sábado, 30 de julho de 2022

Como esquentar a paixão em dias frios

O vestido da moça levantou até onde não deveria, provocado pelo forte vento da manhã. E a cena, ao contrário de qualquer conotação sexy, foi hilária. Era uma cebola de panos multicoloridos até se chegar a um abrigo velho, cor de abóbora que provocou risos da turma que aguardava o sinal verde, na esquina da Rua Uruguai com Siqueira Campos, no Centro Histórico de Porto Alegre. É difícil manter a elegância no frio. Namorar ainda é pior.

Aprendi alguns macetes que podem ajudar a esquentar os corpos em todos os sentidos. Um jantar a dois, por exemplo, nos dias frias não depende apenas de caldos e sopas. Pitadas estudadas de pimenta, por exemplo, ajudam muito. Dependendo da variedade, desde a de menor até as de maior efeito picante (ui), a pimenta melhora a irrigação do sangue, o que causa uma sensação de bem-estar e chega lá, naquela região que se escondeu do frio abaixo de ceroulas e outros panos.

Até amendoim com casca pode ajudar. Sim, não é piada, a vitamina B3 favorece a circulação sanguínea, aumenta a vaso dilatação. Nem precisa sacudir a casca que caiu no colo do namorado (mas nada impede a prática).

Chocolate quente – nem tanto para não queimar dedos e línguas – mas na medida para liberar energia, graças a três componentes – a cafeína, a teobromina e a feniletilamina. A primeira estimula o corpo, a segunda especificamente o coração e o sistema nervoso, e a última, troca aquele ar de “tu tá mesmo a fim?” por um sorriso estimulante. Sem tristeza, o resto é com você, amantes latino. Aliás, tem gente que inclui o uso tópico do chocolate nas brincadeiras amorosas. Aprovo sem restrições.

Bem vestidos - E por favor, a dica final, fundamental. Permaneçam bem vestidos, cobertores para dar aquele conforto quente. Provocação com roupas também é válida. Fantasiem aqueles tempos adolescentes dos primeiros namoros, quando tudo era tato, no escuro do cinema, ou no sofá da casa assistindo uma sessão da tarde da tevê, enquanto o pai vigilante roncava.

Lambuzados - Até chegar a hora que tudo, mas tudo mesmo aqueceu, se decide o que é possível ser descartado do corpo já aquecido. Afinal, somos gaúchos e - mesmo em invernos amenos - precisamos aprender a enfrentar essa estação quase estraga prazeres. Caso contrário será um festival de sopão, feijoadas, massas com molhos fortes pouco estimulantes. Muita boca engordurada, muita barriga cheia e pouca satisfação em outros campos.

Não é difícil namorar no inverno. Pratiquem! O negócio é ser criativo, ter paciência. Se der tudo certo, quando o vento levantar o vestido de uma desavisada na rua, ninguém se abalará para espiar.  Estarão todos muito bem comidos.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Só para os fãs

Abriu a porta antes de acenar um até logo. Tinha pressa, estava atrasada para mais um dia de trabalho. Dessa vez o marido ficara em casa cuidando das crianças. A creche passaria por uma faxina, necessária após uma infestação de piolhos entre as crianças, professoras e funcionários. Por sorte os meninos - de 3 e 4 anos, não estavam contaminados. Antes haviam enfrentado os sintomas agressivos do Covid, dias complicados de imunidade baixa e viroses misturadas à doença financeira da família. 

Os negócios agora se recuperavam, mas as dívidas ainda interferiam na qualidade de vida doméstica. “Somos mais um casal entre tantos outros na mesma situação”, digitou ela em uma conversa de WhatsApp com uma amiga que, preocupada em ajudar sugeriu que criasse uma conta no OnlyFans, uma rede social onde os perfis inscritos cobram para exibir conteúdos exclusivos. Por exemplo, poderia dar aulas de francês - idioma que dominava com fluência. 

Mas ao conferir sobre essa tal rede, percebeu que a maioria das mulheres (e muitos homens) estavam lá aceitando pagamentos mensais, para exibições de forte conteúdo erótico. “Nunca aceitaria tal exposição. E meu marido? As crianças?” respondeu à amiga que, sem muitos pruridos confessou que estava lá e já conseguira um bom dinheiro, sem expor-se demais. “É muita gente, são milhares de inscritos. Quem iria te localizar?”, argumentou. 

Nem perdeu tempo respondendo, foi pesquisar como funcionava essa rede. Realmente tinha de tudo nesse universo, mas para atrair muitos fãs, precisaria ousar o que, objetivamente, significava produzir material com pouca ou nenhuma roupa. “Não vale a pena”, conclui. 

Ligou para casa, tudo em ordem por lá. O marido preparara o almoço, e no dia seguinte  as crianças poderiam retornar à creche que enviara recado avisando a desinfecção das salas de aula. Aliviada, decidiu sair para o almoço um pouco mais cedo. Ao entrar no elevador, sozinha, examinou-se no espelho. E gostou do que viu. Ainda estava em forma, apesar dos partos e praticamente nenhum exercício em academia. 

Será que renderia alguma gorjeta? Teria uma vida com mais conforto? Mas e a família? Tantas interrogações a fizeram banir a ideia, mas deixaram uma sarna a  lhe coçar o fundo do inconsciente, lá onde se guardam os desejos reprimidos mas sempre prontos para vir à tona.

sábado, 16 de julho de 2022

Amor injuriado tem volta?

