terça-feira, 28 de junho de 2022

Sobre 365 maneiras de enlouquecer juntos na cama

 

Uma das poucas vantagens que ainda restam aos que trabalham no centro de Porto Alegre, é o refúgio simpático e acolhedor dos “sebos”, livrarias onde a boa literatura faz parceria com os preços módicos de livros usados. Desde os clássicos da literatura universal até a autoajuda publicada em décadas passadas. Por exemplo, na semana passada, na sessão de ofertas, por alguns míseros e desvalorizados pilas, estava a obra “365 Maneiras de Enlouquecer Juntos na Cama”, do norte-americana James Petersen que atuava como editor na antiga revista Playboy.

 Se juntarmos as publicações a respeito do assunto, incluindo o chatíssimo Kama-Sutra, daríamos a volta ao mundo com certamente milhares de novas e pretensamente criativas sugestões para casais sem imaginação. E hoje ainda tem canais online com sexo de todas maneiras possíveis! Milhares de variações para cada dia, cada hora, cada minuto! 

Viver seria um desfrutar no paraíso de Eros. Mas a verdade - nua e crua - é que as pessoas brocham solenemente por outras 365 maneiras de enlouquecerem juntinhas. Acreditar que variar as posições de pernas, braços e órgãos mais sensíveis, lhes devolverá o tesão é uma ilusão a esvair-se entre o assoalho e os colchões. 

Sou daqueles que acredita em sexo com remédio para uma vida saudável. Mas antes de tornar-se cura o erotismo doméstico precisa evoluir no grande e desgastante laboratório do cotidiano. Sedução é atitude, ora! Passada a fase da paixão - sempre irracional e genital - a saída é descobrir algo mais forte do que ativar feromônios, mas cuidar na construção de uma personalidade íntegra, que sobreviva a tropeços e satisfaz a parceria na capacidade de superação.

E isso é válido para todos os gêneros e esferas sociais. A briga por espaço em um mundo competitivo, tem o efeito de perfume exótico ou uma fantasia erótica. Mostrar disposição para enfrentar as agruras - o saldo negativo, a inflação e o labirinto político - com trabalho, criatividade e energia, não deixa de ser sexy neste planeta de ódios gratuitos, guerras absurdas.

Está provado que o amor nasce da admiração e o sexo é um dos alimentos para se manter tudo prazerosamente. Ou vamos levar esse clima hostil de hoje à intimidade? Um dos problemas é a dificuldade de se estar bem consigo mesmo. Sem tesão por meus próprios projetos, como agradar a quem desejo? 

De qualquer maneira, se algum dos leitores deste artigo quiser aproveitar o preço e adquirir o livro  tem reedições disponíveis em livrarias e na internet.  Mas vou avisando, aceitar as coisas simplesmente como elas são e depois querer desfrutar umazinha das 365 maneiras de satisfação é tempo perdido. 

Se fosse assim, Playboy não teria perdido tantos leitores. Mesmo com as entrevistas sempre geniais. A regra vale para casados, amantes e afins. Por exemplo: numa relação aberta sempre corre o risco de sobrar, aquele parceiro de personalidade instável. E uma expulsão entre lençóis dói tanto quanto um nocaute num ringue lotado. Quem admira gente sem fibra? 

Por isso, por mais que represente uma oportunista autoajuda, alguns se agarram a estes livros como fonte renovadora da paixão. E aí, ou aprendem, ou abandonam a parceria, reclamando, é claro, do outro. E aí nem vamos recorrer a Lacan. Porque melhor do que um espelho de cristal  no quarto, o que se reflete na ânsia por satisfação é a busca por um sentimento amoroso - a maneira de cada um - desde que sinceramente compartilhado. É isso, e as tais 365 maneiras se enlouquecerem juntos, podem resumir-se a cinco minutos de paraíso terreno. Sem culpas.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

No frio, In vino veritas


O inverno chegou. A previsão é de que será de muito frio e de pouca chuva. Que consolo! Confesso, já gostei mais dessa estação. Mesmo com o ar gelado a cortar feito diamante as frestas das janelas, os vinhos mais encorpados aqueciam. Em dias passados, eu e meu amigo Werner Thiel, criamos  inclusive uma confraria intitulada pomposamente de In Vino Veritas. Enquanto o gelo cobria a capota dos carros lá fora, no calor da lareira, esquentava-se a vida. Alguns amigos até poesia recitavam, inspirados pelo mesmo deus Baco que, de propósito, os fazia esquecer estrofes, ou engolir rimas.

