segunda-feira, 26 de junho de 2023

QUANDO ELA QUER DECORAR TEU CANTINHO

Estava tudo quase perfeito. Lá fora, frio e chuva. Dentro de casa, uma dessas comédias românticas repetidas mil vezes, era apenas desculpa para as pipocas, rapadurinhas e chimarrão. No sofá macio, cobertores e afagos mantinham as mãos ocupadas e quentes. De repente aqueles lindos olhos o fitam, questionadores: “Amorzinho, posso te fazer uma proposta? Tu não vai ficar chateado comigo?” E antes mesmo da resposta, virou-se para a parede da sala, apontando o imenso painel em óleo, trabalho de renomada artista plástica e sugeriu: “Vamos tirar daí? Dar para alguém, sei lá...”.

Experiente e por isso mesmo, sem tempo para a perplexidade, reagiu com a naturalidade que o momento exigia. Respondeu - direto e definitivo: Não! Voltou-se ao filme onde os personagens viviam crises, encontros e desencontros. Preparavam-se, talvez, para um final feliz. Sessão da tarde necessita de roteiros sem tropeços e trilha sonoras envolventes. Olhou pela janela, a chuva insistia forte. E se estivesse solteiro naquela hora? Ninguém para redecorar a casa, sugerir, indicar, apontar novidades. Mas e o frio?

Sem disposição para a polêmica argumentou que o trabalho fora um presente da própria artista. Se não entendia o abstrato das cores fortes usados na pintura que mesclava tintas, areia e pigmentos em ouro, explicaria tudo outra vez. Sim, porque no início do namoro, relatara toda a história daquele trabalho. E de outros detalhes artísticos que ocupavam as paredes da residência. Ela achara bacana. Tempos de espumantes, tudo acabava em distraídas borbulhas.

Em outras palavras é sempre assim. O começo é uma pré-estreia com tapete vermelho. Qualquer cantinho vira mansão. Não existe o feio na casa da paixão. Aos poucos – e isso é uma característica bem feminina – começam as pequenas e intrometidas dicas. O sofá já não é tão legal. 

Aquelas panelas que foram da tua avó, resistiram a todas ex-namoradas, esposas ou candidatas, correm novamente o risco de serem vendidas a um ferro-velho. Até a disposição de porta-retratos, ou a marca de teu desodorante é questionada por sensíveis narinas apaixonadas. E no jardim? Os canteiros cultivados em anos de trabalho, brigas com jardineiros preguiçosos e tias enxeridas, voltam a sofrer ameaça de despejo.

A vida a dois tem um preço alto. Pode acabar em "Vida onde um manda e outro obedece".  Por isso, ilustres leitores deste texto, sejam solteiros, casados ou juntados. Em datas especiais – aniversário de convívio, por exemplo - deem como presente, liberdade e alguma consideração a história individual de cada um. 

A partir daí, tudo se negocia. Até uma obra de arte pode ser alvo de mudança para uma nova sala, ou troca de moldura. Quem sabe? Mas para a comédia romântica do cotidiano seguir em frente é preciso tato e sensibilidade. Ou pode acabar em tragédia “shakesperiana”. Aliás, foi o próprio dramaturgo inglês quem disse, “Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor”.


quarta-feira, 21 de junho de 2023

Em pleno inverno, um invencível verão

 Confesso que já gostei mais dos invernos. Reparava mais na chuva, na geada que queimava o pátio. Dava mais atenção a correria de meus filhos, gostosos de apertar, feito bichinhos de lã, de bochechas vermelhas e fofas. Lembro do frio que cortava feito diamante o vidro da janela e me obrigava a recorrer ao mais encorpado dos vinhos. Até uma confraria criei ao lado de amigos. O gelado era um convite a reuniões animadas. Enquanto o gelo cobria a capota dos carros lá fora, no calor da lareira esquentava-se a vida.

Lembro dos amigos que recitavam poesias, inspirados pelo mesmo deus Baco que, de propósito, os fazia esquecer estrofes, ou engolir rimas. Mas tudo era válido, tudo quente e aconchegante. Porque era inverno e estávamos juntos. 

A lareira parecia nunca apagar, a adega sempre cheia. Os confrades traziam seus vinhos e pães, queijos, salames coloniais e caldos a ferver seus vapores aromáticos. O inverno se cobria de um frio suportável assim, mesmo que insistisse em chuvas intermináveis, entremeados de raros dias de sol pleno, abaixo de zero. Lagartear era tudo o que se precisava para recarregar as baterias.

