sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Ano Novo, escrita leve

 

Agora estou a reunir forças para um efetivo despertar, ou seja, um réveillon absolutamente verdadeiro à disposição de algumas viradas que considero fundamentais. Esse esforço inclui uma sincera mentalização para que possamos - nós, passageiros neste sofrido planeta - termos um pouco mais de equilíbrio entre vendavais, terremotos e dias de brisa, sol ameno ou frio suportável. Ah! E menos chiliques de extremismos que nada ajudam. Só confundem os incautos e inocentes de plantão. 



Doce ilusão dirão alguns. Mas é preciso esse pensamento otimista, essa crença de que os humanos saberão respeitar as regras de uma vida sem tantos sobressaltos. Cinemas! Voltarei aos cinemas de shopping. Vamos prestigiar aqueles telões enormes, que me fizeram sonhar em ser um galã, herói de capa e espada. Ainda guri, morei em Rio Pardo e lá  tinha o Cine Coliseu a me ensinar a ser fã de filmes de cowboy e a viver minha primeira paixão. Ah! Saudades da linda Romy Schneider em “Sissi, a Imperatriz”. 



Enquanto digito, recebo uma mensagem meteorológica prevendo sol com muitas nuvens e pancadas de chuva e alta probabilidade de formação de arco-íris! Tudo que eu precisava para encerrar esse difícil 2024. A visão daquelas tiras coloridas suspensas na atmosfera e um girassol da cor do cabelo de minha musa, conforme escreveu o mineiro Lô Borges - parceiro de Milton Nascimento. “E se eu morrer, não chore não. É só a lua. É seu vestido cor de maravilha nua…Ainda moro nesta mesma rua. Como vai você? Você vem? Ou será que é tarde demais?



Como está a iniciar um 2025 novinho em folha, nada é tarde demais, Tudo o que for bom pode ser sonhado, projetado ou criado. E o ruim, podemos nos esforçar um pouco e eliminar, pegar pelo rabo e jogar na lixeira para - igual a um notebook - deletar para todo o sempre. Sim, podem me criticar, dizer que fantasiei. Mas o sonho é um primeiro passo na criação de um novo projeto de vida. Todos juntos, todos com respeito às diferenças que, na verdade, representam a necessidade de mudanças, como folhas perdidas de um antigo calendário.  Até lá! 



O pinheirinho trêmulo

 

Era véspera daquela típica confusão doméstica dos finais de ano. A agitação das crianças, os tios comentando a decoração e os donos da casa atarefados em receber a todos. É sempre assim, o 24 de dezembro passa voando. Da cozinha chegava aquele aroma de assado, alguém se concentrava na finalização de um arroz à grega e uma sogra fofoqueira apontava para as compotas de frutas que, de acordo com ela, estavam “aguadas”. Sem querer parecer totalmente bruxa, justificava: “minha nora é muito querida, mas deixa a desejar nos doces”.


A árvore natalina já sacudira duas vezes e o pai, zeloso com o investimento que fizera em lâmpadas, bolas coloridas e um presépio feito em cerâmica, acompanhava atento a movimentação. Bob, o cachorro da família, um velho pastor alemão, cruza a sala carregando entre os dentes o bigode e a longa barba do Papai Noel. E lá se foram os tios no encalço do bicho, lento, mas decidido a não entregar sua captura. Foi convencido, pelo olhar raivoso do pai e uns biscoitos caninos que a dona da casa reservava para os momentos de recompensa. Dessa vez, o fazia por uma causa maior.


Recuperaram a barba, meio babada, mas salva. Nada que o sopro quente de um secador não resolvesse. Por trás da porta, um dos guris observava a cena, sem entender bem de onde surgira aquela imensa barba. Aceitou a desculpa de que era para um boneco que colocariam enfeitando na chaminé da casa. Curioso, perguntou, mais de uma dezena de vezes onde estava o tal Noel de mentira, mas se fizeram de surdos e a dúvida foi vencida em troca de algumas balas e pirulitos que surgiram dos bolsos milagrosos dos avós. Afinal, é para isso que eles servem. Adoçar os pequenos, ora!


