segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Lá onde mora o pecado


Foram apenas cinco dias na praia. Entre sol e chuva, retornaram com aquela cor de mandiopã (!) frito. Só a mulher e os dois filhos. O pai, por extrema dedicação ao trabalho, permanecera em casa – naquele branco azedo típico de quem compensa a frustração com cerveja e televisão em excesso. O choque epidérmico foi inevitável. Acharam que ele estava doente. “Viu? Ficou aqui, longe da família, sem alimentar-se direito e agora está aí, com essa cara de bicho sarnento”, lascou a patroa, sem piedade, abraçada ao fofo e saudoso cachorrinho. 


Resmungou, porque é da natureza dele a rabugice, “Sol demais provoca danos irreversíveis a pele. Aliás, pensei que estivessem com saudades. Mas tudo bem, apesar de ter trabalhado o dia inteiro, vai ter churrasco.” A gurizada, pouca atenção deu aos queixumes paternos. Estavam habituados, assim como já sabiam que os coroas se implicavam muito, mas se divertiam mais na hora de fazer as pazes. O resto eram carências mal resolvidas que o tempo, forçosamente cicatriza. Mesmo assim, tivera mais um veraneio sem a família.


Os amigos maldosos diziam que ele planejava cair na noite. E citavam aquele filme antigo, o “Pecado Mora ao Lado” (1955), do genial diretor Billy Wilder, que conta a história de Richard Sherman (Tom Ewell), um editor de livros que se sente "solteiro" quando a mulher (Evelyn Keyes) e o filho (Burch Bernard) viajam em férias. E fica cheio de ideias quando surge uma bela e sensual vizinha interpretada por Marilyn Monroe. É deste filme a famosa cena da loira platinada refrescando as bem torneadas pernas na saída de ar de um exaustor. Quem não ainda não assistiu, por favor! Busque no streming mais próximo.


Wilder mostrava, lá nos anos 50, a fantasia recorrente no universo masculino: a volta aos tempos de solteiro. Liberdade! Sozinhos, muitos machos da espécie, sonham transformar-se em predadores. Mas lhes faltam garras e parceiros. Todos os amigos estão enjaulados, ou melhor, casados. No segundo dia solitários, deprimem-se em casa. Abrem antigos álbuns de fotos, sentem falta do cotidiano, que é repetitivo, mas agitado. E percebem que aquela rotina lhes dá uma reconfortante sensação de utilidade.


Assim, meu nada irreal personagem decidiu que no próximo ano, levará a turma a um passeio inesquecível. Seja qual for a proposta: Floripa, Balneário Pinhal ou Acapulco. Se é um bom profissional no trabalho, será igualmente um parceiro organizado para dividir compromisso e lazer. E já avisou: retornará igual a um mandiopã tostado, sabor camarão, com certeza.


OBS: Os jovens leitores não sabem o que é Mandiopã? É o pai brasileiro dos salgadinhos de hoje. Lançado no tempo em que os "chips" ainda não existiam, precisava ser frito – em óleo. Hoje, temos centenas de marcas, tipos e sabores. Eles vem prontos, menos engraxados, mas cheios de sódio e gordura trans. Mas ainda existe o velho mandiopã – fabricado em Limeira (SP), por Antônio Gomercindo, segundo dono da fábrica e que nunca contou o segredo da receita, lá dos anos 30. E provem, com parcimônia, sem medo do pecado. Estou me referindo ao salgadinho, guris.  


 


Astrologia ou astronomia?


 Astros, cartas e búzios. Minha amiga Ana Maria confere tudo. “Chega! O ano passado foi horrível, quero uma chance a partir de janeiro”, exige, afirmando que a previsão é de um 2024 perfeito às coisas de amor.

Pensei em comentar, mas achei melhor o silêncio respeitoso e um tanto cúmplice, afinal tive também que enfrentar algumas barras pesadas nos 365 dias encerrados. Mas não sou de ficar contando conjunções de estrelas para antecipar bem-aventuranças ou desgraças.

O que eu sei, e isso é científico, é que o novo ano estará repleto de fenômenos astronômicos. E nisso se incluem 12 chuvas de meteoros, conjunções planetárias, dois eclipses lunares e dois solares, além de superluas que tentarei fotografar (não com celular, pois fracassei na vez anterior). 

