quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Virada acidentada

Aconteceu mais ou menos assim: véspera de Ano Novo,  preparativos acelerados para a ceia e lá se foi a energia elétrica.  Pararam os motores do filtro da piscina, a bomba quem enchia a caixa d’água, esfriou o ferro que passava os lençóis do quarto de hóspedes e, é claro, os ânimos de quem receberia familiares e amigos para o reveillon. A empresa fornecedora de energia não prometia nada, dizia que buscava pela origem do problema. Em casa, se buscava qualquer coisa que iluminasse. Porque não compramos um gerador? Onde estavam as velas?  

A previsão era de lua cheia. Chegou a se pensar em mesa no pátio, ao luar. Romântico, mas nada prático. A luz azul da lua poderia ser coberta por nuvens! Velas ao vento? Tétrico e improvável demais! Lampiões, lanternas? Não havia. Mas por volta das 21h, retornava a energia para alívio de quem tinha muita bebida e sorvetes a esquentar no refrigerador.

 

A tranquilidade durou pouco. De repente, roncou uma torneira. E outra! E o vaso não dava descarga! A caixa d'água estava totalmente vazia. A bomba que deveria encher os reservatórios, queimara com a queda de energia.  Ou seja, havia luz, mas a família estava a seco! 

 

As cisternas que ecologicamente guardam água da chuva para o jardim e limpeza da casa, foram a alternativa. Banho, só de bacia, como antigamente. Todo igual a alguns séculos atrás. Era isso ou o banho frio na piscina. 

 

No primeiro dia útil daquele fatídico ano, foi consertado o abastecimento doméstico de água. E aí sim, um segundo brinde coletivo. Feliz Ano Novo! Depois de acompanhar o noticiário – a insensatez do trânsito e excessos de bebida e suas vítimas – todos que haviam enfrentado um dia de racionamento, chegaram à conclusão de que estavam muito bem, obrigado!

 

Em 2023, o negócio é não cair em depressão. Eu sei, os 365 dias passados foram de extremismos, milhares de rachas homéricos entre familiares e amigos, mas achar que a casa vai cair a qualquer momento, também não resolve. Dificuldades, maldades e tropeços de toda natureza,  não escolhem hora, mas decidir como enfrentá-los é o possível. Equilíbrio, serenidade e objetivos bem definidos são fundamentais. Caso falte luz, acenda uma vela. Triste mesmo é se tornar um ser humano desiludido, sem energia interior e vencido pelo inesperado. 


Mais um conto de Natal

Se na televisão pode haver uma sequência de filmes natalinos, por que não crônicas com esse tema, baseadas em fatos reais? Então, vamos lá: no início de novembro, a única boneca da pequena Érica, sumiu. 

O desaparecimento de sua “filha” de pano a fez chorar muito. De família humilde, a menina consolou-se na esperança de que o Papai Noel, quem sabe, lhe trouxesse outra. Talvez uma igual a de suas primas ricas, com rostos de louça. 

Essa história aconteceu nos anos 30, tempos onde não existiam brinquedos em plástico. A maioria era em madeira ou tecido e muito caros, importados da Europa.

Na hora dos presentes, Erica foi a primeira a sentar em volta da árvore. Esperava o bom velhinho e seus pacotes encantados. Meias e ceroulas para os tios, pijamas para os avós, carrinhos e livros infantis para os primos e ela aguardando, de olhos fixos no saco de linhagem que se tornava cada vez mais magro. 

Ao chegar sua vez  os olhinhos de Érica, brilhantes de alegria, não esconderam uma ponta de decepção ao ver uma bonequinha idêntica a desaparecida. Com roupas novas, mas com os mesmos olhos azuis. Até as manchas se pareciam! 

Nos dois anos seguintes, se repetiu o "sequestro" da cada vez mais gasta boneca de pano, que sempre voltava de roupas novas para a desencantada Érica.

Assim, aos sete anos, não acreditava mais no nada bom velhinho. Irritava-se quando seus pais, constrangidos por não poderem presenteá-la com brinquedos novos, diziam que ela não ganhara o que pedia, por causa de uma teimosia, de uma briga com os irmãos e outros pequenos pecadinhos, tão pequeninos que ela nem lembrava mais. 

Papai Noel era rancoroso. E pão-duro! Érica odiava aquele velhinho suado que a presenteava, ano após ano, com a mesma desilusão. Um sonho cada vez mais desbotado e remendado. 

Cresceu com esse rancor guardado. Casou e, embora a vida fosse mais folgada, insistiu em ensinar aos filhos que aquele velho, geralmente de barbas artificiais, era coisa do comércio.

"O Papai Noel de vocês somos nós". As crianças a ouviam, mas achavam que a mãe, sempre correta, desta vez fazia injustiça com o bom velhinho. O piá mais novo chegou a argumentar que, mesmo pobre, Jesus recebera os três reis magos com presentes em ouro - que valia muito - e também, incenso e mirra (o que é isso afinal?) mais baratos. 

Levou muito mais tempo para Érica compreender o gesto de seus pais. Na verdade, tentavam manter aceso o espírito natalino nos filhos. Dar-lhes uma esperança, um estímulo para melhorar sempre. A mesma boneca com roupinhas novas, feitas pela mãe durante a madrugada, era o que podiam dar, além da ceia.

 Erica acredita que, em sua preocupação, os pais  erraram ao deixá-la afastada da realidade. Filhos não têm vergonha do aperto dos pais. Serão  solidários. 

Ela sentiria orgulho da mãe, ao saber que ajudara a fábrica de brinquedos lá do Pólo Norte, remendando a boneca que tanto amava. E aquela noite especial, quem sabe, seria realmente feliz, como diz a canção.

Papai Noel no Lixo

Ar de gente cansada. Falta de ar nas lojas, nas repartições, nos abraços apertados entre milhares de celebrações natalinas. Muitos asfixiados por tanta ansiedade, tanta contabilidade. A televisão insiste com dicas para quitar dívidas ancestrais – limpar a ficha – e voltar a consumir. A engrenagem continua a girar. Quem não se cuidar, não for solidário acumula estresse e esgotamento. A crise mundial e as ameaças ao sistema econômico  botam para correr os Papais-Noéis. Não é só isso, ou melhor, não é por aí que se avalia a angústia da grande maioria.

Final de ano é tempo de balanço. E um dos piores balanços é o fatídico ajustar de contas que fazemos conosco. Metas esquecidas ou superadas depois de muito sacrifício. Ausência daqueles que não estarão na ceia de Natal. Por doença, falecimento ou outras rupturas que sempre deixam marcas. Mas é um tempo de paz, de esperança. A contabilidade, o presente ideal, a fila imensa nas grandes lojas, nada disso é pior do que o júri malfeito de pecados.

Lembro que num destes natais do passado, eu andava atordoado por todos esses motivos e outros. Enfim, estava a me sentir um minúsculo verme perdido entre tanta música e decoração de gosto duvidoso. Foi quando em uma das mais movimentadas ruas de Porto Alegre que percebi uma cena típica da cidade e da época. Pai e filho, classificadores de lixo, no entardecer do dia 23, antevéspera de Natal.

O menino segurava na mão esquerda um desses bonecos articulados. Um super-herói qualquer. Não dava para perceber a cor da capa. Apenas que estaria em boas condições – não fosse lhe faltar uma das pernas. Por mais que voasse, um herói daquele porte também dependia das pernas para pisar no chão firme. O pai, com a cara enfiada em um saco de lixo, revirava tudo, “Eu vi cair aqui”, disse ele.

Lá pelas tantas, voltou com algo que parecia a perna do boneco. Foi ao carrinho, puxou uma caixa cheia de pregos e parafusos. Acho que eram centenas deles. Revirou até achar o que queria. Deitou o boneco na calçada e com uma faca pequenina – transformada em chave de fenda, ou bisturi – sei lá, recolocou a perna no super-herói. Mas não devolveu ao filho.

