segunda-feira, 1 de agosto de 2022

O voo da compaixão

Assustado com as janelas que batiam sob a força da tormenta, o casal correu para fechá-las enquanto Ana Luiza, a filha de oito anos, observava a fúria da natureza abraçada a uma cortina. Quando a menina se arriscou a olhar para a rua percebeu, na calçada, o andarilho, magrinho e ensopado, embaixo de uma árvore também esquálida e sem folhas. Aproveitando a distração dos pais, correu à cozinha, puxou a toalha plástica da mesa, voltou à janela e a jogou para o sem-teto que, de olhos arregalados via a toalha abrir-se e voar feito uma esquisita bandeira desfraldada.

Caiu no meio da rua, entre veículos e pedestres. Trôpego, ele conseguiu apanhá-la e imediatamente enrolou-se. Ana Luiza viu o sorriso sem dentes e a mão que lhe acenava em agradecimento enquanto os pais fechavam novamente a veneziana. A guria estava com as bochechas e braços respigados de chuva, mas sorria feliz da vida.

Chegava a ser engraçada a visão daquele sujeito desengonçado envolvido pela capa improvisada, pintada com motivos de frutas tropicais. E agora, o que fazer? Alertaram para o perigo de se debruçar na janela. Mas a expressão agradecida do homem, feliz, acenando para o alto, os emocionou demais.

Eu sei, vivemos dias de poucos amigos, exclusões definitivas. Muita gente bloqueando amigos e conhecidos nas redes sociais. É a intolerância na cultura do cancelamento com a justificativa de uma contrariedade aguda às atitudes que reprovam. (Este será meu tema do próximo artigo). Ana Luiza não julgou ou questionou os porquês daquela cena. Foi simplesmente solidária aquele ser humano que enfrenta, todo santo dia, seus próprios vendavais.

Ainda é inverno, apesar do calor úmido fora de época destes últimos dias, imagino que em algum lugar da cidade, um maltrapilho carregue consigo a tropical toalha de abacaxis, bananas e pêssegos. Um presente que lhe caiu dos céus, mais precisamente do segundo andar de um apartamento onde, com certeza, vive um anjo.

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