quinta-feira, 30 de março de 2023

Eu, no fundo do cargueiro

 Por favor! Eu sei que a crise está pegando. A vida, cada vez mais cara, as promessas eleitorais engolidas entre cenas cotidianas da mais pura violência urbana. Tudo é tão agressivo que intimida. Mortes nas escolas, onde a vida deveria prosperar em cultura, por exemplo.  E aí, em nosso mundo caseiro, nos vemos tentados a permanecer naquela pasmaceira do tipo Deus dará. O Todo Poderoso tem mais a cuidar do que a dieta do Ari ou o projeto que a Luluzinha engavetou por pura acomodação. Aquele plano de estudos que nunca sai da planilha, por exemplo.

Lá estou eu, no fundo do caminhão chamado 2023, como uma melancia que foi se acomodando no andar da estrada ruim. No topo, a luz do sol, a brisa que refresca. E eu lá, deixando as coisas como estão para não enfrentar uma certeira incomodação. A enganosa facilidade do não mudar é ilusão, um truque de espelhos onde o reflexo é sempre melhor do que a realidade à volta.

O ideal é aproveitarmos essa explosão de expectativas do ano passado (que não deu folga). Ignorou férias, carnaval e abriu-se em denúncias entre direita e esquerda, reajustes que assustam nos combustíveis, entre tantas outras mazelas. Estamos em março? Parece que já se foram seis meses! Então, ao contrário do desespero, é preciso valorizar todo esforço, torná-lo meta de realização. Inclui aí maior domínio sobre as ações que possam indicar melhores possibilidades de renda, ou uma mínima paz interior.

É difícil? Com certeza. Ser a última melancia do escritório, lá no fundo, onde ninguém quer te ouvir e ainda te remuneram mal, exige mais do que apenas resignação. Eu sei, criar um projeto viável com o caminhão andando é difícil, mas nunca impossível. Até um rebelde anarquista estabelece sua estratégia.

Estive diante de muita literatura de autoajuda e não vi o milagre acontecer. Teoria e pouca prática. É fundamental não ceder à tentação da acomodação que safadamente ajeita nosso bumbum na cadeira da rotina. Aí aceitamos qualquer coisa que não dependa de muito esforço ou criatividade. Basta repetir-se infinitamente.

A partir deste março, igual a um estudante que volta às aulas, é preciso aprender como se assume o comando nesta rodovia mal sinalizada. Criar tempo, acelerar as soluções, reduzir os problemas. Quem sabe, curtir a mudança das estações, escrever seu próprio livro de crônicas. Crie sua temporada criativa ao lado da ditadura das agendas funcionais.

Tua história, Teu estilo,  não é original? Por mais semelhanças que possa ter com todas outras, será sempre única, se embebida em alguma paixão. Esta é a condição que te levará a dias melhores. 

Cheios de uma vivência exclusiva e personagens originais, por mais semelhantes aos que compartilham todos os dias, suas rotinas e fantasias nas redes sociais. 

Creia, não existe uma idade definida  para tal mudança. Determinação, sim é  o que vale aqui e agora! Faça isso e  me ajude a sair deste caminhão, as melancias pesam nas costas deste senhor de idade.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Romance ou Solércia



Meu bem entenda, nosso problema é semântico.

Na verdade, eu não sou aquilo que idealizas.

O par perfeito, um ser etéreo, romântico.

Desista de mim se é disso que precisas.


À noite me encontrarás abraçado a lua.

Ou entre estrelas a medir o infinito...

Pobre tolo, dirás antes que meu verso conclua.


Imagina! Mensurar o imensurável!

Mas não será tua, a alma romântica?

Enquanto eu, patético, em esforço admirável

Tento empiricamente compreender física quântica.


Beijar é química pura. É a mistura homogênea de sais

Beijar eriça, tira um corpo da inércia!

Viu? Voltamos à física, apesar dos suspiros e dos ais.

