quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Desfile na calçada

"Ó minha rua! Agora deserta
Pois se tuas emoções não podes reviver,
Grita lá do fundo: Alerta! E desperta
A alegria das ruas que vão nascer"
(Júlio Sortica/1973) 

Estávamos eu e mais dois clientes em uma lanchonete da Cidade Baixa, em Porto Alegre, quando, de repente, ela surge. Sem traços anoréxicos, saia curta, blusa em estilo oriental a sustentar a leveza sexy de seu andar. Um gari parou de varrer a calçada para não levantar pó e melhor admirá-la. Cidadã responsável, ela procura a faixa de segurança para atravessar a movimentada Rua da República. 

Passou ali, a poucos metros de nós, defronte a porta por onde discretamente a observávamos. Pastéis nas mãos, a mastigar o ar tomado de um perfume suave e doce. Conhecem aquele olhar enviesado tipo Mona Lisa? Pois foi o que recebemos. Por breves segundos, é claro. Olhar sem arrogância, mas sabedor das consequências de tudo aquilo que um dia Vinícius de Moraes poetizou a uma certa garota de Ipanema. 

Beleza que não é só nossa, mas quando passa  "O mundo inteirinho se enche de graça e fica mais lindo...". Em nosso respeitoso silêncio, agradecemos o dom feminino de transformar uma simples calçada em passarela. "É mulher para se guardar numa redoma de cristal", exagerou o pasteleiro. E assim, em um conturbado período eleitoral entre tantas outras mazelas brasileiras, me permiti a divagar sobre os encantos de uma mulher. 

Ora, amigos! Vivemos em um país de constantes batalhas perdidas, candidatos degladiando com as armas das notícias falsas e da truculência, bandido que diz ler a Bíblia recebendo voz de prisão à bala e depois, sendo estranhamente acarinhado pela própria autoridade. Então, permitam que alguns poucos, respeitosamente, filtrem a miséria humana e usufruam, sem culpas, da energia bonita que se esconde no cotidiano. 

Valorizemos a capacidade de superação, de buscar nas esquinas onde o medo espreita, a beleza de gente comum como nós, gente para brilhar não para morrer de fome (obrigado, Caetano).  E se for para roubar alguma coisa, que seja um olhar carregado de promessas que não precisam ser cumpridas após uma votação. Basta que nos ajudem a sermos menos rudes e sofridos, geralmente levados a cabresto para onde não planejamos. A vida, afinal, também pode ser sim, um elogio à beleza humana.



quinta-feira, 20 de outubro de 2022

O dom de iludir


A porta entreaberta no apartamento vizinho permitia à curiosidade alheia espiar a cena insólita de uma jovem mulher chorando, atirada em um aveludado sofá vermelho. Não resistiu e indagou se poderia ajudar em alguma coisa. Professor aposentado, marido de uma experiente psicanalista, estava habituado a ouvir relatos estranhos com serenidade e discrição. Além de tudo, era um dos moradores mais antigos daquele edifício, tinha muitos amigos ali. 


 Ela, por exemplo, excelente vizinha e, ao lado do marido, parceiros constantes nas nunca fáceis reuniões de condomínio. Entrou e encostou a porta. O marido não estava. Haviam discutido. Briga pesada. Constrangida, confessou que em uma festa da faculdade bebera demais e cedera à pressão de um colega. Quando se deu conta, amanhecera em um motel na zona sul da cidade, com um sujeito que mal conhecia. 

 

Ligou para a colega que a acompanhara. Contou o que acontecera. Combinaram uma desculpa em conjunto. Como a festa esticou demais, haviam decidido tomar o café da manhã em uma padaria para curar a ressaca. Nunca saía com as amigas. Tinha direito a uma noitada, afinal! Não respondera as dezenas de ligações e mensagens dele, porque o aparelho estava no silencioso, justificou. 

