos, como quem administra uma poupança de milhões em ouro ou dinheiro. Era uma conta onde a valia era o quanto a menor lhe restava. Queria apenas a liberdade de abrir a porta e entrar em um novo mundo, uma vida renovada. Ar! Queria ar! Sem humores instáveis, dúvidas, ânsias e rádio patrulhas, decisões  sem pé, nem cabeça. Paz! Queria paz! Sábados eram o inferno virado em compras, faxina em casa e uma sensação de que à noite desabaria defronte a tevê, sem muito o que escolher. Tudo isso seria aceitável, não fosse ainda pressão de dividir problemas e pouco prazer com alguém que já lhe inspirara tanta satisfação, tanta energia e bom humor.


Era uma conta cheia de incertezas, juros a pagar, excessos engavetados ou congelados, em um frost free de indiferença. Pior, muito pior, era a certeza de ao dividir o pouco, pagava o dobro em reflexões sem nexo. Ou com todo nexo. E foi assim, nesse pinga–pinga  típico de quem não sabe bem o que mira, que jurou: “hoje eu decido: boto tudo em pratos limpos.” Os leitores já perceberam que a coisa gira em torno de uma relação desgastada. Um romance sem chama para acender qualquer tipo de salvação. Acomodado.


Para tornar tudo mais civilizado, saiu do trabalho e foi à estética. Coisa rara. Mudou o corte de cabelo, fez unhas, massagem. Ouviu fofocas, confidenciou que estava decidida a mudar de vida. Por que mulheres confidenciam essas coisas. Chega de amassar o pão e alimentar outras fantasias. Gostou da metáfora! Saiu lindinha, embora aquela barriguinha. Preparou uma janta leve, arrumou a mesa com a melhor louça. Seria um encontro de contas, ou melhor, uma aceno de mão, um tchau civilizado. E serviu-se de espumante. Ele chegou como fazia todos os dias, com vontade de uma ducha urgente e qualquer sanduíche para devorar. “Um filme”, sugeriu, ele que sempre dormia na melhor parte. Era sempre assim. Mal se falavam.


Mas não resistiu e perguntou se iriam celebrar alguma data que, mais uma vez, esquecera. Ela respondeu que precisava comunicar-lhe uma decisão que tomara a partir de sua disposição em poupar tempo, para viver mais coisas boas, do que más. Ele riu, irônico, ao sentir aquele clima de fronteira, onde se tem intimidade mas sempre se está próximo ao estrangeiro. Diante da alternativa entre o lugar comum da acomodação, ou a possibilidade do novo – saboreou, como a muito não fazia, o prato que ela lhe servira. Um raro filé de peixe, regado a um mais raro ainda, molho de laranja. O paladar o enfeitiçou-se.  E a cerveja? Ok, uma taça de espumante também servia naquele momento diferenciado, exótico entre eles.


Ela quis falar. Mas estava relaxada, sentindo-se em outro lugar. Estranho, mas foi ele, sempre quieto e ausente que disse: “gostei desse teu cabelo. E teu rosto? Me parece mais coradinha... é a bebida”, percebeu, ao lembrar que ela jamais consumia álcool. E com a mão grande e pesada, conferiu a maciez daquele rosto, tão familiar que já virara um quadro antigo na parede de casa. Gostou tanto que um arrepio o empurrou a um raro beijo. Ela quis outra vez falar, fugir, mas as palavras eram prisioneiras daquela carne macia, que saciava uma fome muito mais urgente. Seria apenas carência? 



