segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

O melhor presente

 Tem uma mistura de aromas, sons, cores e memórias que me levam a viver com muita alegria esse período de festas. Sofro com o estresse e preocupações, não sou diferente de ninguém, mas tudo com equilíbrio e uma incontida disposição para a harmonia. É o ano – mais um - a fechar a contabilidade entre acertos e erros. Quero um encontro de contas e, como sempre, acabarei devendo alguma coisa a tantos e, principalmente, aos meus próprios interiores.


Nós, adultos, crescemos cercados de pequenas alegrias e grandes culpas. Sofremos com isso. Dói a obrigação de se encarar, em um dia tão especial, recordações de tempos mais alegres. Pior, dividiremos a ceia com outros que no cotidiano às vezes nos provocaram mágoas e lágrimas. Vale a pena tudo isso? Os distintos leitores poderão imaginar ser impossível pedir tolerância e entendimento entre amigos e familiares só porque é Natal. Mas essa é a hora! Não existe nenhuma data tão fortemente emblemática.


Sim, as angústias vão do pequeno ao imenso drama existencial. É o assado no forno, o calor a derreter miolos. Os espumantes - demi-sec ou brut? As cervejas, drinques. Refrigerante ou suco? As saladas, castanhas, frutas e os panetones? Com chocolate ou frutas cristalizadas? Polêmica anual. Ah! E se não for de fermentação natural um dos tios vai implicar. Lá vem discurso.


Sim, todo ano é a mesma rotina. Sogras e genros, Novos e antigos amores. O ex a bater na porta! A combinar datas. O estresse do “quem fica com quem”. As brigas domésticas parecem transformar-se em pauta única e se transformam em saudade quando lembram os que partiram em outros natais. 


Vale a pena tudo isso? E os presentes? Nestas horas, o guri que um dia fui assume o comando das ações. Confere o saldo da conta, busca o cartão de crédito e em quantas vezes, sem juros, pode fazer a alegria das crianças, do amigo secreto. Organiza a ceia e amansa o coração para não explodir de ansiedade. Quantas vezes pensei em fugir para uma ilha deserta? Mas a razão sempre me levou a acender velas coloridas e iluminar o  perdão.


Quantas vezes me vi, cheio de esperanças  na hora dos abraços, algumas vezes entre antigos desafetos mas, principalmente, ao lado de novos afetos, compreendendo que assim é a  humanidade. Evoluímos entre ruínas de bons e maus projetos. Quem aprendeu, saberá edificar uma realidade melhor. Com ou sem Noel, presentes, peru na ceia e até mesmo gente de nariz torcido. O amor deve ser o impulsionador de tudo até o último convidado – mesmo aquele primo beberrão que sempre faz sujeira no tapete novo.


Ficará na madrugada, apenas o espírito de tudo que sustenta este texto: A solidariedade, a possibilidade de retomada na fé, independente de sermos crentes ou céticos. Só não podemos nos descuidar de amar incondicionalmente. Um sentimento assim, generoso e altruísta, jamais nos deixará na solidão. 


Com certeza, neste dia 25, minhas vivências estarão presentes. Elas cimentam  minha construção existencial. Talvez com alguma melancolia, mas isentas de rancor. Despidas de conflitos. Em paz, homenageando o aniversariante deste dia, como o calor de uma manjedoura e a leveza de um sonho bom. Aceitem, ent]ao, meus carinhosos votos de um Feliz Natal e um próspero Ano Novo!

sábado, 25 de novembro de 2023

FAISÕES, CISNES, ENCHENTE E UM CASAL TEDIOSO

 

Conversei via whatsapp com um amigo tiozão - veterano como eu - que desabafou o momento difícil que vive em seu casamento. Muitos anos juntos, ambos presos a uma história que se repete da mesma forma todo dia. E começa a incomodar. Permanecem sem alçar outros voos. Aí chegou a enchente, devastadora, indiferente às crises afetivas, obrigando o casal  a correr para salvar o que fosse possível em uma casa da família na região das ilhas, em Porto Alegre. 


Em dois dias ajudaram vizinhos, gastaram as economias até  retornarem à quase segurança do apartamento no Centro Histórico  da Capital. E a partir daí, de novo, os antigos questionamentos. Eu percebi que um evita machucar o outro, como se houvesse um bloqueio que lhes impedisse retomar à intimidade de um romance. 


Meu amigo é  ornitólogo, um veterinário que  cuida de aves. E ele me diz que a relação deles lembra um casal de faisões, aves que mesmo em cativeiro,  são criadas praticamente soltas. Nunca escapam porque uma delas está sempre presa ao viveiro. Por solidariedade, aquele que teria tudo para voar, permanece ali, ignorando o apelo da mãe natureza.


Quem sabe esse princípio não seja igualmente a base de alguns relacionamentos entre humanos? Um solto e o outro preso. A parte livre não abandona o cativeiro por uma questão de lealdade. Ambos na verdade, presos. Enfeites do cotidiano. Sacodem as penas coloridas das vaidades que, em outras palavras, os confunde entre as amarras. 


Muitos casamentos  surpreendem, em sua longevidade, por essas arapucas em gaiolas de enfadonha resignação. Lhes assusta imaginar-se agarrados às grades finas dos viveiros, a implorar liberdade. E em meio ao temor, não percebem que bastaria a um deles virar as costas e alçar um último voo para libertar seu fatigado par.  


Eu sugeri que, talvez, a insatisfação deles não fosse desamor, mas cansaço por uma agenda cotidiana repetitiva. Quem sabe não buscassem outra metáfora para a vida a dois.  Os cisnes, por exemplo, vivem uma única parceria em sua existência. Os casais cisne superam tudo quando alçam voos juntos. 


Quem sabe novos projetos, em sintonia e MELHOR negociados. Afinal mantinham uma relação sem dramas ou agressões, apesar da modorra e estagnação. Sozinhos, ou com novos pares, mudariam? 


Insisti ao casal para que voltassem às ilhas, lá poderiam ajudar mais pessoas. Aceitaram a minha proposta e, hoje, estão junto a Defesa Civil do Estado, como voluntários, em um trabalho árduo, mas fundamental para as comunidades atingidas, 


Enquanto escrevia esse artigo, a esposa dele me enviou uma pergunta. “Porque quando estamos em atividade o casamento renasce? Parece que ganha sentido.”  Não sou psicoterapeuta de casais, mas  deixei claro que, fosse eu, daria uma segunda chance a história à dois que vi crescer, mantendo esse perfil solidário que os revelou parceiros. 


A decisão não está em minhas teses, nem nas asas dos falcões ou outras lindas aves silvestres. Elas não sofrem por questões sentimentais, vivem presas a seu instinto de sobrevivência. E seguem juntas, uma apoiando outra. 


Entre humanos, essa proximidade pode resultar em admiração mútua, afeto e desejo.  Combinam juntos o voo, mesmo quando um permanecer protegendo o ninho.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Sobre paixões tóxicas

Ana Hickmann denunciou o marido por violência e o tema das relações tóxicas, voltou com tudo ao noticiário. Eles tinham um longo relacionamento, pelo que entendi, ele gerenciava a marca da ex-modelo e empresária. Tudo certo para uma parceria bacana, já que não era dinheiro o problema do casal. Mas, as crises surgem em qualquer conto de fadas, imagine na vida real. Eu sugiro aos casais em conflito, ou na iminência, uma boa terapia ou, então, boas leituras sobre o tema. Por exemplo, quem sabe na Feira do Livro, não encontrem, em balaios de ofertas, o excelente “Paixões Tóxicas, Como Atravessar as Crises e Enriquecer a Vida a Dois”, assinado pelo psicólogo Bernardo Stamateas. Simples, direto, um autêntico guia da nova ortografia amorosa. Afinal, embora hoje seja mais fácil divorciar-se, tornou-se muito mais difícil encontrar uma parceria que valha a pena.



O autor divide o livro em dez capítulos, ensinando a superar as paixões das "emoções explosivas", "modelos culturais", "infidelidade", "possessividade", "estancamento", "sexualidade tóxica", "competitividade", "desqualificação" e "crises financeiras", finalizando com o título "paixão e amor". Tudo bem explicado para que nós, tantas vezes irritadiços, competitivos e egoístas,  não transformemos a vida a dois em um biblioteca de mesquinharias.  



O bom  é compartilhar o calor dos edredons, sem culpas, em harmonia. É para isso que  serve uma união dessa natureza. Stamateas enumera algumas formas “tóxicas” de se boicotar uma relação. Não há como não se achar em algumas delas. Por exemplo, esquecer datas importantes, fazer o parceiro ficar mal na frente dos outros, obrigar as crianças a ligarem no trabalho do cônjuge por coisas insignificantes, ser descuidado com a aparência, assumir o papel de vítima, gerar conflitos com os horários quando o parceiro tem algo importante para fazer, mostrar na frente dos filhos que o parceiro não tem razão,  desautorizá-lo.



