quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Aos 70, com amor à vida


“Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus !
Hoje já não faço anos. Duro.
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos ! ...”

Este trecho do poema “Aniversário” de Álvaro de Campos - fecundo e emotivo heterônimo do poeta português Fernando Pessoa – espelha o ânimo de muitos que ao completar mais um ano de vida. A sensação da alegria ingênua perdida nos aniversários festejados no passado, “Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...”. 

A mesa posta com mais lugares, a melhor louça, “As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...” E agora faltam presentes, sobram fungos do passado e o véu indecifrável do futuro. Qual pitonisa atreveria-se a adivinhar projetos prescritos? 

E aí alguém como eu, já com os pés nos 70 anos, ao tentar fugir da melancolia pensa em uma grande festa com gente querida de várias gerações, mas alguns, prematuramente, já teriam partido. A lista poderia inviabilizar o evento. Hoje, maduro, aprendi a ser responsável por minha própria efeméride, reunir sobreviventes, familiares, sem tristeza, respeitando a ordem natural das coisas. 

Quem sabe, brindar ter sobrevivido às injúrias, talvez a falta de afeto em momentos e a conquista de outros. Um pessimista tende a esquecer as pequenas mas significativas vitórias cotidianas. Ser  íntegro, sem bancar anjo ou demônio. Do tipo que ao errar sabe pedir perdão. Depois, tentar não repetir a mancada.

Projetos sonhados, quando caem na ponta do lápis, viram rabiscos sem nexo. A casa nova, piscina, uma adega para safras especiais. E as viagens? Gramado, Nova Iorque, Paris, Buenos Aires. Quem sabe o paraíso Mediterrâneo? Azeitonas pretas, pimentões doces e frutos do mar... Portugal na primavera com suas flores de rosmaninho (alecrim) perfumando as estradas no caminho do Tejo. 

Epa! Mas nada disso é impossível, por mais sofrida que seja a espera, por mais obstáculos impostos. Erramos, tropeçamos e retomamos a trilha. Uma vez, durante o período de pandemia, argumentei com um amigo sobre a necessidade de fé e organização de como atingir aqueles sonhos que pareciam tão malucos. 

Ele respondeu desaforado: “Chega de sonhos! Sonhos comemos fritos. Só permanecem as gorduras saturadas endurecendo artérias!”  Boca suja, magoada com os maus tratos que o cotidiano impôs. Fritou os sonhos e, em um dia que deveria ser especial, permanece em um a beira do abismo da inconformidade. 

Mas as coisas não se resolvem com rancor. O importante é viver o possível. Aproveitar a experiência adquirida, valorizar as trilhas sulcadas na face, córregos salgados pelo suor do dia-a-dia. Marcas assim, escrevem e corrigem uma trajetória existencial. 

O bolo pode representar a vida que mesmo fatiada, tantas vezes nos põe a engordar com supérfluos, tipo rancores, frustrações, amores desfeitos. Desculpem a metáfora pobre, mas encaro esses meus 70 como aquela vela reutilizada, ano a ano, que mesmo pela metade e deformada, ainda mantém a chama acesa. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Um desejo e nada mais

 

É sempre assim, O começo é divertido, cheio de provocações. Depois percebem que a atração vai além dos gracejos bem humorados, desejam o toque macio. Epidérmico. De repente, tudo em volta que andava meio opaco, ganha luz, vida e aromas especiais. O sentimento bruto, que nasce de uma súbita disposição para a aventura, ocupa todos os espaços. Esquecem que são casados, noivos ou namorados há uma longa data. É um desejo e nada mais como cantava José Augusto lá nos anos 90. 

A rotina passa a ganhar um sentido e a vontade, irrefreável, avança. Tanta fantasia, tanta lua cheia, tanta vontade de celebrar. Acordos se firmam secretamente, são uivos contidos entre ligações secretas, mensagens cifradas em redes sociais e encontros rápidos, tensos. Excitantes. Assinam documentos em branco, como se o prazer não cobrasse seu preço em entrelinhas nunca percebidas diante da nudez aos olhos..

