sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Casal Faisão


"Eu sei que não é tempo de ficar questionando as crises particulares. As tristezas da vida em família e, muito pior, de um casamento que se perdeu na rotina. Mas nem a situação política brasileira me tira essas bobagens da cabeça”, desabafou um amigo. Anos de convívio, ambos presos a monotonia de uma história que se repete da mesma forma todo dia. E começa a incomodar.

Permanecem juntos, sem alçar outros voos. Um evita machucar o outro. Semelhantes aos faisões, aves lindas, majestosas e que vivem uma união indissolúvel.  Podem ser criadas praticamente soltas pois nunca escapam.  Um deles está sempre preso ao viveiro. Por solidariedade, aquele que teria tudo para a partida, permanece ali, ignorando o apelo da mãe natureza.

Quem sabe esse princípio não seja igualmente a base de muitos relacionamentos entre humanos? Um solto e o outro preso. A parte livre não abandona o cativeiro por uma questão de lealdade. Ambos na verdade, na gaiola. O mundo pode estar violento, doente, mas o que oferece mais riscos? A tortura dos que dividem a insatisfação? Sei lá, acomodaram-se e a partir daí um passa a ser refém da insatisfação alheia, embora a plumagem linda.

O casal sacode as penas coloridas das vaidades que, em outras palavras os confundem entre a liberdade e a prisão. Poderiam aproveitar esses dias difíceis, onde a materialidade do crime é exposta de maneira agressiva, para renovar os interiores da gaiola onde vivem. As relações a dois surpreendem por criarem armadilhas tipo as que confundem sossego com rotina.

Lhes assusta imaginar-se agarrados às grades finas dos viveiros, a implorar liberdade. Relações que aprisionam não resistem ao tempo. Os faisões estão juntos como proteção, nunca como em um cárcere. Casais que vivem de aparências, se tornam feias aves de asas quebradas. Um prende o outro por comodismo ou, quem sabe, maldade.

Esse meu amigo, está há mais de 30 anos neste relacionamento. Embora juntos, traçaram planos isolados que não protegeram a história que poderia ser linda. Leques de penas soltas para espantar o tédio. Nesses casos, uma última prova de afeto e respeito seria a libertação. 

Estar juntos para simplesmente dividir as despesas, transforma a vida a dois em um escritório de contabilidade. É a parceria que alimenta o amor e faz tudo belo, mesmo em dias de crise. O que sobrevive é a essência e, raramente, o adorno de penugens coloridas.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

O nome da batalha

 A violência do cotidiano vai muito além das vidas roubadas à queima-roupa. Está acima dos pelotões de marginais armados, das falcatruas que nos assaltam e envergonham, ou dos ataques terroristas que assistimos, horrorizados, aos poderes constituídos. Pior do que isso, de certa forma, essa violência assombra muito mais quando gente, a recitar  trechos bíblicos e armas na mão, nos intimida com a raiva dos que confundem ódio com bandeiras ideológicas e a razão, com mentira a qualquer custo. Qual o sentimento que deve nos guiar nesse momento confuso que a cena nacional nos imprimiu? 

Meu filho, aos 16 anos, se descobriu poeta e cronista. E da pureza cristalina de seus textos gravei uma mensagem que combina perfeitamente com os dias de hoje: “O amor pode não ser a vitória em marcha. Mas é o que dá nome à batalha”. Em resumo é isso. O resto é uma catarse de frustrações oportunistas de poder, de incontido desprezo ao que não lhes é semelhante.

O nome da batalha é o sentimento preso à garganta, como uma espécie de infecção afetiva, a provocar febre, rouquidão e que alivia apenas com aquela espinhosa declaração. “Eu te respeito, porque somos semelhantes em trilhas diferentes ou opostas".

Aos que se chocaram com tanta aspereza, tanta arma apontada às liberdades, eu desejo do fundo de meu veterano coração, que continuem assim, valentes guerreiros da paz. Por favor! Não vamos nos entregar por ações assustadoras, mas que são miúdas em caráter e propósito. Afinal, como sabiamente canta John Lennon, a vida é aquilo que acontece enquanto estamos ocupados com outras coisas. Vamos dar trabalho à reconstrução. Cada um de seu jeito, mas cada um por todos. 