Chimarrão, chás de todos os tipos e cafés servidos direto da cafeteira italiana. Era energia pura, que se agarrava na certeza de que toda estação tem seu encanto, mesmo que absolutamente fria, com ares melancólicos, quase depressivos. Eu não me permitia sofrer contra o óbvio. Para que reclamar do inverno frio, se não tinha como ser diferente. A alternativa, o norte ensolarado, era apenas uma fantasia cara demais para ser verdade. E duraria poucos dias. Longos seriam os meses a pagar passagens aéreas e hospedagem.

Quero de volta esse frio que convida a algum tipo de celebração. Que não me isole em um edredon solidário, enroscado nos pés de minha amada. É bom, mas não é tudo. Brindar a reação ao frio é importante também. Tão mais quanto provar o advento gostoso da primavera e verão. 

É quando tudo se torna mais fácil e dinâmico. Quero a certeza de não faltará parceria para aquecer, por alguns minutos, a tão necessária alegria. Quebrar o gelo. "E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível," disse Albert Camus. Que assim seja!

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Esse papo é qualquer coisa

 

Lembram da piada do mineirinho na estação ferroviária? O filho pedia um refrigerante lá vinha um "trem de beber", batia fome e comprava um "trem de comer". Na hora do pito, acendia um "trem de fumar" . Na chegada do verdadeiro trem, saudou: "Óia! Lá vem a Coisa!" Tenho reparado que ao contrário do mineirinho, muita gente faz o inverso. Tudo vira coisa, um genérico substantivo feminino. Roupas, comidas e sentimentos. Coisas! Vocabulário curto. Tem gente fazendo aula de inglês e, passada a fase "the book is on the table", se volta à última flor do Lácio expressando-se através de qualquer coisa - thing - em inglês.

Falta leitura que vá além das postagens em rede. Palavras e expressões idiomáticas inteligentes e criativas - de bons autores, inspiram ideais, ilustram diálogos com sinônimos e adjetivos bem colocados. A palavra coisa, por exemplo, é uma das mais vagas e gastas de nosso alfabeto. Genérica, aceita qualquer companhia, não tem obrigação de respeito a conceitos ou virtudes. Coisa é a banalização da essência. É um trem vazio, diria o mineirinho da piada. Um trilho abandonado.

Também percebo que estamos em processo de “coisificação” institucional. Gente, bichos, conceitos, ideologias transformados em coisas. Sem rosto, ou pior, com um rosto único e cruel na maioria das vezes. 
Roubar para matar, matar para comer, comer até morrer e viver sem ter qualquer noção de civilidade virou mandamento porque as pessoas, os valores que as formam transformam-se em coisas inexplicáveis. Irascíveis, imutáveis, coisas necessárias e consumíveis. 

Precisamos de dinheiro para qualquer coisa! Mas se for para um projeto vivo, específico e relevante, igualmente fazemos qualquer coisa para consegui-lo. A coisa é um vácuo que nos engole e mata virtudes. E é aí que a coisa fede.

Está na hora de se pensar antes de se abraçar qualquer coisa que não tenha sentido ou, ao contrário, tenha vários, dezenas de motivos que, no fundo, não encontraram ainda seu mais perfeito sentido. E é preciso que tudo tenha mais nexo ou menos “coisificável”.

Eu vi dois guris atirando pedras em lâmpadas na rua onde moro. Perguntei porque faziam aquilo e o mais velho disse que não tinham coisa nenhuma para fazer “a prefeitura é rica, pode comprar qualquer coisa”, respondeu. A coisa está lá, latente em seu poder destruidor. 

Ninguém lhes ensinou que há dezenas de atividades que não são coisas, ou são coisas boas de se fazer. 
No momento em que deixam o limbo da ignorância passam a ter nome próprio. Um jogo que lhes estimule a imaginação, um livro que dê vocabulário, criatividade e sensibilidade. Encontrariam mais sentido e o prazer de atirar pedras de “qualquer coisa”, passaria a um grande constrangimento.

Ao tratar gente como coisa difícil, coisa ruim, ao negar oportunidades de cultura, trabalho, ao trocar educação por coisas, se permite a indiferença e o radicalismo. Coisa é tudo e não é nada. É um soldado atirando contra a multidão, porque seu dever é proteger alguma coisa. É o bandido matando para obter alguma coisa de valor.

Melhor deixar as coisas às claras, dar-lhes um sentido menos genérico, por mais difícil que possa parecer. Em nome de alguma coisa maior que talvez vocês saibam o que é. Por enquanto a minha cara de tacho não virou qualquer coisa. Afinal, é um tacho! E reflete perplexidade, diante da ignorância que interessa a um tipo de poder corrupto e corporativista e faz da vida uma coisa sem sentido.