sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Toda mulher é meio Leila Diniz

No verão toda mulher é mais atraente. Me desculpem os apologistas dos estúdios da alta costura que idolatram o frio e a elegância do vestir. Ainda prefiro a estação do despir. O calor pode atrapalhar um pouco a aproximação, mas permite sacar as vestes com um exercício mínimo e prazeroso. O calor libera, dá um xeque-mate na auto-censura.
É difícil eu sei, desviar o olhar dos trajes minúsculos a rasgar calidamente o pudor. O desfile de macia epiderme massageada por filtros e hidratantes, alegra e estimula. Mas é aí que entra uma outra questão de igual fundamento: atitude e respeito. Enfrentar o calor não é tão difícil quanto a necessidade das mulheres de se impor diante do machismo e preconceito ainda existentes e discriminatórios.
Nesse 2022 que chega a seus últimos dias, se completam 50 anos do falecimento da atriz Leila Diniz. E lembro que, até o final dos anos 60, o mundo, muito maís do que hoje, era dos homens. Esses podiam ousar, viver seus relacionamentos, aventuras extra conjugais e tudo passava batido sem muitas condenações. Agir feito uma espécie de cafajeste garantia uma estrelinha no carteirinha do macho raiz. E condenações leves.
E foi nesse tempo que Leila, jovem e bela atriz de novelas açucaradas, levantou a bandeira dos direitos iguais. Da liberdade de agir como bem entendesse não apenas no trabalho, mas em sua intimidade. Cafajeste? E daí?
Eu era guri, saindo da adolescência e lembro de Leila Diniz posando grávida e de biquíni, em Copacabana. Escândalo! Hoje, a mulherada está livre para circular com seus lindos barrigões nas areias de todo o litoral brasileiro.
E a histórica entrevista ao “Pasquim”? Entre outras declarações afirmou: “Você pode amar muito uma pessoa e ir para cama com outra. Já aconteceu comigo”.
A ditadura, na época, não perdoou. Embora tenha tido sucesso como atriz de cinema em filmes como “Todas as mulheres do mundo”, ou atuado em novelas clássicas, “O Sheik de Agadir”, de Glória Magadan, por exemplo, precisou se refugiar para não ser detida.
As “mocinhas” da época dependiam do rótulo da santidade, já os “galãs”, podiam derrapar em seus compromissos como uma espécie de "cafajestes do bem", ou algo assim.
Era da natureza deles, diziam os conservadores e ela, assim como outras tantas, queria a liberdade à esses mesmos comportamentos sem o risco de agressão moral. Então, ao falarmos sobre a relação entre o verão e o feminino, o fundamental é que a atitude da mulher seja respeitada sem parecer eternamente desafiadora.
Rita Lee já disse que toda mulher é meio Leila Diniz. Nenhuma merece um apedrejamento moral. Aliás, mesmo encoberta em trajes longos, burcas fechadas, é direito de toda mulher expressar sua personalidade.
Leila Diniz morreu, aos 27 anos, vítima de acidente aéreo ao voltar de um festival de cinema na Austrália, em 1972. Eu nunca esqueci uma frase sua - entre tantas, muito bem humorada, mas séria, sobre essas doenças do preconceito de gênero:
“A mulher brasileira deveria ir menos ao psicanalista e mais ao ginecologista”.

Falou e disse, bicho!

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