sexta-feira, 28 de junho de 2024

Existe o par perfeito, aquele dos sonhos?


Certa vez sonhei que eu e meus filhos brincávamos em uma cesta enorme, cheia de números de plástico. Ganhava quem mais identificasse os numerais. No trabalho, relatei a meus colegas e um deles, apaixonado por loterias me perguntou se eu lembrava alguns destes números. É claro que esquecera tudo. Mas inventei um milhar qualquer para alegrar esse colega. Lá foi ele fazer "uma fé" e insistiu para eu jogasse, o que não fiz. Havia escolhido números soltos, sem relação com o sonho. No dia seguinte, fiquei sabendo que os meus números lhe haviam garantido uma boa grana. Eu não entendi a mensagem do meu próprio sonho?


Então, aprendi que não bastam os sonhos, é saber interpretá-los. Óbvio não é mesmo? Existe dezenas de livros sobre o tema. E é claro, não comprei nenhum e segui assim, desperdiçando sonhos. Uma vizinha me jura que ela é a diretora de seus próprios sonhos. Se precisa de alguma luz na área de finanças doméstica, lê revistas, livros, fala com amigos sobre o tema. Quando sonha com o que vem assimilando acordada, parte para a execução dos projetos. 


Ela garante que funciona. Os sonhos lhe dão o rumo que, mesmo a mesma fina orientação técnica, o conhecimento adquiro com as tantas leituras, não asseguram. Diz que na maioria das vezes, sonha com algum novo projeto – ela é arquiteta – ou cliente, propondo algo rentável e nada delirante. Tem sonhos práticos, ora vejam. Ela diz ser uma espécie de "lei da atração de travesseiro".


Mas adverte que a coisa só não funcionava para conseguir namorado. Muitas vezes idealizava o cara, sonhava com ele em cenas românticas, às vezes, até mesmo bem quentes, mas tudo o que lhe aparecia nunca era bem aquilo que o mundo dos sonhos lhe apresentara. Lia publicações esportivas, tipo futebol e automobilismo. Fora assistir jogos em bares, onde a testosterona impregna o ambiente, mas inevitavelmente, errava o foco.


Ou o cara gostava tanto de futebol que esquecia que namorar é melhor longe dos estádios, ou era tão insosso que ela preferiria dormir. Sem sonhos! Assim, concluiu que o homem dos sonhos, não existe. Por mais que procurasse aquele cara que, no mundo onírico lhe apresentava, poeta ou amante intenso, Na vida real, só apareciam sujeitos inseguros, às vezes carentes e sempre com uma história triste de uma ex.


A partir daí, para encerrar essa história, concluo que é bom ficar atento aos sonhos. Eles articulam os sentidos e estimulam a criatividade. É como o músico que sonha com uma canção e precisa gravá-la imediatamente para que não ser esquecida. Yesterday, uma das canções mais famosas dos Beatles, foi sonhada por Paul MacCartney. Imagina se ele deixasse para depois?


A diferença é que uma canção você estrutura como bem entender, sonhada ou não. Um número de loteria é pura intuição. Mas dividir o sonho com outro, exige sintonia fina. Essa é construída de pés no chão, onde os sonhos que alimentaram fantasias, precisam alimentar-se de realidade. 

domingo, 16 de junho de 2024

O Baile da Vaca Louca e o homem que regava a chuva


Lembro que era sábado, de um ano já distante. Eu de plantão em casa, atento ao rádio, às novas da internet e da tevê. Quase pontualmente, como toda santa manhã, saí para conferir os jornais -  sim, eu os comprava junto com o pão - quando cruzo com um desses carros de propaganda típicos do interior. O autofalante anunciava uma festa especial na Sociedade Harmonia, de Arroio dos Ratos. “Não perca o baile da Vaca Louca”. E alertavam que não pretendiam soltar um espécime desvairado de quatro patas na pista de dança. Destes,  tem à vontade em duas patas. A promessa era mesmo sortear uma vaca!


