quarta-feira, 24 de agosto de 2022
Ode à minha fúria controlada
terça-feira, 23 de agosto de 2022
Onfalomancia ou a personalidade lida no umbigo
Muitos quando se referem a falhas de caráter de algumas (ou muitas) pessoas, recorrem com frequência à região abdominal em expressões tipo “parece ter o rei na barriga”, para a arrogância, ou “vive em função do próprio umbigo”, sobre o egoísmo. Aliás, segundo o psicólogo alemão Gerhard Reibmann, essa depressão cutânea, originada a partir da cicatriz do corte do cordão umbilical, pode definir, por meio da análise de seu formato, a personalidade de cada pessoa, semelhante ao que nos habituamos a ler nos horóscopos e influência dos astros celestes em nosso estado de espírito, via astrologia.
A matéria foi publicada inicialmente no vetusto e conservador tabloide inglês The Sun, mas ao pesquisar sobre o tema encontrei uma meia dúzia de outros jornais ou sites comentando sobre a teoria que tem até nome próprio – onfalomancia – inicialmente usada para prever a quantidade de filhos que uma mulher teria, a partir da quantidade de nós formados no cordão umbilical de seu primogênito. Mas agora vai além, indicando, é claro, sem nenhuma evidência científica, a expectativa de vida e personalidade de nós, seres humanos.
A coisa anda tão bagunçada com tanta gente escrevendo mentiras e outros tantos acreditando nessas inverdades, que um pouco de bom humor e fantasia pode até nos divertir, ao nos vermos, diante do espelho tentando se autodecifrar observando o próprio umbigo. Tentei achar o tal livro, mas encontrei apenas o que seriam os seis formatos básicos de umbigos e suas consequências na vida de cada um, conforme publicou o jornal britânico e que reproduzo abaixo.
Umbigo horizontal: define uma pessoa complexa, com força nas emoções. Desconfiado, mas quando confia, a outra pessoa é muito importante em sua vida. Vertical: autoconfiante e generosa, com tendência a ser emocionalmente estável. A matéria do The Sun diz que este tipo de umbigo é muito procurado em cirurgias plásticas. Mas se o umbigo é para fora, ao contrário de constranger por seu estilo “rendido” como diria minha avó, representa um ser otimista de caráter forte, perseverante.
Os outros três tipos são o profundo/redondo: geralmente em pessoas modestas, equilibradas, retraídas. O umbigo oval, vejam só, está no centro de uma pessoa gentil, amorosa, cautelosa e delicada, mas que magoam facilmente. Por último, aquele de formato indefinido, meio fora de centro no abdômen, pobre coitado, segundo o psicólogo alemão, pode estar relacionado a pessoas que vivem à base de grandes oscilações emocionais.
Não levo a sério esse tipo de assunto, mas agora, em período de eleições, poderíamos sugerir um teste de caráter, junto à declaração de bens dos candidatos, do formato de seus ilustres umbigos. Com foto e laudo médico é claro. Quem sabe aí, possamos tirar alguma conclusão mais efetiva, já que no discurso, muitas vezes a coisa é definitivamente temerária e inconclusiva.
quinta-feira, 11 de agosto de 2022
Tu me cancela, eu te bloqueio
Ele se aproximava para brincar e a indiferença, ou xingamentos, o empurravam para dentro de casa. Até na escola foi escanteado, entrou em profunda depressão, o que obrigou a intervenção de sua família em uma reunião entre vizinhos. E todos ficaram sabendo que, naquele dia de fúria, o menino ouvira uma conversa reservada onde o pai revelava, com lágrimas nos olhos, sobre a necessidade de tratamento contra um câncer. “Tu não vai morrer”, gritou antes de sair à rua e descarregar sua revolta no primeiro ser vivo que encontrara.
O pedido de perdão foi aceito em ambos os lados. As brincadeiras voltaram ao normal e as condenações intempestivas, foram deixadas de lado pelo menos naquela quadra do bairro onde eu morava. Mas apontar o dedo para o erro dos outros continuou, eu sei e hoje, ganhou características de tragédia em muitos casos graças às redes sociais e seus canceladores de plantão.
Qualquer deslize, especialmente de gente com bom espaço na mídia, se transforma em milhões de likes para quem postou a crítica. Poucos querem ouvir a defesa do atingido e assim, atores como Kevin Spacey, por exemplo, perdeu seu emprego na série House Of Cards antes mesmo de qualquer julgamento. Ele tem recursos para se defender, mas e as pessoas comuns que volta e meia dão uma pisada na bola?
Ninguém é perfeito e acabar excluído sem segunda chance, pode gerar crises de ansiedade, pânico, perdas de trabalho e sustento da família. Perder o crédito, sem julgamento, sem ser ouvido é colocar um ser humano na berlinda, massacrado pelo ódio que o condenou em milhões de curtidas. É um ato covarde que se vale dos sintomas do entorno, que é doente socialmente, eu reconheço, mas não aponta um tratamento que remedie essa enfermidade.
Tenho a sensação que a filosofia do Big Brother vive no aqui e agora. Pisou na bola, contrariou o grupo de anônimos, está definitivamente expulso como se a vida fosse um jogo. E lembro daquele pai e mãe, lá na minha infância, conversando de peito aberto para uma mudança na atitude dos meninos do bairro. Quem sabe, possa essa sociedade canceladora, fazer o mesmo e ouvir, antes de condenar sumariamente, evoluindo para o bem estar comum que deveria ser o ideal de todos nós.
Fraternizemos a existência, por favor!
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
O voo da compaixão
Caiu no meio da rua, entre veículos e pedestres. Trôpego, ele conseguiu apanhá-la e imediatamente enrolou-se. Ana Luiza viu o sorriso sem dentes e a mão que lhe acenava em agradecimento enquanto os pais fechavam novamente a veneziana. A guria estava com as bochechas e braços respigados de chuva, mas sorria feliz da vida.
Chegava a ser engraçada a visão daquele sujeito desengonçado envolvido pela capa improvisada, pintada com motivos de frutas tropicais. E agora, o que fazer? Alertaram para o perigo de se debruçar na janela. Mas a expressão agradecida do homem, feliz, acenando para o alto, os emocionou demais.
Eu sei, vivemos dias de poucos amigos, exclusões definitivas. Muita gente bloqueando amigos e conhecidos nas redes sociais. É a intolerância na cultura do cancelamento com a justificativa de uma contrariedade aguda às atitudes que reprovam. (Este será meu tema do próximo artigo). Ana Luiza não julgou ou questionou os porquês daquela cena. Foi simplesmente solidária aquele ser humano que enfrenta, todo santo dia, seus próprios vendavais.
Ainda é inverno, apesar do calor úmido fora de época destes últimos dias, imagino que em algum lugar da cidade, um maltrapilho carregue consigo a tropical toalha de abacaxis, bananas e pêssegos. Um presente que lhe caiu dos céus, mais precisamente do segundo andar de um apartamento onde, com certeza, vive um anjo.



