terça-feira, 25 de julho de 2023

VIVA E DEIXE CHOVER

Adoramos reclamar de autoridades públicas. “É tudo larápio, vigarista ou politiqueiro da pior espécie”, sentenciamos. Se a fila não anda, botamos a boca também. Afinal, é um direito nosso. As ruas esburacadas são temas recorrentes. Nas rádios, redes sociais, ou em imagens de tevê lá estão as crateras no asfalto, ou a falta de placas de sinalização. E xingamos porque pagamos impostos,  sonegadores são os outros. 

Eu, feliz morador de um sítio na região Metropolitana de Porto Alegre, hoje quero reclamar desses tais que adoram queixar-se dos governantes, gerentes, garçons e afins. Chove bastante desde o início da semana. E os motoristas da capital e entorno, aparentemente, não ligam para isso. 

Apesar da recomendação dos técnicos em trânsito para reduzirmos em até 30% a velocidade, tem gente que promove ultrapassagens a mais de 100 quilômetros por hora! E o fazem nas mesmas estradas que reclamam estar em péssimo estado.

Agimos como cidadãos de quinta categoria. Motoristas medíocres, gente de má índole que adora culpar terceiros em problemas e dramas criados a partir da própria irresponsabilidade. A BR 290 parece uma imensa pista de corridas. E o que se vê? Autos de motorzinho mil, com pneus gastos, mal calibrados, suspensão meia-boca, alguns completamente lisos, a voar! Carros novos,turbinados, pior ainda. 

Travestidos de pilotos suicidas, voam em suas naves de quatro rodas, na pista molhada. São maridos, esposas e filhos que, com certeza, não amam e respeitam seus familiares. Odeiam a humanidade! E os caminhões? Meu Deus! Ultrapassam com a mobilidade de baleias na cristaleira de suas avós e ainda grudam os para-choques duros - talvez a única coisa rija que possuem - nos veículos que tentam manter uma velocidade cautelosa.

Se a maioria age desta maneira, a minoria que se cuide. Eu continuarei atento, dando passagem aos velocistas da chuva e rezando para que não me envolvam em seus métodos doidos de dirigir. Aliás, também vi  pedestre atravessando a rua sem olhar para os lados. Tem gente, nova e velha, andando na chuva sem proteção. Capa, guarda-chuvas, sei lá. Nunca vi tantos encharcados. Esqueceram o surto global da gripe A, em 2009? Ainda temos uma sequência enorme para o alfabeto vil das  doenças contagiosas. 

 Sim, estou bem ranzinza, mas depois de tanto susto na estrada, em apenas uma tarde e sabendo que o inverno seguirá com seus dias úmidos e de pista escorregadia, temo por minha própria vida. Quero seguir na rica experiência da maturidade e suas dores intermináveis por mais algum tempo, Acreditem, eu como todos vocês, temos sempre muito o que melhorar. Estamos aqui para isso.

Então, façam dos seus carros apenas um meio de transporte que oferece conforto e bons itens de segurança. Os veículos modernos agregam pacotes bacanas para idas e vindas tranquilas. Em dias de intempérie nem todos somos pilotos perfeitos, pronto a enfrentar trechos alagados, visibilidade reduzida e aqueles buracos muitas vezes cavados pela força d'água. Vivamos mais e melhor! 

A pressa é a máscara do descuido.


terça-feira, 18 de julho de 2023

Fraldas e ética descartáveis


Quantas vezes você desligou, ou trocou de canal na hora do noticiário? Ou pior, assistiu impassível ao desfile de brutalidades gratuitas que se repetem em nosso país? É uma sequencia onde apenas se trocam as vítimas, porque o conceito do crime – desde o simples furto, até a corrupção – se torna mais evidente, assustador. Talvez até por isso mesmo, sejam estes tempos os melhores  para um banho moralizador e nunca moralista, em uma sociedade que agoniza entre o frio do concreto e o sangue de tantas vítimas. Merecemos mais do que o simples existir, queremos uma vida com um sentido mais amplo do que esta modernidade de tantas tecnologias novas a brotar em uma sociedade sem ética.

Na semana passada eu vi, ninguém me contou, uma jovem grávida - classe média - pegar um pacote de fraldas descartáveis no supermercado e surrupiá-la para a sua bolsa. Esses pequenos furtos, essas distrações éticas, ao se tornarem rotina, cobrem tudo no frágil glacê da desculpa pobre: “Não vai fazer falta, afinal eles são poderosos”, e lá vai ela, com seus conceitos simplistas, levando na barriga um ser que deveria, em tese, educar e dar exemplo, para uma vida exemplar. 