 

Lívido, o marido ouviu a frágil desculpa. Irritou-se com as lágrimas da mulher. Até para o 190 ligara! Temera pelo pior – a violência urbana era seu maior medo – e ao vê-la naquele estado, imaginava que realmente o pior acontecera. Ele que jurara fidelidade, Ela que o ameaçava de abandono caso a traísse. “Nosso trato não era um casamento aberto. E agora? o que faltou? Parceria?” Saiu porta afora jurando não voltar nunca mais.  

 

E ali permanecera ela. Agora confidenciando sua dor e culpa, a um vizinho! O professor, ainda surpreso com a rara confissão, lembrou a letra de Caetano Veloso “Você diz a verdade, a verdade é o seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?”. E por isso mesmo, sugeriu, se ela ainda sentia algum amor pelo marido, que mantivesse a desculpa do café matinal com a amiga. 

 

“Ele vai aceitar. Acontece...” Ela argumentou que talvez não conseguisse escapar da verdade. Seria sempre um peso a carregar. “Vou enfrentar a situação e ver como resolvemos”, afirmou.  

O professor concordou, alertou para os riscos. “Esse tipo de crise, nunca acontece por acaso, ou pilequinho. Com certeza, havia uma insatisfação mascarada pela rotina”, acrescentou.

 

Saiu, depois de preparar um chá de erva doce, abraçá-la com a ternura sensata da maturidade de quem já viveu ou presenciou desilusões tantas quantas pode resistir. A moça o acompanhou à porta enquanto, enquanto ele saia com pouca ou nenhuma convicção com uma possibilidade de uma chance de reconciliação. E, para si mesmo gravou na imaginação,  em itálico, a frase perfeita na lápide desta provável separação: 

 

“A dita vida a dois sempre envolve muito mais personagens do que o necessário”.


terça-feira, 11 de outubro de 2022

Dia das Crianças? Aproveitem antes da adolescência

Dia das Crianças e quem pôde comprou um presentinho. Qualquer mimo deixa os pequenos felizes. Aproveitem, porque ali adiante está a encruzilhada da insatisfação chamada adolescência. Passei por esta fase quatro vezes. Explico: meus três filhos mergulharam até o último fio de cabelo nessa complicada etapa do amadurecimento. Antes deles, é claro, eu mesmo fui adolescente. Pior, nos rebeldes anos 60. Tudo parecia dramático. Olhava no espelho e não me reconhecia entre espinhas no rosto. Aliás, que nariz estranho era aquele? 

Na adolescência se ama ou se odeia demais e assim, o mundo que parecia tão bom, de Super-Homem e Mulher Maravilha, das irmãs Frozen, Anna e Elsa, dos amigos da escola, dos professores legais, dos programas com a família, de uma hora para outra, se inverte na mais pura chatice. A melancolia adorna uma insatisfação raivosa e planetária.


As notas na escola lá embaixo, as notas na guitarra lá em cima! You say goodbye, I say hello! Haja ouvidos para tanta dissonância, haja saúde mental e financeira para bancar acompanhamento psicológico, professores particulares e festas da turma. O pelotão de ameaças sobre repetir o ano letivo avança contra os bilhetes da escola, o relaxamento nos cadernos, nas mochilas e por aí afora.


Enquanto isso, a contabilidade dos pais - pobres sofredores -, se transforma em voo rasante no desequilíbrio financeiro. Mesmo que os podem bancar, sem dificuldades, um adolescente na plenitude da insatisfação, perdem o sono e a tranquilidade. Isso passa. Mas a que custo!


Quantos não pensaram "Conosco será diferente! Não cometeremos os erros de nossos pais severos ou frouxos demais”. E agora o que se faz ao ver o filho, do alto de sua soberba juvenil decretar, por exemplo, que será um líder da nova revolução musical? Um novo Jimmi Hendrix?


E você aí, negociando com o gerente do banco outro empréstimo para a aula particular, aquele dinheiro que te pagaria alguns dias em Buenos Aires, ou uma academia para melhorar o corpo que se encaminha para a fase aguda da maturidade. Sim, famílias atentas ou omissas enfrentam igualmente a adolescência.  


