O desaparecimento de sua “filha” de pano a fez chorar muito. De família humilde, a menina consolou-se na esperança de que o Papai Noel, quem sabe, lhe trouxesse outra. Talvez uma igual a de suas primas ricas, com rostos de louça.
Essa história aconteceu nos anos 30, tempos onde não existiam brinquedos em plástico. A maioria era em madeira ou tecido e muito caros, importados da Europa.
Na hora dos presentes, Erica foi a primeira a sentar em volta da árvore. Esperava o bom velhinho e seus pacotes encantados. Meias e ceroulas para os tios, pijamas para os avós, carrinhos e livros infantis para os primos e ela aguardando, de olhos fixos no saco de linhagem que se tornava cada vez mais magro.
Ao chegar sua vez os olhinhos de Érica, brilhantes de alegria, não esconderam uma ponta de decepção ao ver uma bonequinha idêntica a desaparecida. Com roupas novas, mas com os mesmos olhos azuis. Até as manchas se pareciam!
Nos dois anos seguintes, se repetiu o "sequestro" da cada vez mais gasta boneca de pano, que sempre voltava de roupas novas para a desencantada Érica.
Assim, aos sete anos, não acreditava mais no nada bom velhinho. Irritava-se quando seus pais, constrangidos por não poderem presenteá-la com brinquedos novos, diziam que ela não ganhara o que pedia, por causa de uma teimosia, de uma briga com os irmãos e outros pequenos pecadinhos, tão pequeninos que ela nem lembrava mais.
Papai Noel era rancoroso. E pão-duro! Érica odiava aquele velhinho suado que a presenteava, ano após ano, com a mesma desilusão. Um sonho cada vez mais desbotado e remendado.
Cresceu com esse rancor guardado. Casou e, embora a vida fosse mais folgada, insistiu em ensinar aos filhos que aquele velho, geralmente de barbas artificiais, era coisa do comércio.
"O Papai Noel de vocês somos nós". As crianças a ouviam, mas achavam que a mãe, sempre correta, desta vez fazia injustiça com o bom velhinho. O piá mais novo chegou a argumentar que, mesmo pobre, Jesus recebera os três reis magos com presentes em ouro - que valia muito - e também, incenso e mirra (o que é isso afinal?) mais baratos.
Levou muito mais tempo para Érica compreender o gesto de seus pais. Na verdade, tentavam manter aceso o espírito natalino nos filhos. Dar-lhes uma esperança, um estímulo para melhorar sempre. A mesma boneca com roupinhas novas, feitas pela mãe durante a madrugada, era o que podiam dar, além da ceia.
Erica acredita que, em sua preocupação, os pais erraram ao deixá-la afastada da realidade. Filhos não têm vergonha do aperto dos pais. Serão solidários.
Ela sentiria orgulho da mãe, ao saber que ajudara a fábrica de brinquedos lá do Pólo Norte, remendando a boneca que tanto amava. E aquela noite especial, quem sabe, seria realmente feliz, como diz a canção.

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