Escaparam da lista? Sejam sinceros. Mas tem mais. O que é mais chato do que ressaltar os erros do outro? “Adoecer” justo em datas importantes, não acompanhar o outro a eventos sociais ou ser pouco gentil neles, perder a hora quando o outro precisa de nós, esquecer de algo que o outro pediu especialmente, gastar o que haviam poupado em algo para si próprio, não se relacionar bem com seu entorno ou proibi-lo de ver certas pessoas. 



Não é nada disso? Ah! É o fogo da paixão que está quase no fim? Stamateas preparou sete leis naturais para o sucesso sexual. Algumas podem soar óbvias, outras reafirmam aquilo que muitos tentam ignorar: sexo é fantasia e, com amor, é claro, torna tudo mais gostoso. Antes disso, exige privacidade, um necessário abandono, entrega e muita comunicação. 



Se você não tem preconceito com literatura de auto-ajuda, quem sabe não está aí um bom encaminhamento para o verão que virá depois das chuvas?  Feio é agir como um primata irascível. Se tudo der certo, a temporada será perfeita e os dias quentes, muito mais leves. Aos interessados, "Paixões Tóxicas” é uma publicação da editora Planeta, tem 176 páginas e custa menos de R$ 20. 


terça-feira, 7 de novembro de 2023

Memória quase cheia

 Saiu muito apressada de casa. Estava, mais uma vez, atrasada para uma consulta com aquele famoso neurologista cognitivo, Doutor-Sei-Lá-Quem, que ela procuraria para tratar justamente de seus frequentes esquecimentos. A turma da academia dizia que ele era ótimo e resolvia a maioria dos problemas com medicação leve e até alguns exercícios.  “Além disso é um gato”, acrescentou dona Alda, a mais velha da turma e que, por ter chegado à terceira idade, se achava no direito de mais de uma consulta por semestre.

No caminho ligou para o marido e o alertou para não esquecer de fazer a cópias das chaves da casa da praia, porque os filhos iriam até lá com amigos. Em seguida chamou a sogra para combinar um chá,  com torta de limão siciliano, sem açúcar! Sim, estava pré-diabética. Mal dobrou a esquina e a filha mais velha chamou pelo viva-voz: “Mãe! passa na Faculdade, vou precisar de carona. Estou com todo o material para um trabalho específico sobre arquitetura romana. E não posso pesquisar no Google. São 12 livros”, reclamou.

Quando chegou no primeiro semáforo, o sinal lhe alertou que, antes de mais nada, deveria retirar o vestido vermelho que deixara para lavar a seco. Seria usado no Baile de Formatura das gêmeas - Nara, morena crespa e Clara, a loira de cabelos lisos. Nunca errara ou trocara os nomes. 

Mas, estava esquecendo muitas coisas. Por exemplo, cuidar melhor da pele, os hidratantes bons custavam “os olhos da cara” mas eram fundamentais. Sim aqueles a base de amêndoas que tinham dois efeitos: a maciez quase que imediata e o perfume que atraía o marido sempre distraído para “essas coisas de romance”.

Meu Deus! O peixe! Precisava ir ao Mercado Pùblico, onde encomendara a “seu” Pedro, um salmão selvagem, aqueles que vem diretamente do Alaska. Na volta passaria na padaria para buscar o pão especial que Júnior, o caçula, pediu para montar os sanduíches do piquenique da escola. Seria sábado ou domingo? Ah! Essa memória que falha.

Em menos de meia hora retornou da consulta com o tal médico. E nesses rápidos minutos ele ouviu toda a ladainha, uma extensa agenda  guardada como? Na memória, ora! E por isso, sem necessitar mais relatos, receitou um ansiolítico e exigiu que dividisse com o esposo as atividades da casa. Ambos eram profissionais liberais, poderia combinar atividades. 

 “Eu não estou louca”, reagiu. “‘Mas se continuar assim, passará da ansiedade à depressão em pouco tempo", ouviu, sem querer acreditar.  A única coisa que vinha esquecendo,  na realidade, era dar um tempo para si mesma. As agendas alheias  lhe deixavam a memória do Eu quase cheia em função dos demais pronomes familiares “Ele, Nós, Vós, Eles”.  E assim, definitivamente, por determinação médica, optou por escapar do cansaço, um substantivo abstrato que já se tornava um drama doméstico concreto. 


terça-feira, 17 de outubro de 2023

Crônica escapista água com açúcar

 Vida a dois, vida em solo. O que te conforta? O que te faz feliz? Ah! Poderias abrir o coração e confessar aqueles sonhos marotos, entre a madruga e os primeiros raios de sol… Lá está ele! Ou a guria linda, sem um par. Aquela gente bonita saída de uma série bacana no streaming. Então era isso? Está resolvida a questão? Mas ao acordar - ou no clic final da TV - tudo se transforma em gula de ansiedade, cafés com leite, suco, bolos  e algum pão servido às pressas. Cadê as deusas? Onde se esconderam os seres perfeitos do Olimpo? Vai ver toda a chuva, todos os ciclones  aqui no Sul, os empurraram para debaixo do travesseiro.


Uma dessas sonhadoras, amiga que abandonara o marido frouxo - um notório preguiçoso - decidiu viver sozinha, no último andar de um apartamento no Centro Histórico de Porto Alegre. E aí, certo dia, lá de baixo um sujeito sem expressão, um cara urbano, aquele tipo sem rosto tropeçou e, esborrachado no chão, atraiu a atenção dessa mulher que, imediatamente, avisou o porteiro para chamar a Samu.


E não é que o tal sujeito, apesar do tombo, se deu bem? Aos 68 anos era dono de alguns imóveis. Um deles, imaginem só, aquele onde a personagem desta historieta vivia. Os dois se conheceram. Ela inquilina, ele o proprietário atendido na emergência. 


As gentilezas se revezaram, as coincidências se transformaram em risos e a partir daí, resultaram em troca de mensagens e até a noite de um jantar, com direito a pernoite onde ele, feliz e sem arrependimentos, cancelou a cobrança de aluguel, desde que pudesse manter a rotina de visitas. A vida em solo virava à dois. 


Lógico, aqui não é um filme Disney. E essa história é 85% vida real. O cotidiano tem dessas coisas. Encontros inimagináveis que se transformam em histórias de roteiro água com açúcar.  Hoje estão juntos, a cidade continua de igual para pior, as guerras mundo afora alimentam o ódio, sustentam a indústria bélica. 


Mas em um apartamento, no Centro Histórico de Porto Alegre, com vista para o engarrafamento em dois horários, tem gente brindando uma chance - quem sabe a segunda, ou última - para a felicidade. 


Encerro deixando essa dica:  se um dia tudo estiver andando meia-boca  e você sofrer um tombo. Olhe para o alto. Quem sabe, antes do paraíso, você encontre um anjo perdido. Em qualquer andar, de qualquer jeito, mas com a mesma ânsia de parceria. Tem coisa melhor?


sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Toca Evidências, por favor!

Em volta de uma mesa de bar, qualquer tema é pauta. Polêmicas são bem-vindas desde que respeitem as opiniões por mais doidas que possam aparentar. As pesadas crises internacionais, os comentários à direita ou esquerda, ficam obrigatoriamente no centro apaziguador, de preferência, regados a brindes de bom humor. Em um bar não se resolve o mundo e, assim, nenhuma discussão deve poluir o ambiente, invadir outras mesas em irritante poluição sonora.

Vamos combinar desaforos apenas aqueles autorizados pelo grupo. “Vai tomar lá (…)”, ou elogios às santas mamães. É claro, sempre pode aparecer aquele chato que ama criar desconforto na órbita das mesas ao redor. Sim, lá todos carregam seus próprios temas. Guerras, paixões, times e partidos.

As pautas são boas e, bem conduzidas, quem sabe não resultem em literatura, como decidiu um grupo de amigos, ex-colegas de redação. Incentivados pelo jornalista e escritor Flávio Dutra, já estão em segunda edição do “Entre um gole e outro”, livro de crônicas típicas de boteco, no caso o Bar do Alexandre, no Menino Deus, em Porto Alegre.

Mas de volta ao lugar comum, em um desses sábados de chuva fria, vento e ameaças de ciclones, um amigo músico da noite, se viu obrigado a enfrentar um sujeito que insistia em determinadas canções. Todas opostas ao estilo do bar. “Preconceito!” Esbravejava o cliente que exigia hits de música sertaneja onde o repertório era tipicamente oposto. “Elitismo barato!”, repetia exaustivamente. Batia água lá fora e as pessoas se impacientavam com o chato.