“Agora só vais brincar com ele no Natal. A tua irmã também vai ganhar um presente do Papai Noel.” Cético, afinal havia juntado o presente no lixo, o menino disse, convicto: “Isso não existe, pai.” Sem perder tempo, o homem indagou ao menino de onde tinha caído aquele brinquedo? E por que perdera um parafuso? 

Ora, havia sido jogado lá de cima, do trenó de Noel. E viera com tanta força que quase se quebrara todo. Caíra no lixo porque em casa só tinham chaminé de fogão a lenha. Colocou o brinquedo ao lado de outro, uma boneca de cabelos arrepiados que deveria preparar para a filha, talvez.

E percebi ali, que toda adversidade, tudo o que contraria a lógica ou nos tira o foco, se resolve com determinação. Está em cada um de nós e não se compra com cartões de crédito ou depende de paciência no comércio vil e interesseiro. O verdadeiro espírito natalino resiste à aspereza da vida, porque se alimenta das lições que conseguimos aprender entre decepções e conquistas durante um ano, ou toda uma existência. 

Então, paz para não nos faltar ar, fôlego, neste Natal!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Toda mulher é meio Leila Diniz

No verão toda mulher é mais atraente. Me desculpem os apologistas dos estúdios da alta costura que idolatram o frio e a elegância do vestir. Ainda prefiro a estação do despir. O calor pode atrapalhar um pouco a aproximação, mas permite sacar as vestes com um exercício mínimo e prazeroso. O calor libera, dá um xeque-mate na auto-censura.
É difícil eu sei, desviar o olhar dos trajes minúsculos a rasgar calidamente o pudor. O desfile de macia epiderme massageada por filtros e hidratantes, alegra e estimula. Mas é aí que entra uma outra questão de igual fundamento: atitude e respeito. Enfrentar o calor não é tão difícil quanto a necessidade das mulheres de se impor diante do machismo e preconceito ainda existentes e discriminatórios.
Nesse 2022 que chega a seus últimos dias, se completam 50 anos do falecimento da atriz Leila Diniz. E lembro que, até o final dos anos 60, o mundo, muito maís do que hoje, era dos homens. Esses podiam ousar, viver seus relacionamentos, aventuras extra conjugais e tudo passava batido sem muitas condenações. Agir feito uma espécie de cafajeste garantia uma estrelinha no carteirinha do macho raiz. E condenações leves.
E foi nesse tempo que Leila, jovem e bela atriz de novelas açucaradas, levantou a bandeira dos direitos iguais. Da liberdade de agir como bem entendesse não apenas no trabalho, mas em sua intimidade. Cafajeste? E daí?
Eu era guri, saindo da adolescência e lembro de Leila Diniz posando grávida e de biquíni, em Copacabana. Escândalo! Hoje, a mulherada está livre para circular com seus lindos barrigões nas areias de todo o litoral brasileiro.
E a histórica entrevista ao “Pasquim”? Entre outras declarações afirmou: “Você pode amar muito uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo”.
A ditadura, na época, não perdoou. Embora tenha tido sucesso como atriz de cinema em filmes como “Todas as mulheres do mundo”, ou atuado em novelas clássicas, “O Sheik de Agadir”, de Glória Magadan, por exemplo, precisou se refugiar para não ser detida.
As “mocinhas” da época dependiam do rótulo da santidade, já os “galãs”, podiam derrapar em seus compromissos como uma espécie de "cafajestes do bem", ou algo assim.
Era da natureza deles, diziam os conservadores e ela, assim como outras tantas, queria a liberdade à esses mesmos comportamentos sem o risco de agressão moral. Então, ao falarmos sobre a relação entre o verão e o feminino, o fundamental é que a atitude da mulher seja respeitada sem parecer eternamente desafiadora.
Rita Lee já disse que toda mulher é meio Leila Diniz. Nenhuma merece um apedrejamento moral. Aliás, mesmo encoberta em trajes longos, burcas fechadas, é direito de toda mulher expressar sua personalidade.
Leila Diniz morreu, aos 27 anos, vítima de acidente aéreo ao voltar de um festival de cinema na Austrália, em 1972. Eu nunca esqueci uma frase sua - entre tantas, muito bem humorada, mas séria, sobre essas doenças do preconceito de gênero:
“A mulher brasileira deveria ir menos ao psicanalista e mais ao ginecologista”.

Falou e disse, bicho!

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Mico existencial e fantasias sexy

Depois de ter o carro furtado, ele não desgrudava os olhos dos noticiários. Buscava desesperadamente por seu  Audi A3 seminovo (e sem seguro) que viu desaparecer sob a mira de pistolas automáticas. É assustador. Tentou imitar o roteiro de alguns filmes de cinema, onde o personagem, indignado, se põe a investigar por conta própria o paradeiro do bem roubado. A diferença é que a vida real o colocou a andar em círculos o encaminhando a um inconcluso e decepcionante final.

Descobriu, por exemplo, que os bandidos passaram a usar seu carro em outros assaltos. Com um  fiapo de esperança em recuperar o veículo, jurava: “Eles me devolvem num dia, no outro eu o coloco à venda. Está contaminado pelo estigma da violência”. 

Mas em meio a sua investigação privada, ouviu um insólito e tragicômico relato de outra vítima da violência urbana. O sujeito decidira colocar em prática uma fantasia erótica em um lugar insólito: um estacionamento  ao ar livre, durante a madrugada! Tinha convicção que seria seguro, tinha muita luz ao redor do parque e isso o deixava mais eriçado. Assim, enquanto a paixão quase incendiava o estofamento do veículo, percebeu a movimentação de gente estranha e armada. Pior, não eram seguranças ou policiais militares. Mais do que depressa saiu em louca corrida entre os carros.

Na fuga ligou para o 190 e num lance de rara sorte, em menos de cinco horas, tinha o carro localizado sem avarias. A esposa, solidária, o acompanhou no dia da liberação do veículo. Nervosa, começou a conferir os estragos. E foi assim que, debaixo de um dos bancos, encontrou a cueca do marido, entrelaçada a uma calcinha, pequenina demais para ser dela.

Ora, o infeliz estava com outra no carro! Ou seja, como sentencia um velho (nem tanto) amigo jornalista (sempre eles), tudo o que está ruim, sempre pode piorar.  O infeliz, recuperou um veículo, perdeu a mulher (ou quase, não sei o desfecho) e pagou um grande mico existencial. 

Cá entre nós, até para trair é preciso um mínimo de talento. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Baixinha, gordinha e cheia de vontade

 

Atenção! As mulheres do futuro serão levemente mais baixas e rechonchudas, terão corações saudáveis e muita fertilidade. Alguns anos antes de falecer, o biólogo evolucionista Stephen Stearns, da Universidade de Yale, nos EUA, coordenou a equipe que estudou 2.238 mulheres que haviam passado da menopausa, para assim, cruzarem os dados com suas respectivas vidas reprodutivas. 

 Avaliaram altura, peso, pressão arterial, colesterol e outras características correlacionadas com o número de crianças a que elas deram à luz. E chegaram à conclusão de que as baixinhas fofinhas tendem a ter mais filhos, em média, do que outras, mais altas e magras. E ainda passam estas características às filhas. Ou seja, deram continuidade a esse processo que se considera evolutivo.

 Em outras palavras, as mulheres “evoluem” para tudo isso. Academias, personal trainning, pilates, dietas rigorosas e outros tratamentos escravizantes não interromperão o processo evolutivo. Gurias, no futuro todas serão fofinhas! E baixinhas! O estudo assegura que lá por volta do ano 2400 – e não estarei mais aqui para comprovar -, as mulheres terão dois centímetros a menos em média e pesarão um quilo a mais. Darão à luz o seu primeiro filho cinco meses mais cedo e iniciarão na menopausa dez meses mais tarde, em relação à média atual.

 E o que representa um mísero quilinho para quem já acumulou muito mais depois de um inverno frio e chuvoso? O lado positivo é que as supermodelos no padrão Gisele Bündchen serão apenas exemplos ultrapassados de estrutura física. A mulher evoluída atrairá os homens com um perfil, digamos assim, mais cheinho. 

