quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Amor sertanejo, sofrência 10%

Cansada do marido farrista, a indignada esposa o expulsou de casa. Não bastava a crise pós pandemia, que lhe roubava clientes na loja, ainda tinha de aturar as escapadas conjugais. As amigas a recriminam. Ele era trabalhador, simpático e boa pinta, embora volta e meia sumisse. Um carteado em lugar ermo, pescarias em açudes de sereias e um celular repleto de números e ligações estranhas em horários incômodos. “Curto música sertaneja, mas de sofrência não morro”, respondia, ao justificar a decisão.

Filhos criados, quase cinquentona, não precisava aturar um gato fujão em casa. O único felino naquele seu espaço teria quatro patas.Referia-se a Charles, um siamês de personalidade forte, por coincidência, presente do marido que, aliás, não se conformou com a expulsão. Queria mais uma chance. Mas ela resistia bravamente ao assédio de flores e ligações chorosas. E jurou que também iria cair na noite com as amigas. 

Mas o gosto por duplas sertanejas, desta vez, lhe mexia com as emoções. Bastava ouvir o refrão "...A terceira música nem acabou. Eu já tô lembrando da gente... Celular na mão, mas ele não ta tocando..." e os dez porcento aumentavam na conta da saudade (Maiara&Maraísa). No meio de tudo isso, até o siamês sumiu. Bateu um temporal, entre raios e trovões e o gato não estava nos lugares esconderijos costumeiros. Outro macho a decepcioava. Charles, pelo menos, era solteiro e independente, como todo bom siamês. 

Uma semana depois, apareceu o marido confessando o "sequestro" do gato. Só o devolveria se o aceitasse junto. Jurava ter amadurecido. Argumentou - entre risos - que agia  igual aos gatos que gostam de passar a noite na rua, e sempre retornam. Ou seja, se as mulheres amam os bichanos, devem compreender também homens, com as mesmas características. A infeliz comparação aumentou a indignação da esposa. 

Mas a noite tinha sido pavorosa. Chuva e vento, os bares estariam vazios de gente que a atraísse. Também sentia falta do "cretino sem-vergonha". Assim, abriu a porta e entraram, felizes, homem e bichano.  Mas alertou, com olhos de gata arisca: "Só castração acalma um bicho fujão. Então, o mesmo vale aos homens."

 "Não brinca assim...", gemeu o marido. Ela falava sério. No dia seguinte, o bichano foi castrado. Acabavam assim as noitadas de cio. O outro gato, impactado, acalmou-se. Teve "castrados" o celular, que ganhou um novo número, e, pior de tudo, senha compartilhada. As festas e pescarias, ela acompanharia, caso contrário, permanecem em casa assistindo séries. 

Não sei se um marido fujão tem cura mas, por enquanto, ela está bem satisfeita com o manso ronronar dos bichanos caseiros. E ainda economiza os tais 10% em sua cota de sofrência sertaneja. 

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