terça-feira, 30 de abril de 2024

CHOVE CHUVA E EU SEM CHÃO

Estou seguindo rigorosamente as determinações da Defesa Civil, quieto em casa, acompanhando o noticiário e observando a chuva forte que vem causando prejuízos horríveis aos cidadãos gaúchos.  A situação em meu caso piorou um pouco, porque meu bairro fica às margens da BR 290 e, como a maioria viu pelos  noticiários, a força das águas arrastou um naco da estrada impedindo o tráfego de veículos. Ou seja, para chegar em Porto Alegre preciso dar uma volta em estradas de chão, na Região Carbonífera,  aumentando os riscos de atolar em alternativas de pura lama. 

E aí, sem o que fazer, fui remexer em coisas que estavam precisando colocar em ordem. Antigos trabalhos, livros fora de estante, discos de vinil que classifiquei em ordem por artista e estilo musical. Sim, eu ainda escuto LPs. Gosto de ver a ficha técnica, curtir a capa. Ajuda a entender melhor a mensagem do artista (quando esse quer passar alguma mensagem). Volta e meia cai a energia. E nesses minutos abro aleatoriamente uma página de um livro qualquer. 

Descubro ou releio textos bacanas. Alguns diálogos bons, engraçados, ou mais sérios. Ler é uma porta aberta para a distração e cultura. Concordam comigo? Por exemplo me deparei com os “Contos Reunidos” de Machado de Assis. Fica a dica. Vale muito a pena curtir os textos desse romântico. “Creia em si, mas não duvide sempre dos outros”, escreveu ele, um sujeito que sabia ler a alma humana e criar espaços para o riso e a reflexão. 

Ei! Estou divagando muito, eu sei. Mas a chuva e seu tilintar na calçada, o rolar pelas calhas me deixa assim, meio difuso, mais distraído do que o normal. E como disse no início, sou obediente. Ficarei em casa mais alguns dias. Quando vocês lerem essa crônica, a chuva terá cedido? As ruas estarão livres da inundação e seus terríveis danos? Ah! O que vejo em noticiários impressionada.

Começa achar que, de repente, Noé e sua Arca aparecerão carregando exemplares de cada espécie. Mas deixando de lado os predadores humanos. E rezo para a solidariedade na reconstrução ser maior do que os estragos provocados. É a pauta de minhas orações.

Agora vou tentar informações sobre a pista afundada na BR 290. Tenho reservas de alimentos, água suficiente mas não é nada agradável a sensação de que existe um bloqueio a impedir meu ir e vir. Fico literalmente sem chão. Estava pensando em dar uma volta aí, tomar um café expresso em um passeio sem agenda. Mas nem sempre tudo é como idealizamos. A Mãe Natureza anda nos responsabilizando por uma série de problemas e não lhe tiro a razão. 

Então, encerro esse papo  - sem pé nem cabeça - com uma singela sugestão: vamos dar mais atenção ao meio ambiente, o que acontece hoje tem uma ponta a ver com a poluição atmosférica,  hídrica e dos solos que deslizam montanha abaixo. Isso sem contar a degradação sonora e visual. 

E não me refiro apenas a  música alta ou os "nudes" esdrúxulos que muitos curtem. Isso polui também, mas causa apenas danos ao bom gosto, dependendo do que se ouve ou vê. É questão pessoal de cada um e eu respeito. Mas desastres naturais, esses podemos insistir em mais cuidado com o planeta em que vivemos.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Minha estrelinha de boa gente

Existe uma gangorra entre as coisas que valem a pena e aquelas que devemos evitar para não pesar muito e nos deixar de castigo, lá em cima, com os pés bem distantes de um solo firme e confiável. É o tal do equilíbrio, um pêndulo meio enferrujado nos dias de hoje onde, aparentemente, todos têm razão, mas nunca estão totalmente corretos. Viva a contradição que nos veste de monges quando, na verdade, deveríamos apenas trajar o direito de acertar e errar. É essa busca que nos torna mais respeitáveis na classificação de quem conquistará uma estrelinha por bom comportamento.


Seguidamente sou citado entre amigos e colegas de trabalho, como um sujeito equilibrado e tranquilo. Eu, daqui do vulcão que não permito jamais entrar em erupção, me ponho a rir. Assim como tantos outros talvez guarde como maior virtude, a capacidade de manter as lavas da insatisfação, sempre distantes da depressão. Busco, lá no fundo, o que realmente sou, independente do que venho a representar para os outros.


Evitemos uma postura de soberba. Sempre tão frágil. Aprendi que assumir-se como centro da humanidade é uma espécie de escapismo originado, quem sabe, em limitações impostas por uma infância sofrida, dramas mal resolvidos, frustrações diversas. 


Sempre que me sinto um zero à esquerda, busco o que convulsionou meus interiores e, com brutal esforço, é claro, dou um jeito de resolver a pendenga e me perceber muito maior, e melhor, do que pontuais dramas existenciais. E a paz ressurge, armada até os dentes, por  uma desafetação divina. Sem antidepressivos!  


Assumir a limitada condição humana implica em aceitar erros - nossos e de terceiros – e cá entre nós, isso permite um certo alívio. Tira a corda – ou cinto – do pescoço. Desarma o espírito e sei, ajuda a dividir a dor com os outros, sem parecer um chato a reclamar de tudo e todos. 