Lá pelas tantas o músico, já saturado, soltou seu violão e correu à cozinha. Até o dono do bar assustou-se com a cena. Alguns minutos depois, retornava carregando um copo com um líquido branco em uma bandeja. Cochichou algo com o garçom que, instantes depois, oferecia ao chato um copo de leite “on the rocks”, ou seja, com duas pedras de gelo.  “Se eu quisesse isso iria a uma lanchonete”, recusou o bebum.

De volta a seu banquinho, o cantor emendou ao microfone, afinadamente, sem aumentar o tom: “Então, quando o senhor desejar outro tipo de música, eu mesmo lhe indico espaços adequados”. Mal concluiu a frase e foi aplaudido com entusiasmo pelo público que acompanhava a implicância do chato. Este resmungou mas acabou rindo do próprio ridículo. Antes de ir embora, abraçou o cantor.

Quando as portas do bar fecharam, os problemas do mundo pareciam distantes. Prontos para uma solução definitiva. A exceção da chuva, é claro e as muitas vítimas de cheias que se repetiram nos dias seguintes. Mas o que eu guardei de lição nesse caso, foi o jeito bem humorado do músico de resolver a parada. Sem gritos ou murros, se valendo apenas de uma afinada dose de sarcasmo e paciência. Mas, por via das dúvidas, decidiu ensaiar alguns clássicos sertanejos.

_“E nessa loucura, vou vou negando as aparências,  disfarçando as evidências, mas pra que viver fingindo…_  Tudo em nome da paz e tolerância no boteco.

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Paquera digital no ciclone


Choveu como poucas vezes eu havia visto em Porto Alegre. Água a transformar ruas em rios sujos, carregando o relaxamento dos cidadãos que sempre reclamam dos serviços públicos e pouco fazem por sua cidade. Bueiros e bocas-de-lobo vomitavam pedaços de cadeiras, ratos vivos, e dezenas de quinquilharias jogadas fora. Pior, motoristas ansiosos, ensopavam dezenas de pessoas com essas águas. Cenas lamentáveis! Ilhado, na manhã de quarta-feira, desisti da experiência náutica e, de dentro do meu carro, estacionado ao meio-fio,  acompanhei o movimento angustiado das pessoas.


A poucos metros da avenida Mauá, às margens do Guaíba, naquele instante a mais de 20cm da cota de inundação, avistei um rapaz, todo atrapalhado com guarda chuva, a correr à marquise. A água apertava o cerco, com a calçada transformada em piscina. Ali, havia outra pessoa. Uma jovem também. Encharcada dos pés a cabeça. Nem se olharam. Ambos estavam atentos a seus telefones móveis. Conectados, certamente, em redes sociais. 


Ele fotografou meu carro, inclusive, e vi que distribuía a imagem para seu grupo de amigos. No mundo virtual passamos a ser repórteres ou pauta. Imaginei ele postando sobre a possibilidade de eu ser levado pela correnteza em pleno centro da cidade. O tempo foi passando, a chuva cedeu por alguns minutos mas as poças permaneceram irredutíveis. Pouco antes de eu retomar meu caminho, vi que olhou para a moça com mais atenção. Ela percebeu, ficou meio sem jeito. Mas não se animou a sair dali. 


Ele voltou ao celular e tanto fez que achou o que buscava. Abri o vidro, abaixei o volume do rádio, para ouvir o que ele diria a ela. Mas apenas digitou alguma coisa. Ela riu. Ele também. Eram “amigos” na rede social, mas não se conheciam. Um sabia da existência do outro através de uma ou outra frase curta. E precisou o céu desabar para se conhecerem no mundo real. Instagram, Facebook. Twiter e outras redes nos pescam como em um banquete de seita cibernética. Mas, na real, nada substitui o contato olho no olho. 


Ele estendeu a mão, saíram aos pulos entre as poças e ainda me acenaram. Éramos parceiros no infortúnio. E quem sabe daquele encontro, não role um namoro. Ou pelo menos uma lição sobre o significado de uma amizade ou a disposição de "seguir" alguém. Estaremos sendo guiados por gente tipo faz-de-conta, semelhantes aos amigos imaginários da primeira infância. Seguidamente tem gente estranha querendo amizade comigo, mas tenho receio de certas conexões digitais.


 No caso desses dois, a coisa fluiu bem. Tinham, com certeza, amigos em comum. Mas quando uma moça do outro lado do mundo, quer me adicionar, bloqueio imediatamente. Afinal, sou um tiozão analógico mas não perdi o bom senso. Curto as redes sociais, faço amigos e ainda me informo sobre como chegar a determinados locais, eventos ou possibilidade de novos contatos profissionais.  Mas não consigo abandonar o velho e saudável costume de “sair para ver gente”, nos santos botecos da vida ou nas vitrines dos muitos shoppings de minha cidade que, acredito, sobreviverá aos tais ciclones extratropicais.


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

A fúria das águas

Antes estivéssemos assistindo a uma superprodução de Hollywood. Com elenco consagrado e um diretor especializado em roteiros de grandes catástrofes.  Mas não, infelizmente era a realidade assustadora, superando tudo o que o Cine Arcoplex um dia passou, nesse gênero, em Lajeado. Infelizmente, era uma triste realidade, bem distante das telas, que não consumiu milhões de dólares para se produzir, mas exigirá fortunas para uma urgente reconstrução do que se perdeu, especialmente no Vale do Taquari. 

Em poucas horas, lugares tranquilos, com paisagens campestres ou urbanas, foram devastados por uma enxurrada nunca vista, arrastando, inclusive, casas inteiras. Ouvi relatos entre o espanto e a comoção de pessoas  - crianças, jovens e idosos -  buscando, no desespero, escapar deste devastador ciclone. Escalavam paredes, árvores, viam seus bens engolidos pela onda marrom do barro que pintava as águas nos tons do desespero.

Horas depois, o que se via era gente caminhando feito zumbis nas ruas. Queriam respostas à fúria da  natureza. Buscavam entender o que lhes tirara, de uma hora para outra, bens materiais, casas inteiras e, muito mais doloroso, familiares e amigos. Aqui onde moro, bem próximo ao rio Jacuí, distante da enxurrada, ouvi comentários de amigos que trabalham em São Jerônimo e outras cidades da região, preocupados com o aumento do volume das águas que poderiam levar a novos infortúnios. 

Mas o que mais os impressionava eram as cenas, inéditas e assustadoras de móveis, pedaços de automóveis, portas, janelas, paredes inteiras, a descer o rio na direção da região metropolitana de Porto Alegre. Na maioria dos grupos que sigo nas redes sociais, essas cenas se traduziam em alertas para a necessidade de ajuda. Sim, o que a água arrastou pode ser reconduzido às vítimas no formato de enxurrada solidária do bem. Essa é  a hora de tirarmos, o mínimo que seja, para o máximo de ajuda às vítimas de uma catástrofe histórica. 

Eu estou fazendo a minha parte entre doações e orações.  Tenho um carinho imenso por essa região, especialmente Arroio do Meio que, há tantos anos, me acolhe semanalmente nas páginas do Alto Taquari. E pelo que conheço da gente daqui, muitos queridos amigos e amigas do cotidiano, sei que não faltará força para a reconstrução. Quem sabe, também incentivando a novos métodos de prevenção a esses desastres naturais, cada vez mais frequentes.

Aos que dizem ser o fim dos tempos, contraponho garantindo que, na verdade, deve ser o princípio de uma nova era, mais pacífica e de respeito à natureza. Creiam, ou pensem a respeito: tudo o que nos acontece, de bom ou ruim, é sempre uma provocação para evoluirmos em sabedoria e fé, porque sem ela, seremos arrastados juntos a tragédia de uma existência vazia.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

A tentação mundana na Expointer


O Parque Assis Brasil, uma vez por ano, recebe o melhor da pecuária, do artesanato, da agricultura familiar e das grandes tecnologias de maquinário agrícola. Todos sabem disso. É a Expointer, uma magnífica feira internacional. Lembro meus dias de repórter do Campo & Lavoura de ZH e depois, nos anos seguintes, como assessor de imprensa na Central de Imprensa. Nesse período, acompanhei dezenas de histórias, que aconteciam por lá. A maioria guardadas na memória de cada um, fosse expositor ou visitante Um bom exemplo é esta, que segue abaixo. 


Todos sabemos que além do desfile da melhor genética de bovinos, equinos e tantos outros bichos, dezenas de humanos ligados à profissão mais antiga do mundo circulam por entre baias e boxes. Lembro bem dessa gente perfumada, com roupas a valorizar suas qualidades morfológicas, estimulando a imaginação de quem passaria o dia em função de julgamentos, remates, seminários e encontros de negócios. 


Nesses mais de 10 anos a trabalho na Expointer, vi gurias lindas a distribuir panfletos de famosas casas noturnas e insinuando-se discretamente. Muitos não resistem. Outros apenas observavam, especialmente maridos e esposas que pretendiam voltar para casa sem culpas no cartório. Mas e o dia em que a vontade irresponsável é mais forte que a razão?


