quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A nação dopamina e o equilíbrio

Eu venho de uma geração onde as coisas nunca foram tão disponíveis ou acessíveis. Amava ouvir música, mas os vinis eu comprava juntando pilas. Até chegar lá, namorava as capas nas lojas ou buscava algum disco esquecido, perdido nos cestos de descontos. Era assim que eu conseguia um certo equilíbrio, em minha ansiedade juvenil. E hoje? Imagino como agem os jovens ou os meus parceiros veteranos na sociedade de consumo que, de certa forma, nos brinda com as portas do prazer e consumo instantâneos. Todos viramos “clientes especiais”. 

Se eu desejo um som novo, está direto em vídeo no YouTube Music, ou plataformas tipo Spotify e outros. E essa ânsia, essa facilidade leva a estourar nossos limites de dopamina - esse neurotransmissor que, a partir do sistema nervoso central, banha o organismo de todos os mamíferos em pura sensação de prazer e satisfação. É ela que nos impulsiona como vício a um consumo quase descontrolado, semelhante ao nosso cãozinho de estimação, que abana a cauda em êxtase, quando oferecemos aquela ração extra sabor artificial de carne.
  
Tive uma colega, em tempos passados, que consumia desenfreadamente e, até chegar ao equilíbrio, precisou de muito remédio tarja preta e psicanálise. Lembro daqueles olhos vidrados, viciados em consumo extremo. Então, antes de atingirmos esse pico doentio, recomendo a leitura de “Nação Dopamina”, assinado pela psiquiatra norte americana Anna Lembke que relata, em impressionante pesquisa, a crise dos vícios modernos que não incluem drogas ingeridas mas a dopamina, aquele produto químico produzido pelo próprio corpo.


A autora nos leva a refletir sobre os exageros modernos que - ao contrário de meus dias passados - onde o acesso as coisas que eu curtia levavam um tempo próximo a eternidade, hoje nos oferecem, quase como imposição,  diversão, compras ou sexo. Está tudo no pacote assinado digitalmente, ou não. Quantas vezes você, leitor, se vê obrigado a bloquear certas ligações que te oferecem, não apenas os golpes do crime organizado, mas produtos variados, “dopamina digital 24 horas por dia”, ressalta a psiquiatra em sua pesquisa sobre o preço altíssimo de sermos governados “pela próxima dose”.   

Eu controlo as minhas crises consumistas, estimuladas por toda essa oferta instantânea, me concentrando em trabalhos manuais, pequenos reparos domésticos que me exigem algum tipo de concentração. Ouvir música também afasta essa tentação imediatista ao conduzir para uma liberação da uma deliciosa  “dopamina do bem”. 

Afinal, escuto vinis comprados a base de alguma espera e que resultaram em prazer, sem aflição ou ansiedade, a partir do contato da agulha no sulco aberto a um tango, um samba raíz, música clássica ou, ainda mais efetivo, às minhas bandas favoritas de rock.  Tudo em perfeito equilíbrio, aliás, feliz com os pequenos e saudáveis eventos cotidianos. O resto, diria o rei Roberto Carlos: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

A proclamação da Repúbica


"Não há nenhuma razão, é isso que está errado, não aceitar nossa condição de mulher, de boneca sentimental, mas o que fazer! Mas por que usamos tanto o coração? Ai que tédio, ser tão sentimental... Por que não ser de pedra, como os homens? Mas é inútil querer imitá-los. Temos que nos conformar em invejá-los"
Púbis Angelical - Manuel Puig

Outra crônica de casal. Mas essa história aconteceu há pouco tempo e tem a ver com o 15 de Novembro, feriado da proclamação da república brasileira. O movimento que explodiu lá em 1889 derrubando a monarquia, incentivou Jane a se rebelar contra Jonas, o marido. Ela o acusava de transformar uma bela união estável em um reinado absolutista. Ele o imperador máximo e ela, uma típica rainha do lar, onde o cetro se transformava em vassoura.

 

Jane sabia que, em parte, a culpa era dela. Incentivara mimos demais no início da relação e  Jonas abusava. Por exemplo, exímio cozinheiro na fase de namoro, conquistou a esposa com risotos variados e ainda era carinhoso, gentil e vigoroso amante. Toda semana lhe oferecia flores, ou mimos como livros e doces especiais da confeitaria favorita dela. 


Jonas alegava que assim, manteria a doçura na medida certa para os momentos mais amargos da vida que, inadvertidamente, chegaram apesar dos quindins e outras guloseimas. O marido não se conformou com as queixas. Sentiu-se igual ao Jonas bíblico, preso à barriga de uma baleia. Mas se essa era a sua missão, se esforçaria mais  para voltar a ser o marido que a fazia feliz. 


Jonas reclamou do sufoco nos últimos tempos. Ambos haviam sofrido com o coronavírus, a casa onde vivem, escapou por poucos das cheias, mas todos seus amigos haviam sido afetados.  E de bom esposo, quem sabe, havia se tornado um sujeito assustado com as tragédias naturais. É claro que ela não caiu nessa desculpa. E xingou a acomodação em todos os níveis. Todos! 


E foi aí que acendeu a luz de emergência na cabeça de Jonas. E partiu para um plano que o livrasse da barriga de qualquer baleia doméstica. Jurou que, a cada virada de mês - sem uma data específica - celebrariam a proclamação da “Repúbica” dos países baixos (revisores, sem o L mesmo). Uma forma marota de afirmar que além dos acepipes que ela se habituara em mais de uma dezena de anos, seria um exemplo dedicado de fervoroso amante. 


Jane achou justo e divertido, mas desconfiou de alguns termos do acordo como, “na virada de mês” ou “sem data definida”. Sentiu nessas palavras  um certo tom de procrastinação à caminho. Mas não bancaria a insensível.  E só por isso, deixou o alerta de que, em caso de rompimento do acordo proposto, iria buscar uma comemoração fora de casa, sem direito a queixas ou condenações. 


Ainda citou o próprio Jonas que, no período inicial da relação proclamava:  “O amor elimina o hormônio do estresse, libera endorfina, aquela  sensação prazerosa” e, aparentemente, havia assumido uma condição de marido relaxado. Era um Jonas de castigo, na barriga da baleia do comodismo. Mas se na criação da república brasileira houve um compromisso pela unidade, ela exigia rigorosa fidelidade às antigas promessas do casal. Era isso ou ele sofreria um autêntico golpe de estado, bem lá, na tal “repúbica.”