segunda-feira, 29 de maio de 2023

Frio e namoro em dias de casais maduros



Renato abriu mais uma garrafa de vinho - melhor alternativa para enfrentar o frio úmido de junho,­ às vésperas do Dia dos Namorados. Laura, riu. Decididamente iria permanecer mais uns minutos ali. Sentia-se confortável e, embora soubesse da má vontade de veterano jornalista com a possibilidade de uma aventura amorosa, fantasiou a possibilidade de utilização daquele “corpo estranho” por um par de horas e depois liberá-lo. 

Dispensava telefonemas, declarações repetitivas - mesmo sinceras - nas redes sociais ou flores, sim as rosas que tanto amava. Afinal, não seria essa liberdade, esse deliberado esquecimento, o sonho da maioria dos homens? perguntou aos botões da blusa que, a exemplo daqueles cantados na música de Roberto Carlos, mostravam-se dispostos a abrir-se em mil possibilidades.

Ele estranhou o olhar pensativo da moça e, querendo fugir do tema trabalho - estavam ali produzindo textos para o livro de um cliente - pateticamente passou a reclamar da inconstância do tempo. Será que vai chover? Laura provocou: “Você escreve sobre meteorologia? Ou é falta de assunto mesmo? Que tal falarmos sobre namoro inventado?” 

Esquivou-se. Estava velho demais para romances. “Sou um quase idoso voltado às coisas práticas. Trabalho, comida boa e viagens, Isso quando tempo e dinheiro entram em conjunção astral. Relacionamentos exigem dedicação, o que não estou podendo oferecer”, disse com o ar solene de quem esquarteja segundas intenções. Laura abriu o celular  e passou a ler trechos de um texto perdido em suas pesquisas. Nele o autor definia o amor como um imenso deserto.

“Quem vive sob seus domínios deve enfrentar o sol escaldante, as tempestades de areia e o frio de tantas noites solitárias até merecer o oásis do bem viver a dois. O amante prevenido guarda no coração o beijo que sacia a fome da paixão e tatua em sua pele o cheiro, as mãos nervosas que cumprem o percurso do prazer. Transforma a aspereza e o uivo desértico em música, hino de uma nação a ser conquistada a cada novo dia". 

"E assim, corpo e alma consagrados a um sentimento único, retomam, em paz, a jornada do cotidiano e suas obrigações” citou Laura, surpreendendo Renato. "A vida faz do amor, uma eterna jornada por estas areias escaldantes. Tem o vendaval do dia-a-dia, o bafo morno da rotina, a sacudida das crises, das pequenas traições, das juras secretas que se transformaram em eco diante de um abismo de rancor e dívidas.  

"Quantas vezes amor me tens ferido! Quantas vezes, , razão, me tens curado, escreveu Bocage". Mas será que vale a pena esta cura? questionou Renato, enquanto acompanhava os movimentos de Laura, já com as bochechas coradas pelo vinho, a cerrar as cortinas da sacada. Lá em baixo, a cidade reduzia seu movimento, alguns faróis ainda varriam as avenidas que escondem sombras, infelizmente, perigosas. 

Renato perguntou se ela queria chamar um táxi. Laura, de volta à sala respondeu - decidida - que ficaria por ali e não dormiria no sofá. Encerrava-se a discussão. Estava confirmado com a proposta de improvisar uma paixão, mesmo que de mentira, um pouco antes do tal Dia dos Namorados. O trabalho ficaria para um pouco mais tarde.  

Uma sirene da ambulância ecoou sua angústia na avenida. Mas os suspiros emitidos naquele antigo apartamento, no centro da capital gaúcha, sinalizavam a certeza de que toda relação amorosa ainda é um eficiente curativo, goste ou não Bocage. E abençoados sejam aqueles que ainda não desistiram e buscam seu pequeno oásis nos desertos do paixão.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

A mansão dos ratos psicanalíticos

Era um antigo casarão típico das famílias uruguaias em décadas passadas de maior riqueza. O estilo clássico, o interior de peças amplas  e móveis de madeira maciça formavam um conjunto imponente e acolhedor. As portas imensas abriam-se para a sala de jantar e um gracioso jardim de inverno. Em outra extremidade, o escritório com paredes forradas em couro. Mais adiante, a biblioteca. Que espaço magnífico!

Os livros exploravam os limites do teto e da imaginação. Centenas de publicações organizadamente catalogadas. Romances, bibliografias, enciclopédias, dicionários e almanaques centenários. Milhares de palavras transformando as estantes em tesouros de conhecimento.  