Esse foi o drama de um dos tantos personagens dessa feira, lá em 2004. Casado há 25 anos, ele dizia ser vacinado contra tentações mundanas. Estava focado em negócios, em valorização de seus produtos. Mas, inadvertidamente,  exagerou no happy hour  e mergulhou nos pecados da sedução, incentivado pelos amigos. De repente, quando se deu conta, estava, em uma espalhafatoso quarto de motel. Luzes coloridas, filme pornô e uma deusa seminua a lhe acariciar o peito varonil. 


Observava tudo apavorado, a bebedeira passara com o susto e culpa. Tentava escapar do embrulho. “Estou velho demais para isso ‘, cochichou para a moça. “Não é o que estou percebendo”, respondeu ela, maliciosamente. Por favor!, gemeu. “Não vai dar certo Vamos acertar. Eu volto para o meu hotel e encerramos por aqui mesmo”, implorou. E ela, com a argúcia que a vida ensinara, respondeu: 


“Quem chega até aqui é porque está sentindo falta de alguma emoção. E comigo não tem dor de cabeça, nem cara feia. Faça a conta de quanto você já gastou na vida para ter muito menos do que estou oferecendo”, alertou sabiamente.


No dia seguinte, andava ele cheio de culpas entre as baias do Parque Assis Brasil.  Sentia-se um crápula. Um boçal. Um farsante. Secou uma garrafa de whisky com os amigos, precisava contar sua aventura, desabafar. Mas enquanto todos aguardavam por um relato cheio de detalhes picantes, caíram pasmos para trás: não acontecera absolutamente nada! 


“Ela me disse tudo aquilo e meu passado voltou à tona. Pensei nos meus filhos sempre patinando na vida, pior, minha mulher, cansada das minhas contínuas ausências. Sempre me evitando. Distante. Gente, até os financiamentos bancários apareceram, um seguido do outro”, lembrou.

“Ela me disse tudo aquilo e meu passado voltou à tona. Pensei nos meus filhos sempre patinando na vida, pior, minha mulher, cansada das minhas contínuas ausências. Sempre me evitando. Distante. Gente, até os financiamentos bancários apareceram, um seguido do outro”, lembrou.


Aquela garota de programa oferecia uma espécie de paraíso fiscal do prazer, mas ele ficara tão deprimido que nada o faria seguir adiante. Não naquela hora. Vestiu as calças, pagou o que devia, e agradeceu por abrir-lhe os olhos. Agora sabia o que deveria fazer.


No ano seguinte, eu o encontrei em mais uma edição da Expointer. Tinha uma aparência remoçada. Me disse que colocara os filhos a cuidar dos negócios, ele  gerenciando, é claro. Ainda convencera a esposa a uma separação amigável e, agora, ambos  desfrutavam a vida pagando um preço justo pela liberdade, ou quase.


Toda essa revolução foi iniciada em uma feira de agronegócio que não é qualquer uma, É a Expointer, a maior entre as maiores. E que doidamente acontece em Esteio, cidade sem zona rural.  Mas é de lá que saem as rosetas - ou escarapelas - aos campeões e reservados de grande campeões. Eu já conquistei a  minha. Sem sustos!

domingo, 27 de agosto de 2023

Afogada em Aflição e seu marido gentil

 Preservar a fonte é  o mínimo que posso fazer. Como você, leitora aqui no Facebook, agiria caso o namorado tudo de bom - apaixonadíssimo - sofresse de uma brutal dificuldade em desvencilhar-se de ex-namoradas, ou pior, mulheres do tipo “se-você-estiver-afim- também-estou”. A amiga que me confidenciou sua angústia amorosa, vou apelidar aqui, jocosamente, de “Afogada em Aflição” (bem ao estilo das cartas-resposta dos antigos conselheiros sentimentais).

Ela acredita na fidelidade do moço. Mesmo assim, não suporta vê-lo gentil e aveludado com, por exemplo, a ex-patroa inconformada com a perda “de um funcionário tão competente, tão eficiente e bla, bla blá” para outra empresa. A megera liga mensalmente com a desculpa de pedir conselhos, dicas profissionais. 

Saem para almoçar e o tema, jura o namorado de “Afogada em Aflição", se resume aos intrincados processos que “somente ele poderia resolver”. Ao final de cada encontro, a bandida ainda diz que o deseja de volta ao escritório.

Tem também aquela amiga, empresária do setor do vestuário que mora na Serra. Inteligente, foi parceira dele nas horas difíceis. Tão solidária que, certa vez, chegou ao extremo de “presentear” o rapaz com preservativos em cores e sabores exóticos. Ele recusou, reclamou que não misturava as coisas. Não poderia levar a um motel uma grande amiga, argumentou. 

Outra, bem mais madura, ofereceu um apartamento que “afinal de contas estava desocupado”. Assim poderiam ter mais “intimidade”. Ele se irritou, reclamou e acabou aceitando um lacrimejante  pedido de desculpas. Manteve a amizade, afinal, gente influente sempre pode ajudar na conquista de clientes.

Na verdade, ao conhecer “Afogada em Aflição” os contatos do rapaz com as amigas diminuíram. O namoro vai bem. Mas os almoços, as longas ligações com a ex-patroa continuam firmes. Aquelas de perfil sedutor quando se aquietam o deixam saudoso, como se as houvesse maltratado. Manda cartões em datas especiais, troca mensagens. Diz que são importantes, cada uma à sua maneira, e sem nenhuma maldade.

Vocês leitoras, como agiriam? Aceitariam? “Afogada em Aflição” tenta racionalizar. Lembra a infância difícil do namorado. O relacionamento com a mãe não era dos melhores. Levava surras sem justificativa. Era tratado com desprezo. Pouco antes da morte dela, haviam se reconciliado. Mas as marcas permaneceram. 

Talvez por isso não consiga livrar-se de relações que, de alguma forma, o levam à fantasias de intimidade quase uterina, sei lá. Só Freud para explicar. As mulheres percebem e provocam – se fazem ora maternais, ora sedutoras.

A gota d’água, aquela que encheu o pote de inconformidade de Afogada em Aflição aconteceu na semana passada. Ele sonhou - e revelou a namorada -  que tivera um affair com a atual chefe. Andavam de mãos dadas! Detalhe: ele jamais dá a mão em público. Diz que é brega. 

A nova patroa – por sua vez - é uma mulher forte, dominadora. Ao contrário da anterior, não valoriza almoços de confraternização com funcionários. Ele até se esforça para ser merecedor de reconhecimento e algum tipo de carinho. E nada! Quer ser talvez o funcionário especial, o mais querido. 

“Afogada em Aflição” sofre em meio a tudo isso. Bem que gostaria de alguém só seu. Será que ambos não poderiam ter amigos em comum, como um casal normal? Sem misturas explosivas de sensuais segundas intenções? Os ex-namorados dele, os candidatos a amantes ficaram no passado. 

Por que então, escolher um cara tão servil às mulheres? O que dizer a ela? O máximo que consegui foi uma citação maravilhosa de minha amiga, Eliane Iensen: “A vida não é um moranguinho”. E mesmo que o fosse, morangos mofam rápido demais. E sugeri que mantivesse a estima em alta e seguisse seu investimento na relação. 

Mas guardasse, bem à mão, um bilhete de ida sem volta para o caso das amigas deste namorado complicado, vencerem no assédio. Amor coletivo é como andar de ônibus na hora de maior movimento. Muito suor, muito aperto e conforto que é bom, nenhum. Qualquer coisa, desça na próxima parada.


Paz, amor e uma rajada de balas

Cá estou eu abraçado ao iniciante setembro, torcendo para que alguma boa notícia afronte a sofrida rotina pela sobrevivência. Os últimos dias registraram tristes assassinatos de crianças e outros crimes hediondos. Enquanto escrevo esse artigo, atendo o celular e uma voz simpática me garante um cartão de crédito pré-aprovado. E com direito a empréstimo, desde que eu lhe informe senhas e outros “detalhes”. É claro, mandei o golpista passear em outro inferno, me deixar em paz, aqui neste purgatório terreno.

Em seguida retomei a rotina, assim, igual a de tantos outros. Muitos, escravos de sua própria rede social, de conceitos digitais raramente aplicáveis à vida real. A marginalidade ronda, ocupa todos os espaços possíveis. Usam de tudo, religião, dinheiro fácil em duvidosas vantagens financeiras a trabalhadores feito eu. Um pouco mais de ética e conhecimento está nos faltando. 

Vivemos em um Brasil com ares de modernidade, terceira nação que mais consome o mundo virtual. São 130 milhões de cidadãos nos aplicativos enquanto a bandidagem nos rende nas esquinas. Tenho a sensação que nos isolamos entre postagens bacanas e fantasiosas no WhatsApp, Instagram e Facebook, entre outros.

