quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

É março, cadê meu espumante?

 E o tal Ano Novo começou. É pós carnaval, março e está todo mundo virando júri de qualquer coisa. Qual foi o teu espumante na virada? Escravista ou Libertador? Sim, a partir de agora uma cagada monumental pode virar balança entre a verdade e a mentira. Triste situação de quem foi escravizado. Estúpida decisão de quem foi conivente ou fez que nada via. Entre mortos, sobreviventes da guerra do tráfico, entre outras batalhas estou aqui, ainda vivo e saudável na finaleira de fevereiro. 

Lembro que nem havia iniciado este ano e vieram me alertar a vestir a cor do astro regente de 2023. Somente assim, seriam 365 dias excelentes para mudanças e projetos de vida, mesmo com  tanto extremismo. E aí li todas as dicas, anotei minhas dez mais importantes determinações para os próximos meses. Não saltei as sete ondas porque o mar estava longe, mas encomendei pulinhos extras aos amigos que estavam no litoral. Comi lentilha, apesar do calor. Suando, vi um futuro maravilhoso inchar feito grãos cozidos.

O problema é que não anotei tais determinações. Eu as esqueci! É a idade! Então, agora que estamos chegando ao terceiro mês, posso prever convicto: as coisas não serão mais cruéis do que foram nesse ano passado. Reflexão e repouso, foi o que as cartas me recomendaram. Mas, sou péssimo em carteado.

 Lembram os últimos dias de 2022? Retrospectivas nos levaram às lágrimas. Na virada,  atos impunes de ataques aos poderes constituídos, deixaram uma grande interrogação. Agora, após estes dois meses iniciais, novos dramas e grandes discussões existenciais me deixam uma dúvida: Para onde vamos afinal? 

Antes de um grande terremoto apocalíptico nos varrer da face terrena (vejam a Turquia!) é saudável acreditar na possibilidade individual de mudança, de cumprir metas. Essa  é a maior prova de que seremos espíritos livres desses rios de lava fervente profetizados. Abra espaço na agenda e cuide de coisas pessoais, íntimas, muitas vezes mal resolvidas. Previna dramas domésticos. Dê atenção, pelo menos uma vez ao mês, ao próprio umbigo. 

Se não conseguir, está na hora de uma boa dieta ou de um psicanalista. Não seja mais uma ovelha no rebanho dos pastores do ódio. A ressaca do espumante livre (sem escravos) fica lá atrás. O  absurdo calor deste início de ano pode ser um alerta para as mudanças necessárias.  

Então,  sejamos guerreiros de nossas próprias boas causas. Nada de falso bom mocismo. Seremos o que sempre fomos, em uma edição revisada, sem infaustas contaminações. A partir deste março, aproveite todas possibilidades astrológicas. 

É claro, nada de zarpar em fuga, rumo ao desconhecido estelar. De pés no chão, mas com o espírito renovado pela fé, podemos evitar, por exemplo,  os cartões de crédito e seus juros extraterrestres.

 Olha a crise! Ter pés no chão nos livrará de cometer o desatino de um final de semana romântico na Serra Livre e depois quase morrer de angústia. Todo ser endividado, sofre outonos e invernos frios e melancólicos. Planejar é tudo! Depois não adianta, o mundo cruel não perdoa!

Amizades?  Deixemos também de lado os falsos amigos que nos condenam, às vezes, a projetos medíocres baseados em suas próprias vidas sem brilho. Então, a partir deste março, sejamos duros contra a irresponsabilidade. 

Negaremos presentes que não pudermos pagar, ou fantasias que não conseguirmos vestir. Carnaval é uma coisa - já passou. A vida real é outra. E pode ser muito bonita, ter instantes mágicos, se acreditarmos que além de energia astral, existe a nossa.

Amores? Por favor! Neste terceiro mês de 2023, em pleno século 21, evitemos amantes que vendem sonhos que nunca funcionaram em relações anteriores. Porque deveriam dar certo conosco? Os que me olham à distância podem achar que estou agindo sob a influência de Marte, com seus  leitos de rios secos, uma imensa geleira e montanhas solitárias. Mas os que se aproximam perceberão o equilíbrio que somente a interminável busca do conhecer-se a si próprio permite.