Estrategicamente disposta junto a janela, uma poltrona de veludo verde musgo convidava a leitura. Ela simplesmente não acreditava naquele momento perfeito. E mais impressionante ainda a casa fora comprada pelo marido. Porque o Uruguai? Talvez a identidade cultural com o pequeno e simpático país vizinho.


Fazia planos de pequenas alterações, onde colocar mais quadros e esculturas e, foi assim que percebeu uma estranha movimentação atrás de um móvel. Era um rato! Nem teve tempo de gritar, de repente outras tantas ratazanas surgiam entre frestas e cortinas. Tão habituados estavam com a casa que sequer fugiam das pessoas. Assustada passou a calcular quanto gastaria para eliminar aqueles detestáveis inquilinos.


Tudo em sua vida sempre exigia mais trabalho. Não conseguiria concentrar-se em nada mais. Marido, móveis e decoração, apenas naqueles roedores que surgiam de todos os cantos. Assustada correu em direção a porta e, neste momento, um som estridente, muito alto, a assustou.


Eram 6h30min de sábado! Ela acordava de um sonho que se transformara em  pesadelo. Tudo parecia real demais. Existiria aquela residência, em alguma discreta cidade do interior uruguaio? O marido, é claro, ironizou, ao afirmar que até em sonhos presenteava coisas lindas que, no fundo, carregavam problemas que ela sempre corrigia. 


Ela evitou uma avaliação psicanalítica do sonho. Os ratos saindo de porões e armários. Preferiu a opinião de uma amiga de que ratos, por proliferarem rapidamente, deveriam significar dinheiro. E a tal casa, quem sabe não seria aqui mesmo no Brasil, em uma cidade do interior, onde ambos pudessem alternar com o apartamento na cidade? À noite, voltou a dormir e desta vez não sonhou com casas ou ratos. 


O marido não pregou o olho. Será que tudo que entregara até agora no relacionamento fora carregado de imaginários bichos nojentos como os tais ratos do sonho? Ela seria a faxineira dos projetos que tentavam dividir? Quem sabe por isso estaria extenuada e distante. A proposta de uma vida saudável a dois ficaria como? Estavam próximos de uma aposentadoria. 


Buscou alguma literatura, tinha em casa uma antiga  Deprimido, somente dormiu ali mesmo, no sofá, após algumas taças de vinho ou correr a biblioteca. Não confiava nas pesquisas da internet. Na estante encontrou o "Livro dos Sonhos", publicação da Folha de São Paulo. Hum! Leu, achou genérico e resolveu voltar a soneca. E aí voltaram os sonhos. Viajava em um confortável ônibus de turismo e, da janela, avistava  um ensolarado deserto. 


Olhou para trás e percebeu centenas de ratazanas mortas na estrada. Acordou suando. A boca seca exigia água e uma ducha refrescante. Voltou à sala onde a TV ligada, lhe oferecia uma antiga comédia romântica que o permitiu afastar questionamentos. E de olhos bem abertos, tentou escapar de antigas culpas,  ocultando aqueles bichos escrotos, atores nos sonhos de um casal !que tinha problemas. Ora quem não os tem”, relativizou.


terça-feira, 16 de maio de 2023

Amor sem obsessão, por favor!


Chegou em casa e viu o pandemônio à sua volta. Cortinas rasgadas, poltronas meladas por ovos espatifados. Na cozinha, pratos e copos quebrados amontoavam-se entre panelas furadas a pontaços de faca. Inacreditável! Desacorçoado dirigiu-se ao quarto onde, surpresa! Não havia mais cama. O colchão transformara-se em peneira de espumas. Meu Deus! Ela havia enlouquecido. O violão, velho parceiro, jazia em um canto, partido ao meio em sua alma de madeira nobre.


Conhecera a namorada através de um destes aplicativos de bate-papo. “Ela era espirituosa, apaixonada”, conta. Em prazo recorde, juntaram as trouxinhas. Tudo sempre tem pode carregar uma urgência perigosa, a partir destes espaços de sinceridade digital. Tem senha para entrar. E a saída?

Quando o calor da pele e as sensações viram o fio dos sentidos, a coisa toda pode sofrer uma súbita e inesperada troca de máscaras. Tipo algo pré digital, como no teatro da antiga Grécia, onde a embriaguez levava a uma dança estonteante, permitindo aos atores escaparem do moderado e, em êxtase, revelar seu verdadeiro eu.

