Ele se aproximava para brincar e a indiferença, ou xingamentos, o empurravam para dentro de casa. Até na escola foi escanteado, entrou em profunda depressão, o que obrigou a intervenção de sua família em uma reunião entre vizinhos. E todos ficaram sabendo que, naquele dia de fúria, o menino ouvira uma conversa reservada onde o pai revelava, com lágrimas nos olhos, sobre a necessidade de tratamento contra um câncer. “Tu não vai morrer”, gritou antes de sair à rua e descarregar sua revolta no primeiro ser vivo que encontrara.
O pedido de perdão foi aceito em ambos os lados. As brincadeiras voltaram ao normal e as condenações intempestivas, foram deixadas de lado pelo menos naquela quadra do bairro onde eu morava. Mas apontar o dedo para o erro dos outros continuou, eu sei e hoje, ganhou características de tragédia em muitos casos graças às redes sociais e seus canceladores de plantão.
Qualquer deslize, especialmente de gente com bom espaço na mídia, se transforma em milhões de likes para quem postou a crítica. Poucos querem ouvir a defesa do atingido e assim, atores como Kevin Spacey, por exemplo, perdeu seu emprego na série House Of Cards antes mesmo de qualquer julgamento. Ele tem recursos para se defender, mas e as pessoas comuns que volta e meia dão uma pisada na bola?
Ninguém é perfeito e acabar excluído sem segunda chance, pode gerar crises de ansiedade, pânico, perdas de trabalho e sustento da família. Perder o crédito, sem julgamento, sem ser ouvido é colocar um ser humano na berlinda, massacrado pelo ódio que o condenou em milhões de curtidas. É um ato covarde que se vale dos sintomas do entorno, que é doente socialmente, eu reconheço, mas não aponta um tratamento que remedie essa enfermidade.
Tenho a sensação que a filosofia do Big Brother vive no aqui e agora. Pisou na bola, contrariou o grupo de anônimos, está definitivamente expulso como se a vida fosse um jogo. E lembro daquele pai e mãe, lá na minha infância, conversando de peito aberto para uma mudança na atitude dos meninos do bairro. Quem sabe, possa essa sociedade canceladora, fazer o mesmo e ouvir, antes de condenar sumariamente, evoluindo para o bem estar comum que deveria ser o ideal de todos nós.
Fraternizemos a existência, por favor!

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