Quem sabe essa futura mamãe recrimine duramente os desvios em verbas públicas, reclame do celular que promete ser 5G e não completa a mais básica ligação, ou dos excessos nas redes sociais. “Em que mundo nascerá meu filho?” Esquece que o ladrão não se reconhece pelo tamanho do furto.

Segundo psicanalistas, fatores como a hereditariedade, experiências a partir da primeira infância e o ambiente familiar, determinam a formação de uma criança que, ao sair da fase inicial do egocentrismo, onde tudo gira em torno de seu lindo umbigo, precisa da presença dos pais para ensinar o básico, como não ser nada legal tomar para si, objetos alheios.

Como controlar esses impulsos, se a mão que embalou o berço é mesma que não tem escrúpulos para pequenos delitos? Se a criança, inicialmente nada sente ao se apropriar do que não lhe pertence, a reação dos pais é fundamental, para demonstrar o quanto pode magoar terceiros. Sem excessos, para não traumatizar, mas com exemplos tirados da experiência própria de vida.

Enfim, que uma família crie suas próprias fábulas, onde a dignidade não seja algo elástico e adaptável às ocasiões que fazem o larápio. E que um mínimo senso ético, não desapareça, vergonhosamente, em uma fralda de bebê furtada às pressas. Isso é muito feio. E nocivo.

terça-feira, 11 de julho de 2023

Os tolos e a portabilidade amorosa

Semana passada acompanhei a discussão de um casal no ponto do ônibus. “Te vi com aquele barbudo de novo. O que ele queria?” Ela, com ares da mais fingida inocência, justificava ser apenas amigo de seu irmão. “Eu percebi teu jeito de olhar. Provocando ele. E aquela blusa que comprei para usar só comigo? Nem terminei de pagar e tu já sai como se todo dia fosse festa. E com outro?" Reclamou o desconfiado namorado. Minutos depois, a senhora sentada a meu lado, cochicha maldosamente: “Essa deve ser tinhosa...” Eu via uma garota que mal saía da adolescência - que sensualiza para a comunidade do Tik Tok e outros -  a seguir o caminho natural e seletivo da vida. Confesso que torci pelo tal barbudo ser mais esperto do que aquele pobre infeliz.

Dois dias depois, no mesmo ponto de ônibus, quem eu avistei? A garota, a polêmica blusa, e outro rapaz. Sim, era ele: o barbudo! Ignorando todos nós, ela se desmanchava no jogo típico da idade onde hormônios atropelam neurônios. “Te curto muito”, repetia o galã canastrão. Ela excitava-se: “Tu é louco!” Ele sussurrou algo enquanto envolvia a cintura da guria que, se fazendo de indignada rosnou:

“Não sou dessas de baile funk!” O barbudo não perdeu tempo: “Quem disse que eu quero dançar contigo?” Ambos riram maliciosamente e o ônibus arrancou. Com o ruído não ouvi mais nada. Aliás, não ouvimos, pois todos os passageiros daquele horário matinal, já acompanhavam as aventuras amorosas da guria.

No dia seguinte, lá estávamos a espera de mais um capítulo daquela novela urbana. Aprendíamos que portabilidade não é apenas entre tecnologias digitais. E não é que ela chegou com o namorado oficial? Sim, aquele mesmo que gastara seu comprando blusinha sexy. Pelo jeito haviam selado a paz. Entre amassos apertados ele perguntava qual seria o presente que ela lhe daria de aniversário. 

“Ai amor, tens tudo. Vou pensar em algo que só tu pode ter. E eu, vou ganhar o quê?” Empolgado, mostrou o cartão da loja. De lá viria, quem sabe, mais roupinhas. “Vamos passar o fim de semana na praia. É barato no inverno, já reservei hotel!,” anunciou o moço. 

Nós, testemunhas habituais desta história de encontros e desencontros, amor e traição, já suspirávamos conformados, quando percebemos que o abraço dela, bem apertado, no namorado, era mais do que reconhecida gratidão por tão bons presentes. 

Do outro lado da rua, o barbudo desviava a rota, alertado por ela que, com as mãozinhas nervosas, o mandava seguir adiante. Quase me bateu pena do pobre e ingênuo namorado. Mas olhando bem no fundo daqueles olhos sem brilho ou personalidade, achei que ele merecia. E que a moça tirasse tudo o que pudesse o quanto antes, porque o tempo é inimigo dos amantes voláteis e fúteis. 

Um dia, sua única moeda de troca se manterá empinada a base desses jeans de esperto elastano. À nossa musa do circular, poderá restar o suplício, o castigo de passar o resto da vida ao lado de um manso alegre. Isso se o tal não encontrar outra ave rapineira pelo caminho. A carne é fraca. Especialmente a dos tolos.