Ambos têm sede e fome, vivem no deserto do tédio comum aos adultos bem sucedidos. Não pense que os ditos infelizes, casais maltratados pela vida sofrida, miserável em todos os sentidos são as maiores vítimas das tentações. Esses quando podem, libertam-se. Gente organizada, que mantém as contas em dia, toma remédio na hora certa, cuida da balança, frequenta academia é a que mais cansa desta coisa certinha. A satisfação vai além do previsível. Não é um contrato, um negócio. Na verdade, tem requisitos de fundamento inexato.

Quem nunca ficou compadecido da esposa dedicada que chega a casa extenuada e ainda prepara um assado especial? Quem sabe não estará ela cansada desta vida certinha? Do homem que nunca esquece uma data especial, que planeja viagens românticas a dois, festas legais entre amigos, mas ao mesmo tempo, é  absolutamente previsível. 

E ficam ambos iguais a copeiros que tem a obrigação de polir os cristais que nunca serão seus, mas que se quebrados, pagarão caro por cacos. Quem vai  querer em casa, os restos do que antes era um lindo enfeite? Assim, ao surgir a possibilidade de uma fuga espontânea, que ventile a imaginação e os sentidos, abusam de tudo, lambuzam-se e nem percebem que o acordo firmado anteriormente - viver exclusivamente uma aventura - foi rasgado na refrega que os empurrava de encontro a cristaleira.

O prazer - para um dos amantes - sempre acaba antes e aquela sintonia inicial,  vira uma espécie de coceira alérgica, pois a outra parte já fantasiava a possibilidade de uma  comunhão de corpo e alma. Assim, embora a esposa  chegue na hora certa e nunca se permita queimar o assado, aumenta o risco de uma lágrima furtiva salgar a janta. O outro – ele ou ela – já estará na segurança do lar, planejando as férias de inverno, enquanto serve, ou é servido, de mais uma fatia daquele mesmo assado.

Quem sabe, voltem a buscar uma nova aventura, “desta vez sem envolvimento afetivo, mesmo!” O inverno partiu e a a primavera com seus perfumes e cores, apagará as lembranças tristes enquanto o verão, sempre permissivo, incentivará a paixão. Afinal, tudo não se resumiria mesmo a um desejo e nada mais, como previa a canção? 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Eu e o Dia do Gordo

 Em setembro se comemora o Dia do Gordo. Uma data, segundo me dizem, criada para combater a gordofobia. E sei bem o que é isso. Um obeso esta sempre em alerta, mesmo quando aparenta aquele ar bonachão e simpático. Na maioria das vezes é só um mecanismo de defesa. Lembro de uma história que me aconteceu há alguns anos: uma senhora ao passar bem a meu lado ordenou, severa:

“Gordo, vem cá!” Surpreso, mirei nos olhos dela que, ao dar-se conta do mal-entendido, apontou o arbusto onde um cãozinho peludo fazia xixi. Gordo era o nome próprio de seu animal de estimação. “Nem reparei que o senhor era gordinho”, desculpou-se, aumentando o constrangimento.

Aceitei as desculpas, e fiquei ensaiando os desaforos que meu elevado teor de tolerância jamais permitiria. Mas deu vontade. Ela já cruzava a rua com o gordo de quatro patas – que até magro era – quando jurei iniciar uma dieta, pra já! Ser magro tem todas as vantagens. Primeiro, não é proibido o mau-humor. 

O maior exemplo disso é o Natal, onde o gordinho da família é sempre Papai Noel. Dê-lhe suor por baixo daquela ridícula roupa quente e barbas de algodão. E os apelidos? Partem de simpáticos paquidermes a outros bichos parrudos. Quantos baixinhos gordinhos não sofrem com as comparações aos hoje caríssimos botijões de gás?

E os gracejos que viralizam nas redes sociais e só não acabam em bloqueios ou briga a socos porque somos obrigados a agir como os mais bem humorados da espécie humana. Gordo não está autorizado a zangar-se. Mas tem coisa pior! Qual gordo não escuta seguidamente os "conselhos” de amigos transformados em nutrólogos ou endocrinologistas amadores. 