 Tenho convicção de que os homens, em sua maioria, torcem o nariz para as esqueléticas das pistas. Esguias, te olham de cima com aquele ar superior, podem escolher a dedo os melhores machos da espécie e ainda desdenham as gordinhas. “Você tem se que gostar mais, querida”, aconselham às fofas ansiosas.

 Lamentavelmente o artigo não trata do setor masculino. Como serão os homens daqui a quatrocentos anos? Serão baixinhos, fofinhos? Serei eu dos protagonistas deste processo evolutivo? Vou pesquisar sobre o assunto. Enquanto isso, liberem as massas, os mousses e pudins! 

E viva as mulheres com substância do futuro!

Ameaças planetárias

Objetos voadores não identificados continuam nos céus a impressionar pilotos de voos comerciais e humildes viventes como eu. Será o fim dos tempos terrenos? Aí lembrei que, não faz muito, astrônomos teriam encontrado evidências de que um planeta fora “devorado” por sua estrela. Seria esse o destino da Terra? E pensei com meus botões não luminosos, qual o sentido de tudo isso se construímos gerações para, quem sabe, serem engolidas pelo Sol?

E aí talvez se explique essa vontade escapista do ser humano em buscar leituras leves ou criar notícias falsas nas redes sociais, onde seguidamente surgem celebridades femininas a exibir lascas de bumbum. Especulam, “estaria ela sem roupa íntima?” Outro mistério! Quantos séculos levaremos para desvendar uma revelação que amanhã, não valerá mais nada, transformada em diminuta fagulha na constelação de astros do cinema ou do espaço infinito.

Bumbuns, seios fartos e gente disposta a se expor, não faltarão até o momento apocalíptico de uma colisão solar. Uns observam o sol, a natureza, as ciências, outros empunham uma máquina fotográfica para a vil missão de flagrantes pueris. E existem aqueles que se aproveitam disso para iludir os distraídos com arremedos de cultura política e social.

Entre a astrofísica e as revistas de variedades, penso que o melhor ainda é aproveitar os bilhões de anos que nos restam, focados nas coisas que realmente importam. Mas o que é verdadeiramente importante? A cultura ultraleve da vida mundana? A filosofia, a poesia dos gênios incompreendidos? A busca por lideranças terrenas que façam tudo isso valer a pena? E ainda, quem perceberá nossa ausência, após sermos engolidos pelo Sol?

À noite, abandonei essas reflexões ao perceber a lua minguante como se a navegar perdida entre estrelas. E para mim aquele momento era maior do que a visão de um bumbum carnudo de celebridade ou de teorias sobre as probabilidades de termos o planeta engolido por nossa ainda amistosa estrela solar. 

Se um dia o planeta for tostado por uma estrela de fogo, que tenhamos então produzido o melhor, o mais digno em pensamentos e ações para justificarmos, minimamente, a instabilidade e brevidade da condição humana como a conhecemos. Aos que creem a certeza do paraíso, aos céticos, a experiência de uma existência digna. “São demais os perigos desta vida” cantou Vinicius de Moraes. 

E aí é que está a graça.

domingo, 13 de novembro de 2022

Alma gêmea faxineira

 

Ela se preocupava com detalhes e limpeza. Vivia no apartamento típico de revista de decoração. Mas do que  servia tudo isso sem namoro no sofá ultra-aspirado? Rolar sem espirros nos tapetes a prova de ácaros. Sozinha? E os lençóis? Alvíssimos, macios fios egípcios, cheirando a limpeza. E olha que os namorados seguiam rigorosamente um mesmo perfil perfeccionista. Nos primeiros dias, as coisas sempre iam bem. Até a hora dos palpites sobre marcas e métodos de faxina. Como aceitar a dica do novo amor sem estresse? Era assim que, com decepcionante frequência, suas paixões escoavam pelos ralos polidos.
 
Deles permaneciam livros, teses e longos papos na madrugada que muitas vezes haviam culminado em excitantes discursos intelectuais. Aqueles  tipo gourmet sofriam mais, precisavam estar atentos às receitas e a limpeza da cozinha. Mas volta e meia, eram tão precisos e previsíveis que tudo acabava feito fricassé de vernissage. Insosso demais. Lá ficava ela, sozinha outra vez, saudosa do amor entre ervas finas, especiarias e detergentes. Sabia que ao entrar na maturidade escrava de suas teses, presa a longos debates consigo mesma, poderia sentenciar-se a solidão involuntária.
 
Queria lista de enxoval. Roupa nova de cama. Foi aí que surgiu aquele quarentão, divorciado e independente. No catálogo dos deuses, poderia ser classificado na categoria Baco. Bochechudo e simpático. Mas habituada ao tipo intelectual, ele insistia em provocações eruditas em alemão! Tudo que ele sabia do idioma de Goethe era a ressaca horrível de um antigo Liebfraumilch, vinho branco frutado e enganador que o seduzira tantas vezes na juventude.
 
Eram opostos. Mas como toda fêmea, achou que poderia moldá-lo. Buscava a mais limpa, cheirosa e límpida alma gêmea e caíra na armadilha da simpática imperfeição estética, na sedução do diferente. Quando pensava em reclamar do excesso de farelo, dos pingos de bebida na toalha alva, vinha o beijo carnudo sempre na temperatura ideal.
 
À noite, tanto amassavam os lençóis passados a vapor que ela temia vê-los inutilizados no dia seguinte. Era jogada de lá pra cá, virada do avesso até pedir pelo amor de Deus que parasse. Esperto, jamais obedecia. Quando ia embora, ainda sobrava uma faxina extra a ser feita. Ele era desregrado demais. E foi apenas por isso que acabou dispensando aquela versão desorganizada de alma gêmea.
 
No dia seguinte, caprichou na faxina, manchou de lágrimas o lençol que trazia o cheiro vivo e gostoso dele que, por sua vez, insistiu em um último apelo por reconciliação. Argumentou que ela exagerava, que sofria de toque e precisava de tratamento psicológico. Ela permaneceu impassível. "Uma alma gêmea, combina em tudo," respondeu. Ao contrário dos anteriores, que racionalizavam tudo, buscou a conciliação em um poema de Manuel Bandeira, que segundo ele, definia o momento que viviam.
 
 "Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. A alma é que estraga o amor (...) Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não."  E foi embora, à espera do retorno que, sinceramente, não sei se aconteceu. 


quarta-feira, 2 de novembro de 2022

Adeus Novo Aeon

Nem é preciso um vendaval, um desastre terreno, uma fúria divina. Basta um sopro, um sussurro, uma palavra solta no ar, um beijo apressado antes do ônibus partir e lá está a vida como havíamos pré-estabelecido – de repente – a dar uma guinada tão surpreendente quanto assustadora. O que nos move a seguir adiante? O que nos leva a fraquejar no último minuto? A não pensar em consequências? A razão para tantas quedas, que nos separa da vida e da morte, do céu ou do inferno, pode ser dividida em tantas e miúdas justificativas que nem sempre nos preocupamos em juntá-las para conferir o todo.

 Aqui, no melancólico feriado de finados, pensei nisso. Lembrei meus mortos, amigos, familiares que partiram por desastres, desgaste ou cansaço. Recordei os olhos atentos de meu pai, o sorriso irônico, às vezes em paz, em outros momentos, sofrido. E sua mão sempre disposta a acender aquele último e derradeiro cigarro que, um dia, chegou. Os planos a dois acabaram sobrecarregando o coração de minha mãe, ainda tão jovem, de uma inesperada saudade. Uma dor que acomodou no colo e transformou em resignação.

 Lembro que naquele mesmo dia encontrei meus filhos. Eles e seus projetos futuros. Quanta ansiedade apertando os jovens corações. Cada palavra, cada gesto a carregar expectativas de realizações. Todos preocupados com o pós, o doutorado! Nunca se exigiu tanta graduação para tão escassas oportunidades. Ou será que buscam em nichos errados? Assim, cada um à sua maneira levava em si alguma finada expectativa que poderia ter sobrevivido talvez, no minuto seguinte, pela  proposta que lhes apontava uma estrada menos tortuosa. Um sopro a mudar um destino.