Eu mesmo venci um caminhão de rancores, acumuladas pelo cotidiano desta vida que se divide entre a torpeza e as minguadas, mas compensadoras realizações. E continuo a minha luta contra o lixo descartável da inveja, do sentimento errático de onipotência e de um egoísmo vil, que nos atordoa a cada novo dia. Quero ver sumir essas teses terroristas que arrebanham incautos e oportunistas.

Por enquanto, a poeira dos falsos pastores e seus rebanhos, sedentos por nos impor sua vontade via terror, ainda assusta. Pior, quando vemos amigos a aplaudir o que seria um golpe em nossa autodeterminação, quase sucumbimos à flor carnívora do ressentimento. 

Mas um único pensamento amoroso, uma flor singela e uma declaração de sincero e fraterno amor, declarada espontaneamente, na mais improvável das horas, pode acertar os ponteiros deste relógio maluco que vem a orientar a vida nesses dias incertos.  

Apesar da brutal cólera que nos cercou e ainda ameaça, está provado que  esses odiosos humanos não representam a maioria que pensa, basicamente, no ir e vir, tranquilamente e sem fúria, a seus destinos. Escolhidos livremente, nunca impostos. Que o amor vença a batalha contra o ranço e a truculência!



sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

E as mal traçadas linhas?

 

Quem consegue escrever à caneta, sem a facilidade dos teclados de um computador e expressar os mais sinceros e profundos pensamentos? Quem ainda tem em casa um bloco Aviador, com papel fino e macio para não pesar muito? Até mesmo assinar meu nome, a minha marca registrada em cartórios vem saindo de forma insegura e muito diferente da original. A caligrafia digital me fez esquecer da escrita.

 

 Sim, nem tão longe assim, as mensagens escritas aliam pelo que pesavam. Quem aguardaria, pacientemente, por uma resposta à missiva, dependendo ainda de fatores externos, como a probabilidade de crise no sistema de correios? Hoje é tudo por meio de aparelhos móveis. E as mal traçadas linhas, meu amor, se perdem no amarelo do tempo, junto a lindos selos comemorativos.

 Um dos grandes sucessos de Erasmo Carlos, no período da Jovem Guarda, depois relançado pelo Legião Urbana, “A Carta”, hoje, quem sabe, teria um mensageiro eletrônico, tipo o já quase em desuso e-mail, ou Facebook e Whatsapp. Práticos, imediatos, com chance de trocar palavras, frases inteiras por emoticons, aqueles rostinhos que exprimem as sensações que muitos já nem sabem como escrever sem separar o sujeito do verbo.

 Roberto Carlos, lamentava na época, “cartas já não adiantam mais, quero ouvir a sua voz”, hoje ele ouve, e se for safadinho, pode sugerir um “nude” à amada. Avanços que também criam problemas. As cartas eram mais íntimas. Hoje as gavetas eletrônicas são devassáveis demais. Pero Vaz de Caminha seria criticado pela realeza, em 1500, por usar um “textão” para anunciar o descobrimento do Brasil.

 E se Caminha postasse nas redes sociais, entre elogios, é certo que receberia críticas implacáveis. “Descobriu o que?”, ou “Isso é uma manobra para desviar o povo dos verdadeiros problemas da nação”. O Rei Dom Manuel, o Venturoso, seria constrangido com desaforos, certamente. A namorada do nosso rei romântico, se enviasse a tal foto sensualizando, poderia cair nas redes por acidente ou maldade.

 O que eu digo é que as cartas iam além dos relatos cotidianos. Carregavam um conteúdo afetivo, um certo cuidado no estilo. Sei lá, poderiam conter mentiras, mas essas se filtrariam ou cairiam em contradição, talvez nas linhas seguintes. Escrever exige atenção.

 Fossem dirigidas a um amante e,  principalmente, uma conversa com amigos, sempre havia espaço para uma citação filosófica, hoje foram trocada à exaustão, inicialmente em power points chatos, ou multiplos “cards” de frases pretensamente edificantes e ou outras que derrubam o bom gosto, justamente por lhes faltar sinceridade.

 As cartas são tão superiores aos rabiscos de hoje que não servem nem para, reunidos, se transformarem  em prosa literária, tal como aconteceu com Ernest Hemingway, Sigmund Freud! Imagino as revelações. Aqui no Brasil, Clarice Lispector, que liberava frases lindas na intimidade de sua escrita criativa.