Poucas horas antes da meia-noite, serviram o jantar. Era uma tradição e uma maneira de evitar que a fome deixasse os convidados entupidos de petiscos típicos da época, como nozes e castanhas.  A danada da árvore natalina seguia balançando mesmo com as estacas de madeira que haviam colocado para evitar surpresas desagradáveis. Na hora certa foram entregues os mimos, entre abraços, brindes e algumas lágrimas saudosas por aqueles que já haviam partido.


De repente, sem mais nem menos, a árvore balança de um lado para o outro e, imitando um imenso pinheiro nativo, desaba no chão arrastando bolas coloridas, lâmpadas e os mimosos cartões que os familiares haviam deixado. Ao se aproximarem do vaso, perceberam um par de patinhas sujas e dois olhinhos assustados saindo de um túnel cavado no entorno da árvore. 


O mistério se resolvia ali. Fred, o porquinho-da-índia que sumira um dia antes, havia decidido voltar às origens. Longe da gaiola onde vivia, cavou um túnel perfeito entre as raízes plásticas. Tudo muito bem encoberto entre pinhas coloridas e fitas decorativas, disfarce perfeito e decorativo.  E foi assim, às gargalhadas, que celebraram mais um Natal. Dessa vez com a ajuda do pequeno Fred, responsável por tornar inesquecível aquela noite.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O Papai Noel que saiu do lixo

 Ar de gente cansada nas repartições ou entre abraços apertados em milhares de celebrações natalinas. Estou asfixiado por tanta ansiedade, tanta contabilidade. A televisão insiste com dicas para quitar dívidas ancestrais – limpar a ficha – e voltar a consumir. A engrenagem precisa continuar a girar. Ao voltar de (mais) uma destas festas de final de ano, cruzei por municípios entre os vales do Rio Pardo e Taquari e percebi muitas lojas de portas abertas à espera de consumidores. 

As pessoas se dividem entre o estresse e esgotamento em um período em que valorizo a  leveza de intenções. Mas o mundo, sempre em crise, entre ameaças ao sistema econômico, especulação com moedas, bota em fuga Papais-Noéis ou, em casos de absoluto extremismo, os trajam ridiculamente de branco. Não toquem no meu amigo Noel, por favor! 


Final de ano é tempo de balanço. E uma das piores contabilidades  é o fatídico ajuste de contas com o nosso íntimo. Metas esquecidas ou superadas depois de muito sacrifício. Ausência daqueles que não estarão conosco na ceias especiais. Gente que partiu por doença, ou velhice, muitas vezes em rupturas que sempre deixam marcas. Mas é um tempo voltado a paz e reconciliação. A contabilidade, o presente ideal, a fila imensa nas grandes lojas, nada disso é pior do que o júri malfeito de nossas possíveis culpas ou  enganos.


Lembro que num destes natais do passado, eu andava atordoado por todos esses motivos e outros. Enfim, estava a me sentir um minúsculo verme perdido entre tanta música e decoração de gosto duvidoso. Eu estava lá – hora meio apagado, ora a acender no tranco – feito essas pequenas e, às vezes, irritantes lampadazinhas chinesas de Natal. Foi quando em uma das mais movimentadas ruas de Porto Alegre percebi uma cena típica da cidade e da época. Pai e filho, classificadores de lixo, no entardecer do dia 23, antevéspera de Natal.


O menino segurava na mão esquerda um desses bonecos articulados. Um super-herói qualquer. Não dava para perceber a cor da capa. Apenas que estaria em boas condições – não fosse lhe faltar uma das pernas. Por mais que voasse, um herói daquele porte também dependia das pernas para pisar no chão firme. O pai, com a cara enfiada em um saco de lixo, revirava tudo, “Eu vi cair aqui”, disse ele. Lá pelas tantas, voltou com algo que parecia a perna do boneco. Foi ao carrinho, puxou uma caixa cheia de pregos e parafusos. Revirou até achar o que queria. Deitou o boneco na calçada e com uma faca pequenina – transformada em chave de fenda, ou bisturi – sei lá, recolocou a perna no super-herói. Mas não devolveu ao filho.