A lareira parecia nunca apagar, a adega sempre cheia. Tudo quente e aconchegante. Era inverno mas estávamos juntos. Os confrades traziam pães, queijos, salames coloniais e caldos a ferver seus vapores aromáticos. O inverno se cobria de um frio suportável, mesmo que insistisse em chuvas intermináveis, entremeadas de raros dias de sol pleno, abaixo de zero. Lagartear era tudo o que se precisava para recarregar as baterias.

Em casa, chimarrão, chás de todos os tipos e cafés servidos direto da cafeteira italiana. Era energia pura, que se agarrava na certeza de que toda estação tem seu encanto, mesmo que absolutamente fria, com ares melancólicos, quase depressivos. Eu não me permitia sofrer contra o óbvio. Para que reclamar, não tinha como ser diferente. A alternativa, o Nordeste ensolarado, era apenas uma fantasia cara demais para ser verdade. E duraria poucos dias. Longos seriam os meses a pagar passagens aéreas e hospedagem.

A confraria minguou, cada um seguiu seu caminho e hoje, me deparo com o inverno aliado a dias e noites de ódio e extremismo. Quero de volta esse inverno que congela os chatos ou os convida a algum tipo de celebração pacífica. Quero dias e noites em que não me isole exclusivamente em um edredom solidário, enroscado nos pés da amada. É bom, mas não é tudo. 

Enfrentar, reagir ao frio é bem melhor do que chulear as horas rezando pelo advento gostoso da primavera e verão. Não perdi a esperança e quero ressuscitar a certeza de que não faltará parceria para aquecer a alegria de viver. E que no meio de mais um inverno eu finalmente perceba que, dentro de  mim, “permanece um verão invencível," conforme imaginou, certa vez, o genial Albert Camus. 

Que assim seja! 


quarta-feira, 15 de junho de 2022

Academia ou filtro nas selfies?

Algumas vezes ela, diante do espelho, pensava em revolucionar. Mudar a cor do cabelo, cuidar melhor da pele e - ó Meu Deus! - partir para uma dieta definitiva. No início da semana, segunda-feira, é claro, passou defronte a um prédio onde, em letras bem grandes, se lia o nome de uma academia, algo tipo Boa Forma. Imediatamente pensou tratar-se de um sinal dos céus, pois raramente andava por lá.  Mas não parou, estava em Teutônia, longe de casa, iria procurar algo semelhante sem precisar andar por uma estrada.

Massa magra - No dia seguinte acordou deprimida. Tensa: Aos 35 anos sentia uma certa flacidez nos braços. Precisava melhorar a força muscular, aumentar a massa magra, ter mais resistência e consequentemente maior capacidade cardiorrespiratória. Tudo isso instantaneamente. Ou quase. Voltou ao espelho e reclamou: “Viu? envelheço e não percebo os sinais que a vida envia. O que adianta morar em uma cidade com tudo para caminhadas, exercícios orientados e ficar, solenemente, assistindo séries na TV, acumulando calorias?”

Morro Gaúcho - Encerrado o severo discurso à sua imagem refletida, decidiu-se comprar uma bike. E deveria ser especial, reforçada para aventurar-se em estradas de chão batido. O plano era sair de casa até o Morro Gaúcho, por exemplo, pelo menos uma vez por semana. Sua amiga Janaina fizera isso e além da dieta, conquistara um cara bonitão de Travesseiro e, logo em seguida, conquistou o lençol, a fronha e a cama completa. Hoje estão casados.

“Casar? Não!”  - Queria uma montain bike, nem que fosse usada. Mas ao cansar dos aplicativos de loja caiu, instintivamente, no Instagram. E foi ali que operou seu milagre. Com mínimo esforço puxou todos os filtros possíveis e com a ajuda de bons ângulos de câmera (e algum contorcionismo), compartilhou-se delgada e provocativa. Ainda postou uma frase típica de auto ajuda “Tudo bem a seu tempo… tudo bem, sem pressa”. E partiu para jantar um xis com as amigas, entre comentários para  ela valiosos como "linda" e "gostosa". Era quase sexta-feira e na segunda, jurou que voltaria aquela academia.

Publicado no jornal O Alto Taquari de Arroio do Meio


sábado, 11 de junho de 2022

Inesperada surpresa no Dia dos Namorados


 Tudo aconteceu muito rapidamente. Demorado foi achar a cesta de bombons especiais - sem açúcar - que estão raros desde o início da pandemia. Correu em todas as chocolaterias possíveis e assim, juntando, aos poucos, formou um pacote bonito de trufas variadas, saudáveis e saborosas. Um casamento não pode ser vencido pelo comodismo. E a coisa andava muito estranha em casa. Por isso resolveu quebrar a promessa feita à esposa de não gastar nem um centavo no 12 de junho. “Vamos nos presentear com algo muito melhor” sugeriu ela.