Serei alguém disposto a irradiar calor e afeto em troca dos mesmos sentimentos, a partir da própria essência. Toda mudança começa  solucionando crises interiores. 

E março pode ser o princípio. Azar se me chamarem de mesquinho, esses não se conhecem, apenas espelham suas próprias inseguranças. O cristal de minha independência deve refletir, apesar das manchas passadas, a possibilidade de ser o melhor, a partir dos próprios erros e acertos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

A paixão que não roubei, uma Rural e a solidão


Na semana passada, encontrei um antigo colega de colégio. Ambos, senhores com tempo reduzido para coisas perdidas no tempo mas, mesmo assim, permitindo-se a um intervalo para um expresso de "colarinho" aquela mistura de óleos e carboidratos que resulta em uma espuma cremosa e perfumada. Afinal, os longos anos que nos separavam até o reencontro casual, pareciam um simples lapso de tempo. Lembramos professores, outros colegas de aula e, é claro, sobre o que fizemos, após isso, para sobreviver. Eu, jornalista, ele comerciante naquela base do “sobreviventes de anos difíceis.”

Naturalmente, a conversa se tornou mais interessante quando começamos a falar dos amores passados. Ele jura que eu lhe roubei uma namorada, jovem linda de olhos verdes. Tudo o que eu lembro é que esta belezura nem deixara engrenar a paixão e me trocara por um cara, bem mais velho ,que circulava em uma Rural Willys – avó das camionetes modernas. Casamentos? Ele tivera um, que resultou no único filho – um baita parceiro – me disse. Teve ainda uma tentativa de recomeço que fracassara e um período confuso, segundo sua avaliação, sem amores, 

“Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus,” me disse, ao citar o filósofo grego Aristóteles. Contou que, desiludido com o casamento desfeito e os problemas com uma “namorada neurótica demais”, havia decidido viver sozinho. E foi aí que se deu mal. “No começo era aquela sensação maravilhosa de liberdade”, lembra, ao citar as noitadas de carteado com os amigos, a rotina dos botecos nos finais de semana e a agenda sempre cheia de candidatas a namoro. “Depois, cansei. Das festas, dos bares e da anarquia que meus amigos faziam lá em casa”, reclama. No principio não percebeu, mas estava se transformando em um coroa ranzinza. Detalhista. Cheio de manias.

Preocupou familiares. Ou melhor, se tornou insuportável para amigos e parentes. O filho até pensou em ir morar com ele, que reagiu contra. “Indicavam outras solteiras, a maioria delas solitárias e tão cheias de manias quanto eu, ou seja, só pioravam meu drama”. Foi quase sem querer, quando decidiu matricular-se em um curso de idiomas que acabou conhecendo Ana. “Ela me tirou desta rotina solitária,” reconhece. Foi um começo difícil, pois estava habituado a ficar só. O máximo que suportava eram dois, ou três dias juntos. Mas aos poucos, foi percebendo o homem rabugento em que se transformara. Um reizinho tirano perdido em seu império de manias. “Um chato, eu reconheço”.

Simplificando, ele chegou a conclusão inevitável de que nem todos sabem lidar direito com a solidão, mesmo voluntária. Ou deprimem-se, ou acabam assim, meio "fera selvagem" como percebera o filósofo grego. “Eu virei um predador. Comia pra não morrer de fome, buscava o sexo só por instinto”, conta. A partir de uma nova relação, pode enfim, retomar a vida com mais equilíbrio. 

Ou seja, muitos precisam ter alguém que os faça reagir. Nem só com carinho, mas parceria para manter o foco nas coisas importantes. Aquele puxão de orelhas contra a mesquinharia, o medo de dividir experiências e aceitar o jeito de cada um lhe fez reagir. “Amar, afinal das contas, te deixa mais humano”, afirmou, sem medo de ser óbvio. Afinal, em uma tarde de verão, em Forno Alegre, não se pode esperar muito além disso. Principalmente entre dois ex-colegas de ginásio, saudosos de um tempo que não volta mais, graças a Deus! O dia de hoje, será sempre melhor.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Sopa de Verão Afrodite

Está muito quente para falar de coisa séria. Assim, entra em cena o Ari Gourmet 2023, apresentando uma alternativa saudável para esses dias de calor recorde e festas carnavalescas. Que tal um bom prato de sopa? Sim, é uma possibilidade saudável, nutritiva e fria. Gelada melhor ainda! 