É claro que não. Tinha muito mais, trazia respostas para quem era só ansiedade e não sabia como perguntar. Sábado é só mais um dígito no calendário, pensou no embalo dos braços que embora fortes, não a forçaram a nada. E deixou de lado, pelo menos por mais alguns minutos, a contabilidade de uma despedida que, com certeza ainda não estava pronta. Entendia que às vezes, o que falta é o inesperado – um ritual – pois, onde tudo anda morno, sempre se pode atear algum fogo, antes que se esfrie de vez.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

No inverno, um verão invencível

 Confesso que já gostei mais dos invernos. Reparava na chuva, na geada que queimava o pátio. Dava mais atenção à correria dos filhos, gostosos de apertar, feito bichinhos de lã, bochechas vermelhas e fofas. Lembro do frio que cortava feito diamante o vidro da janela e me obrigava a recorrer ao mais encorpado dos  vinhos. Até uma confraria criei ao lado de amigos. O gelado era um convite a reuniões animadas, onde, enquanto o gelo cobria a capota dos carros lá fora, no calor da lareira, esquentava-se a vida.


Lembro dos amigos que recitavam poesias, inspirados pelo mesmo deus Baco que, de propósito, os fazia esquecer estrofes, ou engolir rimas. Mas tudo era válido, tudo era quente e aconchegante. Porque era inverno e estávamos juntos. A lareira parecia nunca apagar, a adega sempre cheia. Os confrades traziam seus vinhos e pães, queijos, salames coloniais e caldos a ferver seus vapores aromáticos. O inverno se cobria de um frio suportável assim, mesmo que insistisse em chuvas intermináveis, entremeadas de raros dias de sol pleno, abaixo de zero. Lagartear era tudo o que se precisava para recarregar as baterias.


Chimarrão, chás de todos os tipos e cafés servidos direto da cafeteira italiana. Era energia pura, que se agarrava na certeza de que toda estação tem seu encanto, mesmo que absolutamente fria, com ares melancólicos, quase depressivos. Eu não me permitia sofrer contra o óbvio. Para que reclamar do inverno frio, se não tinha como ser diferente. A alternativa, o norte ensolarado, era apenas uma fantasia cara demais para ser verdade. E duraria poucos dias. Longos seriam os meses a pagar passagens aéreas e hospedagem.


Quero de volta esse frio que convida a algum tipo de celebração. Que não me isole em um edredom solidário, enroscado nos pés de minha amada. É bom, mas não é tudo. Brindar a reação ao frio é importante também. Tanto mais quanto provar o advento gostoso da primavera e verão, quando tudo se torna mais fácil e dinâmico.


Quero a certeza de não faltará parceria para aquecer por alguns minutos, a tão necessária alegria. Quebrar o gelo. "E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível," disse Albert Camus. Que assim seja!

domingo, 7 de julho de 2024

Domingo a espera da segunda e o deus Mani

 

Inicialmente eu não publicaria essa postagem. Deixaria perdida, presa às ferragens digitais do blogspot que a maioria ignora e virou meu depósito de ideias digitadas. Mas pode ser que outros se identifiquem com o meu estado de espírito neste domingo. Simplesmente não quero ser o único a achar uma chatice o desperdício de um dia tão ensolarado – ou tão chuvoso, se for o caso – muitas vezes em troca de escassa satisfação. 


Quem sabe alguém venha a me responder com frases selecionadas no Instagram,  ou em outros guias de lugares comuns. Muitos afirmarão em letras maiúsculas (o grito digitado) que o pior está para vir: a segunda-feira ou Monday (Moon Day, Lunes, Lunedi, etc...) de origem pagã influenciada pela crença no deus Mani da mitologia germânica. 


A questão é que , independente das questões etimológicas - com ou sem feira - a segunda é perfeita para uma nova ênfase às rotinas, salvar o que está pendente e só você pode resolver. Mas o que até hoje vejo, em minha vetusta existência é que as mantemos exatamente assim, rotineiras, nas demais feiras da semana.  A culpa desse conformismo, ou preguiça, sei lá, é da forma errada em que, na maioria das vezes, aproveitamos o final de semana. 