Músico profissional, viaja muito e passa longas horas em ensaios. Ela aceitou a rotina até descobrir que na banda, havia uma vocalista muito afinada. E extremamente sexy. Aflorou um ciúme possessivo, doentio. No melhor estilo tipo filme de terror. Lembram Louca Obsessão, de Stephen King, adaptado pelo diretor Rob Reiner?

O lado obscuro e malvado daquela moça, até então, era só fogo e paixão, agora lembrava a personagem de Kathy  Bates. O universo das redes sociais, permite citações estudadas e uma realidade paradisíaca. Esconde, muitas vezes, o verdadeiro eu dos protagonistas.

Apenas depois do incidente soube que sua amante virtual sofria de profundas crises depressivas. Os avós da moça. que a criaram, gente de boa índole, imploraram para não levar o caso à polícia. Assumiram os prejuízos.

Aceitou desde que tivesse a chave do apartamento de volta. Aliás. trocou as fechaduras. Sim, eu concordo, relacionamentos digitais podem dar certo. Temos o Tinder, o Badoo e outros com suas pequenas mentiras em filtros e frases copiadas de outros. Isso é bem aceitável. 

Mas algumas etapas presenciais precisam ser repetidas. Vai que que outra doida, ou um maluco machista, predador de mulheres, surja logo após os primeiros beijos. "Olho no olho, depois das visões nas telas dos celulares, é fundamental antes de iniciar-se uma vida a dois" ensina esse meu amigo que, atualmente, vive no litoral catarinense. 

Os solos de guitarra ele os entrega sem restrições. Mas as parcerias românticas, quem sabe, só depois de muito ensaio. Vá que desafine logo adiante.

Apressados na cidade da ânsia

 

Havia uma cidade onde todos tinham muita pressa. Levantavam uma hora antes, afobados. Tomavam café às pressas, vestiam as crianças em segundos e lhes alimentavam de um desjejum instantâneo, sem sabor, porque saborear exige tempo. Em seguida, estavam na porta da casa, do ônibus escolar ou na recepção da creche. Mãos nervosas a acenar beijos tensos. Precisavam estar à frente, antecipar-se ao engarrafamento, evitar as filas. Porque tinham de estar lá, precisamente na hora certa ou, muito melhor, alguns bons minutos antecipados. 

Assim, corriam para pegar o ônibus, ou abrir a garagem e antecipar segundos, buscar um desvio, escapar do sinal fechado. Avançavam faixas de pedestres, cometiam deslizes, em nome do compromisso, esqueciam os bons modos e reclamavam de quem lhes atrapalhava o ritmo. Se havia fila, davam um jeito de furá-la. Que feio!

Esta cidade sofria com altos índices de intolerância. Todos chegavam praticamente juntos para disputar os espaços, cada vez menores, no ônibus, no trem ou nos pontos dos táxis, onde motoristas neuróticos odiavam os roteiros em vias congestionadas. Mas lá, existiam apenas avenidas modernas, entupidas de gente e veículos. De todos os tipos, modelos ou cores. Sempre a mil. 

No trabalho, lutavam por mesas, computadores, telefones e cargos que acelerassem seus processos. A ânsia de poder, não os permitia perder tempo para o questionamento abstrato, que de uma maneira ou outra, poderia encaminhar soluções menos sofridas. Mas a vida naquela cidade era para ser rápida feito seus lanches, seus cafés em pó e sua fugaz alegria.

Eles riam nos bares, ao final do expediente. Misturavam bebidas e energético para acelerar o prazer como quem busca recompensa por uma missão que não se definiu ainda o sentido. Voltavam para casa dispostos a dormir o quanto antes e assim, no caminho, não percebiam a cidade aflita por uma noite sem sirenes, ou mortes gratuitas. 

Apenas uma noite para sonhar. Mas sonhos não eram mais permitidos, porque lhes obrigariam a pensar, interpretar as mensagens de seus subconscientes. Então, tomavam pílulas para dormir e, ao acordar, pílulas para lhes bloquear o apetite, pílulas para motivar na repetição rotineira da pressa.

Lembro que no dia em que parti desta cidade funesta. se formara um grande congestionamento nas principais vias. Todos, exceto alguns poucos excluídos, haviam se deslocado exatamente na mesma hora. Haviam caminhado os mesmos passos afobados, percorrido as mesmas ruas, na mesma louca velocidade e, desafortunadamente, cometido as mesmas pequenas contravenções para chegarem, é claro, antes.