Existem dezenas de receitas criativas de sopas de verão que podem substituir saladas e tem a vantagem da baixa caloria. Além disso, são leves, com aroma sedutor assegurando que ninguém passará mal após um prato bem servido. 

Deixo para aqui duas receitas já testadas pelo cozinheiro que lhes digita. Ambas de origem indiana, agregam leveza, perfume e um sabor exótico sedutor. Saciam de um lado e, quem sabe, permitam outros apetites. São receitas que carregaram elementos afrodisíacos  atuando direto no fluxo sanguíneo, como por exemplo, o gengibre, o óleo de amendoim (sem casca) e a pimenta, que oferece aquele calorzinho e um aumento na frequência cardíaca. Depois, o resto é entre o cozinheiro e seus convidados.  

Então vamos a minha sopa gelada favorita que batizei de Afrodite. Sua força está na berinjela adequada aos acompanhamentos abaixo citados.

Anotem aí os ingredientes:

2 berinjelas cortadas em cubos.:

3 colheres de sopa, preferencialmente de óleo de amendoim,

25 gr de manteiga

1 colher de sopa de curry

3 cm de gengibre ralado

1 kg de tomates em pedaços sem casca

1,5 litro  de caldo de legumes (caseiro ou em pó)

4 colheres sopa de suco de limão

2 colheres chá de açúcar mascavo (ou branco)

300 ml de leite de coco (ou uma xícara da polpa do coco verde)

Pimenta branca a gosto

6 colheres de de sopa de iogurte natural

sal a gosto

Preparo;

Doure em óleo os cubos de berinjela (na mesma panela que irá preparar a sopa). Feito isso, adicione a manteiga, o curry, o gengibre e o alho picados. Mexa durante um minuto, sem deixar o alho queimar para, em seguida, acrescentar o tomate. Vá juntando pouco a pouco o caldo o suco  de limão e o açucar. 

Quando iniciar a fervura,  deixe cozer em lume baixo (adoro essa palavra) por mais 30 minutos ou um pouco mais. Siga mexendo de vez em quando. Retire do fogo e junte o leite de coco, mexendo bem até a mistura ficar homogenea. Tempere com a pimenta, corrija o sal se for necessário. Deixe esfriar e leve a geladeira. Antes de servir, coloque em cada prati uma colher de sopa de iogurte natural. 

Sopa de Pepinos 

Mais barbadinha ainda. Eu faço a seguinte conta: 

4 xicaras de pepino descascado 

2 cebolas médias

2 tomates

4 folhas de hortelã (tá na época, aproveitem)

sal a gosto

100 gr de queijo de soja tofu

Preparo

Leve tudo a panela e cozinhe por cerca de meia hora. Deixe esfriar para  liquidificar. Tem quem prefira coar, eu não gosto. Ponho direto na geladeira. Sirvo com cubos de gelo, para impressionar os incautos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Amor sertanejo, sofrência 10%

Cansada do marido farrista, a indignada esposa o expulsou de casa. Não bastava a crise pós pandemia, que lhe roubava clientes na loja, ainda tinha de aturar as escapadas conjugais. As amigas a recriminam. Ele era trabalhador, simpático e boa pinta, embora volta e meia sumisse. Um carteado em lugar ermo, pescarias em açudes de sereias e um celular repleto de números e ligações estranhas em horários incômodos. “Curto música sertaneja, mas de sofrência não morro”, respondia, ao justificar a decisão.

Filhos criados, quase cinquentona, não precisava aturar um gato fujão em casa. O único felino naquele seu espaço teria quatro patas.Referia-se a Charles, um siamês de personalidade forte, por coincidência, presente do marido que, aliás, não se conformou com a expulsão. Queria mais uma chance. Mas ela resistia bravamente ao assédio de flores e ligações chorosas. E jurou que também iria cair na noite com as amigas. 

