Dispensava telefonemas, declarações repetitivas - mesmo sinceras - nas redes sociais ou flores, sim as rosas que tanto amava. Afinal, não seria essa liberdade, esse deliberado esquecimento, o sonho da maioria dos homens? perguntou aos botões da blusa que, a exemplo daqueles cantados na música de Roberto Carlos, mostravam-se dispostos a abrir-se em mil possibilidades.
Ele estranhou o olhar pensativo da moça e, querendo fugir do tema trabalho - estavam ali produzindo textos para o livro de um cliente - pateticamente passou a reclamar da inconstância do tempo. Será que vai chover? Laura provocou: “Você escreve sobre meteorologia? Ou é falta de assunto mesmo? Que tal falarmos sobre namoro inventado?”
Esquivou-se. Estava velho demais para romances. “Sou um quase idoso voltado às coisas práticas. Trabalho, comida boa e viagens, Isso quando tempo e dinheiro entram em conjunção astral. Relacionamentos exigem dedicação, o que não estou podendo oferecer”, disse com o ar solene de quem esquarteja segundas intenções. Laura abriu o celular e passou a ler trechos de um texto perdido em suas pesquisas. Nele o autor definia o amor como um imenso deserto.
“Quem vive sob seus domínios deve enfrentar o sol escaldante, as tempestades de areia e o frio de tantas noites solitárias até merecer o oásis do bem viver a dois. O amante prevenido guarda no coração o beijo que sacia a fome da paixão e tatua em sua pele o cheiro, as mãos nervosas que cumprem o percurso do prazer. Transforma a aspereza e o uivo desértico em música, hino de uma nação a ser conquistada a cada novo dia".
"E assim, corpo e alma consagrados a um sentimento único, retomam, em paz, a jornada do cotidiano e suas obrigações” citou Laura, surpreendendo Renato. "A vida faz do amor, uma eterna jornada por estas areias escaldantes. Tem o vendaval do dia-a-dia, o bafo morno da rotina, a sacudida das crises, das pequenas traições, das juras secretas que se transformaram em eco diante de um abismo de rancor e dívidas.
"Quantas vezes amor me tens ferido! Quantas vezes, , razão, me tens curado, escreveu Bocage". Mas será que vale a pena esta cura? questionou Renato, enquanto acompanhava os movimentos de Laura, já com as bochechas coradas pelo vinho, a cerrar as cortinas da sacada. Lá em baixo, a cidade reduzia seu movimento, alguns faróis ainda varriam as avenidas que escondem sombras, infelizmente, perigosas.
Renato perguntou se ela queria chamar um táxi. Laura, de volta à sala respondeu - decidida - que ficaria por ali e não dormiria no sofá. Encerrava-se a discussão. Estava confirmado com a proposta de improvisar uma paixão, mesmo que de mentira, um pouco antes do tal Dia dos Namorados. O trabalho ficaria para um pouco mais tarde.
Uma sirene da ambulância ecoou sua angústia na avenida. Mas os suspiros emitidos naquele antigo apartamento, no centro da capital gaúcha, sinalizavam a certeza de que toda relação amorosa ainda é um eficiente curativo, goste ou não Bocage. E abençoados sejam aqueles que ainda não desistiram e buscam seu pequeno oásis nos desertos do paixão.




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