 Na época, pensei em um rosário de conselhos. Sugerir mais objetividade em alguns pontos, criatividade e ousadia, em outros. E lembrei os vendavais de conceitos, ou preconceitos que nós, senhores vividos, às vezes podemos carregar em nossa ânsia. Me conformei em torcer para que meu guri mais novo, vencesse os moinhos da adolescência, que minha menina acertasse o foco de seus tão vívidos talentos e o primogênito abrisse a porta, saindo mundo afora com a fome de um leão diante da caça. 

 Eu sei que os minutos que nos antecipam rugas, são os mesmos que nos garantem experiência, que se não é tudo é a melhor bússola enquanto não se encontra o norte. Meus filhos seguem suas vocações, entre temores e merecidas conquistas, caminham no rumo de seus projetos. Eu, hoje um senhor aposentado, olho o entorno e percebo que de todos os momentos vividos, quando fraquejei aprendi que a fé sempre pode recarregar qualquer um com energia e esperança. 

 É assim que me sinto agora, neste período pós eleição, onde o equilíbrio reagiu contra o retrocesso disfarçado de um novo Aeon. E espero ainda, do fundo de meu coração, quem sabe um sopro do acaso, assim meio sem jeito, pedindo desculpas pelos tropeços mas, com firmeza, castigando os intolerantes, os corruptos, com a espada da justiça, fundamental para tornar nosso país, nosso planeta, num lugar mais justo para acolher as novas gerações, E que eu, quando partir, seja uma saudade boa e inspiradora de reconciliação e felicidade. 


quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Desfile na calçada

"Ó minha rua! Agora deserta
Pois se tuas emoções não podes reviver,
Grita lá do fundo: Alerta! E desperta
A alegria das ruas que vão nascer"
(Júlio Sortica/1973) 

Estávamos eu e mais dois clientes em uma lanchonete da Cidade Baixa, em Porto Alegre, quando, de repente, ela surge. Sem traços anoréxicos, saia curta, blusa em estilo oriental a sustentar a leveza sexy de seu andar. Um gari parou de varrer a calçada para não levantar pó e melhor admirá-la. Cidadã responsável, ela procura a faixa de segurança para atravessar a movimentada Rua da República. 

Passou ali, a poucos metros de nós, defronte a porta por onde discretamente a observávamos. Pastéis nas mãos, a mastigar o ar tomado de um perfume suave e doce. Conhecem aquele olhar enviesado tipo Mona Lisa? Pois foi o que recebemos. Por breves segundos, é claro. Olhar sem arrogância, mas sabedor das consequências de tudo aquilo que um dia Vinícius de Moraes poetizou a uma certa garota de Ipanema. 

Beleza que não é só nossa, mas quando passa  "O mundo inteirinho se enche de graça e fica mais lindo...". Em nosso respeitoso silêncio, agradecemos o dom feminino de transformar uma simples calçada em passarela. "É mulher para se guardar numa redoma de cristal", exagerou o pasteleiro. E assim, em um conturbado período eleitoral entre tantas outras mazelas brasileiras, me permiti a divagar sobre os encantos de uma mulher. 

Ora, amigos! Vivemos em um país de constantes batalhas perdidas, candidatos degladiando com as armas das notícias falsas e da truculência, bandido que diz ler a Bíblia recebendo voz de prisão à bala e depois, sendo estranhamente acarinhado pela própria autoridade. Então, permitam que alguns poucos, respeitosamente, filtrem a miséria humana e usufruam, sem culpas, da energia bonita que se esconde no cotidiano. 

Valorizemos a capacidade de superação, de buscar nas esquinas onde o medo espreita, a beleza de gente comum como nós, gente para brilhar não para morrer de fome (obrigado, Caetano).  E se for para roubar alguma coisa, que seja um olhar carregado de promessas que não precisam ser cumpridas após uma votação. Basta que nos ajudem a sermos menos rudes e sofridos, geralmente levados a cabresto para onde não planejamos. A vida, afinal, também pode ser sim, um elogio à beleza humana.



quinta-feira, 20 de outubro de 2022

O dom de iludir


A porta entreaberta no apartamento vizinho permitia à curiosidade alheia espiar a cena insólita de uma jovem mulher chorando, atirada em um aveludado sofá vermelho. Não resistiu e indagou se poderia ajudar em alguma coisa. Professor aposentado, marido de uma experiente psicanalista, estava habituado a ouvir relatos estranhos com serenidade e discrição. Além de tudo, era um dos moradores mais antigos daquele edifício, tinha muitos amigos ali. 


 Ela, por exemplo, excelente vizinha e, ao lado do marido, parceiros constantes nas nunca fáceis reuniões de condomínio. Entrou e encostou a porta. O marido não estava. Haviam discutido. Briga pesada. Constrangida, confessou que em uma festa da faculdade bebera demais e cedera à pressão de um colega. Quando se deu conta, amanhecera em um motel na zona sul da cidade, com um sujeito que mal conhecia. 

 

Ligou para a colega que a acompanhara. Contou o que acontecera. Combinaram uma desculpa em conjunto. Como a festa esticou demais, haviam decidido tomar o café da manhã em uma padaria para curar a ressaca. Nunca saía com as amigas. Tinha direito a uma noitada, afinal! Não respondera as dezenas de ligações e mensagens dele, porque o aparelho estava no silencioso, justificou. 

 

Lívido, o marido ouviu a frágil desculpa. Irritou-se com as lágrimas da mulher. Até para o 190 ligara! Temera pelo pior – a violência urbana era seu maior medo – e ao vê-la naquele estado, imaginava que realmente o pior acontecera. Ele que jurara fidelidade, Ela que o ameaçava de abandono caso a traísse. “Nosso trato não era um casamento aberto. E agora? o que faltou? Parceria?” Saiu porta afora jurando não voltar nunca mais.  

 

E ali permanecera ela. Agora confidenciando sua dor e culpa, a um vizinho! O professor, ainda surpreso com a rara confissão, lembrou a letra de Caetano Veloso “Você diz a verdade, a verdade é o seu dom de iludir. Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?”. E por isso mesmo, sugeriu, se ela ainda sentia algum amor pelo marido, que mantivesse a desculpa do café matinal com a amiga. 

 

“Ele vai aceitar. Acontece...” Ela argumentou que talvez não conseguisse escapar da verdade. Seria sempre um peso a carregar. “Vou enfrentar a situação e ver como resolvemos”, afirmou.  

O professor concordou, alertou para os riscos. “Esse tipo de crise, nunca acontece por acaso, ou pilequinho. Com certeza, havia uma insatisfação mascarada pela rotina”, acrescentou.

 

Saiu, depois de preparar um chá de erva doce, abraçá-la com a ternura sensata da maturidade de quem já viveu ou presenciou desilusões tantas quantas pode resistir. A moça o acompanhou à porta enquanto, enquanto ele saia com pouca ou nenhuma convicção com uma possibilidade de uma chance de reconciliação. E, para si mesmo gravou na imaginação,  em itálico, a frase perfeita na lápide desta provável separação: 

 

“A dita vida a dois sempre envolve muito mais personagens do que o necessário”.


terça-feira, 11 de outubro de 2022

Dia das Crianças? Aproveitem antes da adolescência

Dia das Crianças e quem pôde comprou um presentinho. Qualquer mimo deixa os pequenos felizes. Aproveitem, porque ali adiante está a encruzilhada da insatisfação chamada adolescência. Passei por esta fase quatro vezes. Explico: meus três filhos mergulharam até o último fio de cabelo nessa complicada etapa do amadurecimento. Antes deles, é claro, eu mesmo fui adolescente. Pior, nos rebeldes anos 60. Tudo parecia dramático. Olhava no espelho e não me reconhecia entre espinhas no rosto. Aliás, que nariz estranho era aquele? 