Mas o gosto por duplas sertanejas, desta vez, lhe mexia com as emoções. Bastava ouvir o refrão "...A terceira música nem acabou. Eu já tô lembrando da gente... Celular na mão, mas ele não ta tocando..." e os dez porcento aumentavam na conta da saudade (Maiara&Maraísa). No meio de tudo isso, até o siamês sumiu. Bateu um temporal, entre raios e trovões e o gato não estava nos lugares esconderijos costumeiros. Outro macho a decepcioava. Charles, pelo menos, era solteiro e independente, como todo bom siamês. 

Uma semana depois, apareceu o marido confessando o "sequestro" do gato. Só o devolveria se o aceitasse junto. Jurava ter amadurecido. Argumentou - entre risos - que agia  igual aos gatos que gostam de passar a noite na rua, e sempre retornam. Ou seja, se as mulheres amam os bichanos, devem compreender também homens, com as mesmas características. A infeliz comparação aumentou a indignação da esposa. 

Mas a noite tinha sido pavorosa. Chuva e vento, os bares estariam vazios de gente que a atraísse. Também sentia falta do "cretino sem-vergonha". Assim, abriu a porta e entraram, felizes, homem e bichano.  Mas alertou, com olhos de gata arisca: "Só castração acalma um bicho fujão. Então, o mesmo vale aos homens."

 "Não brinca assim...", gemeu o marido. Ela falava sério. No dia seguinte, o bichano foi castrado. Acabavam assim as noitadas de cio. O outro gato, impactado, acalmou-se. Teve "castrados" o celular, que ganhou um novo número, e, pior de tudo, senha compartilhada. As festas e pescarias, ela acompanharia, caso contrário, permanecem em casa assistindo séries. 

Não sei se um marido fujão tem cura mas, por enquanto, ela está bem satisfeita com o manso ronronar dos bichanos caseiros. E ainda economiza os tais 10% em sua cota de sofrência sertaneja. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Síndrome da Pequena Sereia


 No verão passado ela saracoteou no litoral – de Torres a Punta Del Este – com a mesma desenvoltura da Pequena Sereia do conto de Hans Christian Andersen. Bronzeou-se, exibiu o corpo bem cuidado, permaneceu imune aos candidatos a príncipe e ao final do veraneio torceu para transformar-se em espuma do mar, como reza a história das sereias. Mas o que aconteceu? 

Pouco a pouco, embora o calor e sol abundantes, foi perdendo o tom dourado, enquanto os dias mais curtos apressaram as noites e, com elas, algumas madrugadas de terrível insônia. O problema não era dormir. Mas os pensamentos nestas horas. Culpas e carências batendo à porta, acelerando o ritmo cardíaco.

Definitivamente, a Pequena Sereia não se transformara em bolhas a retornar apenas na próxima temporada. Estava lá, viva, estranhando uma solidão que não parecia incomodar em outonos passados. “Estou envelhecendo da pior maneira”, disse, sem muita convicção, porque, afinal, o espelho revelava um ar juvenil e saudável.  

Mas as folhas secas, caindo no pátio do condomínio lhe enviavam uma mensagem que ainda não conseguia decifrar. Logo chegaria o inverno e havia se preparado para isso. Reservas em bons hotéis na Serra, uma viagem ao Nordeste, onde é sempre quente e a Sereia, quem sabe, ressurgiria por alguns dias. Mesmo assim, parecia vazio, não era tudo. Seu príncipe não a procurara?

Conversou com uma amiga e arrependeu-se de ter uma confidente sem miolos. “Está te faltando homem!” Como assim? Era uma divorciada feliz! Aprendera a conviver de forma independente, sem vínculos.. Ela, e os filhos que, neste ano, viviam no exterior em cursos de pós-graduação. Com eles conversava quase diariamente. Estava realizada ao vê-los independentes. 

Seria isso? Com certeza não. Amores? Tivera uma oportunidade bacana, em Cidreira, com um descasado tipo tatuíra que se enterra na areia de tão carente, mas o descartou educadamente. Antes disso, saíra com um amigo. Quase virou namoro sério. Mas o enjoo pelo recomeço a fez recuar. Enfrentara anos de adversidade criando filhos, trabalhando duro, sem apoio nas horas de crise e sem calor nos dias de frio.