E fiquei imaginando onde eu colocaria um bicho desses? O sujeito chega "solito" ao baile e volta bem acompanhado para casa. Uma vaca! Uma senhora fêmea, tão grande que sequer cabe na carona da moto, ou no banco do carro. Voltariam juntos, a pé, para casa, na madrugada. E eu achando que aquele festival de música do litoral norte era o maior programa de índio do final de semana.


Quantas vezes ganhamos brindes que mais atrapalham do que agradam? Lembro que certa vez, em um destes galetos de Igreja, eu ganhei um relho de couro. Coisa mais linda. E fiquei pensando, servirá para que? Autopunição? Na época nem namorada eu tinha. Acabou como presente para um amigo que coleciona artigos de montaria. Ele não tem mais cavalos, vive feliz com sua namorada em um lindo sítio. 


Ao voltar para casa, ainda pude assistir a uma cena para lá de insólita: chuva forte e um homem, bem protegido, capa de chuva e capuz, regava as flores de seu jardim.  A despeito da água que as nuvens mandavam em abundância, ele acrescentava o jato forte da mangueira. E foi naquele instante, que descobri: estava ali o cara certo para ser o grande premiado no baile da Vaca Louca. Alguém que gosta de regar a própria chuva, tem perfil para isso e muito mais.


Sonhar acordado e a esperança

Foto Jaqueline Mânica/ AT

Vivemos momentos assustadores, invadidos pela tristeza que, sorrateiramente, nos sugere desânimo diante de uma trilha destroçada. Mas é preciso seguir adiante, com fé na capacidade de reconstruir apesar das imagens de uma inédita devastação. A retomada dos acessos entre as regiões baixa e alta do Vale do Taquari, em um prazo recorde, me levou de volta às aulas de filosofia (sim, cursei o Clássico), nos anos 70. E desta lembrança me veio a citação aristotélica que guardo até hoje: “A esperança é o sonho do homem acordado”.


E foi essa capacidade de engolir a dor que, mesmo remoendo o íntimo, não impediu a busca por soluções. Afinal tudo vai passar. É assim a vida. “Quando estiver no inferno continue andando”, disse Winston Churchill - desculpem mais essa citação - mas ela sintetiza a necessidade de coragem para fazer o que tem que ser feito que, não por acaso, é o lema dos que assumiram o novo projeto da histórica Ponte de Ferro a ligar Arroio do Meio a Lajeado.


Estiveram juntos iniciativa privada e poder público, em exemplar sintonia. E a esperança mais uma vez fez sucumbir o desânimo. Se os tempos continuam difíceis, nada desmotiva aqueles que souberam mobilizar tanta gente, tantas cabeças, motivações ou crenças. Havia uma emergência a prevalecer qualquer tipo de ambição ou resmungue.


E cá estávamos nós, telespectadores, ouvintes de noticiosos em rádios e atentos aos comentários das redes sociais, acompanhando a realização que orgulha toda uma comunidade e renova sim,  a esperança de que nem tudo é o esmorecimento da capacidade humana para o bem. Nossas crianças precisam saber que acima de tudo existe  essa capacidade de união para enfrentar os que se abraçam  ao egocentrismo. 


Eu aqui, você ali? Ao contrário, seguimos pelos caminhos abertos na ponte que, partida ao meio, diante da força das águas, simultaneamente, juntou extremos na convicção de que tudo se reconstrói. E mais uma lição ficou gravada em cada viga, em cada braço unido a essa e a tantas causas urgentes pela reconstrução de nosso Estado. É o sonho, de olhos bem abertos, a virar bem aventurança.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Sobre o Dia dos Namorados

 

Nunca trocamos versos, nem mesmo olhares furtivos. Tudo muito simples, tudo na base da parceria amiga. Não passeamos de mãos dadas feito bobos, nem rimos sem que ninguém entendesse a graça. Porque a graça é secreta. Transparente feito bolha de sabão, mas somente os amantes a interpretam. 