“Agora só vais brincar com ele no Natal. A tua irmã também vai ganhar um presente do Papai Noel.” Cético, afinal havia juntado o presente no lixo, o menino disse, convicto: “Isso não existe, pai.” Sem perder tempo, o homem indagou ao menino de onde tinha caído aquele brinquedo? E por que perdera um parafuso? Ora, havia sido jogado lá de cima, do trenó de Noel. E viera com tanta força que quase se quebrara todo. Caíra no lixo porque em casa não tinham chaminé, nem fogão a lenha. Colocou o brinquedo ao lado de outro, uma boneca de cabelos arrepiados que deveria preparar para a filha, talvez.


E percebi ali, que toda adversidade, tudo o que contraria a lógica ou nos tira o foco, se resolve com determinação e boa vontade. Está em cada um de nós e não se compra com cartões de crédito. O verdadeiro espírito natalino resiste à aspereza da vida, porque se alimenta das lições que conseguimos aprender entre decepções e conquistas durante um ano, ou toda uma existência. Então, paz! Assim não nos faltará fôlego, neste Natal!

domingo, 8 de dezembro de 2024

Da lama ao chope bem tirado

Sábado passado acompanhei um amigo à Arroio do Meio. Ele faria uma visita comercial a uma cervejaria da cidade. Cheguei lá e fiquei impressionado com a estrutura bacana e organização do espaço que produz sua própria bebida. Está funcionando a pleno, sempre lotando com público local e visitantes. Mas é um recomeço no pós-cheias. E as cenas que vi, a partir daquela tarde, circulando pela cidade despertaram em mim a certeza de que a reconstrução se faz assim, com trabalho e criatividade. A espera de um Natal igualmente solidário que avista, ali adiante um 2025, quem sabe, menos sofrido.


Em Eldorado do Sul, onde moro, vejo a força de toda comunidade pela reconstrução. O ano está sendo cruel conosco, pobres mortais, mas para todo drama sempre temos uma nova escrita e, quem sabe, menos sofrida em com trechos sintonizados em uma necessária recuperação. E é claro, mantendo um ritual de cobrança aos organismos públicos para que façam a sua parte. Temos uma ponte a reconstruir. Com urgência. A nossa contribuição – além de um intenso voluntariado – são os impostos pagos, ora!


Em meio toda essa tragédia ambiental, também acompanhei o luto de amigos, em Porto Alegre, que perderam familiares repentinamente. Esse 2024 passa uma régua muito rasa nas fragilidades humanas. Muitas perdas materiais e humanas. Perdi um amigo, derrotada por uma doença cruel. Somos frágeis, limitados em situações como essa. E por isso mesmo, depois de tanta lama, já me programo para uma próxima ida aquela cervejaria no Vale do Taquari. 


Vou cruzar todas as estradas de chão que forem necessárias, mas brindarei com um chope vencedor.  Aceito sugestões, outros locais. Ergueremos taças em todos! Campeões da sobrevivência em um ano que nos testou de todas maneiras possíveis. Eu sei, faltam poucos dias para uma virada e temos ainda muitos desafios a enfrentar. Aquelas pessoas que se prendem à desesperança, permanecem eternamente lambuzados pelo lodo das tragédias impostas pela vida. Sofrem em dias de sol, temendo a próxima tormenta. 


A saída é enxaguar os apuros com muita ciência e prevenção, mas sem abandonar a alegria de viver. Celebrar o encanto da vida que se renova a cada instante. Eu, por exemplo, estou aqui a enfrentar o que chamam de melhor idade – apesar das dores e tristes despedidas – e tentar vencer as enxurradas com as muitas mãos que – unidas – rumam a favor da mais digna sobrevivência onde, cada vez mais, é exigido incluirmos  mais cuidado e respeito ao planeta onde vivemos.