Na adolescência se ama ou se odeia demais e assim, o mundo que parecia tão bom, de Super-Homem e Mulher Maravilha, das irmãs Frozen, Anna e Elsa, dos amigos da escola, dos professores legais, dos programas com a família, de uma hora para outra, se inverte na mais pura chatice. A melancolia adorna uma insatisfação raivosa e planetária.


As notas na escola lá embaixo, as notas na guitarra lá em cima! You say goodbye, I say hello! Haja ouvidos para tanta dissonância, haja saúde mental e financeira para bancar acompanhamento psicológico, professores particulares e festas da turma. O pelotão de ameaças sobre repetir o ano letivo avança contra os bilhetes da escola, o relaxamento nos cadernos, nas mochilas e por aí afora.


Enquanto isso, a contabilidade dos pais - pobres sofredores -, se transforma em voo rasante no desequilíbrio financeiro. Mesmo que os podem bancar, sem dificuldades, um adolescente na plenitude da insatisfação, perdem o sono e a tranquilidade. Isso passa. Mas a que custo!


Quantos não pensaram "Conosco será diferente! Não cometeremos os erros de nossos pais severos ou frouxos demais”. E agora o que se faz ao ver o filho, do alto de sua soberba juvenil decretar, por exemplo, que será um líder da nova revolução musical? Um novo Jimmi Hendrix?


E você aí, negociando com o gerente do banco outro empréstimo para a aula particular, aquele dinheiro que te pagaria alguns dias em Buenos Aires, ou uma academia para melhorar o corpo que se encaminha para a fase aguda da maturidade. Sim, famílias atentas ou omissas enfrentam igualmente a adolescência.  


Quantos papais e mamães gostariam de chacoalhar vigorosamente os filhos até afrouxar o pino da adolescência e esse ser consumido por vorazes ácidos gástricos, transformando tudo em cocô e xixi. Mas, fatalmente, ouviriam os mais insanos desaforos dos filhotes. "Vocês não me amam! Eu nasci na família errada!" 


Eu, eu e Eu. E nós que decoramos todas as cartilhas e oferecemos diálogo, autonomia com respeito aos limites e, principalmente, sempre valorizamos os rebentos e suas conquistas?  Pais que se esforçaram no politicamente correto, com medo até de julgamentos nas redes sociais. Dar palpites sobre a educação dos filhos alheios é fácil. Criar é outra conversa. Qual o nosso destino?


Acabamos, muitas vezes, com a certeza de que fomos ótimos pais na infância, caprichando no presente do Dia das Crianças e fraquejamos nesta devastadora fase. Mas passará, não temam. O que nos resta é entendimento e empatia.  A única saída.  Aliás, também busquem, sempre que possível e adequado, o apoio dos vovôs e vovós. Eles são ótimos conselheiros até mesmo para esses amados seres em mutação. Comigo foi assim. Então, não desesperem. Vai dar tudo certo. 

sábado, 8 de outubro de 2022

Lobo Mau Bossa Nova

 

O personagem deste artigo é um notório mulherengo. Veterano, não tomava jeito. Noite sim, noite não, farejava vítimas em bares de solteiros ou botecos comuns. Às tardes, costumava circular em shoppings. Lobo urbano, seduzia senhoras carentes, balzaquianas enjoadas da imaturidade dos homens jovens. A maioria acabava engolida pelo tiozão igualmente imaturo. Ele as devolvia amarrotadas, saciadas ao estilo fast food emocional. 


E foi assim que perdeu a terceira e, pelo jeito, última esposa. “Ou tu muda, ou vou-me embora”, exigiu a mulher. Para manter a fama de mau, não pensou duas vezes: “Pode ir. Leva o que quiser contigo!” E saiu rumo à ilusão da madrugada. Ele era assim, casca grossa de fera, indomável e não pretendia ceder a pressões.


Voltou no dia seguinte certo de que a encontraria aos prantos, pronta a uma romântica reconciliação, tal qual protagonizara em situações anteriores. Levou o maior susto ao deparar-se com a casa vazia. Peça por peça, lhe restara o eco dos passos como trilha sonora para um inesperado adeus. Ela o aguardava no quarto vazio. Abalado, tentou manter a fama de mau e ao olhar para o teto, ironizou. “Não tiraste o ventilador de teto. Esqueceu?” No mesmo dia, lá se ia o ventilador.


“Só as prestações ficaram comigo”, comentou abatido aos mais chegados. A ex era uma mulher de posses. “Mas o prazer da vingança foi maior do que a razão” calculou o lobo acuado. Sem outra opção, alugou um minúsculo apartamento no centro de Porto Alegre. 


A lareira de ferro que a ex não conseguira retirar ele presenteou ao irmão e esposa, que poderiam utilizá-la na casa de campo. Ora, a ex era super amiga do casal e assim, um belo dia, após um churrasco, percebeu a lareira atirada a um canto da garagem. Acabou levando o único objeto que não conseguira tirar. 


Mas um lobo bobo, como cantava João Gilberto (Bossa Nova), não aprende. Volta e meia, a ex propunha um jantar a luz de velas e ele aceitava! A pele é fraca, eu sei, mas cá entre nós, o lobo que se acha esperto, virou o único “utensílio” do antigo lar que restara. Quem disse que não poderia ser utilizado? 


Sobrou como um consolo despudorado. A diferença é que nestes encontros, no lugar da fera indomável, ela encontrava um lobo na coleira que nunca mais jantara fora. Dócil e obediente, com medo de perder o que não possuía.



quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Aos 70, com amor à vida


“Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus !
Hoje já não faço anos. Duro.
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos ! ...”

Este trecho do poema “Aniversário” de Álvaro de Campos - fecundo e emotivo heterônimo do poeta português Fernando Pessoa – espelha o ânimo de muitos que ao completar mais um ano de vida. A sensação da alegria ingênua perdida nos aniversários festejados no passado, “Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...”. 

A mesa posta com mais lugares, a melhor louça, “As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...” E agora faltam presentes, sobram fungos do passado e o véu indecifrável do futuro. Qual pitonisa atreveria-se a adivinhar projetos prescritos? 

E aí alguém como eu, já com os pés nos 70 anos, ao tentar fugir da melancolia pensa em uma grande festa com gente querida de várias gerações, mas alguns, prematuramente, já teriam partido. A lista poderia inviabilizar o evento. Hoje, maduro, aprendi a ser responsável por minha própria efeméride, reunir sobreviventes, familiares, sem tristeza, respeitando a ordem natural das coisas. 

Quem sabe, brindar ter sobrevivido às injúrias, talvez a falta de afeto em momentos e a conquista de outros. Um pessimista tende a esquecer as pequenas mas significativas vitórias cotidianas. Ser  íntegro, sem bancar anjo ou demônio. Do tipo que ao errar sabe pedir perdão. Depois, tentar não repetir a mancada.

Projetos sonhados, quando caem na ponta do lápis, viram rabiscos sem nexo. A casa nova, piscina, uma adega para safras especiais. E as viagens? Gramado, Nova Iorque, Paris, Buenos Aires. Quem sabe o paraíso Mediterrâneo? Azeitonas pretas, pimentões doces e frutos do mar... Portugal na primavera com suas flores de rosmaninho (alecrim) perfumando as estradas no caminho do Tejo. 

Epa! Mas nada disso é impossível, por mais sofrida que seja a espera, por mais obstáculos impostos. Erramos, tropeçamos e retomamos a trilha. Uma vez, durante o período de pandemia, argumentei com um amigo sobre a necessidade de fé e organização de como atingir aqueles sonhos que pareciam tão malucos. 

Ele respondeu desaforado: “Chega de sonhos! Sonhos comemos fritos. Só permanecem as gorduras saturadas endurecendo artérias!”  Boca suja, magoada com os maus tratos que o cotidiano impôs. Fritou os sonhos e, em um dia que deveria ser especial, permanece em um a beira do abismo da inconformidade. 

