Este trecho do poema “Aniversário” de Álvaro de Campos - fecundo e emotivo heterônimo do poeta português Fernando Pessoa – espelha o ânimo de muitos que ao completar mais um ano de vida. A sensação da alegria ingênua perdida nos aniversários festejados no passado, “Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...”.
A mesa posta com mais lugares, a melhor louça, “As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...” E agora faltam presentes, sobram fungos do passado e o véu indecifrável do futuro. Qual pitonisa atreveria-se a adivinhar projetos prescritos?
E aí alguém como eu, já com os pés nos 70 anos, ao tentar fugir da melancolia pensa em uma grande festa com gente querida de várias gerações, mas alguns, prematuramente, já teriam partido. A lista poderia inviabilizar o evento. Hoje, maduro, aprendi a ser responsável por minha própria efeméride, reunir sobreviventes, familiares, sem tristeza, respeitando a ordem natural das coisas.
Quem sabe, brindar ter sobrevivido às injúrias, talvez a falta de afeto em momentos e a conquista de outros. Um pessimista tende a esquecer as pequenas mas significativas vitórias cotidianas. Ser íntegro, sem bancar anjo ou demônio. Do tipo que ao errar sabe pedir perdão. Depois, tentar não repetir a mancada.
Projetos sonhados, quando caem na ponta do lápis, viram rabiscos sem nexo. A casa nova, piscina, uma adega para safras especiais. E as viagens? Gramado, Nova Iorque, Paris, Buenos Aires. Quem sabe o paraíso Mediterrâneo? Azeitonas pretas, pimentões doces e frutos do mar... Portugal na primavera com suas flores de rosmaninho (alecrim) perfumando as estradas no caminho do Tejo.
Epa! Mas nada disso é impossível, por mais sofrida que seja a espera, por mais obstáculos impostos. Erramos, tropeçamos e retomamos a trilha. Uma vez, durante o período de pandemia, argumentei com um amigo sobre a necessidade de fé e organização de como atingir aqueles sonhos que pareciam tão malucos.
Ele respondeu desaforado: “Chega de sonhos! Sonhos comemos fritos. Só permanecem as gorduras saturadas endurecendo artérias!” Boca suja, magoada com os maus tratos que o cotidiano impôs. Fritou os sonhos e, em um dia que deveria ser especial, permanece em um a beira do abismo da inconformidade.
Mas as coisas não se resolvem com rancor. O importante é viver o possível. Aproveitar a experiência adquirida, valorizar as trilhas sulcadas na face, córregos salgados pelo suor do dia-a-dia. Marcas assim, escrevem e corrigem uma trajetória existencial.
O bolo pode representar a vida que mesmo fatiada, tantas vezes nos põe a engordar com supérfluos, tipo rancores, frustrações, amores desfeitos. Desculpem a metáfora pobre, mas encaro esses meus 70 como aquela vela reutilizada, ano a ano, que mesmo pela metade e deformada, ainda mantém a chama acesa.

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