Somos nossos próprios diretores de arte em fotos ou pautas prontas. Os temas aparentemente difíceis, ganham soluções fáceis.  Mas qual é a nossa efetiva postura no combate a esses crimes não virtuais? Mais educação e menos games de celular?  Quem sabe não teríamos respostas ponderadas ao que nos atordoa. Por enquanto, filtro tudo o que ouço ou leio. E não bebo para esquecer.

Quando vejo a juventude a levantar símbolos de ódio me parece que tudo é apenas uma repetição enfadonha do passado. Lições não aprendidas levam aos mesmos protestos de antes, discursos alinhados em ideologias que pouco ou nenhum benefício trouxeram.

Não quero deixar a existência como aquele sujeito perdido na descrença. As crianças continuarão – muitas delas – como vítimas nesses vácuos de satisfação instantânea. A próxima fase do jogo pode ser a última, sem direito a vida extra. Isso vale para qualquer um, seja nascido em berço esplêndido ou na mais profunda miséria.

Temos pouco mais de cem dias antes do período natalino. E até lá, mesmo com todo filme água com açúcar, toda campanha publicitária, compaixão continuará uma virtude de fracos, caso não façamos nada efetivamente verdadeiro.

Tudo pode ser melhor, mais equilibrado, desde que aceitemos a palavra desenvolvimento, como a evolução do que preservamos e nos permite crescer como um todo, respeitando singelos, mas definitivos princípios éticos. A guerra não é apenas entre Rússia e Ucrânia, ou entre facções do tráfico. Envolve cada um de nós, sobreviventes destes absurdos cotidianos.

Educação não é nada, sem apego à condição humana em sua essência, aos princípios básicos de tolerância às semelhanças e dissemelhanças. Nunca, em nenhum momento, perder o senso crítico que cimenta o verdadeiro conhecimento e vai muito além das redes sociais, dos acordos embriagados de botecos, ou das altas cúpulas do poder que sacia sua fome, nas incertezas de gerações contraditórias e egoístas. Paz e amor?

 Alguém aí, por favor, dê uma sacudida no menestrel do óbvio.


terça-feira, 25 de julho de 2023

VIVA E DEIXE CHOVER

Adoramos reclamar de autoridades públicas. “É tudo larápio, vigarista ou politiqueiro da pior espécie”, sentenciamos. Se a fila não anda, botamos a boca também. Afinal, é um direito nosso. As ruas esburacadas são temas recorrentes. Nas rádios, redes sociais, ou em imagens de tevê lá estão as crateras no asfalto, ou a falta de placas de sinalização. E xingamos porque pagamos impostos,  sonegadores são os outros. 

Eu, feliz morador de um sítio na região Metropolitana de Porto Alegre, hoje quero reclamar desses tais que adoram queixar-se dos governantes, gerentes, garçons e afins. Chove bastante desde o início da semana. E os motoristas da capital e entorno, aparentemente, não ligam para isso. 

Apesar da recomendação dos técnicos em trânsito para reduzirmos em até 30% a velocidade, tem gente que promove ultrapassagens a mais de 100 quilômetros por hora! E o fazem nas mesmas estradas que reclamam estar em péssimo estado.

Agimos como cidadãos de quinta categoria. Motoristas medíocres, gente de má índole que adora culpar terceiros em problemas e dramas criados a partir da própria irresponsabilidade. A BR 290 parece uma imensa pista de corridas. E o que se vê? Autos de motorzinho mil, com pneus gastos, mal calibrados, suspensão meia-boca, alguns completamente lisos, a voar! Carros novos,turbinados, pior ainda. 

Travestidos de pilotos suicidas, voam em suas naves de quatro rodas, na pista molhada. São maridos, esposas e filhos que, com certeza, não amam e respeitam seus familiares. Odeiam a humanidade! E os caminhões? Meu Deus! Ultrapassam com a mobilidade de baleias na cristaleira de suas avós e ainda grudam os para-choques duros - talvez a única coisa rija que possuem - nos veículos que tentam manter uma velocidade cautelosa.

Se a maioria age desta maneira, a minoria que se cuide. Eu continuarei atento, dando passagem aos velocistas da chuva e rezando para que não me envolvam em seus métodos doidos de dirigir. Aliás, também vi  pedestre atravessando a rua sem olhar para os lados. Tem gente, nova e velha, andando na chuva sem proteção. Capa, guarda-chuvas, sei lá. Nunca vi tantos encharcados. Esqueceram o surto global da gripe A, em 2009? Ainda temos uma sequência enorme para o alfabeto vil das  doenças contagiosas. 

 Sim, estou bem ranzinza, mas depois de tanto susto na estrada, em apenas uma tarde e sabendo que o inverno seguirá com seus dias úmidos e de pista escorregadia, temo por minha própria vida. Quero seguir na rica experiência da maturidade e suas dores intermináveis por mais algum tempo, Acreditem, eu como todos vocês, temos sempre muito o que melhorar. Estamos aqui para isso.

Então, façam dos seus carros apenas um meio de transporte que oferece conforto e bons itens de segurança. Os veículos modernos agregam pacotes bacanas para idas e vindas tranquilas. Em dias de intempérie nem todos somos pilotos perfeitos, pronto a enfrentar trechos alagados, visibilidade reduzida e aqueles buracos muitas vezes cavados pela força d'água. Vivamos mais e melhor! 

A pressa é a máscara do descuido.


terça-feira, 18 de julho de 2023

Fraldas e ética descartáveis


Quantas vezes você desligou, ou trocou de canal na hora do noticiário? Ou pior, assistiu impassível ao desfile de brutalidades gratuitas que se repetem em nosso país? É uma sequencia onde apenas se trocam as vítimas, porque o conceito do crime – desde o simples furto, até a corrupção – se torna mais evidente, assustador. Talvez até por isso mesmo, sejam estes tempos os melhores  para um banho moralizador e nunca moralista, em uma sociedade que agoniza entre o frio do concreto e o sangue de tantas vítimas. Merecemos mais do que o simples existir, queremos uma vida com um sentido mais amplo do que esta modernidade de tantas tecnologias novas a brotar em uma sociedade sem ética.

Na semana passada eu vi, ninguém me contou, uma jovem grávida - classe média - pegar um pacote de fraldas descartáveis no supermercado e surrupiá-la para a sua bolsa. Esses pequenos furtos, essas distrações éticas, ao se tornarem rotina, cobrem tudo no frágil glacê da desculpa pobre: “Não vai fazer falta, afinal eles são poderosos”, e lá vai ela, com seus conceitos simplistas, levando na barriga um ser que deveria, em tese, educar e dar exemplo, para uma vida exemplar. 

Quem sabe essa futura mamãe recrimine duramente os desvios em verbas públicas, reclame do celular que promete ser 5G e não completa a mais básica ligação, ou dos excessos nas redes sociais. “Em que mundo nascerá meu filho?” Esquece que o ladrão não se reconhece pelo tamanho do furto.

Segundo psicanalistas, fatores como a hereditariedade, experiências a partir da primeira infância e o ambiente familiar, determinam a formação de uma criança que, ao sair da fase inicial do egocentrismo, onde tudo gira em torno de seu lindo umbigo, precisa da presença dos pais para ensinar o básico, como não ser nada legal tomar para si, objetos alheios.

Como controlar esses impulsos, se a mão que embalou o berço é mesma que não tem escrúpulos para pequenos delitos? Se a criança, inicialmente nada sente ao se apropriar do que não lhe pertence, a reação dos pais é fundamental, para demonstrar o quanto pode magoar terceiros. Sem excessos, para não traumatizar, mas com exemplos tirados da experiência própria de vida.

Enfim, que uma família crie suas próprias fábulas, onde a dignidade não seja algo elástico e adaptável às ocasiões que fazem o larápio. E que um mínimo senso ético, não desapareça, vergonhosamente, em uma fralda de bebê furtada às pressas. Isso é muito feio. E nocivo.

terça-feira, 11 de julho de 2023

Os tolos e a portabilidade amorosa

Semana passada acompanhei a discussão de um casal no ponto do ônibus. “Te vi com aquele barbudo de novo. O que ele queria?” Ela, com ares da mais fingida inocência, justificava ser apenas amigo de seu irmão. “Eu percebi teu jeito de olhar. Provocando ele. E aquela blusa que comprei para usar só comigo? Nem terminei de pagar e tu já sai como se todo dia fosse festa. E com outro?" Reclamou o desconfiado namorado. Minutos depois, a senhora sentada a meu lado, cochicha maldosamente: “Essa deve ser tinhosa...” Eu via uma garota que mal saía da adolescência - que sensualiza para a comunidade do Tik Tok e outros -  a seguir o caminho natural e seletivo da vida. Confesso que torci pelo tal barbudo ser mais esperto do que aquele pobre infeliz.