Não reclamava de nada, nem guardava mágoas do ex-marido, um "simpático cafajeste", como definia. Essa atitude até facilitava sua relação com o universo masculino. Era um escudo contra mancadas. E foi numa dessas madrugadas, na disputa entre a sereia e a mulher, que percebeu ser vítima da força instintiva que a empurrava à disposição por algum tipo de parceria. 

Mas igual à sereia do conto, ao virar espuma, ainda no verão, conquistou o direito a uma espécie de purificação por bom comportamento e atitude madura diante da vida. Ainda sob o sol do verão, abandonou a tendência à impulsividade, iluminando a razão e lhe permitindo pensar com equilíbrio. 

Assim domou as noites insones, a fera carente. Ao refletir, de uma forma bem racional, aliviava ressentimentos e aprendia a escapar das soluções fáceis, como a sugerida pela amiga, prisioneira do enganador canto das sereias. 

Uma mulher madura – de corpo e alma – nunca está só. E se, por ventura, surgir alguém, uma paixão, essa não ocupará um espaço vago, criará outro, “novo e muito bem administrado”, garante. E aí, a Pequena Sereia voltará -feliz para sempre -, a seu antigo livro de contos.

Descasado tatuíra procura II

Pescar, decididamente, não estava no projeto deste meu amigo descasado. Um típico macho da espécie que, ao chegar à meia-idade, só pensava em festa, para compensar o  passado monótono. Circulou por quase todo litoral sul e não chegou ao porto desejado, Agora retornava de uma  bem sucedida pescaria na Plataforma de Cidreira onde não fisgara nem uma sardinha sequer, mas observara a lua, o mar e o esforço do tio acompanhado daquela primeira aventura. Cristina era o nome da mulher, madura e charmosa, mesmo vestindo um velho e surrado abrigo.

Não fugia as suas responsabilidades, sabia que transformar o resultado daquela pesca em alimento era com ele, então, não reclamou na interrupção de sua jornada em busca de sereias festeiras. Preparou um jantar especial, na casa de Cristina. Ouviu histórias de pescador,  outras de vida. Cristina também era divorciada, perdera o marido para um professor de inglês. 

O vinho verde português que acompanhou a janta, arejou os espíritos, transformando melancolias em boas gargalhadas. Ao final da noite, o tio, alegando cansaço, voltou para casa. Ele permaneceu, com a desculpa de  lavar a louça e embalar para congelamento os filés de peixe restantes.

Naquela noite e nas duas seguintes, trocaram confidencias de pele, suspiros doces carregados em maresia e suor. Foram à praia juntos. Sem dar as mãos, como se isso representasse algum tipo de compromisso. Um acordo extra-oficial.

Encontrara a companhia ideal, em uma pescaria, longe da tensão frenética dos bares da moda e seus drinks duvidosos. Na hora de retornar – as férias estavam encerradas para ele – ela ainda permaneceria, o sentimento era de uma paz sem bandeira, de um armistício na batalha dos afetos mal-resolvidos.

Embora decidido a não querer mais compromissos duradouros, sentia-se como aqueles peixes rebeldes que lutam contra a linha que os segura, já irremediavelmente fisgados. E só por isso que, com um fio de voz, perguntou da viabilidade de um reencontro.

“Melhor deixar assim. Foi tão bom, tão natural que não precisamos correr o risco de transformar esse momento em rotina, ou desilusão lá adiante. Ficamos só com a parte boa. Nosso vínculo será esse momento, breve, mas gostoso", respondeu Cristina.

Meu amigo, divorciado de carteirinha, macho independente acusou o golpe. Estava sucumbindo a seus próprios e argumentos.Disfarçou com bom humor. “Na semana que vem então, o velho capitão busca outro porto para ancorar”. Nem olhou para trás ao sair. Percebera naquele momento que fora o maior pescado daquela noite na Plataforma de Cidreira.

Ela fazia pesca esportiva. Fisgava só pelo prazer, para depois devolver ao mar. Intacto, embora a marca do anzol, às vezes, não curasse apenas com um beijo de adeus.