quarta-feira, 30 de outubro de 2024

ELE, ELA E A CRISE

 

Os olhos estavam cansados daquela paisagem. Lá ao fundo, alguém acenava. Uma mão solta no ar, quase sem corpo, desfocada contra a luz do sol. A semana começou difícil. Pensou em ligar para o marido. Três dias distantes. Sem trocar uma ideia, sem carinho. Quem a observasse naquele momento pensaria que rezava, em voz baixa. Olhar sério, compenetrado. Mas era a luz do sol que interferia no horizonte e reduzia a definição da vista já cansada. Sinal da idade e da teimosia em não consultar um oftalmologista. Virou-se de costas à luz para retomar a caminhada. Era seu melhor momento nas constantes viagens à trabalho que lhe causavam enjôo.


Pior, passaria o final de semana sozinha. Os clientes insistiram para uma reunião no sábado ao meio-dia. “Esses caras não tem família?” Mas ela ainda era a renda mais alta da família. Em casa, os filhos, já adultos, eram independentes, mas o esposo remava contra a maré imposta por rendimentos baixos. Pequeno empresário no Brasil é escravo de clientes instáveis e vítima da sede por impostos dos governos e das instabilidades de mercado. Sozinha, às vezes desconfiava que ele – talvez cansado dessa diferença – buscasse casos extraconjugais para “sentir-se mais macho, já que no salário perdia”, sem dar-se conta do preconceito que alimentava.


Seria fácil. Ela sempre em viagens de negócios ele, em função da atividade que exercia, atendia uma mulherada imensa. Era marceneiro, e dos bons! Produzia peças para artesanato. Mas não, não cometeria tal desatino. Lembrou a italiana sem graça que encomendara 40 trenós para uma feira de Natal. “Coisa simples”, disse o marido, não fosse a grande quantidade de outras encomendas, para tantas outras clientes. A italiana, uma coroa bonitona nos seus quase 60, era a favorita dele. Vá lá, ela consumia muito. Mas detestava quando chegava com sotaque forte e gestos largos para elogiar, repetidas vezes, as virtudes do esposo. “Aí tem...” pensava, embora ele garantisse ser apenas uma boa cliente. Nada mais.


Longe de casa, em Florianópolis, em um bom hotel, cercada de executivos de grandes empresas, bem resolvidos financeiramente e cheios de disposição para uma aventura instantânea, e ela ainda preocupava-se com o marido, que vivia situação muito diferente. O pobre deveria estar, naquele exato momento no atelier, trabalhando, bem escondido,naquela rua simples, sem charme, sem paisagem bonita, na distante zona norte de Porto Alegre. “Nem barba ele faz quando não estou. Mas fica muito charmoso,” pensou, ao lembrar os pelos eriçados a arrepiar sua pele sensível.


Quem sabe não estava na hora dela mesma acrescentar emoção a rotina de sua vida? Aquele diretor da empresa concorrente lhe sugeria um vinho. Sem compromisso. Quebrar o gelo, trocar projetos de trabalho. “Sei...” Em casa, o maridão entalhando Noéis e ela, solitária, carente, insatisfeita. Arrependeu-se na hora. O sol era só uma mancha no céu bem limpo e aquela visão distante – a da mão que acenava – ganhava forma, embora ainda imprecisa.


“Pára de pensar bobagens, guria”, disse para si mesma. Ligou para o marido. Conferir é prevenir, sentenciou. Chamou, chamou. E nada! Muitos minutos depois, um funcionário atendeu. O marido fora entregar encomendas. Uma delas para a tal artesã italiana. O sangue ferveu de tal maneira que a paisagem paradisíaca da beira-mar ganhou tons vermelhos do ódio que a cegou ainda mais. 


Então era isso: uma entrega especial. E para ela, nem um telefonema de boa noite? Homens! “E eu boba, insisti para ele fazer aquela dieta. Agora perdeu uns quilinhos e já se sente um galã!” Ao mesmo tempo, a imagem desfocada que antes parecia lhe acenar, ganhava forma. Vinha em sua direção. Era um homem. E se fosse bonito, adeus, boa moça!


Quando a imagem ganhou definição, a poucos metros de seus incrédulos olhos, um novo choque: com um sorriso imenso e familiar, camiseta, jeans surrado e a barba – aquela barba por fazer – ali estava ele. Não o provável amante, mas o marido, seu marceneiro a lhe fazer uma surpresa. A primeira em tantos anos e com certeza, vinda na hora certa. 


Depois do abraço, do beijo cheio de culpa e saudade, soube que ele decidira por uma folga “Vim dar uma incerta”, brincou.  Só não contou que a passagem fora adquirida graças ao empréstimo de uma cliente. Isso mesmo, a italiana. Ela não entenderia.    

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Quem ri do rato


 Organizava cadernos e papéis em minhas entulhadas gavetas - um trabalho quase psicanalítico - quando achei a carta de uma ex-colega, lá dos anos 80, tempos em que ainda se escrevia a mão, coisa anterior ao e-mail e redes sociais. Ela agradecia minha solidariedade, após uma fase depressiva e dizia achar graça dos exageros, da brutal carência e falta de amor próprio que a levara ao gesto extremo de tentar acabar com a própria vida. 


E o fez com requintes de estilo. Redigira um texto de frases feitas, citações de grandes poetas e ainda gravara um último adeus – voz compungida – entremeada por soluços da mais pura e sincera mágoa contra o mundo cruel. Ó dor! Um momento assim é realmente devastador, especialmente no caso dela, casada com um pacífico e dedicado professor europeu, que chegara ao Brasil para uma curta temporada esticada pela paixão. 