Assim, de uma forma inédita trancaram ruas, calçadas, elevadores e todos os espaços públicos possíveis. Ainda consegui ver a minoria lenta circulando por vias alternativas. Evitavam assim a neurose dos semáforos de três estágios, a zanga dos que jogavam - uns contra os outros seus para-choques e frustrações. Escapavam da fobia dos que não sabiam admitir que, às vezes, mudar o rumo evita um grande problema e cria uma nova alternativa. 

A cidade de uma hora para outra, estava entupida de gente afobada. Do tipo que não conseguia desligar. Que pensava na aposentadoria que viria um dia, ou no final de semana que passaria rápido demais, entre o shopping, o cinema e quem sabe um pouco de amor, eterno, dentro de alguns minutos. As buzinas soavam como somente o coral do desatino poderia soar: aos berros. 

Os gritos, os desaforos e as ambulâncias misturavam-se em outros tons, sem saber a quem  socorrer. Era um engarrafamento monstro de ansiedade bruta. De monolítica ignorância entre tantos cidadãos com diplomas, títulos de nobreza e uma não declarada vontade de sumir o mais rápido possível.

A minoria lenta seguiu pacientemente a desviar dos grandes corredores, das perimetrais e túneis que a cidade grande construía para causar uma falsa sensação de agilidade, de leveza urbana e trancar tudo metros adiante, em seus funis de concreto. 

E foi assim que esta destemida minoria lenta chegou lá. Ainda a tempo de bater o ponto sem angústia. Aproveitar o aroma gostoso do café recém-coado e observar, da janela, o movimento das pessoas nas calçadas, desta vez, cada um a seu ritmo, com um toque inédito de civilidade e paz. Pontuais, como sempre poderiam estar.

Às melhores mães do mundo

 Comprou um presente pra mamãe? Se ela tem tudo, faltam opções criativas, se não tem muito, também rareiam os recursos para presenteá-la. Mas ela mesma te disse que não queria nada, não é? A presença do filho ou um telefonema saudoso bastam. E o almoço, será na sogra? Sim, sogra também é mãe. Inacreditável, mas verdadeiro. Quem sabe muitos enfrentarão as longas filas dos restaurantes.

E na corrida, nem poderão reclamarar do galeto servido quase cacarejando de tão cru ou do churrasco, invariavelmente tostado demais. Os garçons que também tem mãe, não sabem como atender tanta gente. 

Os filhos mais caras-de-pau colocarão, quem sabe, as homenageadas na cozinha, ou prepararão, eles próprios, algum prato especial. Elas confessarão ter adorado a lembrança e a filharada custará a crer que dizem a verdade. Até porque, comida boa quem faz são elas mesmas. O resto é bobagem.

Mãe! Três letras que agregam um universo de sentimentos puros e intermináveis campanhas publicitárias que vendem um mundo cor-de-rosa, parcelado em prestações nos cartões ou pix.

 Tantos poemas a decorar, tantas crônicas sensíveis, o Facebook será das melhores mães do mundo e tudo isso leva todos nós, bons filhos, a mantermos lacradas as gavetas da consciência onde mofam sentimentos confusos e contraditórios. 

Lá estão as culpas dos meninos maus e das meninas sapecas. Mesmo os rebentos próximos da terceira idade, na maioria das vezes não ousam tirar os babeiros temendo o julgamento materno.

 “Eu não fui o doutor que ela sonhava” ou “Nunca a visitei como devia”. Culpas freudianas pululam! Alguém aí do outro lado da tela, ainda duvida que é desta culpa original que se fundamenta a psicanálise? 

Quantos experimentam o alívio de estresses afetivos em cronometrados e caríssimos minutos no divã? Pagam para abrir as gavetas emperradas por anos de lágrimas incontidas presas a ferrugem escura do rancor.

 “Mamãe não me entendia...” Tanta mágoa disfarçada de maturidade; tanto trauma transformado em transtorno compulsivo.  Vasculhamos nossas vidas até chegarmos ao berço onde tudo se originou. 

E quando o embalamos cheios de auto-piedade nos damos conta de que o bebê que estamos a ninar em nossa regressão tem a cara de nossas mães. Evoluiu quem percebe que entrar em conflito com o útero onde foi gerado é brigar consigo mesmo. 