Eu, por exemplo, desde sábado acompanho as mudanças típicas da estação. Chuva, sol, frio e calor, revezando-se como meu senso de humor. Alegre e de repente, quase triste. Motivos para queixas são muitos: o que tenho recebido em troca de tanta dedicação existencial? Tanto respeito? Tanta solidariedade? Não revelarei os resultados que os miquinhos de minha contabilidade íntima entregou. Não vale a pena.


O que realmente importa é que envolvidos nos compromissos diários pela sobrevivência, não temos ligado muito para os amigos. Não é verdade? Aqueles  que, volta e meia nos criticam, mas botam a mão no fogo quando necessário. Em meu caso, cadê a confraria? Vinhos, queijos e cervejas especiais? Foi um sucesso até eu desistir, sei lá por que. Os passeios culturais, as taças em bares bacanas com gente que busca coisas semelhantes, são memórias passadas. Em resumo, estou me reservando a um conservadorismo burocrático. A um tédio fantasiado de autoexílio.


No momento estou semelhante aqueles que no domingo cuidam bem da casa, organizam o roupeiro, dormem um pouco mais e será que alguma coisa muda? Mudar é importante. Oferecer um prato novo para o almoço, receber de bom humor uma visita surpresa que, por certo, também enfrenta o mesmo sentimento. Faz tempo que decidi ser menos conformado e rotineiro, no sentido acomodado da palavra.

 Afinal existem rotinas saudáveis e essas, precisamos descobrir com iniciativa e criatividade. E não estou velho para tornar meu angu existencial mais digerível. A corda está cada vez mais curta e as boas rotinas, as que fazem um domingo ser menos depressivo, sempre serão bem vindas. As tardes de domingo, terão de uma preguiça mais saudável, quem sabe, trocando a maquiagem pesada que costumam ter as segundas e demais feiras. Vale tentar, com ou sem mitologia.

Arte de John Charles Dollman - Guerber, H. A. (Hélène Adeline) (1909). Myths of the Norsemen from the Eddas and Sagas. London : Harrap. This illustration facing page 8. Digitized by the Internet Archive and available from https://archive.org/details/mythsofthenorsem00gueruoft Some simple image processing by User:Haukurth, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4722868

terça-feira, 2 de julho de 2024

Lamúrias de uma "Afogada em aflição"

Preservarei a fonte. É o mínimo que posso fazer. Como você, leitora, agiria caso o parceiro tudo de bom - apaixonadíssimo - sofresse de uma brutal dificuldade em desvencilhar-se de ex-namoradas, ou pior, de companhias do tipo “se-você-estiver-afim-também-estou”. A amiga que me confidenciou a sua angústia amorosa, apelidei de “Afogada em Aflição” (bem ao estilo das cartas-resposta dos antigos conselheiros sentimentais nas rádios). O casal não vive uma relação aberta que, igualmente, não dispensaria diálogo e transparência. Mas ela se esforça em acreditar na fidelidade do moço. 


Mesmo assim, não suporta vê-lo gentil e aveludado com, por exemplo, a ex-patroa que inconformada com a perda “de um funcionário tão competente, tão eficiente, blá, blá blá” para outra empresa, liga mensalmente com a desculpa de pedir conselhos, dicas profissionais. Saem para almoçar e o tema, jura o namorado de Afogada em Aflição, se resume aos intrincados processos que “somente ele poderia resolver”. Ao final de cada encontro, a bandida ainda diz que o deseja de volta ao escritório. Ah! o desejo!


Tem também aquela amiga, empresária do setor do vestuário que mora na Serra. Inteligente, foi parceira dele nas horas difíceis. Tão solidária que certa vez, chegou ao extremo de “presentear” o rapaz com preservativos em cores e sabores exóticos. Ele recusou, reclamou que não misturava as coisas. Não poderia levar a um motel uma grande amiga, argumentou. Outra, bem mais madura, ofereceu um apartamento que “afinal de contas estava desocupado”. Assim poderiam ter mais “intimidade”. Dessa vez ele se ofendeu, mas acabou aceitando o pedido de desculpas. 


