sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Toca Evidências, por favor!

Em volta de uma mesa de bar, qualquer tema é pauta. Polêmicas são bem-vindas desde que respeitem as opiniões por mais doidas que possam aparentar. As pesadas crises internacionais, os comentários à direita ou esquerda, ficam obrigatoriamente no centro apaziguador, de preferência, regados a brindes de bom humor. Em um bar não se resolve o mundo e, assim, nenhuma discussão deve poluir o ambiente, invadir outras mesas em irritante poluição sonora.

Vamos combinar desaforos apenas aqueles autorizados pelo grupo. “Vai tomar lá (…)”, ou elogios às santas mamães. É claro, sempre pode aparecer aquele chato que ama criar desconforto na órbita das mesas ao redor. Sim, lá todos carregam seus próprios temas. Guerras, paixões, times e partidos.

As pautas são boas e, bem conduzidas, quem sabe não resultem em literatura, como decidiu um grupo de amigos, ex-colegas de redação. Incentivados pelo jornalista e escritor Flávio Dutra, já estão em segunda edição do “Entre um gole e outro”, livro de crônicas típicas de boteco, no caso o Bar do Alexandre, no Menino Deus, em Porto Alegre.

Mas de volta ao lugar comum, em um desses sábados de chuva fria, vento e ameaças de ciclones, um amigo músico da noite, se viu obrigado a enfrentar um sujeito que insistia em determinadas canções. Todas opostas ao estilo do bar. “Preconceito!” Esbravejava o cliente que exigia hits de música sertaneja onde o repertório era tipicamente oposto. “Elitismo barato!”, repetia exaustivamente. Batia água lá fora e as pessoas se impacientavam com o chato.

Lá pelas tantas o músico, já saturado, soltou seu violão e correu à cozinha. Até o dono do bar assustou-se com a cena. Alguns minutos depois, retornava carregando um copo com um líquido branco em uma bandeja. Cochichou algo com o garçom que, instantes depois, oferecia ao chato um copo de leite “on the rocks”, ou seja, com duas pedras de gelo.  “Se eu quisesse isso iria a uma lanchonete”, recusou o bebum.

De volta a seu banquinho, o cantor emendou ao microfone, afinadamente, sem aumentar o tom: “Então, quando o senhor desejar outro tipo de música, eu mesmo lhe indico espaços adequados”. Mal concluiu a frase e foi aplaudido com entusiasmo pelo público que acompanhava a implicância do chato. Este resmungou mas acabou rindo do próprio ridículo. Antes de ir embora, abraçou o cantor.

Quando as portas do bar fecharam, os problemas do mundo pareciam distantes. Prontos para uma solução definitiva. A exceção da chuva, é claro e as muitas vítimas de cheias que se repetiram nos dias seguintes. Mas o que eu guardei de lição nesse caso, foi o jeito bem humorado do músico de resolver a parada. Sem gritos ou murros, se valendo apenas de uma afinada dose de sarcasmo e paciência. Mas, por via das dúvidas, decidiu ensaiar alguns clássicos sertanejos.

_“E nessa loucura, vou vou negando as aparências,  disfarçando as evidências, mas pra que viver fingindo…_  Tudo em nome da paz e tolerância no boteco.

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Paquera digital no ciclone


Choveu como poucas vezes eu havia visto em Porto Alegre. Água a transformar ruas em rios sujos, carregando o relaxamento dos cidadãos que sempre reclamam dos serviços públicos e pouco fazem por sua cidade. Bueiros e bocas-de-lobo vomitavam pedaços de cadeiras, ratos vivos, e dezenas de quinquilharias jogadas fora. Pior, motoristas ansiosos, ensopavam dezenas de pessoas com essas águas. Cenas lamentáveis! Ilhado, na manhã de quarta-feira, desisti da experiência náutica e, de dentro do meu carro, estacionado ao meio-fio,  acompanhei o movimento angustiado das pessoas.


A poucos metros da avenida Mauá, às margens do Guaíba, naquele instante a mais de 20cm da cota de inundação, avistei um rapaz, todo atrapalhado com guarda chuva, a correr à marquise. A água apertava o cerco, com a calçada transformada em piscina. Ali, havia outra pessoa. Uma jovem também. Encharcada dos pés a cabeça. Nem se olharam. Ambos estavam atentos a seus telefones móveis. Conectados, certamente, em redes sociais. 


Ele fotografou meu carro, inclusive, e vi que distribuía a imagem para seu grupo de amigos. No mundo virtual passamos a ser repórteres ou pauta. Imaginei ele postando sobre a possibilidade de eu ser levado pela correnteza em pleno centro da cidade. O tempo foi passando, a chuva cedeu por alguns minutos mas as poças permaneceram irredutíveis. Pouco antes de eu retomar meu caminho, vi que olhou para a moça com mais atenção. Ela percebeu, ficou meio sem jeito. Mas não se animou a sair dali. 