Toda mãe faz de qualquer um, seja um doutor ou iletrado, mais do que o filho querido, um ser especial e único. Feliz desde que aceite o amor materno que também tem limitações e enganos, ora! O colo da mãe será sempre seu último refúgio, mesmo quando dizem ser tarde demais.

Afinal, neste universo materno, não existe o bem, o mal, ou tempo,  vida e morte. Existe sim o filho, único e absoluto, síntese e essência de sua existência. Com ou sem culpa.

Aos que namoram na filosofia

 

Uma taça de vinho, um pote com frutas picadas e chocolate em lascas. Sentia o inverno a encobrir o outono e imaginou que assim enfrentaria melhor o frio. Abriu as janelas, o sol nosso de cada dia seria mais raro a partir de agora. Precisava aproveitar todas as horas de luz. Lá vinha aquele sentimento amargo-doce, igual aos petiscos na mesa que dividiam espaço com um vaso sem flores. Volta e meia percebia uma leve melancolia. Aí ligava para as amigas. Queria assunto. Sempre alguém sugere algum tipo de programa, em alguma cidadezinha na Serra ou shopping em Porto Alegre.

Mas nesses períodos preferia fugir da óbvia rotina das estações. Um amigo lhe havia sugerido um curso, online e gratuito, com abordagem metafísica que a distrairia com especulações filosóficas, “vais compreender melhor o relógio existencial que aparentemente trava o tempo em dias frios”, empolgava-se o amigo. 

Na verdade,  o que realmente a incomodava nessa época de roupas, pães e caldos era recordar o marido. Ambos amavam uma sopinha de capeletti enquanto assistiam alguma série na TV, para depois, incentivados pelo vinho, abrir algum tipo de discussão filosófica que, fatalmente era selada com beijos. Por exemplo, contestavam as ideias do pensador alemão  Arthur Schopenhauer que, em seu pessimismo, reduzia o ser humano aos mais básicos instintos.

Mas infelizmente, seu parceiro morrera em um estúpido acidente de trânsito. Não tiveram filhos e as memórias eram suas únicas parceiras nessas horas. Lembrava aquela tarde fatal. Descera do carro, segundos antes, para assistir a uma camionete desgovernada, dirigida por um motorista embriagado, encurtar sua melhor experiência de vida a dois. Haviam se passado cinco anos. E somente agora sentia-se atraída por alguém. 

Foi algo assim, sem intenção. Ela pedira um café expresso e lhe serviram um cremoso capuccino. Na mesa ao lado, um senhor recebia o seu expresso. Desfeita a confusão, foi elogiada por estar lendo poesia em pleno século 21. A conversa durou alguns minutos ali, outros tantos, via whattsapp e, nos dias seguintes, alguma prosa em cafeterias. Nesses tímidos e fracionados encontros, souberam o suficiente sobre suas vidas para afastar qualquer risco. 

Solitários, ele com filhos, ela com lembranças. Equilibrados, bem resolvidos e quem sabe prontos para algo novo. Mesmo assim, fazia já uma semana que não atendia as ligações dele. E o medo de uma nova trágica perda? Estava satisfeita, ou melhor, conformada com seu destino. No frio, um bom edredom lhe aquecia o corpo. Ponto final! Mas ao levar a taça aos lábios – para o primeiro gole do vinho citado na abertura deste texto – ouviu o toque curto na campainha. 

Não esperava ninguém muito menos ele que, mesmo assim, educadamente, pediu para entrar. A sala do pequeno apartamento, em tons pastéis, reduziu-se a uma concha apertadinha depois daquele primeiro beijo macio, mas intenso. Às suas costas ouviu o ruído de papel celofane amassando-se. Enquanto a abraçava colocava, com rara habilidade, um botão vermelho de rosa naquele vaso solitário, aliás, presente do falecido esposo. 

Naquele final de semana, não teve passeio com as amigas, nem qualquer proposição metafísica. Até Aristóteles concordaria que a relação entre mente e matéria, estava muito bem resolvida a partir daquele momento. No sábado seguinte, houve o anúncio oficial do namoro. Que festejou o amargo-doce outonal, sem questionar o certo ou errado, ou os fundamentos filosóficos da realidade em que vivia. 

O rabugento  Schopenhauer afirmava, com desdém, que o amor era a compensação da morte. E pela  primeira vez, ela concordava com a frase que, em seu caso, ganhava novo sentido, ao ilustrar a situação única que passava a viver. Sem urgência, ou angústia. Apenas um bálsamo de afeto para durar o tempo que fosse necessário.