Ao conhecer “Afogada em Aflição” os contatos do rapaz com as amigas diminuíram. A relação prosperou. Mas os almoços, as longas ligações com a ex-patroa continuam firmes. Aquelas com perfil mais ousado, quando se aquietam o deixam saudoso, como se as houvesse maltratado. Manda cartões em datas especiais, troca mensagens. Diz que são importantes, cada uma à sua maneira, e sem nenhuma maldade. Um sedutor não assumido, enfim. Vocês leitoras, como agiriam? Aceitariam?


Afogada em Aflição tenta racionalizar. Lembra a infância difícil do companheiro. O relacionamento com a mãe não era dos melhores. Levava surras sem justificativa. Era tratado com desprezo. Pouco antes da morte dela, haviam se reconciliado. Mas as marcas permaneceram. Talvez por isso não consiga livrar-se de relações que, de alguma forma, o levam à fantasia de intimidade quase uterina, sei lá. Só Freud para explicar. As mulheres percebem e provocam – se fazem ora maternais, ora sensuais.


A gota d’água, aquela que encheu o pote de inconformidade de Afogada em Aflição aconteceu na semana passada. Ele sonhou que namorava a atual chefe. Andavam de mãos dadas! Detalhe: ele jamais lhe dá a mão em público. Diz que é brega. A nova patroa – por sua vez - é uma mulher forte, dominadora. Ao contrário da anterior, não valoriza almoços de confraternização com funcionários. Ele até se esforça para ser merecedor de reconhecimento e algum tipo de carinho. E nada! Quer ser talvez o funcionário especial, o mais querido. 


“Afogada em Aflição” sofre em meio a tudo isso. Será que ambos não poderiam ter amigos comuns, sem misturas explosivas de segundas intenções? No caso dela, os ex-namorados, os candidatos a amantes ficaram no passado. Por que então, escolheu um cara tão servil às mulheres? E aí fica a se questionar de como reagir diante dessas situações. Tentei minimizar a situação, lembrando a citação de uma colega nos dias de redação. Toda a vez em que eu reclamava de algo ou alguém em especial, ela me alertava: “A vida não é um moranguinho”. E mesmo que o fosse, morangos mofam rápido demais. 


Assim, aconselhei minha confidente a manter a estima em alta e investir na paixão sim, porque amar é bom. Mas tendo sempre à mão, um bilhete de ida sem volta, caso as amigas deste parceiro tão gentil, incomodem mais do que o normal. Amor coletivo - quando não consentido - é como andar de ônibus nas horas de maior movimento. Muito suor, muito aperto e conforto que é bom, nenhum. Qualquer coisa, desça na primeira parada.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Existe o par perfeito, aquele dos sonhos?


Certa vez sonhei que eu e meus filhos brincávamos em uma cesta enorme, cheia de números de plástico. Ganhava quem mais identificasse os numerais. No trabalho, relatei a meus colegas e um deles, apaixonado por loterias me perguntou se eu lembrava alguns destes números. É claro que esquecera tudo. Mas inventei um milhar qualquer para alegrar esse colega. Lá foi ele fazer "uma fé" e insistiu para eu jogasse, o que não fiz. Havia escolhido números soltos, sem relação com o sonho. No dia seguinte, fiquei sabendo que os meus números lhe haviam garantido uma boa grana. Eu não entendi a mensagem do meu próprio sonho?


Então, aprendi que não bastam os sonhos, é saber interpretá-los. Óbvio não é mesmo? Existe dezenas de livros sobre o tema. E é claro, não comprei nenhum e segui assim, desperdiçando sonhos. Uma vizinha me jura que ela é a diretora de seus próprios sonhos. Se precisa de alguma luz na área de finanças doméstica, lê revistas, livros, fala com amigos sobre o tema. Quando sonha com o que vem assimilando acordada, parte para a execução dos projetos. 