Mas as coisas não se resolvem com rancor. O importante é viver o possível. Aproveitar a experiência adquirida, valorizar as trilhas sulcadas na face, córregos salgados pelo suor do dia-a-dia. Marcas assim, escrevem e corrigem uma trajetória existencial. 

O bolo pode representar a vida que mesmo fatiada, tantas vezes nos põe a engordar com supérfluos, tipo rancores, frustrações, amores desfeitos. Desculpem a metáfora pobre, mas encaro esses meus 70 como aquela vela reutilizada, ano a ano, que mesmo pela metade e deformada, ainda mantém a chama acesa. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Um desejo e nada mais

 

É sempre assim, O começo é divertido, cheio de provocações. Depois percebem que a atração vai além dos gracejos bem humorados, desejam o toque macio. Epidérmico. De repente, tudo em volta que andava meio opaco, ganha luz, vida e aromas especiais. O sentimento bruto, que nasce de uma súbita disposição para a aventura, ocupa todos os espaços. Esquecem que são casados, noivos ou namorados há uma longa data. É um desejo e nada mais como cantava José Augusto lá nos anos 90. 

A rotina passa a ganhar um sentido e a vontade, irrefreável, avança. Tanta fantasia, tanta lua cheia, tanta vontade de celebrar. Acordos se firmam secretamente, são uivos contidos entre ligações secretas, mensagens cifradas em redes sociais e encontros rápidos, tensos. Excitantes. Assinam documentos em branco, como se o prazer não cobrasse seu preço em entrelinhas nunca percebidas diante da nudez aos olhos..

Ambos têm sede e fome, vivem no deserto do tédio comum aos adultos bem sucedidos. Não pense que os ditos infelizes, casais maltratados pela vida sofrida, miserável em todos os sentidos são as maiores vítimas das tentações. Esses quando podem, libertam-se. Gente organizada, que mantém as contas em dia, toma remédio na hora certa, cuida da balança, frequenta academia é a que mais cansa desta coisa certinha. A satisfação vai além do previsível. Não é um contrato, um negócio. Na verdade, tem requisitos de fundamento inexato.

Quem nunca ficou compadecido da esposa dedicada que chega a casa extenuada e ainda prepara um assado especial? Quem sabe não estará ela cansada desta vida certinha? Do homem que nunca esquece uma data especial, que planeja viagens românticas a dois, festas legais entre amigos, mas ao mesmo tempo, é  absolutamente previsível. 

E ficam ambos iguais a copeiros que tem a obrigação de polir os cristais que nunca serão seus, mas que se quebrados, pagarão caro por cacos. Quem vai  querer em casa, os restos do que antes era um lindo enfeite? Assim, ao surgir a possibilidade de uma fuga espontânea, que ventile a imaginação e os sentidos, abusam de tudo, lambuzam-se e nem percebem que o acordo firmado anteriormente - viver exclusivamente uma aventura - foi rasgado na refrega que os empurrava de encontro a cristaleira.

O prazer - para um dos amantes - sempre acaba antes e aquela sintonia inicial,  vira uma espécie de coceira alérgica, pois a outra parte já fantasiava a possibilidade de uma  comunhão de corpo e alma. Assim, embora a esposa  chegue na hora certa e nunca se permita queimar o assado, aumenta o risco de uma lágrima furtiva salgar a janta. O outro – ele ou ela – já estará na segurança do lar, planejando as férias de inverno, enquanto serve, ou é servido, de mais uma fatia daquele mesmo assado.

Quem sabe, voltem a buscar uma nova aventura, “desta vez sem envolvimento afetivo, mesmo!” O inverno partiu e a a primavera com seus perfumes e cores, apagará as lembranças tristes enquanto o verão, sempre permissivo, incentivará a paixão. Afinal, tudo não se resumiria mesmo a um desejo e nada mais, como previa a canção? 

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Eu e o Dia do Gordo

 Em setembro se comemora o Dia do Gordo. Uma data, segundo me dizem, criada para combater a gordofobia. E sei bem o que é isso. Um obeso esta sempre em alerta, mesmo quando aparenta aquele ar bonachão e simpático. Na maioria das vezes é só um mecanismo de defesa. Lembro de uma história que me aconteceu há alguns anos: uma senhora ao passar bem a meu lado ordenou, severa:

“Gordo, vem cá!” Surpreso, mirei nos olhos dela que, ao dar-se conta do mal-entendido, apontou o arbusto onde um cãozinho peludo fazia xixi. Gordo era o nome próprio de seu animal de estimação. “Nem reparei que o senhor era gordinho”, desculpou-se, aumentando o constrangimento.

Aceitei as desculpas, e fiquei ensaiando os desaforos que meu elevado teor de tolerância jamais permitiria. Mas deu vontade. Ela já cruzava a rua com o gordo de quatro patas – que até magro era – quando jurei iniciar uma dieta, pra já! Ser magro tem todas as vantagens. Primeiro, não é proibido o mau-humor. 

O maior exemplo disso é o Natal, onde o gordinho da família é sempre Papai Noel. Dê-lhe suor por baixo daquela ridícula roupa quente e barbas de algodão. E os apelidos? Partem de simpáticos paquidermes a outros bichos parrudos. Quantos baixinhos gordinhos não sofrem com as comparações aos hoje caríssimos botijões de gás?

E os gracejos que viralizam nas redes sociais e só não acabam em bloqueios ou briga a socos porque somos obrigados a agir como os mais bem humorados da espécie humana. Gordo não está autorizado a zangar-se. Mas tem coisa pior! Qual gordo não escuta seguidamente os "conselhos” de amigos transformados em nutrólogos ou endocrinologistas amadores. 

“Até que você é bonito, porque não faz um regime?” Arre! É triste! Um sujeito magro não se abalaria, como eu, com uma estranha gritando pelo “gordo”. Não é nada com ele, ora!  E mesmo quando o obeso se rende as críticas, a lentidão dos `resultados em exercícios e dietas assusta e desanima. Isso sem contar os riscos das cirurgias bariátricas, de redução do estômago.

Nas dietas, a contabilidade de cada grama eliminada não se equilibra com a distância percorrida nas corridas, ou o sacrifício da comida insossa, das saladas verdes, vermelhas, roxas e outras cores a contrastar com a palidez do gordo. Lembro meus dias de academia quando a recompensa era o bar com cardápio fitness. Saladas de frutas, bebidas e iogurtes light. Sanduíches naturais!

Mas a turma sarada comia – bem ao meu lado - cheeseburgers com bacon e ovo, hotdogs de suspeitos molhos vermelhos e, tortura das torturas, crocantes batatas  fritas. Toneladas delas! Se eles podiam, por quê não eu?

Sim, a ansiedade é a maior inimiga dos fofos. Aliás, só de lembrar do incidente que motivou este desabafo, me bateu fissura por algo doce. Estamos em dias de extremismos, radicalismos políticos e assim,não estou em clima de dieta. Tampouco de aceitar bullying sem dar o troco.  E se outra tia me confundir com o cãozinho de estimação. 

Eu mordo!

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

A síndrome do nó górdio

 Um querido amigo ligou empolgadíssimo advertindo: “se não der para o meu candidato nas urnas, a casa vai cair”. Esse tombo metafórico é a ameaça de quebrar regras democráticas, de zerar  a tolerância em nome de algo que rói a liberdade em nome de um projeto egocêntrico disfarçado de comunitário. 

Dispensei as advertências, fiquei mudo e não me arrependo. A história também se escreve em vácuos de silêncio contra aquilo que extrapola as boas regras de convívio social. De qualquer maneira não dormi lá muito bem. Afinal quem está certo em tudo isso? 

A minha parte será feita nas urnas e as regras que aprendi no trabalho rotineiro como jornalista, ou assessor de comunicação para mais de uma dezena de lideranças políticas, serão mantidas aqui em casa. No berro, na mentira ou na adulteração do que entendo como socialmente justo, ninguém vai mudar meu pensamento. Prefiro ficar meditando, entre a cruz e a espada, até a hora da derradeira decisão. 