Ele voltou ao celular e tanto fez que achou o que buscava. Abri o vidro, abaixei o volume do rádio, para ouvir o que ele diria a ela. Mas apenas digitou alguma coisa. Ela riu. Ele também. Eram “amigos” na rede social, mas não se conheciam. Um sabia da existência do outro através de uma ou outra frase curta. E precisou o céu desabar para se conhecerem no mundo real. Instagram, Facebook. Twiter e outras redes nos pescam como em um banquete de seita cibernética. Mas, na real, nada substitui o contato olho no olho. 


Ele estendeu a mão, saíram aos pulos entre as poças e ainda me acenaram. Éramos parceiros no infortúnio. E quem sabe daquele encontro, não role um namoro. Ou pelo menos uma lição sobre o significado de uma amizade ou a disposição de "seguir" alguém. Estaremos sendo guiados por gente tipo faz-de-conta, semelhantes aos amigos imaginários da primeira infância. Seguidamente tem gente estranha querendo amizade comigo, mas tenho receio de certas conexões digitais.


 No caso desses dois, a coisa fluiu bem. Tinham, com certeza, amigos em comum. Mas quando uma moça do outro lado do mundo, quer me adicionar, bloqueio imediatamente. Afinal, sou um tiozão analógico mas não perdi o bom senso. Curto as redes sociais, faço amigos e ainda me informo sobre como chegar a determinados locais, eventos ou possibilidade de novos contatos profissionais.  Mas não consigo abandonar o velho e saudável costume de “sair para ver gente”, nos santos botecos da vida ou nas vitrines dos muitos shoppings de minha cidade que, acredito, sobreviverá aos tais ciclones extratropicais.


quinta-feira, 7 de setembro de 2023

A fúria das águas

Antes estivéssemos assistindo a uma superprodução de Hollywood. Com elenco consagrado e um diretor especializado em roteiros de grandes catástrofes.  Mas não, infelizmente era a realidade assustadora, superando tudo o que o Cine Arcoplex um dia passou, nesse gênero, em Lajeado. Infelizmente, era uma triste realidade, bem distante das telas, que não consumiu milhões de dólares para se produzir, mas exigirá fortunas para uma urgente reconstrução do que se perdeu, especialmente no Vale do Taquari. 

Em poucas horas, lugares tranquilos, com paisagens campestres ou urbanas, foram devastados por uma enxurrada nunca vista, arrastando, inclusive, casas inteiras. Ouvi relatos entre o espanto e a comoção de pessoas  - crianças, jovens e idosos -  buscando, no desespero, escapar deste devastador ciclone. Escalavam paredes, árvores, viam seus bens engolidos pela onda marrom do barro que pintava as águas nos tons do desespero.

Horas depois, o que se via era gente caminhando feito zumbis nas ruas. Queriam respostas à fúria da  natureza. Buscavam entender o que lhes tirara, de uma hora para outra, bens materiais, casas inteiras e, muito mais doloroso, familiares e amigos. Aqui onde moro, bem próximo ao rio Jacuí, distante da enxurrada, ouvi comentários de amigos que trabalham em São Jerônimo e outras cidades da região, preocupados com o aumento do volume das águas que poderiam levar a novos infortúnios. 

Mas o que mais os impressionava eram as cenas, inéditas e assustadoras de móveis, pedaços de automóveis, portas, janelas, paredes inteiras, a descer o rio na direção da região metropolitana de Porto Alegre. Na maioria dos grupos que sigo nas redes sociais, essas cenas se traduziam em alertas para a necessidade de ajuda. Sim, o que a água arrastou pode ser reconduzido às vítimas no formato de enxurrada solidária do bem. Essa é  a hora de tirarmos, o mínimo que seja, para o máximo de ajuda às vítimas de uma catástrofe histórica. 

Eu estou fazendo a minha parte entre doações e orações.  Tenho um carinho imenso por essa região, especialmente Arroio do Meio que, há tantos anos, me acolhe semanalmente nas páginas do Alto Taquari. E pelo que conheço da gente daqui, muitos queridos amigos e amigas do cotidiano, sei que não faltará força para a reconstrução. Quem sabe, também incentivando a novos métodos de prevenção a esses desastres naturais, cada vez mais frequentes.

Aos que dizem ser o fim dos tempos, contraponho garantindo que, na verdade, deve ser o princípio de uma nova era, mais pacífica e de respeito à natureza. Creiam, ou pensem a respeito: tudo o que nos acontece, de bom ou ruim, é sempre uma provocação para evoluirmos em sabedoria e fé, porque sem ela, seremos arrastados juntos a tragédia de uma existência vazia.