Dois dias depois, no mesmo ponto de ônibus, quem eu avistei? A garota, a polêmica blusa, e outro rapaz. Sim, era ele: o barbudo! Ignorando todos nós, ela se desmanchava no jogo típico da idade onde hormônios atropelam neurônios. “Te curto muito”, repetia o galã canastrão. Ela excitava-se: “Tu é louco!” Ele sussurrou algo enquanto envolvia a cintura da guria que, se fazendo de indignada rosnou:

“Não sou dessas de baile funk!” O barbudo não perdeu tempo: “Quem disse que eu quero dançar contigo?” Ambos riram maliciosamente e o ônibus arrancou. Com o ruído não ouvi mais nada. Aliás, não ouvimos, pois todos os passageiros daquele horário matinal, já acompanhavam as aventuras amorosas da guria.

No dia seguinte, lá estávamos a espera de mais um capítulo daquela novela urbana. Aprendíamos que portabilidade não é apenas entre tecnologias digitais. E não é que ela chegou com o namorado oficial? Sim, aquele mesmo que gastara seu comprando blusinha sexy. Pelo jeito haviam selado a paz. Entre amassos apertados ele perguntava qual seria o presente que ela lhe daria de aniversário. 

“Ai amor, tens tudo. Vou pensar em algo que só tu pode ter. E eu, vou ganhar o quê?” Empolgado, mostrou o cartão da loja. De lá viria, quem sabe, mais roupinhas. “Vamos passar o fim de semana na praia. É barato no inverno, já reservei hotel!,” anunciou o moço. 

Nós, testemunhas habituais desta história de encontros e desencontros, amor e traição, já suspirávamos conformados, quando percebemos que o abraço dela, bem apertado, no namorado, era mais do que reconhecida gratidão por tão bons presentes. 

Do outro lado da rua, o barbudo desviava a rota, alertado por ela que, com as mãozinhas nervosas, o mandava seguir adiante. Quase me bateu pena do pobre e ingênuo namorado. Mas olhando bem no fundo daqueles olhos sem brilho ou personalidade, achei que ele merecia. E que a moça tirasse tudo o que pudesse o quanto antes, porque o tempo é inimigo dos amantes voláteis e fúteis. 

Um dia, sua única moeda de troca se manterá empinada a base desses jeans de esperto elastano. À nossa musa do circular, poderá restar o suplício, o castigo de passar o resto da vida ao lado de um manso alegre. Isso se o tal não encontrar outra ave rapineira pelo caminho. A carne é fraca. Especialmente a dos tolos.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

QUANDO ELA QUER DECORAR TEU CANTINHO

Estava tudo quase perfeito. Lá fora, frio e chuva. Dentro de casa, uma dessas comédias românticas repetidas mil vezes, era apenas desculpa para as pipocas, rapadurinhas e chimarrão. No sofá macio, cobertores e afagos mantinham as mãos ocupadas e quentes. De repente aqueles lindos olhos o fitam, questionadores: “Amorzinho, posso te fazer uma proposta? Tu não vai ficar chateado comigo?” E antes mesmo da resposta, virou-se para a parede da sala, apontando o imenso painel em óleo, trabalho de renomada artista plástica e sugeriu: “Vamos tirar daí? Dar para alguém, sei lá...”.

Experiente e por isso mesmo, sem tempo para a perplexidade, reagiu com a naturalidade que o momento exigia. Respondeu - direto e definitivo: Não! Voltou-se ao filme onde os personagens viviam crises, encontros e desencontros. Preparavam-se, talvez, para um final feliz. Sessão da tarde necessita de roteiros sem tropeços e trilha sonoras envolventes. Olhou pela janela, a chuva insistia forte. E se estivesse solteiro naquela hora? Ninguém para redecorar a casa, sugerir, indicar, apontar novidades. Mas e o frio?

Sem disposição para a polêmica argumentou que o trabalho fora um presente da própria artista. Se não entendia o abstrato das cores fortes usados na pintura que mesclava tintas, areia e pigmentos em ouro, explicaria tudo outra vez. Sim, porque no início do namoro, relatara toda a história daquele trabalho. E de outros detalhes artísticos que ocupavam as paredes da residência. Ela achara bacana. Tempos de espumantes, tudo acabava em distraídas borbulhas.

Em outras palavras é sempre assim. O começo é uma pré-estreia com tapete vermelho. Qualquer cantinho vira mansão. Não existe o feio na casa da paixão. Aos poucos – e isso é uma característica bem feminina – começam as pequenas e intrometidas dicas. O sofá já não é tão legal. 

Aquelas panelas que foram da tua avó, resistiram a todas ex-namoradas, esposas ou candidatas, correm novamente o risco de serem vendidas a um ferro-velho. Até a disposição de porta-retratos, ou a marca de teu desodorante é questionada por sensíveis narinas apaixonadas. E no jardim? Os canteiros cultivados em anos de trabalho, brigas com jardineiros preguiçosos e tias enxeridas, voltam a sofrer ameaça de despejo.

A vida a dois tem um preço alto. Pode acabar em "Vida onde um manda e outro obedece".  Por isso, ilustres leitores deste texto, sejam solteiros, casados ou juntados. Em datas especiais – aniversário de convívio, por exemplo - deem como presente, liberdade e alguma consideração a história individual de cada um. 

A partir daí, tudo se negocia. Até uma obra de arte pode ser alvo de mudança para uma nova sala, ou troca de moldura. Quem sabe? Mas para a comédia romântica do cotidiano seguir em frente é preciso tato e sensibilidade. Ou pode acabar em tragédia “shakesperiana”. Aliás, foi o próprio dramaturgo inglês quem disse, “Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor”.


quarta-feira, 21 de junho de 2023

Em pleno inverno, um invencível verão

 Confesso que já gostei mais dos invernos. Reparava mais na chuva, na geada que queimava o pátio. Dava mais atenção a correria de meus filhos, gostosos de apertar, feito bichinhos de lã, de bochechas vermelhas e fofas. Lembro do frio que cortava feito diamante o vidro da janela e me obrigava a recorrer ao mais encorpado dos vinhos. Até uma confraria criei ao lado de amigos. O gelado era um convite a reuniões animadas. Enquanto o gelo cobria a capota dos carros lá fora, no calor da lareira esquentava-se a vida.

Lembro dos amigos que recitavam poesias, inspirados pelo mesmo deus Baco que, de propósito, os fazia esquecer estrofes, ou engolir rimas. Mas tudo era válido, tudo quente e aconchegante. Porque era inverno e estávamos juntos. 

A lareira parecia nunca apagar, a adega sempre cheia. Os confrades traziam seus vinhos e pães, queijos, salames coloniais e caldos a ferver seus vapores aromáticos. O inverno se cobria de um frio suportável assim, mesmo que insistisse em chuvas intermináveis, entremeados de raros dias de sol pleno, abaixo de zero. Lagartear era tudo o que se precisava para recarregar as baterias.

Chimarrão, chás de todos os tipos e cafés servidos direto da cafeteira italiana. Era energia pura, que se agarrava na certeza de que toda estação tem seu encanto, mesmo que absolutamente fria, com ares melancólicos, quase depressivos. Eu não me permitia sofrer contra o óbvio. Para que reclamar do inverno frio, se não tinha como ser diferente. A alternativa, o norte ensolarado, era apenas uma fantasia cara demais para ser verdade. E duraria poucos dias. Longos seriam os meses a pagar passagens aéreas e hospedagem.

Quero de volta esse frio que convida a algum tipo de celebração. Que não me isole em um edredon solidário, enroscado nos pés de minha amada. É bom, mas não é tudo. Brindar a reação ao frio é importante também. Tão mais quanto provar o advento gostoso da primavera e verão. 

É quando tudo se torna mais fácil e dinâmico. Quero a certeza de não faltará parceria para aquecer, por alguns minutos, a tão necessária alegria. Quebrar o gelo. "E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível," disse Albert Camus. Que assim seja!

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Esse papo é qualquer coisa

 

Lembram da piada do mineirinho na estação ferroviária? O filho pedia um refrigerante lá vinha um "trem de beber", batia fome e comprava um "trem de comer". Na hora do pito, acendia um "trem de fumar" . Na chegada do verdadeiro trem, saudou: "Óia! Lá vem a Coisa!" Tenho reparado que ao contrário do mineirinho, muita gente faz o inverso. Tudo vira coisa, um genérico substantivo feminino. Roupas, comidas e sentimentos. Coisas! Vocabulário curto. Tem gente fazendo aula de inglês e, passada a fase "the book is on the table", se volta à última flor do Lácio expressando-se através de qualquer coisa - thing - em inglês.