Ela garante que funciona. Os sonhos lhe dão o rumo que, mesmo a mesma fina orientação técnica, o conhecimento adquiro com as tantas leituras, não asseguram. Diz que na maioria das vezes, sonha com algum novo projeto – ela é arquiteta – ou cliente, propondo algo rentável e nada delirante. Tem sonhos práticos, ora vejam. Ela diz ser uma espécie de "lei da atração de travesseiro".


Mas adverte que a coisa só não funcionava para conseguir namorado. Muitas vezes idealizava o cara, sonhava com ele em cenas românticas, às vezes, até mesmo bem quentes, mas tudo o que lhe aparecia nunca era bem aquilo que o mundo dos sonhos lhe apresentara. Lia publicações esportivas, tipo futebol e automobilismo. Fora assistir jogos em bares, onde a testosterona impregna o ambiente, mas inevitavelmente, errava o foco.


Ou o cara gostava tanto de futebol que esquecia que namorar é melhor longe dos estádios, ou era tão insosso que ela preferiria dormir. Sem sonhos! Assim, concluiu que o homem dos sonhos, não existe. Por mais que procurasse aquele cara que, no mundo onírico lhe apresentava, poeta ou amante intenso, Na vida real, só apareciam sujeitos inseguros, às vezes carentes e sempre com uma história triste de uma ex.


A partir daí, para encerrar essa história, concluo que é bom ficar atento aos sonhos. Eles articulam os sentidos e estimulam a criatividade. É como o músico que sonha com uma canção e precisa gravá-la imediatamente para que não ser esquecida. Yesterday, uma das canções mais famosas dos Beatles, foi sonhada por Paul MacCartney. Imagina se ele deixasse para depois?


A diferença é que uma canção você estrutura como bem entender, sonhada ou não. Um número de loteria é pura intuição. Mas dividir o sonho com outro, exige sintonia fina. Essa é construída de pés no chão, onde os sonhos que alimentaram fantasias, precisam alimentar-se de realidade. 

domingo, 16 de junho de 2024

O Baile da Vaca Louca e o homem que regava a chuva


Lembro que era sábado, de um ano já distante. Eu de plantão em casa, atento ao rádio, às novas da internet e da tevê. Quase pontualmente, como toda santa manhã, saí para conferir os jornais -  sim, eu os comprava junto com o pão - quando cruzo com um desses carros de propaganda típicos do interior. O autofalante anunciava uma festa especial na Sociedade Harmonia, de Arroio dos Ratos. “Não perca o baile da Vaca Louca”. E alertavam que não pretendiam soltar um espécime desvairado de quatro patas na pista de dança. Destes,  tem à vontade em duas patas. A promessa era mesmo sortear uma vaca!


E fiquei imaginando onde eu colocaria um bicho desses? O sujeito chega "solito" ao baile e volta bem acompanhado para casa. Uma vaca! Uma senhora fêmea, tão grande que sequer cabe na carona da moto, ou no banco do carro. Voltariam juntos, a pé, para casa, na madrugada. E eu achando que aquele festival de música do litoral norte era o maior programa de índio do final de semana.


Quantas vezes ganhamos brindes que mais atrapalham do que agradam? Lembro que certa vez, em um destes galetos de Igreja, eu ganhei um relho de couro. Coisa mais linda. E fiquei pensando, servirá para que? Autopunição? Na época nem namorada eu tinha. Acabou como presente para um amigo que coleciona artigos de montaria. Ele não tem mais cavalos, vive feliz com sua namorada em um lindo sítio. 


Ao voltar para casa, ainda pude assistir a uma cena para lá de insólita: chuva forte e um homem, bem protegido, capa de chuva e capuz, regava as flores de seu jardim.  A despeito da água que as nuvens mandavam em abundância, ele acrescentava o jato forte da mangueira. E foi naquele instante, que descobri: estava ali o cara certo para ser o grande premiado no baile da Vaca Louca. Alguém que gosta de regar a própria chuva, tem perfil para isso e muito mais.


