quarta-feira, 11 de maio de 2022

INSÔNIA POLÍTICA E SEUS RISCOS

 Depois de uma acalorada discussão com o vizinho, aliás, um grande amigo, mas seguidamente em lados opostos, o professor Jorge, precisou enfrentar uma insônia terrível. Política e seus extremismos doentios não poderiam contaminar anos de convivência pacífica.  Encerraram, democraticamente, o debate de portão e se recolheram a suas casas. A noite estava fria. Horas depois, na madrugada, Jorge decidiu ir ao pátio “respirar o ar noturno”. 

Dois jovens conversavam na esquina. Um deles, ao vê-lo, pediu cigarros. “Não fumo”, respondeu. Mesmo assim, eles se aproximaram e, em segundos, apontavam-lhe armas e exigiam para tirar o carro da garagem, “Vamos dar uma volta, depois te liberamos”, prometeram. A mulher e o filho já dormiam e não ouviram nada. Mas para o professor, encerrava a insônia e começava o pesadelo.

“No banco de trás, eu torcia para acordar”, lembra. Mas não era um sonho ruim e sim, a realidade brutal invadindo seu portão. Os ladrões assumiram o volante ameaçando: “Fica quieto para voltar vivo”. A experiência com adolescentes problemáticos o ensinara que precisaria, pelo menos, acalmá-los e evitar mais violência. 

Viram duas senhoras – gente que trabalha à noite, em um ponto de ônibus e sacaram suas armas. Edu teve calma e os convenceu que não valia a pena. Mas duas quadras adiante arrombavam um mercadinho humilde. “E eu ali, rezando para não depararem-se com o proprietário, possivelmente armado. Iria sobrar para mim”, preocupou-se.

Levaram bebidas, pães, salames, balas e chicletes. “Eram crianças brincando de bandidos”, percebeu o professor. Horas depois, – já bêbados e drogados – passaram a dar tiros a esmo. Estacionaram o veículo próximo a ponte do Guaíba e mandaram que eu saísse do carro. Imaginei que chegaria minha hora”. Por sorte não tinha o celular consigo e os bandidos se contentaram com os trocados que Jorge tinha no bolso e o tênis que calçava. 

“Agora tu vai morrer”, gritou um. Mas o outro não concordou. “O tio vai ficar quieto, né?”. E advertiu: “Sabemos onde tu mora” e sumiram na madrugada escura. De volta a casa, chorou sua raiva. “Não temos mais paz nem no pátio onde plantamos flores e árvores”. E por precaução, insônia o Jorge só vai tratar com chás caseiros e algum sonífero. Nada de ir para a rua. 

Discutir sobre quem votou certo ou errado? Nunca mais! Jorge continuará ensinando aos alunos a fazerem escolhas não apenas por indicação de terceiros, ou discursos enfeitados em fantasias. Mas procurar o histórico de seus representantes. A questão ideológica é importante, mas anda muito misturada com discursos  odiosos e mentiras. Pelo menos, é que pessoas como eu, e meu amigo professor observamos.