quarta-feira, 31 de julho de 2024

Tempero picante na cozinha do amor


Na semana passada, um amigo de longa data confidenciou que precisava dar um jeito em seu casamento. Não, ele não queria separação. Tudo o que pretendia era
“apimentar” a relação de 21 anos. Mas bastou eu sugerir – falando sério – alternativas como  visita a uma sex shop, para voltar a encaramujar-se. Teme a reação da esposa que, por mais de uma vez, reclamou da frieza do marido. Tentei argumentar que se isso está acontecendo é porque ela espera pela iniciativa dele. Qualquer movimento nestas horas é sempre positivo. Na cozinha do amor, temperos picantes sempre são bem vindos.



Ele prometeu que iria buscar uma solução. Lembra que já desistiu da ideia romântica de ir a Gramado, por exemplo. Andaram pela Serra e não passaram do jantar a luz de velas. “Acabamos comendo muito e, ao chegar ao hotel, apenas dormimos”. No dia seguinte, o clima estava desfeito, ambos de ressaca e indispostos, trocaram a paixão por uma caminhada e compras.


O pior é que ele anda tenso. Quer resolver a questão logo, desencantar. A mulher já desconfia que arrumou uma amante “E não é nada disso”. A intimidade quando vira o fio, torna tudo mais comum, menos sensitivo e o prazer a dois precisa de algum estímulo. Ele disse que tentou com palavras, enviou uma mensagem sacana via whatsapp que funcionou, mas quando chegaram em casa, esqueceram de dar continuidade a proposta. 


Encabulados, comentaram o trabalho, os filhos e as contas que precisavam ser pagas. Acabei criticando uma certa imaturidade na relação que mantinham. Após longos anos de vida a dois, dividindo angústias e contas a pagar, não conseguiam buscar, também juntos, uma alternativa à monotonia? 


A intimidade do cotidiano pode roubar aquelas faíscas do novo, mas permite um melhor entendimento da reação de cada um. Saber o que se curte mais – desde o tempero do feijão com arroz, àquele que dá sabor à sexualidade. O entendimento de seus próprios limites e capacidade de superação é uma das vantagens dos relacionamentos duradouros. De qualquer maneira, entreguei a ele o endereço de uma loja que vende artigos eróticos – desde roupas até brinquedos para gente grande – será uma barreira enorme a vencer. 


Eu mesmo não sei se teria coragem de entrar em um desses estabelecimentos. Mas em caso de emergência, vale tudo que possa unir e reavivar o prazer. Desde que sem forçar a barra. Se a vida de casados é pragmática demais, com tudo certo, tudo bem encaixadinho na administração do lar, é possível que outras partes desse quebra-cabeças não se encaixem mais com tanta facilidade.


Ousar é a melhor saída, demonstra interesse e afeto, ao contrário do adeus, sempre nefasto e doloroso. Espero que meu amigo consiga vencer essa barreira e, na fase mais estável de sua relação, reacenda aquela chama que insiste em virar fumaça. Sempre vale a pena.


terça-feira, 23 de julho de 2024

As contas do adeus


 Todos os dias ela contabilizava os minutos, os segundos, como quem administra uma poupança de milhões em ouro ou dinheiro. Era uma conta onde a valia era o quanto a menor lhe restava. Queria apenas a liberdade de abrir a porta e entrar em um novo mundo, uma vida renovada. Ar! Queria ar! Sem humores instáveis, dúvidas, ânsias e rádio patrulhas, decisões  sem pé, nem cabeça. Paz! Queria paz! Sábados eram o inferno virado em compras, faxina em casa e uma sensação de que à noite desabaria defronte a tevê, sem muito o que escolher. Tudo isso seria aceitável, não fosse ainda pressão de dividir problemas e pouco prazer com alguém que já lhe inspirara tanta satisfação, tanta energia e bom humor.


Era uma conta cheia de incertezas, juros a pagar, excessos engavetados ou congelados, em um frost free de indiferença. Pior, muito pior, era a certeza de ao dividir o pouco, pagava o dobro em reflexões sem nexo. Ou com todo nexo. E foi assim, nesse pinga–pinga  típico de quem não sabe bem o que mira, que jurou: “hoje eu decido: boto tudo em pratos limpos.” Os leitores já perceberam que a coisa gira em torno de uma relação desgastada. Um romance sem chama para acender qualquer tipo de salvação. Acomodado.


