quinta-feira, 31 de agosto de 2023

A tentação mundana na Expointer


O Parque Assis Brasil, uma vez por ano, recebe o melhor da pecuária, do artesanato, da agricultura familiar e das grandes tecnologias de maquinário agrícola. Todos sabem disso. É a Expointer, uma magnífica feira internacional. Lembro meus dias de repórter do Campo & Lavoura de ZH e depois, nos anos seguintes, como assessor de imprensa na Central de Imprensa. Nesse período, acompanhei dezenas de histórias, que aconteciam por lá. A maioria guardadas na memória de cada um, fosse expositor ou visitante Um bom exemplo é esta, que segue abaixo. 


Todos sabemos que além do desfile da melhor genética de bovinos, equinos e tantos outros bichos, dezenas de humanos ligados à profissão mais antiga do mundo circulam por entre baias e boxes. Lembro bem dessa gente perfumada, com roupas a valorizar suas qualidades morfológicas, estimulando a imaginação de quem passaria o dia em função de julgamentos, remates, seminários e encontros de negócios. 


Nesses mais de 10 anos a trabalho na Expointer, vi gurias lindas a distribuir panfletos de famosas casas noturnas e insinuando-se discretamente. Muitos não resistem. Outros apenas observavam, especialmente maridos e esposas que pretendiam voltar para casa sem culpas no cartório. Mas e o dia em que a vontade irresponsável é mais forte que a razão?


Esse foi o drama de um dos tantos personagens dessa feira, lá em 2004. Casado há 25 anos, ele dizia ser vacinado contra tentações mundanas. Estava focado em negócios, em valorização de seus produtos. Mas, inadvertidamente,  exagerou no happy hour  e mergulhou nos pecados da sedução, incentivado pelos amigos. De repente, quando se deu conta, estava, em uma espalhafatoso quarto de motel. Luzes coloridas, filme pornô e uma deusa seminua a lhe acariciar o peito varonil. 


Observava tudo apavorado, a bebedeira passara com o susto e culpa. Tentava escapar do embrulho. “Estou velho demais para isso ‘, cochichou para a moça. “Não é o que estou percebendo”, respondeu ela, maliciosamente. Por favor!, gemeu. “Não vai dar certo Vamos acertar. Eu volto para o meu hotel e encerramos por aqui mesmo”, implorou. E ela, com a argúcia que a vida ensinara, respondeu: 


“Quem chega até aqui é porque está sentindo falta de alguma emoção. E comigo não tem dor de cabeça, nem cara feia. Faça a conta de quanto você já gastou na vida para ter muito menos do que estou oferecendo”, alertou sabiamente.


No dia seguinte, andava ele cheio de culpas entre as baias do Parque Assis Brasil.  Sentia-se um crápula. Um boçal. Um farsante. Secou uma garrafa de whisky com os amigos, precisava contar sua aventura, desabafar. Mas enquanto todos aguardavam por um relato cheio de detalhes picantes, caíram pasmos para trás: não acontecera absolutamente nada! 


“Ela me disse tudo aquilo e meu passado voltou à tona. Pensei nos meus filhos sempre patinando na vida, pior, minha mulher, cansada das minhas contínuas ausências. Sempre me evitando. Distante. Gente, até os financiamentos bancários apareceram, um seguido do outro”, lembrou.

“Ela me disse tudo aquilo e meu passado voltou à tona. Pensei nos meus filhos sempre patinando na vida, pior, minha mulher, cansada das minhas contínuas ausências. Sempre me evitando. Distante. Gente, até os financiamentos bancários apareceram, um seguido do outro”, lembrou.


Aquela garota de programa oferecia uma espécie de paraíso fiscal do prazer, mas ele ficara tão deprimido que nada o faria seguir adiante. Não naquela hora. Vestiu as calças, pagou o que devia, e agradeceu por abrir-lhe os olhos. Agora sabia o que deveria fazer.


No ano seguinte, eu o encontrei em mais uma edição da Expointer. Tinha uma aparência remoçada. Me disse que colocara os filhos a cuidar dos negócios, ele  gerenciando, é claro. Ainda convencera a esposa a uma separação amigável e, agora, ambos  desfrutavam a vida pagando um preço justo pela liberdade, ou quase.