Ele só retornou quando o amor fez as malas e antecipou-se ao adeus. Partiu de repente, sem adeus. Sem aviso. Ela chrou o que pode. Sentia-se pior do que o mais vil dos seres humanos e assim, sufocada por uma devastadora torpeza, mirou-se no reflexo das mágoas  e perguntou: “és afinal, uma mulher ou uma desprezível ratazana”? E se pôs a roer a estima feito minúsculo camundongo.


Correu à dispensa onde guardava produtos de limpeza. Encontrou um pacote de veneno granulado.  O antigo Ri-do-Rato. Abriu o espumante francês que reservara para o fatídico jantar romântico que celebraria os cinco anos de vida a dois. As primeiras taças para lhe dar coragem, as demais para ajudar a digerir as quase dez pílulas.  E assim, brindando ao seu final trágico, entre lágrimas  e gargalhadas, embebedou-se.


De repente uma dor lancinante lhe torceu os intestinos. Era a ação do veneno. Um calor, uma força estranha, como se algo se movesse descontroladamente em seu ventre e tentasse rasgar-lhe as entranhas. Era o fim chegando, imaginou. E correu ao banheiro, onde de forma nunca antes vista, uma brutal, uma avassaladora diarreia a prendeu ao vaso. Morreria daquela maneira estúpida, humilhante? Após mais alguns longos e sofridos minutos tudo passou. E sentiu-se melhor. Muito melhor. Aliviada. Vazia.


O veneno deveria estar vencido, imaginou. Quando examinou outra vez o pacote, percebeu que ingerira um forte laxante que seu ex escondera ali. Ela tinha mania por dietas agressivas com esse tipo de medicação. Voltou à razão e abriu outro espumante. Desta vez para brindar ao homem que a jogara ao fundo do poço e que, de alguma maneira, a salvara do limbo.


Estava pronta, pós catarse, ou melhor pós diarreia, para ser feliz ou simplesmente curtir seu novo momento. Independente e lúcida. “De alguma forma, dele ficou aquele último gesto de carinho", escreveu ela, que voltou a namorar. "Sem grandes expectativas, porque assim, dói menos", aprendeu.


quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Voto ou Inconsciência

Na semana passada, por pouco não ultrapassei erradamente um acesso rodoviário. Esbravejei contra a falta de sinalização. Foi aí que meu caroneiro, discretamente, apontou a imensa placa, com seta e velocidade limite indicadas. Tudo perfeito, não fosse a pichação com riscos que a encobriram totalmente. E aí me dei conta de que a maioria gosta de criticar administrações públicas mas esquece sua parte nisso. 


Com certeza não foi um parlamentar sem noção quem destruiu a sinalização. Talvez tenha sido um sujeito que a toda hora, critica os políticos. É fácil dos candidatos despreparados e da falta de ação nas esferas governamentais. Queremos que se cumpram as leis, mas  aceitamos deixar nosso rabo preso a uma placa destruída de trânsito.


Vejo militantes, muitas vezes, constrangidos ao divulgar as propostas de seus candidatos, como se fosse um pecado, uma guerra santa que desmerece, indiscriminadamente, o esforço de tantos. Serão todos assim? Anular os votos em protesto é uma promissória em favor dos que lucram com a miséria, com a ignorância. Os maus políticos.


Outros reclamam das propostas, da mesmice apresentada em ralos minutos nos meios de comunicação. Querem originalidade, mas em seus cotidianos, o que fazem para tornar a vida melhor, menos repetitiva? Alguns quando chamados na escola porque o filho aprontou, por exemplo, desabam em ira contra os mestres, na defesa irracional dos rebentos. 


E os que praticam pequenos delitos? Receptam, por exemplo,  fios de cobre que escurecem vias urbanas sustentadas com nosso caro imposto! Usam o carro da firma para assuntos pessoais e, se as taxas são muitas, sonegam. Pagar o imposto e cobrar sua aplicação correta, seria bem mais ético. É fundamental ler as propostas que, afinal, representam o nosso futuro. 


Candidato não brota em  árvore. É um sujeito igual a nós, que bota a cara a bater por gostar de política. E se ele entrou nessa para se locupletar, na próxima votação, o povo que é atento, o pune nas urnas. Nem precisa conspirar nas redes sociais. Mas alguém aí fiscaliza? Lembra em quem votou na eleição anterior? Que feio! Anotemos tudo, então. 


Está na hora de limpar a política do conchavo espúrio, do interesse exclusivamente pessoal. Pensar no coletivo faz o indivíduo andar melhor, mais seguro, dono de seu nariz. Não desligue o rádio e a TV, anote e se faltou criatividade, sugira algo melhor. Porque o maior mal está à espreita dos que se omitem. 


Fique atento: alguns têm um título eleitoral em uma mão e uma arma na outra.  Nós que ocupamos as mãos com o trabalho que carrega o país, vamos levar o título eleitoral  no bolso esquerdo ou direito do peito e transformar esse documento na arma que dispara saúde, cultura, segurança e oportunidades. 


Aquilo que prometem apenas nós, gente do povo, pode fazer valer, se usar corretamente a urna eleitoral. Portanto, atenção ao horário gratuito, que não tem nada de gratuito e pode custar caro aos que se omitem. Dê essa chance a você mesmo e, se antes não funcionou, faça um mea culpa, vote outra vez. Mas nunca,  jamais, se omita.