quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Mico existencial e fantasias sexy

Depois de ter o carro furtado, ele não desgrudava os olhos dos noticiários. Buscava desesperadamente por seu  Audi A3 seminovo (e sem seguro) que viu desaparecer sob a mira de pistolas automáticas. É assustador. Tentou imitar o roteiro de alguns filmes de cinema, onde o personagem, indignado, se põe a investigar por conta própria o paradeiro do bem roubado. A diferença é que a vida real o colocou a andar em círculos o encaminhando a um inconcluso e decepcionante final.

Descobriu, por exemplo, que os bandidos passaram a usar seu carro em outros assaltos. Com um  fiapo de esperança em recuperar o veículo, jurava: “Eles me devolvem num dia, no outro eu o coloco à venda. Está contaminado pelo estigma da violência”. 

Mas em meio a sua investigação privada, ouviu um insólito e tragicômico relato de outra vítima da violência urbana. O sujeito decidira colocar em prática uma fantasia erótica em um lugar insólito: um estacionamento  ao ar livre, durante a madrugada! Tinha convicção que seria seguro, tinha muita luz ao redor do parque e isso o deixava mais eriçado. Assim, enquanto a paixão quase incendiava o estofamento do veículo, percebeu a movimentação de gente estranha e armada. Pior, não eram seguranças ou policiais militares. Mais do que depressa saiu em louca corrida entre os carros.

Na fuga ligou para o 190 e num lance de rara sorte, em menos de cinco horas, tinha o carro localizado sem avarias. A esposa, solidária, o acompanhou no dia da liberação do veículo. Nervosa, começou a conferir os estragos. E foi assim que, debaixo de um dos bancos, encontrou a cueca do marido, entrelaçada a uma calcinha, pequenina demais para ser dela.

Ora, o infeliz estava com outra no carro! Ou seja, como sentencia um velho (nem tanto) amigo jornalista (sempre eles), tudo o que está ruim, sempre pode piorar.  O infeliz, recuperou um veículo, perdeu a mulher (ou quase, não sei o desfecho) e pagou um grande mico existencial. 

Cá entre nós, até para trair é preciso um mínimo de talento. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Baixinha, gordinha e cheia de vontade

 

Atenção! As mulheres do futuro serão levemente mais baixas e rechonchudas, terão corações saudáveis e muita fertilidade. Alguns anos antes de falecer, o biólogo evolucionista Stephen Stearns, da Universidade de Yale, nos EUA, coordenou a equipe que estudou 2.238 mulheres que haviam passado da menopausa, para assim, cruzarem os dados com suas respectivas vidas reprodutivas. 

 Avaliaram altura, peso, pressão arterial, colesterol e outras características correlacionadas com o número de crianças a que elas deram à luz. E chegaram à conclusão de que as baixinhas fofinhas tendem a ter mais filhos, em média, do que outras, mais altas e magras. E ainda passam estas características às filhas. Ou seja, deram continuidade a esse processo que se considera evolutivo.

 Em outras palavras, as mulheres “evoluem” para tudo isso. Academias, personal trainning, pilates, dietas rigorosas e outros tratamentos escravizantes não interromperão o processo evolutivo. Gurias, no futuro todas serão fofinhas! E baixinhas! O estudo assegura que lá por volta do ano 2400 – e não estarei mais aqui para comprovar -, as mulheres terão dois centímetros a menos em média e pesarão um quilo a mais. Darão à luz o seu primeiro filho cinco meses mais cedo e iniciarão na menopausa dez meses mais tarde, em relação à média atual.

 E o que representa um mísero quilinho para quem já acumulou muito mais depois de um inverno frio e chuvoso? O lado positivo é que as supermodelos no padrão Gisele Bündchen serão apenas exemplos ultrapassados de estrutura física. A mulher evoluída atrairá os homens com um perfil, digamos assim, mais cheinho. 

 Tenho convicção de que os homens, em sua maioria, torcem o nariz para as esqueléticas das pistas. Esguias, te olham de cima com aquele ar superior, podem escolher a dedo os melhores machos da espécie e ainda desdenham as gordinhas. “Você tem se que gostar mais, querida”, aconselham às fofas ansiosas.

 Lamentavelmente o artigo não trata do setor masculino. Como serão os homens daqui a quatrocentos anos? Serão baixinhos, fofinhos? Serei eu dos protagonistas deste processo evolutivo? Vou pesquisar sobre o assunto. Enquanto isso, liberem as massas, os mousses e pudins! 

E viva as mulheres com substância do futuro!

