domingo, 27 de agosto de 2023

Afogada em Aflição e seu marido gentil

 Preservar a fonte é  o mínimo que posso fazer. Como você, leitora aqui no Facebook, agiria caso o namorado tudo de bom - apaixonadíssimo - sofresse de uma brutal dificuldade em desvencilhar-se de ex-namoradas, ou pior, mulheres do tipo “se-você-estiver-afim- também-estou”. A amiga que me confidenciou sua angústia amorosa, vou apelidar aqui, jocosamente, de “Afogada em Aflição” (bem ao estilo das cartas-resposta dos antigos conselheiros sentimentais).

Ela acredita na fidelidade do moço. Mesmo assim, não suporta vê-lo gentil e aveludado com, por exemplo, a ex-patroa inconformada com a perda “de um funcionário tão competente, tão eficiente e bla, bla blá” para outra empresa. A megera liga mensalmente com a desculpa de pedir conselhos, dicas profissionais. 

Saem para almoçar e o tema, jura o namorado de “Afogada em Aflição", se resume aos intrincados processos que “somente ele poderia resolver”. Ao final de cada encontro, a bandida ainda diz que o deseja de volta ao escritório.

Tem também aquela amiga, empresária do setor do vestuário que mora na Serra. Inteligente, foi parceira dele nas horas difíceis. Tão solidária que, certa vez, chegou ao extremo de “presentear” o rapaz com preservativos em cores e sabores exóticos. Ele recusou, reclamou que não misturava as coisas. Não poderia levar a um motel uma grande amiga, argumentou. 

Outra, bem mais madura, ofereceu um apartamento que “afinal de contas estava desocupado”. Assim poderiam ter mais “intimidade”. Ele se irritou, reclamou e acabou aceitando um lacrimejante  pedido de desculpas. Manteve a amizade, afinal, gente influente sempre pode ajudar na conquista de clientes.

Na verdade, ao conhecer “Afogada em Aflição” os contatos do rapaz com as amigas diminuíram. O namoro vai bem. Mas os almoços, as longas ligações com a ex-patroa continuam firmes. Aquelas de perfil sedutor quando se aquietam o deixam saudoso, como se as houvesse maltratado. Manda cartões em datas especiais, troca mensagens. Diz que são importantes, cada uma à sua maneira, e sem nenhuma maldade.

Vocês leitoras, como agiriam? Aceitariam? “Afogada em Aflição” tenta racionalizar. Lembra a infância difícil do namorado. O relacionamento com a mãe não era dos melhores. Levava surras sem justificativa. Era tratado com desprezo. Pouco antes da morte dela, haviam se reconciliado. Mas as marcas permaneceram. 

Talvez por isso não consiga livrar-se de relações que, de alguma forma, o levam à fantasias de intimidade quase uterina, sei lá. Só Freud para explicar. As mulheres percebem e provocam – se fazem ora maternais, ora sedutoras.

A gota d’água, aquela que encheu o pote de inconformidade de Afogada em Aflição aconteceu na semana passada. Ele sonhou - e revelou a namorada -  que tivera um affair com a atual chefe. Andavam de mãos dadas! Detalhe: ele jamais dá a mão em público. Diz que é brega. 

A nova patroa – por sua vez - é uma mulher forte, dominadora. Ao contrário da anterior, não valoriza almoços de confraternização com funcionários. Ele até se esforça para ser merecedor de reconhecimento e algum tipo de carinho. E nada! Quer ser talvez o funcionário especial, o mais querido. 

“Afogada em Aflição” sofre em meio a tudo isso. Bem que gostaria de alguém só seu. Será que ambos não poderiam ter amigos em comum, como um casal normal? Sem misturas explosivas de sensuais segundas intenções? Os ex-namorados dele, os candidatos a amantes ficaram no passado. 

Por que então, escolher um cara tão servil às mulheres? O que dizer a ela? O máximo que consegui foi uma citação maravilhosa de minha amiga, Eliane Iensen: “A vida não é um moranguinho”. E mesmo que o fosse, morangos mofam rápido demais. E sugeri que mantivesse a estima em alta e seguisse seu investimento na relação. 

Mas guardasse, bem à mão, um bilhete de ida sem volta para o caso das amigas deste namorado complicado, vencerem no assédio. Amor coletivo é como andar de ônibus na hora de maior movimento. Muito suor, muito aperto e conforto que é bom, nenhum. Qualquer coisa, desça na próxima parada.


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