Falta leitura que vá além das postagens em rede. Palavras e expressões idiomáticas inteligentes e criativas - de bons autores, inspiram ideais, ilustram diálogos com sinônimos e adjetivos bem colocados. A palavra coisa, por exemplo, é uma das mais vagas e gastas de nosso alfabeto. Genérica, aceita qualquer companhia, não tem obrigação de respeito a conceitos ou virtudes. Coisa é a banalização da essência. É um trem vazio, diria o mineirinho da piada. Um trilho abandonado.

Também percebo que estamos em processo de “coisificação” institucional. Gente, bichos, conceitos, ideologias transformados em coisas. Sem rosto, ou pior, com um rosto único e cruel na maioria das vezes. 
Roubar para matar, matar para comer, comer até morrer e viver sem ter qualquer noção de civilidade virou mandamento porque as pessoas, os valores que as formam transformam-se em coisas inexplicáveis. Irascíveis, imutáveis, coisas necessárias e consumíveis. 

Precisamos de dinheiro para qualquer coisa! Mas se for para um projeto vivo, específico e relevante, igualmente fazemos qualquer coisa para consegui-lo. A coisa é um vácuo que nos engole e mata virtudes. E é aí que a coisa fede.

Está na hora de se pensar antes de se abraçar qualquer coisa que não tenha sentido ou, ao contrário, tenha vários, dezenas de motivos que, no fundo, não encontraram ainda seu mais perfeito sentido. E é preciso que tudo tenha mais nexo ou menos “coisificável”.

Eu vi dois guris atirando pedras em lâmpadas na rua onde moro. Perguntei porque faziam aquilo e o mais velho disse que não tinham coisa nenhuma para fazer “a prefeitura é rica, pode comprar qualquer coisa”, respondeu. A coisa está lá, latente em seu poder destruidor. 

Ninguém lhes ensinou que há dezenas de atividades que não são coisas, ou são coisas boas de se fazer. 
No momento em que deixam o limbo da ignorância passam a ter nome próprio. Um jogo que lhes estimule a imaginação, um livro que dê vocabulário, criatividade e sensibilidade. Encontrariam mais sentido e o prazer de atirar pedras de “qualquer coisa”, passaria a um grande constrangimento.

Ao tratar gente como coisa difícil, coisa ruim, ao negar oportunidades de cultura, trabalho, ao trocar educação por coisas, se permite a indiferença e o radicalismo. Coisa é tudo e não é nada. É um soldado atirando contra a multidão, porque seu dever é proteger alguma coisa. É o bandido matando para obter alguma coisa de valor.

Melhor deixar as coisas às claras, dar-lhes um sentido menos genérico, por mais difícil que possa parecer. Em nome de alguma coisa maior que talvez vocês saibam o que é. Por enquanto a minha cara de tacho não virou qualquer coisa. Afinal, é um tacho! E reflete perplexidade, diante da ignorância que interessa a um tipo de poder corrupto e corporativista e faz da vida uma coisa sem sentido.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Frio e namoro em dias de casais maduros



Renato abriu mais uma garrafa de vinho - melhor alternativa para enfrentar o frio úmido de junho,­ às vésperas do Dia dos Namorados. Laura, riu. Decididamente iria permanecer mais uns minutos ali. Sentia-se confortável e, embora soubesse da má vontade de veterano jornalista com a possibilidade de uma aventura amorosa, fantasiou a possibilidade de utilização daquele “corpo estranho” por um par de horas e depois liberá-lo. 

Dispensava telefonemas, declarações repetitivas - mesmo sinceras - nas redes sociais ou flores, sim as rosas que tanto amava. Afinal, não seria essa liberdade, esse deliberado esquecimento, o sonho da maioria dos homens? perguntou aos botões da blusa que, a exemplo daqueles cantados na música de Roberto Carlos, mostravam-se dispostos a abrir-se em mil possibilidades.

Ele estranhou o olhar pensativo da moça e, querendo fugir do tema trabalho - estavam ali produzindo textos para o livro de um cliente - pateticamente passou a reclamar da inconstância do tempo. Será que vai chover? Laura provocou: “Você escreve sobre meteorologia? Ou é falta de assunto mesmo? Que tal falarmos sobre namoro inventado?” 

Esquivou-se. Estava velho demais para romances. “Sou um quase idoso voltado às coisas práticas. Trabalho, comida boa e viagens, Isso quando tempo e dinheiro entram em conjunção astral. Relacionamentos exigem dedicação, o que não estou podendo oferecer”, disse com o ar solene de quem esquarteja segundas intenções. Laura abriu o celular  e passou a ler trechos de um texto perdido em suas pesquisas. Nele o autor definia o amor como um imenso deserto.

“Quem vive sob seus domínios deve enfrentar o sol escaldante, as tempestades de areia e o frio de tantas noites solitárias até merecer o oásis do bem viver a dois. O amante prevenido guarda no coração o beijo que sacia a fome da paixão e tatua em sua pele o cheiro, as mãos nervosas que cumprem o percurso do prazer. Transforma a aspereza e o uivo desértico em música, hino de uma nação a ser conquistada a cada novo dia". 

"E assim, corpo e alma consagrados a um sentimento único, retomam, em paz, a jornada do cotidiano e suas obrigações” citou Laura, surpreendendo Renato. "A vida faz do amor, uma eterna jornada por estas areias escaldantes. Tem o vendaval do dia-a-dia, o bafo morno da rotina, a sacudida das crises, das pequenas traições, das juras secretas que se transformaram em eco diante de um abismo de rancor e dívidas.  

"Quantas vezes amor me tens ferido! Quantas vezes, , razão, me tens curado, escreveu Bocage". Mas será que vale a pena esta cura? questionou Renato, enquanto acompanhava os movimentos de Laura, já com as bochechas coradas pelo vinho, a cerrar as cortinas da sacada. Lá em baixo, a cidade reduzia seu movimento, alguns faróis ainda varriam as avenidas que escondem sombras, infelizmente, perigosas. 

Renato perguntou se ela queria chamar um táxi. Laura, de volta à sala respondeu - decidida - que ficaria por ali e não dormiria no sofá. Encerrava-se a discussão. Estava confirmado com a proposta de improvisar uma paixão, mesmo que de mentira, um pouco antes do tal Dia dos Namorados. O trabalho ficaria para um pouco mais tarde.  

Uma sirene da ambulância ecoou sua angústia na avenida. Mas os suspiros emitidos naquele antigo apartamento, no centro da capital gaúcha, sinalizavam a certeza de que toda relação amorosa ainda é um eficiente curativo, goste ou não Bocage. E abençoados sejam aqueles que ainda não desistiram e buscam seu pequeno oásis nos desertos do paixão.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

A mansão dos ratos psicanalíticos

Era um antigo casarão típico das famílias uruguaias em décadas passadas de maior riqueza. O estilo clássico, o interior de peças amplas  e móveis de madeira maciça formavam um conjunto imponente e acolhedor. As portas imensas abriam-se para a sala de jantar e um gracioso jardim de inverno. Em outra extremidade, o escritório com paredes forradas em couro. Mais adiante, a biblioteca. Que espaço magnífico!

Os livros exploravam os limites do teto e da imaginação. Centenas de publicações organizadamente catalogadas. Romances, bibliografias, enciclopédias, dicionários e almanaques centenários. Milhares de palavras transformando as estantes em tesouros de conhecimento.  


Estrategicamente disposta junto a janela, uma poltrona de veludo verde musgo convidava a leitura. Ela simplesmente não acreditava naquele momento perfeito. E mais impressionante ainda a casa fora comprada pelo marido. Porque o Uruguai? Talvez a identidade cultural com o pequeno e simpático país vizinho.


Fazia planos de pequenas alterações, onde colocar mais quadros e esculturas e, foi assim que percebeu uma estranha movimentação atrás de um móvel. Era um rato! Nem teve tempo de gritar, de repente outras tantas ratazanas surgiam entre frestas e cortinas. Tão habituados estavam com a casa que sequer fugiam das pessoas. Assustada passou a calcular quanto gastaria para eliminar aqueles detestáveis inquilinos.


Tudo em sua vida sempre exigia mais trabalho. Não conseguiria concentrar-se em nada mais. Marido, móveis e decoração, apenas naqueles roedores que surgiam de todos os cantos. Assustada correu em direção a porta e, neste momento, um som estridente, muito alto, a assustou.


Eram 6h30min de sábado! Ela acordava de um sonho que se transformara em  pesadelo. Tudo parecia real demais. Existiria aquela residência, em alguma discreta cidade do interior uruguaio? O marido, é claro, ironizou, ao afirmar que até em sonhos presenteava coisas lindas que, no fundo, carregavam problemas que ela sempre corrigia. 


Ela evitou uma avaliação psicanalítica do sonho. Os ratos saindo de porões e armários. Preferiu a opinião de uma amiga de que ratos, por proliferarem rapidamente, deveriam significar dinheiro. E a tal casa, quem sabe não seria aqui mesmo no Brasil, em uma cidade do interior, onde ambos pudessem alternar com o apartamento na cidade? À noite, voltou a dormir e desta vez não sonhou com casas ou ratos. 