Sonhar acordado e a esperança

Foto Jaqueline Mânica/ AT

Vivemos momentos assustadores, invadidos pela tristeza que, sorrateiramente, nos sugere desânimo diante de uma trilha destroçada. Mas é preciso seguir adiante, com fé na capacidade de reconstruir apesar das imagens de uma inédita devastação. A retomada dos acessos entre as regiões baixa e alta do Vale do Taquari, em um prazo recorde, me levou de volta às aulas de filosofia (sim, cursei o Clássico), nos anos 70. E desta lembrança me veio a citação aristotélica que guardo até hoje: “A esperança é o sonho do homem acordado”.


E foi essa capacidade de engolir a dor que, mesmo remoendo o íntimo, não impediu a busca por soluções. Afinal tudo vai passar. É assim a vida. “Quando estiver no inferno continue andando”, disse Winston Churchill - desculpem mais essa citação - mas ela sintetiza a necessidade de coragem para fazer o que tem que ser feito que, não por acaso, é o lema dos que assumiram o novo projeto da histórica Ponte de Ferro a ligar Arroio do Meio a Lajeado.


Estiveram juntos iniciativa privada e poder público, em exemplar sintonia. E a esperança mais uma vez fez sucumbir o desânimo. Se os tempos continuam difíceis, nada desmotiva aqueles que souberam mobilizar tanta gente, tantas cabeças, motivações ou crenças. Havia uma emergência a prevalecer qualquer tipo de ambição ou resmungue.


E cá estávamos nós, telespectadores, ouvintes de noticiosos em rádios e atentos aos comentários das redes sociais, acompanhando a realização que orgulha toda uma comunidade e renova sim,  a esperança de que nem tudo é o esmorecimento da capacidade humana para o bem. Nossas crianças precisam saber que acima de tudo existe  essa capacidade de união para enfrentar os que se abraçam  ao egocentrismo. 


Eu aqui, você ali? Ao contrário, seguimos pelos caminhos abertos na ponte que, partida ao meio, diante da força das águas, simultaneamente, juntou extremos na convicção de que tudo se reconstrói. E mais uma lição ficou gravada em cada viga, em cada braço unido a essa e a tantas causas urgentes pela reconstrução de nosso Estado. É o sonho, de olhos bem abertos, a virar bem aventurança.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Sobre o Dia dos Namorados

 

Nunca trocamos versos, nem mesmo olhares furtivos. Tudo muito simples, tudo na base da parceria amiga. Não passeamos de mãos dadas feito bobos, nem rimos sem que ninguém entendesse a graça. Porque a graça é secreta. Transparente feito bolha de sabão, mas somente os amantes a interpretam. 

Como não somos amantes, não há fantasia. Nunca saímos a comer pipoca no cinema. Nem roubei beijos - cobrindo a visão de quem senta bem atrás - bem na hora em que o crime se elucidaria na tela colorida. Não fomos esse tipo de gente chata, de paixão exibicionista.

E os restaurantes? Comida italiana, bacalhau à portuguesa, pratos refinados franceses ou a exótica e sensual comida tailandesa? Passaram batidos, por nós. Muito menos o cachorro-quente do Bigode, na galeria do Rosário, ou qualquer cheesburger mata-fome de quando bate a larica por coisas gordurosas e fritas, acompanhadas, é lógico, de um refri litro normal (que não é caloria zero).


Eu lembro que chegamos a comentar essa coisa de Dia dos Namorados junho aqui, fevereiro no resto do mundo. Invenção de publicitários. Oportunismo cínico. Afinal, qual santo seria o mais casamenteiro? São Valentim ou Santo Antônio? Não entramos nessa disputa. Os santos não nos oferecem dicas ou inspiração, tipo “vai lá é essa aí!” Seria falta de fé e oração?