Tem gente que passa metade da vida entre queixumes de falta de reconhecimento de amigos, de familiares, de amantes, de eleitores e candidatos. Quase morrem desgostosos. Mas nunca conferem como anda a estima. Gostar-se, um pouquinho que seja, faz bem.


Afinal, como dizia John Lennon, “Podes viver uma mentira até o fim, mas uma coisa jamais conseguirás esconder o tempo todo: é quando estás amassado por dentro”. Vivamos então,  a nossa dor, como se o dia  de amanhã estivesse confirmadíssimo tolerância e céu azul. 


Mas se porventura chover, que seja uma benção a irrigar a esperança, confirmando que somos todos tão originais, tão únicos, que merecemos – e devemos -  inspirar com o nosso melhor, aqueles que circulam - temerariamente - entre os limites da razão. Assim, mansamente, a gangorra dificilmente nos deixará de castigo, lá no cume da insatisfação.


terça-feira, 2 de abril de 2024

Fofocas amargas na confeitaria

Sentou próximo a um grupo de senhoras que tomavam chá com torta. A confeitaria com seus aromas doces, a música leve e o ar-condicionado o libertavam do desconforto úmido de uma típica tarde quente na capital gaúcha. O tagarelar animado de suas vizinhas de mesa colocavam um ponto e virgula nas atribulações pelas quais passara desde que amanhecera. Primeiro a ausência de um depósito - um simples PIX - de seu maior cliente, depois a discussão sem sentido com a esposa que não aceitava esperar mais um dia para juntos, irem ao supermercado. “Está faltando tudo em casa!” esbravejara a mulher.


Ele sentia-se uma espécie de fugitivo, tentando escapar das broncas domésticas em um lugar tão mimoso. Ainda por cima, deleitava-se com a futilidade da conversa alheia. “A Itália continua linda e desorganizada”, afirmava a mais velha da turma. “Mas os homens... Estes são o maior trunfo daquele país”, acrescentava outra, entre olhos maliciosos. “Que teu marido não saiba”, envenenou uma terceira. “Não te preocupa, eu viajo sempre sozinha. Pra que levar sanduíche, quanto tenho pratos mais gostosos para provar lá...” Gargalharam juntas, indiferentes as pessoas a sua volta.


 “Cada qual com seus problemas”, pensou enquanto escolhia alguma coisa para comer. A fofoca alheia lhe abrira o apetite, desviara a atenção de seus próprios problemas para um outro mundo, muito distante do seu, onde dizem que homens traem mais. E pior, tem baixo Q.I. E as mulheres que pulam cerca? Elas seguiam em inconfidências. Relatos de temporadas gloriosas na Europa, Ásia, queixas contra a paranoia norte-americana que as afastara de Nova Iorque. “Tenho lá eu cara de terrorista?” inquiriu uma. “Botox não é explosivo. Você jamais será barrada em aeroportos, querida ”, brincou maldosamente outra.


De repente, a mais quieta da turma, com ar de mistério diz: “Vocês sabem o que fez uma amiga? Primeiro seduziu um colega de aula, do tipo carente, baixa estima e conta bancária em alta. O cara acabou caído por ela. Casada, agiu na maior discrição. Ela é decoradora, mas vocês sabem que hoje em dia qualquer uma se diz designer e acaba inflacionando um mercado já pequeno. É o caso desta amiga. O quadro piora porque seu marido anda com problemas financeiros. Negócios em baixa. Uma tragédia. Para manter o padrão, ela assegurou esse amor novo. Às vezes o arrasta até o mercado e ele paga a conta. A danada enche o carrinho com vinhos importados, especiarias e até as lâminas de barbear do marido. O que vocês acham disso?”


Antes de ouvir o veredicto da senhoras, nosso amigo pagou a conta e tomou o rumo de casa. Ao chegar não encontrou a esposa. Na mesa da cozinha, um bilhete: “Fui levar nossas filhas na avó que está com saudades. Mas para te poupar, já fiz as compras. Não te preocupa não gastei muito meu único excesso foi contigo: comprei aquele Malbec argentino que tanto gostas. Vamos bebê-lo juntos e fazer as pazes. OBS: Também te comprei um aparelho de gilete novo. Assim teu rosto fica macio. Um beijo!” Em qualquer outro momento, adoraria tanta disposição para reatar em plena crise. Mas depois daquela tarde...


Quando a esposa chegou, ele estava virado em um zumbi pálido diante da tevê. No íntimo queria sumir dali, xingar, expulsar o vendaval que lhe atormentava os pensamentos. Mas sentia-se impotente e atônito. Um diminuto personagem de fofoca. Mas fazer o que? Dizer o que? Encurralado, decidiu frequentar cafeterias, só a distância das línguas venenosas. 


E o rancho da família, a partir de agora seria sempre feito a dois, “Afinal, essas coisas chatas temos de dividir”, justificou. A mulher achou melhor não contrariar. “A gente fala sobre isso depois” e correu para a cozinha onde duas taças aguardavam um brinde. “Não falta uma?” pensou em provocar, desconfiado. Mas optou por recriminar a maldade alheia que lhe envenenara. Afinal, uma ilusão oportuna dói menos!