sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

E as mal traçadas linhas?

 

Quem consegue escrever à caneta, sem a facilidade dos teclados de um computador e expressar os mais sinceros e profundos pensamentos? Quem ainda tem em casa um bloco Aviador, com papel fino e macio para não pesar muito? Até mesmo assinar meu nome, a minha marca registrada em cartórios vem saindo de forma insegura e muito diferente da original. A caligrafia digital me fez esquecer da escrita.

 

 Sim, nem tão longe assim, as mensagens escritas aliam pelo que pesavam. Quem aguardaria, pacientemente, por uma resposta à missiva, dependendo ainda de fatores externos, como a probabilidade de crise no sistema de correios? Hoje é tudo por meio de aparelhos móveis. E as mal traçadas linhas, meu amor, se perdem no amarelo do tempo, junto a lindos selos comemorativos.

 Um dos grandes sucessos de Erasmo Carlos, no período da Jovem Guarda, depois relançado pelo Legião Urbana, “A Carta”, hoje, quem sabe, teria um mensageiro eletrônico, tipo o já quase em desuso e-mail, ou Facebook e Whatsapp. Práticos, imediatos, com chance de trocar palavras, frases inteiras por emoticons, aqueles rostinhos que exprimem as sensações que muitos já nem sabem como escrever sem separar o sujeito do verbo.

 Roberto Carlos, lamentava na época, “cartas já não adiantam mais, quero ouvir a sua voz”, hoje ele ouve, e se for safadinho, pode sugerir um “nude” à amada. Avanços que também criam problemas. As cartas eram mais íntimas. Hoje as gavetas eletrônicas são devassáveis demais. Pero Vaz de Caminha seria criticado pela realeza, em 1500, por usar um “textão” para anunciar o descobrimento do Brasil.

 E se Caminha postasse nas redes sociais, entre elogios, é certo que receberia críticas implacáveis. “Descobriu o que?”, ou “Isso é uma manobra para desviar o povo dos verdadeiros problemas da nação”. O Rei Dom Manuel, o Venturoso, seria constrangido com desaforos, certamente. A namorada do nosso rei romântico, se enviasse a tal foto sensualizando, poderia cair nas redes por acidente ou maldade.

 O que eu digo é que as cartas iam além dos relatos cotidianos. Carregavam um conteúdo afetivo, um certo cuidado no estilo. Sei lá, poderiam conter mentiras, mas essas se filtrariam ou cairiam em contradição, talvez nas linhas seguintes. Escrever exige atenção.

 Fossem dirigidas a um amante e,  principalmente, uma conversa com amigos, sempre havia espaço para uma citação filosófica, hoje foram trocada à exaustão, inicialmente em power points chatos, ou multiplos “cards” de frases pretensamente edificantes e ou outras que derrubam o bom gosto, justamente por lhes faltar sinceridade.

 As cartas são tão superiores aos rabiscos de hoje que não servem nem para, reunidos, se transformarem  em prosa literária, tal como aconteceu com Ernest Hemingway, Sigmund Freud! Imagino as revelações. Aqui no Brasil, Clarice Lispector, que liberava frases lindas na intimidade de sua escrita criativa.


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