Para tornar tudo mais civilizado, saiu do trabalho e foi à estética. Coisa rara. Mudou o corte de cabelo, fez unhas, massagem. Ouviu fofocas, confidenciou que estava decidida a mudar de vida. Por que mulheres confidenciam essas coisas. Chega de amassar o pão e alimentar outras fantasias. Gostou da metáfora! Saiu lindinha, embora aquela barriguinha. Preparou uma janta leve, arrumou a mesa com a melhor louça. Seria um encontro de contas, ou melhor, uma aceno de mão, um tchau civilizado. E serviu-se de espumante. Ele chegou como fazia todos os dias, com vontade de uma ducha urgente e qualquer sanduíche para devorar. “Um filme”, sugeriu, ele que sempre dormia na melhor parte. Era sempre assim. Mal se falavam.


Mas não resistiu e perguntou se iriam celebrar alguma data que, mais uma vez, esquecera. Ela respondeu que precisava comunicar-lhe uma decisão que tomara a partir de sua disposição em poupar tempo, para viver mais coisas boas, do que más. Ele riu, irônico, ao sentir aquele clima de fronteira, onde se tem intimidade mas sempre se está próximo ao estrangeiro. Diante da alternativa entre o lugar comum da acomodação, ou a possibilidade do novo – saboreou, como a muito não fazia, o prato que ela lhe servira. Um raro filé de peixe, regado a um mais raro ainda, molho de laranja. O paladar o enfeitiçou-se.  E a cerveja? Ok, uma taça de espumante também servia naquele momento diferenciado, exótico entre eles.


Ela quis falar. Mas estava relaxada, sentindo-se em outro lugar. Estranho, mas foi ele, sempre quieto e ausente que disse: “gostei desse teu cabelo. E teu rosto? Me parece mais coradinha... é a bebida”, percebeu, ao lembrar que ela jamais consumia álcool. E com a mão grande e pesada, conferiu a maciez daquele rosto, tão familiar que já virara um quadro antigo na parede de casa. Gostou tanto que um arrepio o empurrou a um raro beijo. Ela quis outra vez falar, fugir, mas as palavras eram prisioneiras daquela carne macia, que saciava uma fome muito mais urgente. Seria apenas carência? 



É claro que não. Tinha muito mais, trazia respostas para quem era só ansiedade e não sabia como perguntar. Sábado é só mais um dígito no calendário, pensou no embalo dos braços que embora fortes, não a forçaram a nada. E deixou de lado, pelo menos por mais alguns minutos, a contabilidade de uma despedida que, com certeza ainda não estava pronta. Entendia que às vezes, o que falta é o inesperado – um ritual – pois, onde tudo anda morno, sempre se pode atear algum fogo, antes que se esfrie de vez.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

No inverno, um verão invencível

 Confesso que já gostei mais dos invernos. Reparava na chuva, na geada que queimava o pátio. Dava mais atenção à correria dos filhos, gostosos de apertar, feito bichinhos de lã, bochechas vermelhas e fofas. Lembro do frio que cortava feito diamante o vidro da janela e me obrigava a recorrer ao mais encorpado dos  vinhos. Até uma confraria criei ao lado de amigos. O gelado era um convite a reuniões animadas, onde, enquanto o gelo cobria a capota dos carros lá fora, no calor da lareira, esquentava-se a vida.


Lembro dos amigos que recitavam poesias, inspirados pelo mesmo deus Baco que, de propósito, os fazia esquecer estrofes, ou engolir rimas. Mas tudo era válido, tudo era quente e aconchegante. Porque era inverno e estávamos juntos. A lareira parecia nunca apagar, a adega sempre cheia. Os confrades traziam seus vinhos e pães, queijos, salames coloniais e caldos a ferver seus vapores aromáticos. O inverno se cobria de um frio suportável assim, mesmo que insistisse em chuvas intermináveis, entremeadas de raros dias de sol pleno, abaixo de zero. Lagartear era tudo o que se precisava para recarregar as baterias.


Chimarrão, chás de todos os tipos e cafés servidos direto da cafeteira italiana. Era energia pura, que se agarrava na certeza de que toda estação tem seu encanto, mesmo que absolutamente fria, com ares melancólicos, quase depressivos. Eu não me permitia sofrer contra o óbvio. Para que reclamar do inverno frio, se não tinha como ser diferente. A alternativa, o norte ensolarado, era apenas uma fantasia cara demais para ser verdade. E duraria poucos dias. Longos seriam os meses a pagar passagens aéreas e hospedagem.