Eu não te comprei presentes, nem uma flor sequer! Nem me destes aquela gravata bacana que, juntos, vimos em uma vitrine de shopping. Não éramos namorados. Bons amigos apenas sugerem coisas que te deixariam bem vestido. Despir então? Jamais! Sai pra lá, que tu é minha amiga, eu teu conselheiro. Assim, nunca provamos abraços daquele jeito que tonteia e deixa os sentidos em níveis de intolerável excitação e que nos tiram – em segundos – a razão.


Sempre dois animais racionais! Tu me relatavas se o namorado da vez era ousado, ou careta demais. Ou se esquecia datas importantes e ainda deixava as cuecas emboladas no banheiro. Até teu pai reparara, certa vez. Que mico! Eu falava das mania de mulheres solteiras ou descasadas com quem saía. Detalhes tão pequenos que, ao contrário da canção do Roberto Carlos, logo eram esquecidos.


Nunca fomos a Punta Cana, pagando tudo em 12 vezes no cartão. Não fizemos planos de subir a Torre Eiffel e lá, jurarmos amor eterno. Éramos parceiros de seminários, congressos. Dezenas de reuniões intermináveis, que formavam comissões, definiam grupos e perdiam o propósito meses depois.


Parceria mesmo era na hora da dor de corno. Tantas traições sofridas e confidenciadas? Muito menos do que as bolachas de chope que o garçom contabilizava a cada crise, é claro. Mas aliviávamos o sofrimento, montávamos planos fantásticos de vingança que, invariavelmente, evaporavam junto a ressaca no dia seguinte.


Quem ama não é rancoroso. Sofre calado. E amávamos demais! Tanto que selecionávamos muito. Selecionávamos ao extremo. Nem eram questões físicas, mas o caráter, a capacidade de doação. E essa coisa de seleção, no amor, é prima-irmã da solidão quando se exagera nas medidas definidas de nossos manequins amorosos.


A maioria de nossas paixões evaporava em pouco tempo em meio a névoa das mesmas desculpas vazias de quem nos abandonava. Aquela coisa tipo prêmio de consolação. Eu sou uma pessoa incrível, mas ainda não estavam prontos, blá, blá, blá!. Como alguém pode não estar pronto para alguém ou algo que jura ser muito bom. Então é ruim ser bom? Ah! Contradições. Deveria existir um Manual Criativo do Pé na Bunda!


É claro, voltávamos às confissões regadas a chope. Sem choro, porque o tempo nos levara ao habito do adeus. Era tanto pedido, de “vamos dar um tempo”, que os romances mais pareciam uma queda no vácuo. O certo é que estamos aqui outra vez. Eu e tu, minha amiga. Sabemos tanto um do outro, que até parece lógica a proposta que me apresentas hoje, de ficarmos juntos como namorados, só para avaliar se é possível uma tentativa de algo além desta bela amizade.


Até porque já estamos engordando – somo quase alcoolistas - de tanto chope com fritas. Eu topo a experiência. Se der certo, se somos tão bacanas quanto dizem nossos ex amantes, vamos adiante. Ao surgir qualquer problema, retomamos a antiga condição de confidentes e voltamos ao boteco - não para discutir a relação - mas para reafirmarmos a condição de amigos acima de tudo.   Conhecemos cada detalhe, cada arapuca que montamos contra nós mesmos.


Até parece tese de  autoajuda: uma boa relação precisa de amor e amizade. Era o que diziam maridos e esposas naqueles casamentos à moda antiga e a gente achava conformismo. Seremos salvos pelo óbvio?  De qualquer maneira gostei de uma frase dela: “Vamos servir de cobaia às nossas próprias carências. Se saciarmos a fome de estima, já está bom”. Nada científico, mas muito sexy. O que já é um bom começo.