Por isso, não estou para uma revolução e, como dizia John Lennon, se me pedem uma contribuição para a luta armada, responderei que somente dando uma chance a paz, aliada a uma educação universal, sem barreiras de preconceito, tornarão esse super aquecido planeta em um lugar bom de se passar nossa breve existência.

O pensador liberal norte-americano, Lawrence Reed, afirma que, antes de tudo, para se ter uma sociedade livre, independente, com uma economia pujante é preciso partir do básico: bom caráter. “Se você está decidido a pautar todas as suas ações por aí e tem condições de influenciar os outros com seu exemplo, instintivamente estará valorizando a liberdade”.

Eu sei que muitos poderão discordar dele, por respeitáveis questões ideológicas, afinal é um jornalista e economista liberal mas ele mesmo se recusa a assumir rótulos. Eu concordo com as idéias de Reed, porque se fundamentam em educação, abrindo as cabeças para o empreendedorismo em todos seus níveis e ajudando a filtrar esses que se auto assumem salvadores da pátria. 

Encerro aqui, antes que me atirem pedras, com uma citação de Reed: “quando o assunto é política, estamos presos a rótulos, Por todo lado, alguém está rotulando outra pessoa de alguma coisa que supostamente resume sua filosofia ou inclinação ideológica. Quando os rótulos esclarecem são úteis. Porém, quando confundem ou distorcem, são muito mais do que inúteis (...) pois se tornam uma desculpa para as pessoas deixarem de pensar”.

Então, vamos desatar esse nó górdio, expressão usada quando problemas aparentemente insolúveis são resolvidos por se "pensar fora da caixa”, ou seja, livre do laço óbvio do pensamento único, refratário, mas sim com a força do bom caráter encaminhado a uma cultura pacificadora e humanista. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Ode à minha fúria controlada

As pessoas seguidamente me classificam como um sujeito calmo e pacificador. Diante do espelho quase acredito nesta imagem. Na verdade, em mim existe um ser inconformado, de uma agressividade latente, doido para mandar muita gente para uma outra galáxia, onde terão tempo de pensar nas bobagens cometidas às pressas, por puro egoísmo ou desleixo ou, até mesmo contágio. Quem disse que maus humores, teses preconceituosas ou intolerantes não podem ser contraídas inadvertidamente, com ou sem campanhas políticas e os extremos belicosos que assistimos agora. 

Quanta gente de  personalidade instável que, insuflada pelo comportamento doentio alheio, verbaliza apoio a  atos de brutalidade e fanatismo cego. E não pensem que o ser raivoso que habita em mim, de repente explodirá em fúria, massacrando os que me cercam com aqueles gritos de meias verdades, que correspondem, sempre, a mentiras inteiras. Errar me leva à autocrítica. 

Por exemplo, quando não ousei em questões profissionais, ou domésticas, fiquei assustado com os inevitáveis riscos. Eu deveria ter feito isso, assim e assado. Não o fiz e agora devo me encharcar em autopunição? Nunca! Assumir a própria fragilidade dá forças para se olhar bem lá no fundo e arrumar as gavetas. 

E assim, acalmo  o monstro insano que habita em meu íntimo. Sim, ele acaba apiedando-se de minhas inseguranças e libera como camuflagem, o personagem sensível, conciliador criado para escapar de atritos inúteis e ainda, de quebra, conquistar a admiração alheia. É bom ser reconhecido como um cara legal, do bem e saber que a fera está domesticada.

Para atingir esse nível, é preciso muito esforço. Vejo isso no Brasil de hoje, onde tudo gera conflito. É o executivo dos estados e federal, os parlamentos e suas escaramuças e um  judiciário decididamente com a balança da imparcialidade quebrada. E aí, entre a mídia tradicional e redes sociais, eu já não sei a quem ouvir com total confiança. A verdade tem muitos donos e nenhum consenso. 

Se o circo pega fogo entre as grandes lideranças, imagina como tudo isso se reflete entre quem assiste ao espetáculo. Alguns mandarão tudo às favas, outros assumirão discursos corrosivos em nome do que dizem ser liberdade e democracia mas, na maioria das vezes, sem crédito para a alma ou o gerente do banco. 

Entrou em parafuso com tudo isso? O ideal seria buscar aconselhamento psicológico. Mas além da crise financeira, a maioria de nós, problemáticos, tem medo da terapia. E aí eu vejo, tu vês, eles veem, os pacatos cidadãos, em casa, na firma, nas ruas, carregando o peso de uma carranca, que pode ser odiosa, ou falsamente bela e sedutora, mas que no fundo, apenas destrói e detona pontes que o ligariam à consciência, ao prazer de viver. 

É uma espécie de narcisismo doentio e infantil, porque, na verdade, o ser bacana, está lá embaixo, sem forças para reagir, sufocado por sentimentos como o egoísmo, a inveja e a ganância. Pode soar ingênuo tudo isso. Mas é essencial. 

A fera que habita em mim, o ser extraterrestre, na verdade, é um menino que nunca amadurecerá. Mas que pede que o ensinemos a viver melhor. E quem, realmente, busca por isso, educa essa eterna criança. É possível, sem gritos, rancor, ou ódio.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Onfalomancia ou a personalidade lida no umbigo

 

Muitos quando se referem a falhas de caráter de algumas (ou muitas) pessoas, recorrem com frequência à região abdominal em expressões tipo “parece ter o rei na barriga”, para a arrogância, ou “vive em função do próprio umbigo”, sobre o egoísmo. Aliás, segundo o psicólogo alemão Gerhard Reibmann, essa depressão cutânea, originada a partir da cicatriz do corte do cordão umbilical, pode definir, por meio da análise de seu formato, a personalidade de cada pessoa, semelhante ao que nos habituamos a ler nos horóscopos e influência dos astros celestes em nosso estado de espírito, via astrologia.

A matéria foi publicada inicialmente no vetusto e conservador tabloide inglês The Sun, mas ao pesquisar sobre o tema encontrei uma meia dúzia de outros jornais ou sites comentando sobre a teoria que tem até nome próprio – onfalomancia – inicialmente usada para prever a quantidade de filhos que uma mulher teria, a partir da quantidade de nós formados no cordão umbilical de seu primogênito. Mas agora vai além, indicando, é claro, sem nenhuma evidência científica, a expectativa de vida e personalidade de nós, seres humanos.

A coisa anda tão bagunçada com tanta gente escrevendo mentiras e outros tantos acreditando nessas inverdades, que um pouco de bom humor e fantasia pode até nos divertir, ao nos vermos, diante do espelho tentando se autodecifrar observando o próprio umbigo. Tentei achar o tal livro, mas encontrei apenas o que seriam os seis formatos básicos de umbigos e suas consequências na vida de cada um, conforme publicou o jornal britânico e que reproduzo abaixo.

Umbigo horizontal: define uma pessoa complexa, com força nas emoções. Desconfiado, mas quando confia, a outra pessoa é muito importante em sua vida. Vertical: autoconfiante e generosa, com tendência a ser emocionalmente estável. A matéria do The Sun diz que este tipo de umbigo é muito procurado em cirurgias plásticas. Mas se o umbigo é para fora, ao contrário de constranger por seu estilo “rendido” como diria minha avó, representa um ser otimista de caráter forte, perseverante.

Os outros três tipos são o profundo/redondo: geralmente em pessoas modestas, equilibradas, retraídas. O umbigo oval, vejam só, está no centro de uma pessoa gentil, amorosa, cautelosa e delicada, mas que magoam facilmente. Por último, aquele de formato indefinido, meio fora de centro no abdômen, pobre coitado, segundo o psicólogo alemão, pode estar relacionado a pessoas que vivem à base de grandes oscilações emocionais.