Confundir com romance - me perdoe a rima - é solércia,

(Um substantivo bem feminino para astúcia)  

segunda-feira, 13 de março de 2023

Trair é emoção versus fundamento

Ele: “tu precisa de um sexo louco e descontrolado com um amante. Vai te fazer bem.” 
Ela: “é tentador …” 
Ele: “é nada. Tu não quer! Fica fugindo.”
Ela: “tô não.” 
Ele: “tá não o q?”
Ela: “não estou fugindo … ora!”
Ele: “então… Diz que topa. Diz que topa….”
Ela: “Topo!”
Ele: “SÉRIO???????????”
Ela: “kkkk. Ué. Quando tu pode?”
Ele: “E a consciência pesada? Esqueceu?
Ela: “CLARO Q NÃO. MAIOR CULPA!”
Ele: “He, he, he”.

Essa conversa, assim como está, foi acompanhada, em uma espécie de cena de filme, tipo a sequencia erótica  de 50 Tons de Cinza, por um terceiro personagem, não desses que gostam de bisbilhotar textos picantes, mas por um personagem involuntário – um marido em estado de choque. Não são apenas os jovens a expor fantasias e desejos íntimos nesta grande rede virtual. A turma graúda também anda a fazer das suas estripulias nos aplicativos do dia-a-dia, não apenas no OnlyFans. E depois, muitos deles, ainda saem a pregar moral, literalmente de cuecas e calcinhas.

Distraída, a esposa utilizara o computador no escritório do marido e não percebera que o bate-papo, sempre tão prático, nunca fora apagado no Messenger. É claro que a conversa  tinha detalhes muitos mais íntimos, incluindo o envio de fotos. Ambos queriam uma aventura que os acordasse da dormência de seus respectivos casamentos. Esta seria a grande vantagem de um "rolo" sem compromissos.

Com toneladas de conversas explícitas gravadas – a maioria impressa no bom e velho papel – o esposo foi cobrar explicações. Em seu momento mais irado, pensou em distribuir trechos aos amigos em comum, via Whatsapp. Ficou com medo da reação, especialmente na  sinceridade das manifestações de apoio ou crítica. Naquele momento desconfiava ide tudo e todos. 

Mas ao conversar com ela, que desabou em choro e depressão, recuou. Passou a sentir-se uma espécie de marido frouxo, desatento. Sabia de outros casos iguais, com situações absurdamente semelhantes. Era mais um a enfrentar o lado perverso das redes sociais e da alma humana. No desespero confidenciou detalhes - nem todos - a um único parceiro. É uma dor difícil de lidar sozinho, engalfinhado em pensamentos turvos e malvados. 

Esse sugeriu o juízo que ela não tivera. E aconselhou diálogo e uma nova aliança para dar sequencia ao relacionamento. Lembrou que antigamente, o mundo masculino traía livremente enquanto as  mulheres praticamente isoladas em casa, tinham mais dificuldade para armar jogos desta natureza. "Mesmo assim, sempre existiu o leiteiro, o entregador de jornais simpático ou um vizinho atencioso demais", acrescentou o amigo conselheiro. 

Nos dias de hoje, a liberdade é igual para eles e elas",  concluiu. A conversa pouco resolveu e lá voltou ele a remoer seu drama. Percebera que uma relação à dois, não se resolve só com a ajuda de terceiros. É um quebra-cabeças de infinitas peças. E se uma, vital para fechar a montagem, se perdeu roubada pelo intruso invasor? 

Quanto mais conversava, mais se confundia. O ruim de tudo era a devastadora dor, alimentada pelo  ressentimento temperado no sal ardido da estima. Tudo, no trabalho, na rotina da academia que tanto curtia, nos momentos sozinho lhe traziam, de volta, aquele diálogo e a sensação do chão a sumir e seu  corpo mergulhado em um lodo escuro.   Como não percebera que o relacionamento estava ruim? Como chegara a tal ponto? Para ele, até então, eram um casal perfeito, sem problemas, inclusive na cama. 