Quero de volta esse frio que convida a algum tipo de celebração. Que não me isole em um edredom solidário, enroscado nos pés de minha amada. É bom, mas não é tudo. Brindar a reação ao frio é importante também. Tanto mais quanto provar o advento gostoso da primavera e verão, quando tudo se torna mais fácil e dinâmico.


Quero a certeza de não faltará parceria para aquecer por alguns minutos, a tão necessária alegria. Quebrar o gelo. "E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível," disse Albert Camus. Que assim seja!

domingo, 7 de julho de 2024

Domingo a espera da segunda e o deus Mani

 

Inicialmente eu não publicaria essa postagem. Deixaria perdida, presa às ferragens digitais do blogspot que a maioria ignora e virou meu depósito de ideias digitadas. Mas pode ser que outros se identifiquem com o meu estado de espírito neste domingo. Simplesmente não quero ser o único a achar uma chatice o desperdício de um dia tão ensolarado – ou tão chuvoso, se for o caso – muitas vezes em troca de escassa satisfação. 


Quem sabe alguém venha a me responder com frases selecionadas no Instagram,  ou em outros guias de lugares comuns. Muitos afirmarão em letras maiúsculas (o grito digitado) que o pior está para vir: a segunda-feira ou Monday (Moon Day, Lunes, Lunedi, etc...) de origem pagã influenciada pela crença no deus Mani da mitologia germânica. 


A questão é que , independente das questões etimológicas - com ou sem feira - a segunda é perfeita para uma nova ênfase às rotinas, salvar o que está pendente e só você pode resolver. Mas o que até hoje vejo, em minha vetusta existência é que as mantemos exatamente assim, rotineiras, nas demais feiras da semana.  A culpa desse conformismo, ou preguiça, sei lá, é da forma errada em que, na maioria das vezes, aproveitamos o final de semana. 


Eu, por exemplo, desde sábado acompanho as mudanças típicas da estação. Chuva, sol, frio e calor, revezando-se como meu senso de humor. Alegre e de repente, quase triste. Motivos para queixas são muitos: o que tenho recebido em troca de tanta dedicação existencial? Tanto respeito? Tanta solidariedade? Não revelarei os resultados que os miquinhos de minha contabilidade íntima entregou. Não vale a pena.


O que realmente importa é que envolvidos nos compromissos diários pela sobrevivência, não temos ligado muito para os amigos. Não é verdade? Aqueles  que, volta e meia nos criticam, mas botam a mão no fogo quando necessário. Em meu caso, cadê a confraria? Vinhos, queijos e cervejas especiais? Foi um sucesso até eu desistir, sei lá por que. Os passeios culturais, as taças em bares bacanas com gente que busca coisas semelhantes, são memórias passadas. Em resumo, estou me reservando a um conservadorismo burocrático. A um tédio fantasiado de autoexílio.


No momento estou semelhante aqueles que no domingo cuidam bem da casa, organizam o roupeiro, dormem um pouco mais e será que alguma coisa muda? Mudar é importante. Oferecer um prato novo para o almoço, receber de bom humor uma visita surpresa que, por certo, também enfrenta o mesmo sentimento. Faz tempo que decidi ser menos conformado e rotineiro, no sentido acomodado da palavra.

 Afinal existem rotinas saudáveis e essas, precisamos descobrir com iniciativa e criatividade. E não estou velho para tornar meu angu existencial mais digerível. A corda está cada vez mais curta e as boas rotinas, as que fazem um domingo ser menos depressivo, sempre serão bem vindas. As tardes de domingo, terão de uma preguiça mais saudável, quem sabe, trocando a maquiagem pesada que costumam ter as segundas e demais feiras. Vale tentar, com ou sem mitologia.

