quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Tu me cancela, eu te bloqueio

 


Aconteceu em frente a gurizada que brincava na esquina. O menino abre a porta do edifício e ao passar por um gatinho, parte para chutes furiosos sobre o pobre animal. A turma correu para socorrer o bichano, aos berros e desaforos contra o pequeno agressor. A partir daquele dia foi excluído das partidas de futebol, das brincadeiras de rua ou dos jogos de botão e tabuleiro nas casas, em dias de chuva. Esse cancelamento - como hoje é chamado - aconteceu em 1966, no bairro onde eu morava. E levou quase um mês para acabar. 


Ele se aproximava para brincar e a indiferença, ou xingamentos, o empurravam para dentro de casa. Até na escola foi escanteado, entrou em profunda depressão,  o que obrigou a intervenção de sua família em uma reunião entre vizinhos. E todos ficaram sabendo que, naquele dia de fúria, o menino  ouvira uma conversa reservada onde o pai revelava, com lágrimas nos olhos,  sobre a necessidade de tratamento contra um câncer.  “Tu não vai morrer”, gritou antes de sair à rua e descarregar sua revolta no primeiro ser vivo que encontrara.  

O pedido de perdão foi aceito em ambos os lados. As brincadeiras voltaram ao normal e as condenações intempestivas, foram deixadas de lado pelo menos naquela quadra do bairro onde eu morava. Mas apontar o dedo para o erro dos outros continuou, eu sei e hoje, ganhou características de tragédia em muitos casos graças às redes sociais e seus canceladores de plantão.  

Qualquer deslize, especialmente de gente com bom espaço na mídia, se transforma em milhões de likes para quem postou a crítica. Poucos querem ouvir a defesa do atingido e assim, atores como Kevin Spacey, por exemplo, perdeu seu emprego na série House Of Cards  antes mesmo de qualquer julgamento. Ele tem recursos para se defender, mas e as pessoas comuns que volta e meia dão uma pisada na bola?  

Ninguém é perfeito e acabar excluído sem segunda chance, pode gerar crises de ansiedade, pânico, perdas de trabalho e sustento da família.  Perder o crédito, sem julgamento, sem ser ouvido é colocar um ser humano  na berlinda, massacrado pelo ódio que o condenou em milhões de curtidas. É um ato covarde que se vale dos sintomas do entorno,  que é doente socialmente, eu reconheço, mas não aponta um tratamento que remedie essa enfermidade.

 Tenho a sensação que a filosofia do Big Brother vive no aqui e agora. Pisou na bola, contrariou o grupo de anônimos, está definitivamente expulso como se a vida fosse um jogo. E lembro daquele pai e mãe, lá na minha infância, conversando de peito aberto para uma mudança na atitude dos meninos do bairro. Quem sabe, possa essa sociedade canceladora, fazer o mesmo e ouvir, antes de condenar sumariamente,  evoluindo para o bem estar comum que deveria ser o ideal de todos nós. 

Fraternizemos a existência, por favor!


Nenhum comentário:

Postar um comentário