“Até que você é bonito, porque não faz um regime?” Arre! É triste! Um sujeito magro não se abalaria, como eu, com uma estranha gritando pelo “gordo”. Não é nada com ele, ora!  E mesmo quando o obeso se rende as críticas, a lentidão dos `resultados em exercícios e dietas assusta e desanima. Isso sem contar os riscos das cirurgias bariátricas, de redução do estômago.

Nas dietas, a contabilidade de cada grama eliminada não se equilibra com a distância percorrida nas corridas, ou o sacrifício da comida insossa, das saladas verdes, vermelhas, roxas e outras cores a contrastar com a palidez do gordo. Lembro meus dias de academia quando a recompensa era o bar com cardápio fitness. Saladas de frutas, bebidas e iogurtes light. Sanduíches naturais!

Mas a turma sarada comia – bem ao meu lado - cheeseburgers com bacon e ovo, hotdogs de suspeitos molhos vermelhos e, tortura das torturas, crocantes batatas  fritas. Toneladas delas! Se eles podiam, por quê não eu?

Sim, a ansiedade é a maior inimiga dos fofos. Aliás, só de lembrar do incidente que motivou este desabafo, me bateu fissura por algo doce. Estamos em dias de extremismos, radicalismos políticos e assim,não estou em clima de dieta. Tampouco de aceitar bullying sem dar o troco.  E se outra tia me confundir com o cãozinho de estimação. 

Eu mordo!

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

A síndrome do nó górdio

 Um querido amigo ligou empolgadíssimo advertindo: “se não der para o meu candidato nas urnas, a casa vai cair”. Esse tombo metafórico é a ameaça de quebrar regras democráticas, de zerar  a tolerância em nome de algo que rói a liberdade em nome de um projeto egocêntrico disfarçado de comunitário. 

Dispensei as advertências, fiquei mudo e não me arrependo. A história também se escreve em vácuos de silêncio contra aquilo que extrapola as boas regras de convívio social. De qualquer maneira não dormi lá muito bem. Afinal quem está certo em tudo isso? 

A minha parte será feita nas urnas e as regras que aprendi no trabalho rotineiro como jornalista, ou assessor de comunicação para mais de uma dezena de lideranças políticas, serão mantidas aqui em casa. No berro, na mentira ou na adulteração do que entendo como socialmente justo, ninguém vai mudar meu pensamento. Prefiro ficar meditando, entre a cruz e a espada, até a hora da derradeira decisão. 

Por isso, não estou para uma revolução e, como dizia John Lennon, se me pedem uma contribuição para a luta armada, responderei que somente dando uma chance a paz, aliada a uma educação universal, sem barreiras de preconceito, tornarão esse super aquecido planeta em um lugar bom de se passar nossa breve existência.

O pensador liberal norte-americano, Lawrence Reed, afirma que, antes de tudo, para se ter uma sociedade livre, independente, com uma economia pujante é preciso partir do básico: bom caráter. “Se você está decidido a pautar todas as suas ações por aí e tem condições de influenciar os outros com seu exemplo, instintivamente estará valorizando a liberdade”.

Eu sei que muitos poderão discordar dele, por respeitáveis questões ideológicas, afinal é um jornalista e economista liberal mas ele mesmo se recusa a assumir rótulos. Eu concordo com as idéias de Reed, porque se fundamentam em educação, abrindo as cabeças para o empreendedorismo em todos seus níveis e ajudando a filtrar esses que se auto assumem salvadores da pátria. 

Encerro aqui, antes que me atirem pedras, com uma citação de Reed: “quando o assunto é política, estamos presos a rótulos, Por todo lado, alguém está rotulando outra pessoa de alguma coisa que supostamente resume sua filosofia ou inclinação ideológica. Quando os rótulos esclarecem são úteis. Porém, quando confundem ou distorcem, são muito mais do que inúteis (...) pois se tornam uma desculpa para as pessoas deixarem de pensar”.

Então, vamos desatar esse nó górdio, expressão usada quando problemas aparentemente insolúveis são resolvidos por se "pensar fora da caixa”, ou seja, livre do laço óbvio do pensamento único, refratário, mas sim com a força do bom caráter encaminhado a uma cultura pacificadora e humanista.