quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Lugar de homem é na cozinha

A cozinha agora é o nosso refúgio
Quarta-feira passada (15/8), o Google homenageou o centenário de Julia Child, a norte-americana que, aos 32 anos, entediada com a vida de madame ofertada pelo marido, funcionário da embaixada de seu país, em Paris, decidiu-se por aprender a cozinhar. Escolheu a tradicional escola “Le Cordon Bleu” que formava grandes “chefs”, todos homens é, claro. Foi assim que, lá nos anos 30, enfrentou o preconceito machista e desvendou os segredos da culinária francesa para seus conterrâneos, em bem-humorados programas de tevê e livros. Uma dessas publicações é um clássico: “Mastering the Art of French Cooking”, algo como “Dominando a Arte da Culinária Francesa ”, sem tradução em português, que foi a bíblia das donas de casa dos Estados Unidos.

“Bon Appétit” dizia ela ao concluir seus programas, cativando pela simpatia e principalmente, pela maneira engraçada, desengonçada que encarava as dificuldades, os erros eventuais na execução de algum prato. Precursora de tudo que assistimos hoje sobre o tema, na telinha, como o inglês Jamie Olivier, não é muito conhecida no Brasil. Seus livros e programas não chegaram por aqui, Mesmo assim, recomendo o belo filme “Julie & Julia”, com Meryl Streep no papel de Julia, onde deixa evidente a influência e exemplo para grandes mestres da gastronomia atuais, como seu compatriota, o “chef” Anthony Bourdain, que em seu programa de tevê, reconhece o pioneirismo de Julia.

Quando faleceu, aos 92 anos, em 2004, os tempos eram outros. Nos dias de hoje, as mulheres conquistaram novos espaços, assumiram funções antes reservadas exclusivamente aos machos da espécie. De alguma forma abandonaram a condição de "rainhas do lar", ou pior, acumularam funções. Mesmo assim, muitos maridos passaram a dividir tarefas domésticas com as esposas. E também assumiram o forno e o fogão, com desenvoltura. É o meu caso.

Sabor e chatice - Muitos homens estão presentes em cursos de gastronomia, não apenas envolvidos com a alta culinária, mas dicas para o dia-a-dia. Esta é a pior parte. Preparar um prato especial, é muito mais tranqüilo, por mais complexo que seja sua execução, do que alimentar uma família com equilíbrio entre o sabor e a saúde. O que mais me assusta é a parte chata de lavar pratos e manter a cozinha organizada. Mas tenho uma boa máquina que deixa brilhando louças e talheres e a cozinha, não tem jeito, está sempre higienizada, sem bactérias.

Compro livros de culinária e assisto a todos os programas possíveis na tevê, onde possa assimilar uma nova técnica ou receita. É uma retomada no sentido inverso. Chefes de família? Nem tanto, as mulheres exigiram democracia no lar, dividem o comando. Mas no kit de cozinha, muitos de nós somos os “chefs”, caseiros, afinal respeitamos receitas, criamos nossas próprias. Nâo é uma inversão de papéis, mais uma  parceria mais equilibrada, onde se harmoniza amor e carinho, sempre muito bem temperados.

Conversa de homem - Por exemplo, na semana passada, no supermercado, repetiu-se uma cena que já assisto com freqüência. Ao passar pelo setor de artigos de cozinha, me chama atenção uma imensa panela wok – aquela típica da culinária chinesa – e enquanto conferia peso, acabamento e preço, um outro senhor também examinava panelas. De repente estávamos a falar sobre qual delas seria mais adequada para determinados tipos de receitas. Em seguida passa ao lado um casal e adivinhem quem resolveu parar para examinar facas? O marido, é claro. Ela foi adiante com a lista de compras, assim como haviam feito nossas esposas.

Antes, a nossa função era a de assar churrascos, quanto muito arriscar-se a um carreteiro ou aquele macarrão domingueiro. Típicos cozinheiros de prato único. Muitos nem atingiam esse nível, permaneciam como humildes auxiliares para lavar ou secar a louça.  A coisa mudou. Fomos à luta e assumimos o controle na preparação receitas especiais: saladas exuberantes, doces caprichados e iguarias que seduzem nossas mulheres.

Invadimos uma nova área na deliciosa guerra dos sexos: agora também pela barriga, chegamos ao coração de uma dama. Começamos pelo “mise en place” que, em outras palavras, representam as preliminares de uma deliciosa refeição.