Arte de John Charles Dollman - Guerber, H. A. (Hélène Adeline) (1909). Myths of the Norsemen from the Eddas and Sagas. London : Harrap. This illustration facing page 8. Digitized by the Internet Archive and available from https://archive.org/details/mythsofthenorsem00gueruoft Some simple image processing by User:Haukurth, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4722868

terça-feira, 2 de julho de 2024

Lamúrias de uma "Afogada em aflição"

Preservarei a fonte. É o mínimo que posso fazer. Como você, leitora, agiria caso o parceiro tudo de bom - apaixonadíssimo - sofresse de uma brutal dificuldade em desvencilhar-se de ex-namoradas, ou pior, de companhias do tipo “se-você-estiver-afim-também-estou”. A amiga que me confidenciou a sua angústia amorosa, apelidei de “Afogada em Aflição” (bem ao estilo das cartas-resposta dos antigos conselheiros sentimentais nas rádios). O casal não vive uma relação aberta que, igualmente, não dispensaria diálogo e transparência. Mas ela se esforça em acreditar na fidelidade do moço. 


Mesmo assim, não suporta vê-lo gentil e aveludado com, por exemplo, a ex-patroa que inconformada com a perda “de um funcionário tão competente, tão eficiente, blá, blá blá” para outra empresa, liga mensalmente com a desculpa de pedir conselhos, dicas profissionais. Saem para almoçar e o tema, jura o namorado de Afogada em Aflição, se resume aos intrincados processos que “somente ele poderia resolver”. Ao final de cada encontro, a bandida ainda diz que o deseja de volta ao escritório. Ah! o desejo!


Tem também aquela amiga, empresária do setor do vestuário que mora na Serra. Inteligente, foi parceira dele nas horas difíceis. Tão solidária que certa vez, chegou ao extremo de “presentear” o rapaz com preservativos em cores e sabores exóticos. Ele recusou, reclamou que não misturava as coisas. Não poderia levar a um motel uma grande amiga, argumentou. Outra, bem mais madura, ofereceu um apartamento que “afinal de contas estava desocupado”. Assim poderiam ter mais “intimidade”. Dessa vez ele se ofendeu, mas acabou aceitando o pedido de desculpas. 


Ao conhecer “Afogada em Aflição” os contatos do rapaz com as amigas diminuíram. A relação prosperou. Mas os almoços, as longas ligações com a ex-patroa continuam firmes. Aquelas com perfil mais ousado, quando se aquietam o deixam saudoso, como se as houvesse maltratado. Manda cartões em datas especiais, troca mensagens. Diz que são importantes, cada uma à sua maneira, e sem nenhuma maldade. Um sedutor não assumido, enfim. Vocês leitoras, como agiriam? Aceitariam?


Afogada em Aflição tenta racionalizar. Lembra a infância difícil do companheiro. O relacionamento com a mãe não era dos melhores. Levava surras sem justificativa. Era tratado com desprezo. Pouco antes da morte dela, haviam se reconciliado. Mas as marcas permaneceram. Talvez por isso não consiga livrar-se de relações que, de alguma forma, o levam à fantasia de intimidade quase uterina, sei lá. Só Freud para explicar. As mulheres percebem e provocam – se fazem ora maternais, ora sensuais.


A gota d’água, aquela que encheu o pote de inconformidade de Afogada em Aflição aconteceu na semana passada. Ele sonhou que namorava a atual chefe. Andavam de mãos dadas! Detalhe: ele jamais lhe dá a mão em público. Diz que é brega. A nova patroa – por sua vez - é uma mulher forte, dominadora. Ao contrário da anterior, não valoriza almoços de confraternização com funcionários. Ele até se esforça para ser merecedor de reconhecimento e algum tipo de carinho. E nada! Quer ser talvez o funcionário especial, o mais querido. 


“Afogada em Aflição” sofre em meio a tudo isso. Será que ambos não poderiam ter amigos comuns, sem misturas explosivas de segundas intenções? No caso dela, os ex-namorados, os candidatos a amantes ficaram no passado. Por que então, escolheu um cara tão servil às mulheres? E aí fica a se questionar de como reagir diante dessas situações. Tentei minimizar a situação, lembrando a citação de uma colega nos dias de redação. Toda a vez em que eu reclamava de algo ou alguém em especial, ela me alertava: “A vida não é um moranguinho”. E mesmo que o fosse, morangos mofam rápido demais. 


Assim, aconselhei minha confidente a manter a estima em alta e investir na paixão sim, porque amar é bom. Mas tendo sempre à mão, um bilhete de ida sem volta, caso as amigas deste parceiro tão gentil, incomodem mais do que o normal. Amor coletivo - quando não consentido - é como andar de ônibus nas horas de maior movimento. Muito suor, muito aperto e conforto que é bom, nenhum. Qualquer coisa, desça na primeira parada.