Como não somos amantes, não há fantasia. Nunca saímos a comer pipoca no cinema. Nem roubei beijos - cobrindo a visão de quem senta bem atrás - bem na hora em que o crime se elucidaria na tela colorida. Não fomos esse tipo de gente chata, de paixão exibicionista.

E os restaurantes? Comida italiana, bacalhau à portuguesa, pratos refinados franceses ou a exótica e sensual comida tailandesa? Passaram batidos, por nós. Muito menos o cachorro-quente do Bigode, na galeria do Rosário, ou qualquer cheesburger mata-fome de quando bate a larica por coisas gordurosas e fritas, acompanhadas, é lógico, de um refri litro normal (que não é caloria zero).


Eu lembro que chegamos a comentar essa coisa de Dia dos Namorados junho aqui, fevereiro no resto do mundo. Invenção de publicitários. Oportunismo cínico. Afinal, qual santo seria o mais casamenteiro? São Valentim ou Santo Antônio? Não entramos nessa disputa. Os santos não nos oferecem dicas ou inspiração, tipo “vai lá é essa aí!” Seria falta de fé e oração?


Eu não te comprei presentes, nem uma flor sequer! Nem me destes aquela gravata bacana que, juntos, vimos em uma vitrine de shopping. Não éramos namorados. Bons amigos apenas sugerem coisas que te deixariam bem vestido. Despir então? Jamais! Sai pra lá, que tu é minha amiga, eu teu conselheiro. Assim, nunca provamos abraços daquele jeito que tonteia e deixa os sentidos em níveis de intolerável excitação e que nos tiram – em segundos – a razão.


Sempre dois animais racionais! Tu me relatavas se o namorado da vez era ousado, ou careta demais. Ou se esquecia datas importantes e ainda deixava as cuecas emboladas no banheiro. Até teu pai reparara, certa vez. Que mico! Eu falava das mania de mulheres solteiras ou descasadas com quem saía. Detalhes tão pequenos que, ao contrário da canção do Roberto Carlos, logo eram esquecidos.


Nunca fomos a Punta Cana, pagando tudo em 12 vezes no cartão. Não fizemos planos de subir a Torre Eiffel e lá, jurarmos amor eterno. Éramos parceiros de seminários, congressos. Dezenas de reuniões intermináveis, que formavam comissões, definiam grupos e perdiam o propósito meses depois.


Parceria mesmo era na hora da dor de corno. Tantas traições sofridas e confidenciadas? Muito menos do que as bolachas de chope que o garçom contabilizava a cada crise, é claro. Mas aliviávamos o sofrimento, montávamos planos fantásticos de vingança que, invariavelmente, evaporavam junto a ressaca no dia seguinte.


Quem ama não é rancoroso. Sofre calado. E amávamos demais! Tanto que selecionávamos muito. Selecionávamos ao extremo. Nem eram questões físicas, mas o caráter, a capacidade de doação. E essa coisa de seleção, no amor, é prima-irmã da solidão quando se exagera nas medidas definidas de nossos manequins amorosos.


A maioria de nossas paixões evaporava em pouco tempo em meio a névoa das mesmas desculpas vazias de quem nos abandonava. Aquela coisa tipo prêmio de consolação. Eu sou uma pessoa incrível, mas ainda não estavam prontos, blá, blá, blá!. Como alguém pode não estar pronto para alguém ou algo que jura ser muito bom. Então é ruim ser bom? Ah! Contradições. Deveria existir um Manual Criativo do Pé na Bunda!


É claro, voltávamos às confissões regadas a chope. Sem choro, porque o tempo nos levara ao habito do adeus. Era tanto pedido, de “vamos dar um tempo”, que os romances mais pareciam uma queda no vácuo. O certo é que estamos aqui outra vez. Eu e tu, minha amiga. Sabemos tanto um do outro, que até parece lógica a proposta que me apresentas hoje, de ficarmos juntos como namorados, só para avaliar se é possível uma tentativa de algo além desta bela amizade.


