quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Pobres bípedes doidos

Enrolados em problemas, situações mal resolvidas e toda sorte de chateação, os habitantes considerados racionais deste nosso planeta, tem uma capacidade interminável de andar em círculos. E não é porque a Terra não é plana que surgem dificuldades para visualizar soluções. Quando se sabe qual a melhor atitude, muitas vezes, vem o  medo a impedir uma libertadora realização. A insegurança de quebrar a rotina da dor, da humilhação imposta por terceiros é igual a chegar bêbado à beira de um penhasco onde -  lá embaixo -  vivem as ameaças, as intimidações ou pior, os próprios temores íntimos a gritar “Não faça isso, deixe assim!”


E aí, a vida destes bípedes doidos por desfrutarem as coisas boas, transforma-se em um contraditório acorrentar-se a carências e angústias. O resultado é a ilusão da fuga. Lá vão machos e fêmeas, a escapulir entre as grades criadas com as próprias mãos. Saem às escuras em busca do prazer, da realização e acabam melados no açúcar da culpa. O risco de danos é muito maior. Voltam à masmorra com um breve sabor de satisfação. Deixam rastros, impressões digitais, mentiras digitadas.


Toda insatisfação deve ser resolvida na hora certa. Mas quando chega esse bendito momento? Muitas vezes, tais fugas acontecem como acidentes de percurso a provocar danos maiores do que o simples encarar da realidade. O peso, cada vez ,aumenta mais e a responsabilidade se torna um fardo a ser arrastado enquanto o cotidiano um suceder de sustos. 


E aí somos seres estranhos que pedem socorro às pessoas erradas e nos irritamos  ao ouvir o que não queremos. Imagino o tortuoso caminho de volta ao começo que muitos precisam fazer para recompor a própria história, a dignidade rompida. O maior desafio nunca é enfrentado contra um oponente mais forte, mas contra a própria imagem.


Lembro a frase genial do beatle John Lennon na canção que escreveu para o filho Sean: “A vida é aquilo que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Ou seja, na maioria das vezes falta foco. O que seria importante manter, sei lá, um emprego, uma relação afetiva, não era na verdade o verdadeiro embate. 


De qualquer maneira, sempre existe uma alternativa. Uma lição a ser aprendida a cada quebra de padrão. Os enganos ficam no passado. Como alerta, advertência. O ideal é voltarmos a esse grande sanatório existencial dispostos a viver o real. Projetos vazios que durmam na lixeira. E aí, naquela bendita hora certa, serão definitivamente apagados. Afinal, uma vida de remorsos e culpas não tem a menor graça. Qualquer humano sabe disso. Ou não?


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Please Mr. Postman (Cadê o carteiro?)

No dia 25 passado, se comemorou o Dia do Carteiro e me veio a dúvida.  Quem ainda consegue escrever cartas à caneta, sem a facilidade dos teclados de um computador para expressar os mais sinceros e profundos pensamentos? Quem ainda tem em casa um bloco Aviador, com papel fino e macio para não pesar muito? Sim, as mensagens valiam pelo que pesavam. Quem aguardaria, pacientemente, por uma resposta à missiva, dependendo ainda de fatores externos, como a probabilidade de greve nos Correios? Agora o mundo se comunica por meio de aparelhos móveis. As mal traçadas linhas, meu amor, se perderam no amarelo do tempo, junto aos elegantes selos comemorativos que celebram datas ou figuras históricas.  

Um sucesso da Jovem Guarda, depois relançado pelo Legião Urbana, “A Carta”, ou a famosa "Please Mr Postman" (Marvelletes, Beatles e Carpenters) hoje, quem sabe, se resumiria a um carteiro eletrônico, tipo o já quase em desuso e-mail, ou o Messenger do Facebook, além dos aplicativos  Telegram e Whatsapp. Práticos, imediatos, permitem a substituição de palavras, frases inteiras por emoticons, aquelas ilustrações  a exprimir sensações que muitos já nem sabem como descrever sem separar o sujeito do verbo.

Roberto Carlos, lamentava,  “Cartas já não adiantam mais, quero ouvir a sua voz”, hoje ele ouve tudo e, se for safadinho, pode sugerir um “nude” à amada. Avanços que também criam problemas. As cartas eram mais íntimas. Hoje as gavetas eletrônicas são devassáveis demais. Pero Vaz de Caminha seria criticado pela realeza, em 1500, por usar um “textão” ao anunciar o descobrimento do Brasil.

E se Caminha postasse nas redes sociais, entre elogios, é certo que receberia críticas implacáveis. “Descobriu o que?”, ou “Isso é uma manobra para desviar o povo dos verdadeiros problemas da nação”. O Rei Dom Manuel, o Venturoso, seria constrangido com desaforos, certamente. A namorada do nosso rei romântico, se enviasse a tal foto sensualizando, poderia cair nas redes por acidente ou maldade.

O que eu digo é que as cartas iam além dos relatos cotidianos. Carregavam um conteúdo afetivo, um certo cuidado no estilo. Sei lá, poderiam conter mentiras, devaneios, mas se filtrariam ou cairiam em contradição, talvez nas linhas seguintes. Escrever exige concentração e cultura.

Fossem dirigidas a um amante e,  principalmente, uma conversa com amigos, sempre havia espaço para uma citação filosófica, hoje trocada à exaustão por “cards” de frases pretensamente edificantes, uma vã filosofia que, na maioria das vezes derruba o bom gosto, justamente por lhe faltar sinceridade.

A arte epistolar de escrever cartas, além de tornar textos valoriza a retórica sem obrigatoriamente ser um estilo romântico, ou confessional. Eu recebia várias carta de amigos e amigas, que relatavam em riqueza de detalhes as situações cotidianas que enfrentavam e a noção de tempo ficava bem definida. 

E esse tom, que mescla vivência e informação tornavam as cartas superiores, ao meu ver, aos nossos  rabiscos digitados de hoje que, dificilmente virariam a prosa literária de autores como Ernest Hemingway ou Clarice Lispector (tentem adquirir o livro "Correspondências" com cartas da autora a outros escritores). Intimas delícias literárias!