Toda essa revolução foi iniciada em uma feira de agronegócio que não é qualquer uma, É a Expointer, a maior entre as maiores. E que doidamente acontece em Esteio, cidade sem zona rural.  Mas é de lá que saem as rosetas - ou escarapelas - aos campeões e reservados de grande campeões. Eu já conquistei a  minha. Sem sustos!

domingo, 27 de agosto de 2023

Afogada em Aflição e seu marido gentil

 Preservar a fonte é  o mínimo que posso fazer. Como você, leitora aqui no Facebook, agiria caso o namorado tudo de bom - apaixonadíssimo - sofresse de uma brutal dificuldade em desvencilhar-se de ex-namoradas, ou pior, mulheres do tipo “se-você-estiver-afim- também-estou”. A amiga que me confidenciou sua angústia amorosa, vou apelidar aqui, jocosamente, de “Afogada em Aflição” (bem ao estilo das cartas-resposta dos antigos conselheiros sentimentais).

Ela acredita na fidelidade do moço. Mesmo assim, não suporta vê-lo gentil e aveludado com, por exemplo, a ex-patroa inconformada com a perda “de um funcionário tão competente, tão eficiente e bla, bla blá” para outra empresa. A megera liga mensalmente com a desculpa de pedir conselhos, dicas profissionais. 

Saem para almoçar e o tema, jura o namorado de “Afogada em Aflição", se resume aos intrincados processos que “somente ele poderia resolver”. Ao final de cada encontro, a bandida ainda diz que o deseja de volta ao escritório.

Tem também aquela amiga, empresária do setor do vestuário que mora na Serra. Inteligente, foi parceira dele nas horas difíceis. Tão solidária que, certa vez, chegou ao extremo de “presentear” o rapaz com preservativos em cores e sabores exóticos. Ele recusou, reclamou que não misturava as coisas. Não poderia levar a um motel uma grande amiga, argumentou. 

Outra, bem mais madura, ofereceu um apartamento que “afinal de contas estava desocupado”. Assim poderiam ter mais “intimidade”. Ele se irritou, reclamou e acabou aceitando um lacrimejante  pedido de desculpas. Manteve a amizade, afinal, gente influente sempre pode ajudar na conquista de clientes.

Na verdade, ao conhecer “Afogada em Aflição” os contatos do rapaz com as amigas diminuíram. O namoro vai bem. Mas os almoços, as longas ligações com a ex-patroa continuam firmes. Aquelas de perfil sedutor quando se aquietam o deixam saudoso, como se as houvesse maltratado. Manda cartões em datas especiais, troca mensagens. Diz que são importantes, cada uma à sua maneira, e sem nenhuma maldade.

Vocês leitoras, como agiriam? Aceitariam? “Afogada em Aflição” tenta racionalizar. Lembra a infância difícil do namorado. O relacionamento com a mãe não era dos melhores. Levava surras sem justificativa. Era tratado com desprezo. Pouco antes da morte dela, haviam se reconciliado. Mas as marcas permaneceram. 

Talvez por isso não consiga livrar-se de relações que, de alguma forma, o levam à fantasias de intimidade quase uterina, sei lá. Só Freud para explicar. As mulheres percebem e provocam – se fazem ora maternais, ora sedutoras.

A gota d’água, aquela que encheu o pote de inconformidade de Afogada em Aflição aconteceu na semana passada. Ele sonhou - e revelou a namorada -  que tivera um affair com a atual chefe. Andavam de mãos dadas! Detalhe: ele jamais dá a mão em público. Diz que é brega. 

A nova patroa – por sua vez - é uma mulher forte, dominadora. Ao contrário da anterior, não valoriza almoços de confraternização com funcionários. Ele até se esforça para ser merecedor de reconhecimento e algum tipo de carinho. E nada! Quer ser talvez o funcionário especial, o mais querido. 

“Afogada em Aflição” sofre em meio a tudo isso. Bem que gostaria de alguém só seu. Será que ambos não poderiam ter amigos em comum, como um casal normal? Sem misturas explosivas de sensuais segundas intenções? Os ex-namorados dele, os candidatos a amantes ficaram no passado. 

