quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Descasado Tatuíra entre o anzol e o pescado

 


Pescar, decididamente, não estava no projeto deste meu amigo descasado. Um típico macho da espécie que, ao chegar à meia-idade, só pensava em festa, para compensar o  passado monótono. Circulou por quase todo litoral sul e não chegou ao porto desejado, Agora retornava de uma  bem sucedida pescaria na Plataforma de Cidreira onde não fisgara uma sardinha sequer, mas observara a lua, o mar e o esforço do tio acompanhado daquela primeira aventura. Cristina era o nome da mulher - madura e charmosa -  mesmo vestindo um velho e surrado abrigo.

Não fugia as suas responsabilidades, sabia que transformar o resultado daquela pesca em alimento era com ele, então, não reclamou na interrupção de sua jornada em busca de sereias festeiras. Preparou um jantar especial, na casa de Cristina. Ouviu histórias de pescador,  outras de vida. Cristina também era divorciada, perdera o marido para um professor de inglês. 

O vinho verde português que acompanhou a janta, arejou os espíritos, transformando melancolias em boas gargalhadas. Ao final da noite, o tio, alegando cansaço, voltou para casa. Ele permaneceu, com a desculpa de  lavar a louça e embalar para congelamento os filés de peixe restantes.

Naquela noite e nas duas seguintes, trocaram confidencias de pele, suspiros doces carregados em maresia e suor. Foram à praia juntos. Sem dar as mãos, como se isso representasse algum tipo de compromisso. Um acordo extraoficial.

Encontrara a companhia ideal, em uma pescaria, longe da tensão frenética dos bares da moda e seus drinks duvidosos. Na hora de retornar – as férias estavam encerradas para ele – ela ainda permaneceria, o sentimento era de uma paz sem bandeira, de um armistício na batalha dos afetos mal resolvidos.

Embora decidido a não querer mais compromissos duradouros, sentia-se como aqueles peixes rebeldes que lutam contra a linha que os segura, já irremediavelmente fisgados. E só por isso que, com um fio de voz, perguntou da viabilidade de um reencontro.

“Melhor deixar assim. Foi tão bom, tão natural que não precisamos correr o risco de transformar esse momento em rotina, ou desilusão lá adiante. Ficamos só com a parte boa. Nosso vínculo será esse momento, breve, mas gostoso", respondeu Cristina.

Meu amigo, divorciado de carteirinha, macho independente acusou o golpe. Estava sucumbindo a seus próprios e argumentos. Disfarçou com bom humor. “Na semana que vem então, o velho capitão busca outro porto para ancorar”. Nem olhou para trás ao sair. Percebera naquele momento que fora o maior pescado daquela noite na Plataforma de Cidreira.

Ela fazia pesca esportiva. Fisgava só pelo prazer, para depois devolver ao mar. Intacto, embora a marca do anzol, às vezes, não curasse apenas com um beijo de adeus.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

A sina de um descasado tatuíra

 

Um amigo, recém divorciado, entrou no verão à moda Marcel Proust, "em busca do tempo perdido". Começou no litoral gaúcho, ainda tímido, com festa na casa de familiares.  Em Cidreira, no aniversário de um tio - tios e tias é o que não falta lá - conheceu a filha de um ex-chefe. O ambiente caseiro não permitiu que rolasse nada excepcional. Aliás, “ficaram” e ele compreendeu o real significado deste pré-namoro: beijinhos e abraços, sem grandes avanços. E na retranca, ao contrário do esperado, permaneceu entre sábado e domingo.


Descasado em férias ignora as filas no supermercado, a interpraias maltratada das nossas cidades litorâneas e todos os riscos e fiascos típicos da temporada. Só precisa de bebida gelada e é claro, mulheres quentes. Assim, largou o veraneio típico de comilanças, carteado e sol para, na segunda-feira, avançar rumo a praias onde o agito é maior. Em Capão, conheceu uma psicóloga – ou melhor – foi reconhecido por ela que o via com frequência na clínica onde trabalhava. Ele e a ex-esposa haviam tentado terapia de casais, antes dela encontrar a cura, nos intervalos das sessões, com um engenheiro civil.


A psicóloga era divertida, mas talvez por cacoete profissional,  insistia em analisar cada palavra e movimento deste meu amigo que, como bom divorciado, estava cansado do monitoramento feminino. Mochila nas costas, seguiu para Atlântida. Lá, em busca da fêmea ideal, descolada e feliz,  conheceu uma empresária do ramo de cosméticos. Bonita, já madura e com ar de quem não perde tempo, não hesitou em convidá-lo para um espumante ao final da tarde. Tudo corria bem se não fosse a descoberta, na pior hora, de que ela era casada. E o marido quase batia à porta!


