quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Ode à minha fúria controlada

As pessoas seguidamente me classificam como um sujeito calmo e pacificador. Diante do espelho quase acredito nesta imagem. Na verdade, em mim existe um ser inconformado, de uma agressividade latente, doido para mandar muita gente para uma outra galáxia, onde terão tempo de pensar nas bobagens cometidas às pressas, por puro egoísmo ou desleixo ou, até mesmo contágio. Quem disse que maus humores, teses preconceituosas ou intolerantes não podem ser contraídas inadvertidamente, com ou sem campanhas políticas e os extremos belicosos que assistimos agora. 

Quanta gente de  personalidade instável que, insuflada pelo comportamento doentio alheio, verbaliza apoio a  atos de brutalidade e fanatismo cego. E não pensem que o ser raivoso que habita em mim, de repente explodirá em fúria, massacrando os que me cercam com aqueles gritos de meias verdades, que correspondem, sempre, a mentiras inteiras. Errar me leva à autocrítica. 

Por exemplo, quando não ousei em questões profissionais, ou domésticas, fiquei assustado com os inevitáveis riscos. Eu deveria ter feito isso, assim e assado. Não o fiz e agora devo me encharcar em autopunição? Nunca! Assumir a própria fragilidade dá forças para se olhar bem lá no fundo e arrumar as gavetas. 

E assim, acalmo  o monstro insano que habita em meu íntimo. Sim, ele acaba apiedando-se de minhas inseguranças e libera como camuflagem, o personagem sensível, conciliador criado para escapar de atritos inúteis e ainda, de quebra, conquistar a admiração alheia. É bom ser reconhecido como um cara legal, do bem e saber que a fera está domesticada.

Para atingir esse nível, é preciso muito esforço. Vejo isso no Brasil de hoje, onde tudo gera conflito. É o executivo dos estados e federal, os parlamentos e suas escaramuças e um  judiciário decididamente com a balança da imparcialidade quebrada. E aí, entre a mídia tradicional e redes sociais, eu já não sei a quem ouvir com total confiança. A verdade tem muitos donos e nenhum consenso. 

Se o circo pega fogo entre as grandes lideranças, imagina como tudo isso se reflete entre quem assiste ao espetáculo. Alguns mandarão tudo às favas, outros assumirão discursos corrosivos em nome do que dizem ser liberdade e democracia mas, na maioria das vezes, sem crédito para a alma ou o gerente do banco. 

Entrou em parafuso com tudo isso? O ideal seria buscar aconselhamento psicológico. Mas além da crise financeira, a maioria de nós, problemáticos, tem medo da terapia. E aí eu vejo, tu vês, eles veem, os pacatos cidadãos, em casa, na firma, nas ruas, carregando o peso de uma carranca, que pode ser odiosa, ou falsamente bela e sedutora, mas que no fundo, apenas destrói e detona pontes que o ligariam à consciência, ao prazer de viver. 

É uma espécie de narcisismo doentio e infantil, porque, na verdade, o ser bacana, está lá embaixo, sem forças para reagir, sufocado por sentimentos como o egoísmo, a inveja e a ganância. Pode soar ingênuo tudo isso. Mas é essencial. 

A fera que habita em mim, o ser extraterrestre, na verdade, é um menino que nunca amadurecerá. Mas que pede que o ensinemos a viver melhor. E quem, realmente, busca por isso, educa essa eterna criança. É possível, sem gritos, rancor, ou ódio.

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