Até porque já estamos engordando – somo quase alcoolistas - de tanto chope com fritas. Eu topo a experiência. Se der certo, se somos tão bacanas quanto dizem nossos ex amantes, vamos adiante. Ao surgir qualquer problema, retomamos a antiga condição de confidentes e voltamos ao boteco - não para discutir a relação - mas para reafirmarmos a condição de amigos acima de tudo.   Conhecemos cada detalhe, cada arapuca que montamos contra nós mesmos.


Até parece tese de  autoajuda: uma boa relação precisa de amor e amizade. Era o que diziam maridos e esposas naqueles casamentos à moda antiga e a gente achava conformismo. Seremos salvos pelo óbvio?  De qualquer maneira gostei de uma frase dela: “Vamos servir de cobaia às nossas próprias carências. Se saciarmos a fome de estima, já está bom”. Nada científico, mas muito sexy. O que já é um bom começo.

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Memórias mofadas

Estava pronto para escrever algum texto menos sofrido, sem muitos rescaldos dos últimos dias. Mas tudo ainda está a ser feito, reconstruído, tratado com delicadeza e precisão. Arroio do Meio devastada! Tantos outros municípios desapareceram do mapa, engolidos por um aguaceiro nunca visto. O que temos a oferecer além de solidariedade? Um dia de trabalho, um pedaço das economias reservadas para o veraneio, o que for possível doar de boa vontade. 


Esvaziei o roupeiro com tudo que não me servia  mais, ou guardava para uma ocasião especial que nunca veio. Móveis, um fogão, pratos e talheres remanescentes de um período onde recebia mutos amigos e vizinhos em casa. Hoje esses encontros são mais raros, especialmente após o trauma do Covid. Enfim, todos a cuidar de suas próprias vidas. É a correria em nome de uma sobrevivência digna! Então, acumular para quê?


Agora surgiu esse desastre que abriu uma oportunidade de levar algum conforto aos vizinhos que não escaparam da enchente. Aqui em Eldorado do Sul foi traumático e nós que vivemos nas partes mais altas do município, tivemos de gerar uma grande mobilização de apoio. Ajudar aqueles que ainda enfrentam o cotidiano  derrapando no solo enlameado. 


Assim o fiz e continuarei enquanto for possível. Mas a questão vai muito além do pouco que vira muito nas ações individuais de apoio. Em li na imprensa nacional, o triste relato de uma professora, moradora de Estrela, que viu sua herança  familiar virar lama. Por décadas seus pais pouparam tudo que podiam  para comprar terras às margens do Rio Taquari.


E aí chegaram as inundações em abril e maio que reduziram a cotação das terras avaliadas em quase R$ 2 milhões por hectare, para menos de R$ 300 mil/ha em abril e, nos últimos dias, “sem nenhum valor”, lamentou a herdeira. Quantos outros não viram evaporar bens materiais adquiridos em décadas de muito esforço? Quanto anos adiante para uma volta por cima?


Minha mãe lembrou os dias de uma chuvarada forte em Porto Alegre, não na mesma proporção desta, é claro, mas que chegou às portas de nossa casa no bairro Menino Deus. Estou falando dos anos 60 e, naquela enxurrada foram perdidos brinquedos, algumas roupas, uma caixa com fotos e cartas dos dias de namoro com meu pai. Tudo isso guardado em um porão.


E apesar da sujeira, dos bens danificados, a dor mesmo foi ver aquelas juras apaixonadas, escritas com tinta nanquim rasgadas pela força da água suja. Foram muitos dias para secar, depois juntar o que foi possível e voltar a uma nova caixa que, desta vez, não ficou mais na parte inferior da casa.


A previsão é de que outros eventos como esse que enfrentamos poderão ocorrer a qualquer momento. Mas aprenderemos a resguardar um pouco melhor, nossos bens materiais - como a localização de uma casa nova - e junto a eles, as melhores lembranças em fotos, cartas, lenços, poemas. Tudo o que possa ter valor afetivo, desta vez, mantido o mais longe do esquecimento em porões mofados.