Ameaças planetárias

Objetos voadores não identificados continuam nos céus a impressionar pilotos de voos comerciais e humildes viventes como eu. Será o fim dos tempos terrenos? Aí lembrei que, não faz muito, astrônomos teriam encontrado evidências de que um planeta fora “devorado” por sua estrela. Seria esse o destino da Terra? E pensei com meus botões não luminosos, qual o sentido de tudo isso se construímos gerações para, quem sabe, serem engolidas pelo Sol?

E aí talvez se explique essa vontade escapista do ser humano em buscar leituras leves ou criar notícias falsas nas redes sociais, onde seguidamente surgem celebridades femininas a exibir lascas de bumbum. Especulam, “estaria ela sem roupa íntima?” Outro mistério! Quantos séculos levaremos para desvendar uma revelação que amanhã, não valerá mais nada, transformada em diminuta fagulha na constelação de astros do cinema ou do espaço infinito.

Bumbuns, seios fartos e gente disposta a se expor, não faltarão até o momento apocalíptico de uma colisão solar. Uns observam o sol, a natureza, as ciências, outros empunham uma máquina fotográfica para a vil missão de flagrantes pueris. E existem aqueles que se aproveitam disso para iludir os distraídos com arremedos de cultura política e social.

Entre a astrofísica e as revistas de variedades, penso que o melhor ainda é aproveitar os bilhões de anos que nos restam, focados nas coisas que realmente importam. Mas o que é verdadeiramente importante? A cultura ultraleve da vida mundana? A filosofia, a poesia dos gênios incompreendidos? A busca por lideranças terrenas que façam tudo isso valer a pena? E ainda, quem perceberá nossa ausência, após sermos engolidos pelo Sol?

À noite, abandonei essas reflexões ao perceber a lua minguante como se a navegar perdida entre estrelas. E para mim aquele momento era maior do que a visão de um bumbum carnudo de celebridade ou de teorias sobre as probabilidades de termos o planeta engolido por nossa ainda amistosa estrela solar. 

Se um dia o planeta for tostado por uma estrela de fogo, que tenhamos então produzido o melhor, o mais digno em pensamentos e ações para justificarmos, minimamente, a instabilidade e brevidade da condição humana como a conhecemos. Aos que creem a certeza do paraíso, aos céticos, a experiência de uma existência digna. “São demais os perigos desta vida” cantou Vinicius de Moraes. 

E aí é que está a graça.

domingo, 13 de novembro de 2022

Alma gêmea faxineira

 

Ela se preocupava com detalhes e limpeza. Vivia no apartamento típico de revista de decoração. Mas do que  servia tudo isso sem namoro no sofá ultra-aspirado? Rolar sem espirros nos tapetes a prova de ácaros. Sozinha? E os lençóis? Alvíssimos, macios fios egípcios, cheirando a limpeza. E olha que os namorados seguiam rigorosamente um mesmo perfil perfeccionista. Nos primeiros dias, as coisas sempre iam bem. Até a hora dos palpites sobre marcas e métodos de faxina. Como aceitar a dica do novo amor sem estresse? Era assim que, com decepcionante frequência, suas paixões escoavam pelos ralos polidos.
 
Deles permaneciam livros, teses e longos papos na madrugada que muitas vezes haviam culminado em excitantes discursos intelectuais. Aqueles  tipo gourmet sofriam mais, precisavam estar atentos às receitas e a limpeza da cozinha. Mas volta e meia, eram tão precisos e previsíveis que tudo acabava feito fricassé de vernissage. Insosso demais. Lá ficava ela, sozinha outra vez, saudosa do amor entre ervas finas, especiarias e detergentes. Sabia que ao entrar na maturidade escrava de suas teses, presa a longos debates consigo mesma, poderia sentenciar-se a solidão involuntária.
 
Queria lista de enxoval. Roupa nova de cama. Foi aí que surgiu aquele quarentão, divorciado e independente. No catálogo dos deuses, poderia ser classificado na categoria Baco. Bochechudo e simpático. Mas habituada ao tipo intelectual, ele insistia em provocações eruditas em alemão! Tudo que ele sabia do idioma de Goethe era a ressaca horrível de um antigo Liebfraumilch, vinho branco frutado e enganador que o seduzira tantas vezes na juventude.
 
Eram opostos. Mas como toda fêmea, achou que poderia moldá-lo. Buscava a mais limpa, cheirosa e límpida alma gêmea e caíra na armadilha da simpática imperfeição estética, na sedução do diferente. Quando pensava em reclamar do excesso de farelo, dos pingos de bebida na toalha alva, vinha o beijo carnudo sempre na temperatura ideal.
 
