Nem é preciso um vendaval, um desastre terreno, uma fúria divina. Basta um sopro, um sussurro, uma palavra solta no ar, um beijo apressado antes do ônibus partir e lá está a vida como havíamos pré-estabelecido – de repente – a dar uma guinada tão surpreendente quanto assustadora. O que nos move a seguir adiante? O que nos leva a fraquejar no último minuto? A não pensar em consequências? A razão para tantas quedas, que nos separa da vida e da morte, do céu ou do inferno, pode ser dividida em tantas e miúdas justificativas que nem sempre nos preocupamos em juntá-las para conferir o todo.
Aqui, no melancólico feriado de finados, pensei nisso. Lembrei meus mortos, amigos, familiares que partiram por desastres, desgaste ou cansaço. Recordei os olhos atentos de meu pai, o sorriso irônico, às vezes em paz, em outros momentos, sofrido. E sua mão sempre disposta a acender aquele último e derradeiro cigarro que, um dia, chegou. Os planos a dois acabaram sobrecarregando o coração de minha mãe, ainda tão jovem, de uma inesperada saudade. Uma dor que acomodou no colo e transformou em resignação.
Lembro que naquele mesmo dia encontrei meus filhos. Eles e seus projetos futuros. Quanta ansiedade apertando os jovens corações. Cada palavra, cada gesto a carregar expectativas de realizações. Todos preocupados com o pós, o doutorado! Nunca se exigiu tanta graduação para tão escassas oportunidades. Ou será que buscam em nichos errados? Assim, cada um à sua maneira levava em si alguma finada expectativa que poderia ter sobrevivido talvez, no minuto seguinte, pela proposta que lhes apontava uma estrada menos tortuosa. Um sopro a mudar um destino.
Na época, pensei em um rosário de conselhos. Sugerir mais objetividade em alguns pontos, criatividade e ousadia, em outros. E lembrei os vendavais de conceitos, ou preconceitos que nós, senhores vividos, às vezes podemos carregar em nossa ânsia. Me conformei em torcer para que meu guri mais novo, vencesse os moinhos da adolescência, que minha menina acertasse o foco de seus tão vívidos talentos e o primogênito abrisse a porta, saindo mundo afora com a fome de um leão diante da caça.
Eu sei que os minutos que nos antecipam rugas, são os mesmos que nos garantem experiência, que se não é tudo é a melhor bússola enquanto não se encontra o norte. Meus filhos seguem suas vocações, entre temores e merecidas conquistas, caminham no rumo de seus projetos. Eu, hoje um senhor aposentado, olho o entorno e percebo que de todos os momentos vividos, quando fraquejei aprendi que a fé sempre pode recarregar qualquer um com energia e esperança.
É assim que me sinto agora, neste período pós eleição, onde o equilíbrio reagiu contra o retrocesso disfarçado de um novo Aeon. E espero ainda, do fundo de meu coração, quem sabe um sopro do acaso, assim meio sem jeito, pedindo desculpas pelos tropeços mas, com firmeza, castigando os intolerantes, os corruptos, com a espada da justiça, fundamental para tornar nosso país, nosso planeta, num lugar mais justo para acolher as novas gerações, E que eu, quando partir, seja uma saudade boa e inspiradora de reconciliação e felicidade.