Tudo ia às mil maravilhas quando ela perguntou, com aqueles olhos grandes, cheios de devoção se ele a amava mesmo. Assim, sem ressalvas, apaixonadamente. Ele, bom marido, pai exemplar, com aquela franqueza que sempre se dividia entre a rudeza e a inocência, disparou: “Amor de paixão, sei lá, é difícil medir.” Foi o que bastou para ela, injuriada, ferida em seu orgulho despachar, sem chances de reversão, naquele momento mesmo, o cara que tinha como seu para o "resto da vida". Varria o futuro  entre lágrimas e um dedo em riste a indicar a porta da saída. Até hoje não entendo o porque dessas perguntas dispensáveis – especialmente pelo lado feminino da espécie – quando as coisas aparentemente vão bem. 

Outro dia, a mesma situação se repetiu, porque no amor não existem roteiros originais desde os tempos de Adão e Eva. Desta vez, o ilustre marido, casualmente também em um final de semana, de uma hora para outra ajeita a mala com um kit básico de roupas e, ao contrário do que a esposa esperaria ouvir, tipo uma viagem urgente de negócios, diz que está abandonando a vida a dois. Entre lamúrias, diz sofrer com lembranças de uma ex! 

Sim, aquela mesma “safada” que o transformara em um "ser desengonçado da afetividade humana", conforme suas próprias palavras. Em todo tempo juntos, a ex aparecera em pensamentos que, naquele instante delicado, não sabia definir como saudade ou paixão mal resolvida. Aliás, esta a causa mais provável. Como se poderia prever saiu de casa no domingo e na segunda, já estava mergulhado no vácuo dos que não sabem bem o que desejam da vida, ou no mínimo, de seus amores.

Voltava depois de alguns anos para o velho quarto de infância, na casa da família. E lá, ouviu dos pais que agira afoitamente, misturara sentimentos e fantasias, magoando a mulher que verdadeiramente o amava. Assim, convencido, decidiu pedir para voltar e com um típico discurso de arrependimento. Queria mais uma chance o que, em outras palavras, significa um novo acordo. Com as regras dela, sabia. Afinal, o erro fora dele. Mas a moça, intempestivamente, não o aceitou de volta. Nem pensou duas vezes. Disse que doía ainda a humilhação inesperada, sentia-se “uma idiota após esse tempo todo juntos.” 

A vida oferecia o prato mais simples: o feijão com arroz das  soluções existenciais. Mas ela decidira, por sua vez, complicar a receita com um toque pessoal. E no amor, assim como na culinária, uma pitada a mais é sempre um risco. Engrossou o caldo e não o aceitou de volta. Se me tivesse pedido uma opinião eu responderia com outra pergunta: Ainda sente amor por ele? Ele te tratava com carinho e afeição? 

Em caso positivo, troque o orgulho ferido – pela afeição que sempre é transformadora. Até porque o inverno ainda está aí e aquele lado frio da cama faz mal a quem se habituou ao calor do ser amado. E que pode sim, apesar de toda devoção, ter seus momentos de insegurança e infantilidade. Alguém aí do outro lado é perfeito?

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Voluntários da pátria invertida

 O homem desce da calçada e joga-se no meio fio, em uma das esquinas da  rua Voluntários da Pátria, Centro Histórico de Porto Alegre, onde corre um filete de água misturada de espuma e lixo varrido das lojas e lanchonetes do entorno. Esfrega as bochechas no cimento áspero do calçamento. Lambe aquele líquido turvo e malcheiroso. 

De súbito, levanta-se, seca o rosto com os farrapos que veste e o ouço dizer: “Sede”. Olhos fixos a um ponto perdido entre a retina e a razão. A sua volta, centenas de outras pessoas cruzam sem perceber a cena. Descem e sobem em coletivos, vasculham vitrines, se perdem pelo caminho, apressados para resolver suas vidas.

 É a ansiedade urbana que, aos poucos, desperta após os trágicos números da pandemia. Cada um com seus dramas pessoais, a  maioria quer dar a volta por cima após os prejuízos por tanta coisa ruim. Inflação, desemprego, mazelas políticas, familiares mortos. 

Eu, um senhor aposentado, me sentia como uma espécie de turista em algum mundo invertido de qualquer série de ficção (quem assiste Stranger Things sabe ao que me refiro). Ou, no mínimo, em alguma republiqueta subdesenvolvida

Mas estava na Porto Alegre onde nasci, a capital dos lindos versos de Mário Quintana, “Olho o Mapa da cidade como quem examinasse a anatomia de um corpo”. E o que eu percebia era a anatomia delirante do abandono. “Sinto uma dor infinita das ruas onde jamais passarei…” poetizou. E creio que o sensível Quintana sofreria mais ainda se fosse obrigado a conviver com tamanha degradação a avançar as fronteiras de outros municípios.

Ah! Poetas… Que bom se os versos ganhassem o dom divino de absorver naturalmente o que os compromissos de palanque tantas vezes não conseguem. Que fossem bálsamo contra o abandono que expulsa milhares aos esgotos. Muitos fingem não ver. Outros se auto proclamam uma superioridade  que lhes autoriza a violência do descaso e preconceito.

A cena daquele infeliz - enlouquecido pela miséria - a rastejar no coração da maior cidade do Estado permanece em minha memória como um emblema. Quem sabe, um dia, possamos usar cenas assim como antídoto contra a infâmia que transforma seres humanos em répteis, saciando a sede em esgotos e alimentando, sorrateiramente, a barreira de ódio que une os medíocres, cada vez mais fortes, nessa pátria, nesse mundo invertido.