Escapou porque o sujeito enviou um whatsapp. "Tô chegando amorzão!" Avisar, colegas maridos, sempre pode evitar tragédias ou terríveis constrangimentos!  Desolado, decidiu tentar a sorte nas praias de Florianópolis. Nada de momentos turvos, ondas de chocolate. Desistiu quando uma simpática argentina, em um destes botecos da moda, sei lá em que praia da ilha, insistiu que dividissem uma caipirinha. Mesmo à meia luz,  embora bonita e cheirosa, ela lembrava demais, uma ex-colega de aula que o humilhara na adolescência. 


Ainda experimentou Garopaba. Na casa alugada por amigos, divertiu-se muito. Cozinhou, bancou o DJ na noite, mas como todos eram casados, não atingiu seu objetivo: um rápido namoro de verão. Nos bares, dezenas de outros casais e alguns solteiros, a maioria homens, lhe mostravam um cenário desanimador. Onde estariam elas, as solteiras, que em seus dias de marido fiel o furavam com olhares sedutores. Prometiam tudo!


E assim, à moda tatuíra, com quem vai se enterrar na areia da depressão, voltou às praias gaúchas. Ali poderia conversar com amigos e familiares. O tio – aquele de Cidreira – insistiu que o acompanhasse em uma pescaria na Lagoa. Aceitou, por falta de coisa melhor. E foi nessa pescaria que voltou a ver a filha do ex-chefe. Aquela do parágrafo inicial, que adora pescar, coisa rara entre mulheres. Quem sabe seria um presságio, a hora de lançar a rede para uma nova candidata a sereia. E como filosofou o francês Proust “O amor mais exclusivo por uma pessoa é sempre o amor de outra coisa.”

sábado, 11 de janeiro de 2025

Quando nem o bolo é confiável

😈💀

  E aí entramos em 2025, quem sabe, com uma nova neurose: aceitar ou não uma fatia de bolo de amigos, ou mesmo de algum familiar com o qual já tivemos atritos domésticos. Todo desentendimento é absolutamente sanável com diálogo e boa vontade. Mas se a solução partir para um embate mais forte, evitemos aqueles de perfil odioso. Eu sei, não se brinca com coisa séria, mas o caso que repercutiu nacionalmente, a partir de Torres, o bolo envenenado que matou três pessoas -  todos parentes - me provocou a primeira crise de ansiedade do ano. A maldade encravada onde menos se espera, assusta e deprime.


Não tenho capacidade para avaliar o que pode ocorrer na cabeça de uma pessoa a ponto de chegar a atos extremos de crueldade. Eu aprendi, no cotidiano, a perceber que alguns transtornos de personalidade resultam de situações bem claras pelo ambiente em que se geravam. Maus tratos na infância, por exemplo, ou algum tipo de predisposição no convívio doméstico que leve a essa ausência de sentimentos,  a incapacidade de se colocar no lugar do outro e medir a extensão do mal a ser provocado. 


O amor, o ódio e a indiferença  passeiam pela mesma calçada. Cruzam por nós o tempo todo. Ainda tenho fé, confiança de que os seres humanos, autores de tantas maravilhas arquitetônicas, obras de engenharia fabulosas, medicamentos que salvam vidas, possam conviver em equilíbrio ao lado da ciência, responsável por antídotos a tantos venenos mortais, muitos deles extraídos da própria natureza. E juntos vigiar o mal, especialmente quando originado por uma não declarada depressão.  


Lembro os dias que antecederam minha decisão pela psicanálise. Eu me sentia, literalmente, um erro de projeto - tudo era tédio, sem prazer em atividades que antes curtia. Um sujeito insosso entre conquistas e derrotas. E me dei conta de que buscar o entendimento, ali, naquele divã, demonstrava não apenas força de vontade, mas de firmar  uma identidade própria. Buscar a realização sem agredir a si mesmo ou terceiros.


E assim, sigo nesses caminhos tortos, recheados de verdades às vezes duras, quase indecifráveis, mas voltadas aqueles que jamais desistem e não se permitem o contato conivente com o mal.  Os primeiros dias de 2025 nos alertam para a maldade que pode  envenenar um bolo, ricamente decorado, como uma metáfora para a maldade.


O lado ruim de qualquer ser vivo, especialmente de portadores de psicopatia, não se espelha simplesmente na aparência, é no recheio, que se encontra a essência, com seus temperos e vivências. Durante minhas sessões de terapia aprendi a distinguir entre os que se valem do mal como argumento para suas ações. E parti para a defesa, sem medo dos que me cercam, mas confiante em meu poder de avaliação que,  eu sei, pode falhar, mas me mantém alerta contra os possíveis lindos bolos suspeitos do cotidiano.