Por que então, escolher um cara tão servil às mulheres? O que dizer a ela? O máximo que consegui foi uma citação maravilhosa de minha amiga, Eliane Iensen: “A vida não é um moranguinho”. E mesmo que o fosse, morangos mofam rápido demais. E sugeri que mantivesse a estima em alta e seguisse seu investimento na relação. 

Mas guardasse, bem à mão, um bilhete de ida sem volta para o caso das amigas deste namorado complicado, vencerem no assédio. Amor coletivo é como andar de ônibus na hora de maior movimento. Muito suor, muito aperto e conforto que é bom, nenhum. Qualquer coisa, desça na próxima parada.


Paz, amor e uma rajada de balas

Cá estou eu abraçado ao iniciante setembro, torcendo para que alguma boa notícia afronte a sofrida rotina pela sobrevivência. Os últimos dias registraram tristes assassinatos de crianças e outros crimes hediondos. Enquanto escrevo esse artigo, atendo o celular e uma voz simpática me garante um cartão de crédito pré-aprovado. E com direito a empréstimo, desde que eu lhe informe senhas e outros “detalhes”. É claro, mandei o golpista passear em outro inferno, me deixar em paz, aqui neste purgatório terreno.

Em seguida retomei a rotina, assim, igual a de tantos outros. Muitos, escravos de sua própria rede social, de conceitos digitais raramente aplicáveis à vida real. A marginalidade ronda, ocupa todos os espaços possíveis. Usam de tudo, religião, dinheiro fácil em duvidosas vantagens financeiras a trabalhadores feito eu. Um pouco mais de ética e conhecimento está nos faltando. 

Vivemos em um Brasil com ares de modernidade, terceira nação que mais consome o mundo virtual. São 130 milhões de cidadãos nos aplicativos enquanto a bandidagem nos rende nas esquinas. Tenho a sensação que nos isolamos entre postagens bacanas e fantasiosas no WhatsApp, Instagram e Facebook, entre outros.

Somos nossos próprios diretores de arte em fotos ou pautas prontas. Os temas aparentemente difíceis, ganham soluções fáceis.  Mas qual é a nossa efetiva postura no combate a esses crimes não virtuais? Mais educação e menos games de celular?  Quem sabe não teríamos respostas ponderadas ao que nos atordoa. Por enquanto, filtro tudo o que ouço ou leio. E não bebo para esquecer.

Quando vejo a juventude a levantar símbolos de ódio me parece que tudo é apenas uma repetição enfadonha do passado. Lições não aprendidas levam aos mesmos protestos de antes, discursos alinhados em ideologias que pouco ou nenhum benefício trouxeram.

Não quero deixar a existência como aquele sujeito perdido na descrença. As crianças continuarão – muitas delas – como vítimas nesses vácuos de satisfação instantânea. A próxima fase do jogo pode ser a última, sem direito a vida extra. Isso vale para qualquer um, seja nascido em berço esplêndido ou na mais profunda miséria.

Temos pouco mais de cem dias antes do período natalino. E até lá, mesmo com todo filme água com açúcar, toda campanha publicitária, compaixão continuará uma virtude de fracos, caso não façamos nada efetivamente verdadeiro.

Tudo pode ser melhor, mais equilibrado, desde que aceitemos a palavra desenvolvimento, como a evolução do que preservamos e nos permite crescer como um todo, respeitando singelos, mas definitivos princípios éticos. A guerra não é apenas entre Rússia e Ucrânia, ou entre facções do tráfico. Envolve cada um de nós, sobreviventes destes absurdos cotidianos.

Educação não é nada, sem apego à condição humana em sua essência, aos princípios básicos de tolerância às semelhanças e dissemelhanças. Nunca, em nenhum momento, perder o senso crítico que cimenta o verdadeiro conhecimento e vai muito além das redes sociais, dos acordos embriagados de botecos, ou das altas cúpulas do poder que sacia sua fome, nas incertezas de gerações contraditórias e egoístas. Paz e amor?

 Alguém aí, por favor, dê uma sacudida no menestrel do óbvio.