Não levo a sério esse tipo de assunto, mas agora, em período de eleições, poderíamos sugerir um teste de caráter, junto à declaração de bens dos candidatos, do formato de seus ilustres umbigos. Com foto e laudo médico é claro. Quem sabe aí, possamos tirar alguma conclusão mais efetiva, já que no discurso, muitas vezes a coisa é definitivamente temerária e inconclusiva.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Tu me cancela, eu te bloqueio

 


Aconteceu em frente a gurizada que brincava na esquina. O menino abre a porta do edifício e ao passar por um gatinho, parte para chutes furiosos sobre o pobre animal. A turma correu para socorrer o bichano, aos berros e desaforos contra o pequeno agressor. A partir daquele dia foi excluído das partidas de futebol, das brincadeiras de rua ou dos jogos de botão e tabuleiro nas casas, em dias de chuva. Esse cancelamento - como hoje é chamado - aconteceu em 1966, no bairro onde eu morava. E levou quase um mês para acabar. 


Ele se aproximava para brincar e a indiferença, ou xingamentos, o empurravam para dentro de casa. Até na escola foi escanteado, entrou em profunda depressão,  o que obrigou a intervenção de sua família em uma reunião entre vizinhos. E todos ficaram sabendo que, naquele dia de fúria, o menino  ouvira uma conversa reservada onde o pai revelava, com lágrimas nos olhos,  sobre a necessidade de tratamento contra um câncer.  “Tu não vai morrer”, gritou antes de sair à rua e descarregar sua revolta no primeiro ser vivo que encontrara.  

O pedido de perdão foi aceito em ambos os lados. As brincadeiras voltaram ao normal e as condenações intempestivas, foram deixadas de lado pelo menos naquela quadra do bairro onde eu morava. Mas apontar o dedo para o erro dos outros continuou, eu sei e hoje, ganhou características de tragédia em muitos casos graças às redes sociais e seus canceladores de plantão.  

Qualquer deslize, especialmente de gente com bom espaço na mídia, se transforma em milhões de likes para quem postou a crítica. Poucos querem ouvir a defesa do atingido e assim, atores como Kevin Spacey, por exemplo, perdeu seu emprego na série House Of Cards  antes mesmo de qualquer julgamento. Ele tem recursos para se defender, mas e as pessoas comuns que volta e meia dão uma pisada na bola?  

Ninguém é perfeito e acabar excluído sem segunda chance, pode gerar crises de ansiedade, pânico, perdas de trabalho e sustento da família.  Perder o crédito, sem julgamento, sem ser ouvido é colocar um ser humano  na berlinda, massacrado pelo ódio que o condenou em milhões de curtidas. É um ato covarde que se vale dos sintomas do entorno,  que é doente socialmente, eu reconheço, mas não aponta um tratamento que remedie essa enfermidade.

 Tenho a sensação que a filosofia do Big Brother vive no aqui e agora. Pisou na bola, contrariou o grupo de anônimos, está definitivamente expulso como se a vida fosse um jogo. E lembro daquele pai e mãe, lá na minha infância, conversando de peito aberto para uma mudança na atitude dos meninos do bairro. Quem sabe, possa essa sociedade canceladora, fazer o mesmo e ouvir, antes de condenar sumariamente,  evoluindo para o bem estar comum que deveria ser o ideal de todos nós. 

Fraternizemos a existência, por favor!


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

O voo da compaixão

Assustado com as janelas que batiam sob a força da tormenta, o casal correu para fechá-las enquanto Ana Luiza, a filha de oito anos, observava a fúria da natureza abraçada a uma cortina. Quando a menina se arriscou a olhar para a rua percebeu, na calçada, o andarilho, magrinho e ensopado, embaixo de uma árvore também esquálida e sem folhas. Aproveitando a distração dos pais, correu à cozinha, puxou a toalha plástica da mesa, voltou à janela e a jogou para o sem-teto que, de olhos arregalados via a toalha abrir-se e voar feito uma esquisita bandeira desfraldada.

Caiu no meio da rua, entre veículos e pedestres. Trôpego, ele conseguiu apanhá-la e imediatamente enrolou-se. Ana Luiza viu o sorriso sem dentes e a mão que lhe acenava em agradecimento enquanto os pais fechavam novamente a veneziana. A guria estava com as bochechas e braços respigados de chuva, mas sorria feliz da vida.

Chegava a ser engraçada a visão daquele sujeito desengonçado envolvido pela capa improvisada, pintada com motivos de frutas tropicais. E agora, o que fazer? Alertaram para o perigo de se debruçar na janela. Mas a expressão agradecida do homem, feliz, acenando para o alto, os emocionou demais.

Eu sei, vivemos dias de poucos amigos, exclusões definitivas. Muita gente bloqueando amigos e conhecidos nas redes sociais. É a intolerância na cultura do cancelamento com a justificativa de uma contrariedade aguda às atitudes que reprovam. (Este será meu tema do próximo artigo). Ana Luiza não julgou ou questionou os porquês daquela cena. Foi simplesmente solidária aquele ser humano que enfrenta, todo santo dia, seus próprios vendavais.

Ainda é inverno, apesar do calor úmido fora de época destes últimos dias, imagino que em algum lugar da cidade, um maltrapilho carregue consigo a tropical toalha de abacaxis, bananas e pêssegos. Um presente que lhe caiu dos céus, mais precisamente do segundo andar de um apartamento onde, com certeza, vive um anjo.

sábado, 30 de julho de 2022

Como esquentar a paixão em dias frios

O vestido da moça levantou até onde não deveria, provocado pelo forte vento da manhã. E a cena, ao contrário de qualquer conotação sexy, foi hilária. Era uma cebola de panos multicoloridos até se chegar a um abrigo velho, cor de abóbora que provocou risos da turma que aguardava o sinal verde, na esquina da Rua Uruguai com Siqueira Campos, no Centro Histórico de Porto Alegre. É difícil manter a elegância no frio. Namorar ainda é pior.

Aprendi alguns macetes que podem ajudar a esquentar os corpos em todos os sentidos. Um jantar a dois, por exemplo, nos dias frias não depende apenas de caldos e sopas. Pitadas estudadas de pimenta, por exemplo, ajudam muito. Dependendo da variedade, desde a de menor até as de maior efeito picante (ui), a pimenta melhora a irrigação do sangue, o que causa uma sensação de bem-estar e chega lá, naquela região que se escondeu do frio abaixo de ceroulas e outros panos.

Até amendoim com casca pode ajudar. Sim, não é piada, a vitamina B3 favorece a circulação sanguínea, aumenta a vaso dilatação. Nem precisa sacudir a casca que caiu no colo do namorado (mas nada impede a prática).

Chocolate quente – nem tanto para não queimar dedos e línguas – mas na medida para liberar energia, graças a três componentes – a cafeína, a teobromina e a feniletilamina. A primeira estimula o corpo, a segunda especificamente o coração e o sistema nervoso, e a última, troca aquele ar de “tu tá mesmo a fim?” por um sorriso estimulante. Sem tristeza, o resto é com você, amantes latino. Aliás, tem gente que inclui o uso tópico do chocolate nas brincadeiras amorosas. Aprovo sem restrições.

Bem vestidos - E por favor, a dica final, fundamental. Permaneçam bem vestidos, cobertores para dar aquele conforto quente. Provocação com roupas também é válida. Fantasiem aqueles tempos adolescentes dos primeiros namoros, quando tudo era tato, no escuro do cinema, ou no sofá da casa assistindo uma sessão da tarde da tevê, enquanto o pai vigilante roncava.

Lambuzados - Até chegar a hora que tudo, mas tudo mesmo aqueceu, se decide o que é possível ser descartado do corpo já aquecido. Afinal, somos gaúchos e - mesmo em invernos amenos - precisamos aprender a enfrentar essa estação quase estraga prazeres. Caso contrário será um festival de sopão, feijoadas, massas com molhos fortes pouco estimulantes. Muita boca engordurada, muita barriga cheia e pouca satisfação em outros campos.

Não é difícil namorar no inverno. Pratiquem! O negócio é ser criativo, ter paciência. Se der tudo certo, quando o vento levantar o vestido de uma desavisada na rua, ninguém se abalará para espiar.  Estarão todos muito bem comidos.