Mas Ana Maria (que detesta seu nome composto), já me disse que eu devia confiar na energia dos astros e suas mensagens. O problema é que um ceticismo estratosférico me distancia dessa visão empírica sobre a ação dos corpos celestes em seres vivos, objetos animados ou inanimados. “Tens muita sensibilidade, muitas vezes previstes coisas que impressionaram”, contra-argumentou ela. 

Lembro que, na verdade, apenas agi de forma racional, quase científica. Estou longe de ser, por exemplo, um João Chrysostomo, o astrólogo que previu um vitorioso no Big Brother Brasil (BBB).

Mas como minha amiga é sagitariana, acreditou nas previsões e diz que está com sorte. Viverá, quem sabe, um tempo de descobertas amorosas. Graças, segundo ela, a influência de Júpiter, aquele planeta semelhante a um pirulito Chupa Chups (com listras brancas e rosa) que vai reger nesse 2024.

Ela torce por novas aventuras românticas e, na semana passada a vi, com olhar bem apaixonado, em um café, com um sujeito que conheço bem, ou seja, é do tipo não aconselhável a abrir-se muito além dos botões da blusa. Mas aí lá vem Ana Maria com suas teorias astrológicas disposta a rasgar-se para explorar novas possibilidades afetivas.

Confesso que fui ler o que os astros me diziam para os próximos meses. E lá está o óbvio, muito além do que é previsto em nosso signo solar e ascendente, precisaremos dos mesmos sentimentos de luta, respeito ao próximo e equilíbrio. É o que dizem.

E se eu fosse astrônomo rezaria para que os humanos poluíssem menos – chega de satélites abandonados, vôos frustrados a Lua e lixo no espaço. Assim poderemos, à moda Copérnico, observar melhor os astros. 

 É a forma correta de sermos regentes de nossos próprios humores, amores e destinos (olha a astrologia aí). Com isso, 2024 será definitivamente, um verdadeiro ano de mudanças, entre estrelas e planetas. Acreditem, é a minha previsão.

sábado, 20 de janeiro de 2024

Aqui e ali, entre mortos vivos

Acordei e meu quarto estava repleto de fantasmas. Eles riam, procuravam conversar, mas suas vozes eram um eco perdido entre quatro paredes. Minhas mãos estavam ocupadas em abraçar o fino tecido que os cobria. Esquálidos, um véu leve nos distanciava, mas eu não os alcançava. Tantos anos, tantas rotas não compartilhadas. Um encontro repentino não nos atualizaria as rotinas, fossem boas ou más. A vida de cada um tem seu preço e a independência é um caminho longo e tortuoso. As realizações, os fracassos disputam, lado a lado, um espaço fixo na agenda da sobrevivência.


Mas um dia, cedo ou tarde, as forças se perdem em uma vontade de repouso, de mais paisagens e menos estatísticas. E aqueles que levaram tudo na farra de uma falsa auto determinação se encontram com os que se excederam ou relaxaram nos compromissos cotidianos. Esgotaram todo o gás. Estão caídos e não lembram ninguém que lhes reponha a energia. Isso não existe, descobriram tardiamente. A vida agora está entre um passeio a Disney, Europa ou ao tratamento quimioterápico que lhes queimou o que restava de cabelos e independência.


Parece que foi ontem aquele baile de formatura, o chopp no boteco próximo a faculdade. Lá se juravam parcerias eternas. E hoje, o para sempre parece uma mala fechada por compromissos gerados em teses de doutorado, ou empregos sem nenhuma garantia. Ah! E mais os custos de pix para isso, aquilo, além do outro que te implorou uma ajuda única que se repete todo o mês.


Os músculos cansaram, a memória se foi e o verão é só calor e o inverno, um frio de cobertores furados. Outono e primavera são netos que te acham um cara legal se não lhes faltar atenção. O amor tem seu preço e quem puder, que pague sem juros. É possível!


Aí, pouco antes de finalizar esse texto, um dos meus fantasmas mais divertidos, bate na janela para filosofar que amargura não compensa se a vida for vivida entre culpas e desculpas. Errar é um passo para o acerto e o correto pode ser ótimo para todos que te seguem no cotidiano, mas uma droga para ti, que ainda não se deu conta que os espíritos se auto determinam.


Sim, eles decidem, quando e como irão te pressionar para acompanhá-los em mais uma aventura. Igual aquelas nos dias de infância, só que desta vez, para sempre entre nuvens, ou montanhas de grama fresca. Será o momento único de não temer fantasmas, mas se integrar a eles. Sem medo de cruzar paredes ou janelas eternamente fechadas.