Quantos papais e mamães gostariam de chacoalhar vigorosamente os filhos até afrouxar o pino da adolescência e esse ser consumido por vorazes ácidos gástricos, transformando tudo em cocô e xixi. Mas, fatalmente, ouviriam os mais insanos desaforos dos filhotes. "Vocês não me amam! Eu nasci na família errada!" 


Eu, eu e Eu. E nós que decoramos todas as cartilhas e oferecemos diálogo, autonomia com respeito aos limites e, principalmente, sempre valorizamos os rebentos e suas conquistas?  Pais que se esforçaram no politicamente correto, com medo até de julgamentos nas redes sociais. Dar palpites sobre a educação dos filhos alheios é fácil. Criar é outra conversa. Qual o nosso destino?


Acabamos, muitas vezes, com a certeza de que fomos ótimos pais na infância, caprichando no presente do Dia das Crianças e fraquejamos nesta devastadora fase. Mas passará, não temam. O que nos resta é entendimento e empatia.  A única saída.  Aliás, também busquem, sempre que possível e adequado, o apoio dos vovôs e vovós. Eles são ótimos conselheiros até mesmo para esses amados seres em mutação. Comigo foi assim. Então, não desesperem. Vai dar tudo certo. 

sábado, 8 de outubro de 2022

Lobo Mau Bossa Nova

 

O personagem deste artigo é um notório mulherengo. Veterano, não tomava jeito. Noite sim, noite não, farejava vítimas em bares de solteiros ou botecos comuns. Às tardes, costumava circular em shoppings. Lobo urbano, seduzia senhoras carentes, balzaquianas enjoadas da imaturidade dos homens jovens. A maioria acabava engolida pelo tiozão igualmente imaturo. Ele as devolvia amarrotadas, saciadas ao estilo fast food emocional. 


E foi assim que perdeu a terceira e, pelo jeito, última esposa. “Ou tu muda, ou vou-me embora”, exigiu a mulher. Para manter a fama de mau, não pensou duas vezes: “Pode ir. Leva o que quiser contigo!” E saiu rumo à ilusão da madrugada. Ele era assim, casca grossa de fera, indomável e não pretendia ceder a pressões.


Voltou no dia seguinte certo de que a encontraria aos prantos, pronta a uma romântica reconciliação, tal qual protagonizara em situações anteriores. Levou o maior susto ao deparar-se com a casa vazia. Peça por peça, lhe restara o eco dos passos como trilha sonora para um inesperado adeus. Ela o aguardava no quarto vazio. Abalado, tentou manter a fama de mau e ao olhar para o teto, ironizou. “Não tiraste o ventilador de teto. Esqueceu?” No mesmo dia, lá se ia o ventilador.


“Só as prestações ficaram comigo”, comentou abatido aos mais chegados. A ex era uma mulher de posses. “Mas o prazer da vingança foi maior do que a razão” calculou o lobo acuado. Sem outra opção, alugou um minúsculo apartamento no centro de Porto Alegre. 


A lareira de ferro que a ex não conseguira retirar ele presenteou ao irmão e esposa, que poderiam utilizá-la na casa de campo. Ora, a ex era super amiga do casal e assim, um belo dia, após um churrasco, percebeu a lareira atirada a um canto da garagem. Acabou levando o único objeto que não conseguira tirar. 


Mas um lobo bobo, como cantava João Gilberto (Bossa Nova), não aprende. Volta e meia, a ex propunha um jantar a luz de velas e ele aceitava! A pele é fraca, eu sei, mas cá entre nós, o lobo que se acha esperto, virou o único “utensílio” do antigo lar que restara. Quem disse que não poderia ser utilizado? 


Sobrou como um consolo despudorado. A diferença é que nestes encontros, no lugar da fera indomável, ela encontrava um lobo na coleira que nunca mais jantara fora. Dócil e obediente, com medo de perder o que não possuía.