De pior forma, percebia que os aplicativos que ligavam amigos, família e até a sacanagem de vídeos pornô, também permitiam essas escorregadas entre casais. A esposa implorou para que a relação fosse retomada, ela o amava acima de tudo. Ele não duvidava disso. Mas amor é uma coisa, um contrato, mesmo verbal, é outra. Se ela desejasse ser uma nova Simone de Beauvoir que tivesse deixado isso bem claro antes. Agora o encanto, a alegre confiança na relação balançava.

Por via das dúvidas sacou, da escrivaninha, uma edição antiga de Madame Bovary, que tanto o impressionara na juventude, presente de um tio solteirão. O que lhe salvaria nessa hora? A vista bonita de uma vida a dois, confortável, ou o entendimento de que, às vezes, mais vale a pura emoção? Fechou a porta sem um único ruído, como sem querer  acordar a própria consciência. Saiu, mas não disse adeus.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Às mulheres de todos os dias


Nós, bons colegas de trabalho, bons maridos e, na medida do possível, amantes apaixonados, pagamos sempre pelos maus exemplos. Sim, o lado bom da força masculina, luta contra os próprios preconceitos e se esforça. Não apenas abre a porta do carro para elas, mas escancara as possibilidades para que possam crescer como mulheres independentes e realizadas.

Nem queremos muito em troca. Um reconhecimento de vez em quando, o carinho ou um olhar agradecido, não por ser o macho libertador, mas simplesmente um homem do tipo que reconhece suas próprias limitações, mas guarda em si, infinita disposição para aprender e melhorar.

O que ganhamos em troca? Satisfação pessoal seria suficiente. Especialmente quando você é um profissional que valoriza a atuação das colegas femininas, aceita ser comandado por mulheres. Em casa, sabe dividir obrigações. É parceiro. Duro sem perder a ternura. 

Mas aí, a humanidade machista - dos porcos chauvinistas como diziam nos anos 70, escreve uma triste história de abusos e opressão, subjuga a mulher e dificulta sua libertação. Especialmente em países pobres, onde sofrem humilhações a partir do lar e acabam escravas como se o gênero feminino fosse sinônimo do pior. 

Tenho a sensação de que foram homens com altos teores de culpa que decidiram apoiar o Dia Internacional da Mulher. Politicamente corretos, muitos deles não passam de interesseiros, cínicos com maquiagem pesada. Neste dia especial, o planeta assiste a um derrame de flores (Só perde em vendas para finados e Dia dos Namorados), perfumes e discursos recheados em lugares comuns.

 Políticos e empresários se derramam em projetos bacanas em nome da mulher. Gestos elogiáveis, mas óbvios. Todos querem demonstrar apoio à luta feminina. E o comércio, liderado agora também por mulheres, passa a lucrar com a data. Ai! Esquecer datas é uma das falhas do caráter masculino. 

O que estamos vendo são maridos, namorados, chefes ou subordinados de mulheres a correr às lojas. Em muitos momentos, a luta da mulher por igualdade vira um produto a ser vendido. E cá entre nós, homens e mulheres adoram mimos. Tenho amigos que me dizem, com razão, que é um dever para o macho da espécie. Mais uma conta a pagar por séculos de tortura. 

Machos sensíveis! Trabalhem todos os dias da semana pela valorização feminina. Igualdade agora! É a única maneira de interrompermos o ciclos dos discursos iguais, das citações bregas e pseudo-feministas a cada oito de março. Chega de botões de rosas murchas no escritório, entregues por office boys suados. Vamos dar um basta aos apertos de mãos e abraços divididos entre o desinteresse e o cinismo. 

Vamos eleger o 8 de Março como Dia Internacional da Queima Total das grandes grifes da moda feminina. Que tal? Ótimo para elas, escravas de um padrão estético anoréxico. Para nós, com ou sem data especial, precisamos de atitude para manter o equilíbrio entre eles e elas. Portas abertas ao talento, à criatividade e à sabedoria em todos os espaços da sociedade atual. O resto é periférico. Mas um periférico pra lá de gostoso. Porque vamos curtir juntos o perfume das flores e o sabor dos bombons. Ora, isso também é igualdade.