À noite, tanto amassavam os lençóis passados a vapor que ela temia vê-los inutilizados no dia seguinte. Era jogada de lá pra cá, virada do avesso até pedir pelo amor de Deus que parasse. Esperto, jamais obedecia. Quando ia embora, ainda sobrava uma faxina extra a ser feita. Ele era desregrado demais. E foi apenas por isso que acabou dispensando aquela versão desorganizada de alma gêmea.
 
No dia seguinte, caprichou na faxina, manchou de lágrimas o lençol que trazia o cheiro vivo e gostoso dele que, por sua vez, insistiu em um último apelo por reconciliação. Argumentou que ela exagerava, que sofria de toque e precisava de tratamento psicológico. Ela permaneceu impassível. "Uma alma gêmea, combina em tudo," respondeu. Ao contrário dos anteriores, que racionalizavam tudo, buscou a conciliação em um poema de Manuel Bandeira, que segundo ele, definia o momento que viviam.
 
 "Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor (...) Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não."  E foi embora, à espera do retorno que, sinceramente, não sei se aconteceu. 


quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Adeus Novo Aeon

Nem é preciso um vendaval, um desastre terreno, uma fúria divina. Basta um sopro, um sussurro, uma palavra solta no ar, um beijo apressado antes do ônibus partir e lá está a vida como havíamos pré-estabelecido – de repente – a dar uma guinada tão surpreendente quanto assustadora. O que nos move a seguir adiante? O que nos leva a fraquejar no último minuto? A não pensar em consequências? A razão para tantas quedas, que nos separa da vida e da morte, do céu ou do inferno, pode ser dividida em tantas e miúdas justificativas que nem sempre nos preocupamos em juntá-las para conferir o todo.

 Aqui, no melancólico feriado de finados, pensei nisso. Lembrei meus mortos, amigos, familiares que partiram por desastres, desgaste ou cansaço. Recordei os olhos atentos de meu pai, o sorriso irônico, às vezes em paz, em outros momentos, sofrido. E sua mão sempre disposta a acender aquele último e derradeiro cigarro que, um dia, chegou. Os planos a dois acabaram sobrecarregando o coração de minha mãe, ainda tão jovem, de uma inesperada saudade. Uma dor que acomodou no colo e transformou em resignação.

 Lembro que naquele mesmo dia encontrei meus filhos. Eles e seus projetos futuros. Quanta ansiedade apertando os jovens corações. Cada palavra, cada gesto a carregar expectativas de realizações. Todos preocupados com o pós, o doutorado! Nunca se exigiu tanta graduação para tão escassas oportunidades. Ou será que buscam em nichos errados? Assim, cada um à sua maneira levava em si alguma finada expectativa que poderia ter sobrevivido talvez, no minuto seguinte, pela  proposta que lhes apontava uma estrada menos tortuosa. Um sopro a mudar um destino.

 Na época, pensei em um rosário de conselhos. Sugerir mais objetividade em alguns pontos, criatividade e ousadia, em outros. E lembrei os vendavais de conceitos, ou preconceitos que nós, senhores vividos, às vezes podemos carregar em nossa ânsia. Me conformei em torcer para que meu guri mais novo, vencesse os moinhos da adolescência, que minha menina acertasse o foco de seus tão vívidos talentos e o primogênito abrisse a porta, saindo mundo afora com a fome de um leão diante da caça. 

 Eu sei que os minutos que nos antecipam rugas, são os mesmos que nos garantem experiência, que se não é tudo é a melhor bússola enquanto não se encontra o norte. Meus filhos seguem suas vocações, entre temores e merecidas conquistas, caminham no rumo de seus projetos. Eu, hoje um senhor aposentado, olho o entorno e percebo que de todos os momentos vividos, quando fraquejei aprendi que a fé sempre pode recarregar qualquer um com energia e esperança. 

 É assim que me sinto agora, neste período pós eleição, onde o equilíbrio reagiu contra o retrocesso disfarçado de um novo Aeon. E espero ainda, do fundo de meu coração, quem sabe um sopro do acaso, assim meio sem jeito, pedindo desculpas pelos tropeços mas, com firmeza, castigando os intolerantes, os corruptos, com a espada da justiça, fundamental para tornar nosso país, nosso planeta, num lugar mais justo para acolher as novas gerações, E que eu, quando partir, seja uma saudade boa e inspiradora de reconciliação e felicidade.