O marido não pregou o olho. Será que tudo que entregara até agora no relacionamento fora carregado de imaginários bichos nojentos como os tais ratos do sonho? Ela seria a faxineira dos projetos que tentavam dividir? Quem sabe por isso estaria extenuada e distante. A proposta de uma vida saudável a dois ficaria como? Estavam próximos de uma aposentadoria. 


Buscou alguma literatura, tinha em casa uma antiga  Deprimido, somente dormiu ali mesmo, no sofá, após algumas taças de vinho ou correr a biblioteca. Não confiava nas pesquisas da internet. Na estante encontrou o "Livro dos Sonhos", publicação da Folha de São Paulo. Hum! Leu, achou genérico e resolveu voltar a soneca. E aí voltaram os sonhos. Viajava em um confortável ônibus de turismo e, da janela, avistava  um ensolarado deserto. 


Olhou para trás e percebeu centenas de ratazanas mortas na estrada. Acordou suando. A boca seca exigia água e uma ducha refrescante. Voltou à sala onde a TV ligada, lhe oferecia uma antiga comédia romântica que o permitiu afastar questionamentos. E de olhos bem abertos, tentou escapar de antigas culpas,  ocultando aqueles bichos escrotos, atores nos sonhos de um casal !que tinha problemas. Ora quem não os tem”, relativizou.


terça-feira, 16 de maio de 2023

Amor sem obsessão, por favor!


Chegou em casa e viu o pandemônio à sua volta. Cortinas rasgadas, poltronas meladas por ovos espatifados. Na cozinha, pratos e copos quebrados amontoavam-se entre panelas furadas a pontaços de faca. Inacreditável! Desacorçoado dirigiu-se ao quarto onde, surpresa! Não havia mais cama. O colchão transformara-se em peneira de espumas. Meu Deus! Ela havia enlouquecido. O violão, velho parceiro, jazia em um canto, partido ao meio em sua alma de madeira nobre.


Conhecera a namorada através de um destes aplicativos de bate-papo. “Ela era espirituosa, apaixonada”, conta. Em prazo recorde, juntaram as trouxinhas. Tudo sempre tem pode carregar uma urgência perigosa, a partir destes espaços de sinceridade digital. Tem senha para entrar. E a saída?

Quando o calor da pele e as sensações viram o fio dos sentidos, a coisa toda pode sofrer uma súbita e inesperada troca de máscaras. Tipo algo pré digital, como no teatro da antiga Grécia, onde a embriaguez levava a uma dança estonteante, permitindo aos atores escaparem do moderado e, em êxtase, revelar seu verdadeiro eu.

Músico profissional, viaja muito e passa longas horas em ensaios. Ela aceitou a rotina até descobrir que na banda, havia uma vocalista muito afinada. E extremamente sexy. Aflorou um ciúme possessivo, doentio. No melhor estilo tipo filme de terror. Lembram Louca Obsessão, de Stephen King, adaptado pelo diretor Rob Reiner?

O lado obscuro e malvado daquela moça, até então, era só fogo e paixão, agora lembrava a personagem de Kathy  Bates. O universo das redes sociais, permite citações estudadas e uma realidade paradisíaca. Esconde, muitas vezes, o verdadeiro eu dos protagonistas.

Apenas depois do incidente soube que sua amante virtual sofria de profundas crises depressivas. Os avós da moça. que a criaram, gente de boa índole, imploraram para não levar o caso à polícia. Assumiram os prejuízos.

Aceitou desde que tivesse a chave do apartamento de volta. Aliás. trocou as fechaduras. Sim, eu concordo, relacionamentos digitais podem dar certo. Temos o Tinder, o Badoo e outros com suas pequenas mentiras em filtros e frases copiadas de outros. Isso é bem aceitável. 

Mas algumas etapas presenciais precisam ser repetidas. Vai que que outra doida, ou um maluco machista, predador de mulheres, surja logo após os primeiros beijos. "Olho no olho, depois das visões nas telas dos celulares, é fundamental antes de iniciar-se uma vida a dois" ensina esse meu amigo que, atualmente, vive no litoral catarinense. 

Os solos de guitarra ele os entrega sem restrições. Mas as parcerias românticas, quem sabe, só depois de muito ensaio. Vá que desafine logo adiante.

Apressados na cidade da ânsia

 

Havia uma cidade onde todos tinham muita pressa. Levantavam uma hora antes, afobados. Tomavam café às pressas, vestiam as crianças em segundos e lhes alimentavam de um desjejum instantâneo, sem sabor, porque saborear exige tempo. Em seguida, estavam na porta da casa, do ônibus escolar ou na recepção da creche. Mãos nervosas a acenar beijos tensos. Precisavam estar à frente, antecipar-se ao engarrafamento, evitar as filas. Porque tinham de estar lá, precisamente na hora certa ou, muito melhor, alguns bons minutos antecipados. 

Assim, corriam para pegar o ônibus, ou abrir a garagem e antecipar segundos, buscar um desvio, escapar do sinal fechado. Avançavam faixas de pedestres, cometiam deslizes, em nome do compromisso, esqueciam os bons modos e reclamavam de quem lhes atrapalhava o ritmo. Se havia fila, davam um jeito de furá-la. Que feio!

Esta cidade sofria com altos índices de intolerância. Todos chegavam praticamente juntos para disputar os espaços, cada vez menores, no ônibus, no trem ou nos pontos dos táxis, onde motoristas neuróticos odiavam os roteiros em vias congestionadas. Mas lá, existiam apenas avenidas modernas, entupidas de gente e veículos. De todos os tipos, modelos ou cores. Sempre a mil. 

No trabalho, lutavam por mesas, computadores, telefones e cargos que acelerassem seus processos. A ânsia de poder, não os permitia perder tempo para o questionamento abstrato, que de uma maneira ou outra, poderia encaminhar soluções menos sofridas. Mas a vida naquela cidade era para ser rápida feito seus lanches, seus cafés em pó e sua fugaz alegria.

Eles riam nos bares, ao final do expediente. Misturavam bebidas e energético para acelerar o prazer como quem busca recompensa por uma missão que não se definiu ainda o sentido. Voltavam para casa dispostos a dormir o quanto antes e assim, no caminho, não percebiam a cidade aflita por uma noite sem sirenes, ou mortes gratuitas. 

Apenas uma noite para sonhar. Mas sonhos não eram mais permitidos, porque lhes obrigariam a pensar, interpretar as mensagens de seus subconscientes. Então, tomavam pílulas para dormir e, ao acordar, pílulas para lhes bloquear o apetite, pílulas para motivar na repetição rotineira da pressa.

Lembro que no dia em que parti desta cidade funesta. se formara um grande congestionamento nas principais vias. Todos, exceto alguns poucos excluídos, haviam se deslocado exatamente na mesma hora. Haviam caminhado os mesmos passos afobados, percorrido as mesmas ruas, na mesma louca velocidade e, desafortunadamente, cometido as mesmas pequenas contravenções para chegarem, é claro, antes.

Assim, de uma forma inédita trancaram ruas, calçadas, elevadores e todos os espaços públicos possíveis. Ainda consegui ver a minoria lenta circulando por vias alternativas. Evitavam assim a neurose dos semáforos de três estágios, a zanga dos que jogavam - uns contra os outros seus para-choques e frustrações. Escapavam da fobia dos que não sabiam admitir que, às vezes, mudar o rumo evita um grande problema e cria uma nova alternativa. 

A cidade de uma hora para outra, estava entupida de gente afobada. Do tipo que não conseguia desligar. Que pensava na aposentadoria que viria um dia, ou no final de semana que passaria rápido demais, entre o shopping, o cinema e quem sabe um pouco de amor, eterno, dentro de alguns minutos. As buzinas soavam como somente o coral do desatino poderia soar: aos berros. 

Os gritos, os desaforos e as ambulâncias misturavam-se em outros tons, sem saber a quem  socorrer. Era um engarrafamento monstro de ansiedade bruta. De monolítica ignorância entre tantos cidadãos com diplomas, títulos de nobreza e uma não declarada vontade de sumir o mais rápido possível.

A minoria lenta seguiu pacientemente a desviar dos grandes corredores, das perimetrais e túneis que a cidade grande construía para causar uma falsa sensação de agilidade, de leveza urbana e trancar tudo metros adiante, em seus funis de concreto. 

E foi assim que esta destemida minoria lenta chegou lá. Ainda a tempo de bater o ponto sem angústia. Aproveitar o aroma gostoso do café recém-coado e observar, da janela, o movimento das pessoas nas calçadas, desta vez, cada um a seu ritmo, com um toque inédito de civilidade e paz. Pontuais, como sempre poderiam estar.