segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

O Papai Noel que saiu do lixo

 Ar de gente cansada nas repartições ou entre abraços apertados em milhares de celebrações natalinas. Estou asfixiado por tanta ansiedade, tanta contabilidade. A televisão insiste com dicas para quitar dívidas ancestrais – limpar a ficha – e voltar a consumir. A engrenagem precisa continuar a girar. Ao voltar de (mais) uma destas festas de final de ano, cruzei por municípios entre os vales do Rio Pardo e Taquari e percebi muitas lojas de portas abertas à espera de consumidores. 

As pessoas se dividem entre o estresse e esgotamento em um período em que valorizo a  leveza de intenções. Mas o mundo, sempre em crise, entre ameaças ao sistema econômico, especulação com moedas, bota em fuga Papais-Noéis ou, em casos de absoluto extremismo, os trajam ridiculamente de branco. Não toquem no meu amigo Noel, por favor! 


Final de ano é tempo de balanço. E uma das piores contabilidades  é o fatídico ajuste de contas com o nosso íntimo. Metas esquecidas ou superadas depois de muito sacrifício. Ausência daqueles que não estarão conosco na ceias especiais. Gente que partiu por doença, ou velhice, muitas vezes em rupturas que sempre deixam marcas. Mas é um tempo voltado a paz e reconciliação. A contabilidade, o presente ideal, a fila imensa nas grandes lojas, nada disso é pior do que o júri malfeito de nossas possíveis culpas ou  enganos.


Lembro que num destes natais do passado, eu andava atordoado por todos esses motivos e outros. Enfim, estava a me sentir um minúsculo verme perdido entre tanta música e decoração de gosto duvidoso. Eu estava lá – hora meio apagado, ora a acender no tranco – feito essas pequenas e, às vezes, irritantes lampadazinhas chinesas de Natal. Foi quando em uma das mais movimentadas ruas de Porto Alegre percebi uma cena típica da cidade e da época. Pai e filho, classificadores de lixo, no entardecer do dia 23, antevéspera de Natal.


O menino segurava na mão esquerda um desses bonecos articulados. Um super-herói qualquer. Não dava para perceber a cor da capa. Apenas que estaria em boas condições – não fosse lhe faltar uma das pernas. Por mais que voasse, um herói daquele porte também dependia das pernas para pisar no chão firme. O pai, com a cara enfiada em um saco de lixo, revirava tudo, “Eu vi cair aqui”, disse ele. Lá pelas tantas, voltou com algo que parecia a perna do boneco. Foi ao carrinho, puxou uma caixa cheia de pregos e parafusos. Revirou até achar o que queria. Deitou o boneco na calçada e com uma faca pequenina – transformada em chave de fenda, ou bisturi – sei lá, recolocou a perna no super-herói. Mas não devolveu ao filho.


“Agora só vais brincar com ele no Natal. A tua irmã também vai ganhar um presente do Papai Noel.” Cético, afinal havia juntado o presente no lixo, o menino disse, convicto: “Isso não existe, pai.” Sem perder tempo, o homem indagou ao menino de onde tinha caído aquele brinquedo? E por que perdera um parafuso? Ora, havia sido jogado lá de cima, do trenó de Noel. E viera com tanta força que quase se quebrara todo. Caíra no lixo porque em casa não tinham chaminé, nem fogão a lenha. Colocou o brinquedo ao lado de outro, uma boneca de cabelos arrepiados que deveria preparar para a filha, talvez.


E percebi ali, que toda adversidade, tudo o que contraria a lógica ou nos tira o foco, se resolve com determinação e boa vontade. Está em cada um de nós e não se compra com cartões de crédito. O verdadeiro espírito natalino resiste à aspereza da vida, porque se alimenta das lições que conseguimos aprender entre decepções e conquistas durante um ano, ou toda uma existência. Então, paz! Assim não nos faltará fôlego, neste Natal!

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