E o que poderia ser isso? Na dúvida ainda reservou a espumante favorita dela, Os dias foram passando até que ele não conseguiu segurar a ansiedade e na véspera, uma sexta-feira nublada, levantou mais cedo, tomou seu banho ouvindo Bee Gees (porque era um sujeito da antiga) e, na hora do café, com olhos marejados de uma rara emoção, fez a entrega do singelo, mas nem tão barato mimo

Me faltam adjetivos, mas um substantivo abstrato (quem é bom em gramática sabe o que é)  cairia perfeitamente naquele momento, pois dependia da reação dela, imediata e decidida. “Eu não disse que não queria presente?” E pediu que ele sentasse antes de desatar um discurso lento, quase sussurrado mas decidido: “não te falei que teria algo melhor? E comunicou à queima roupa sua decisão pela separação. “Mas isso é um presente?”, gemeu ele, decepcionado, mas não surpreso. “No estado deprimente de nosso relacionamento sim", conclui a mulher.

O café estava frio, a cozinha ecoava uma solidão antiga e ele decidiu respirar na rua. Na descida encontrou seu Jorge, o zelador. Perguntou se já tinha comprado presente para a data dos casais. “Vai ser um beijo e só. Está feia a coisa”, resmungou o homem antes de abrir um sorriso imenso de emocionada alegria. Nas mãos recebia a caixa de bombons e a promessa de uma garrafa especial de espumante. Não teve tempo para ouvir os sinceros  agradecimentos. Esse meu personagem agora tinha uma pressa de recomeço e a certeza de que, afinal, esse era realmente o melhor presente. “Afinal, ela nunca erra”, conformou-se.



sexta-feira, 3 de junho de 2022

Aos que sonham com um milhão de amigos

Em dias de convivência e relacionamentos a base de likes e postagens em redes sociais bate um certo relaxamento na hora de buscar uma parceria fraterna para um bate-papo, uma troca de confidências ou um simples e terapêutico abraço. Com a pandemia, a coisa piorou muito nos últimos dois anos. É o medo do contágio, de correr um risco desnecessário de vida. A coisa anda tão forte que os norte-americanos, que adoram uma pesquisa, revelaram, via
Gallup, que as pessoas, cada vez mais, perdem contato com seus mais íntimos amigos.

E aí fica a pergunta: como anda a situação aqui por terras brasileiras, onde tem gente mais preocupada em abraçar conflitos irracionais e extremismos do que o entendimento. Eu, por exemplo, conto nos dedos o total de amigos verdadeiramente importantes em minha vida. Do tipo que vitamina a alma com uma parceria de verdadeiros compadres.  Lembro a sarcástica citação do irreverente Millôr Fernandes: “Meu pesadelo, está expresso na música do Roberto Carlos: 'Eu quero ter um milhão de amigos'. Que horror!” 

Também tenho minhas desconfianças entre aqueles que se jactam por andar rodeados de gente. Essa ansiedade de amigos aos baldes, muitas vezes resulta em uma depressiva solidão. O importante não é  conquistar a tribo inteira. Estudos realizados ainda no século passado demonstraram que, entre três a seis pessoas é razoável para uma troca de experiências eficaz e saudável.

Laços fortes de amizade podem aumentar a vida em até dez anos. Encastelados na riqueza material, mas isolados, somos um prato feito para a desordem mental, depressão ou doenças cardíacas e câncer. E se você acha que está bem assim, com seu núcleo familiar, ou simplesmente a esposa e um ou dois parceiros de carteado, saiba que não está errado. Um casal que não viva às turras, pode muito bem desenvolver um grande laço de amizade. Namorados e amigos, ora!

A ciência já comprovou que uma amizade bem resolvida, com troca efetiva de boas energias, libera um hormônio bacana que estimula a interação social, a ocitocina – importante na redução dos batimentos cardíacos e da pressão sanguínea, ao contrário da adrenalina provocada pelo isolamento a envenenar o organismo com o aumento nos níveis de estresse. 

Então, vamos dar uma atenção especial aqueles que nos querem próximos não apenas no Instagram, Facebook, curtidas no Tik Tok, ou nas páginas de namoro onde a falsidade é a melhor amiga da ilusão. Na semana que vem eu volto, até lá, obrigado pela paciência de ter chegado até aqui. Um bom sinal de parceria que, com certeza, pode levar à amizade.