“Gordo, vem cá!” Surpreso, mirei nos olhos dela que, ao dar-se conta do mal-entendido, apontou o arbusto onde um cãozinho peludo fazia xixi. Gordo era o nome próprio de seu animal de estimação. “Nem reparei que o senhor era gordinho”, desculpou-se, aumentando o constrangimento.
Aceitei as desculpas, e fiquei ensaiando os desaforos que meu elevado teor de tolerância jamais permitiria. Mas deu vontade. Ela já cruzava a rua com o gordo de quatro patas – que até magro era – quando jurei iniciar uma dieta, pra já! Ser magro tem todas as vantagens. Primeiro, não é proibido o mau-humor.
O maior exemplo disso é o Natal, onde o gordinho da família é sempre Papai Noel. Dê-lhe suor por baixo daquela ridícula roupa quente e barbas de algodão. E os apelidos? Partem de simpáticos paquidermes a outros bichos parrudos. Quantos baixinhos gordinhos não sofrem com as comparações aos hoje caríssimos botijões de gás?
E os gracejos que viralizam nas redes sociais e só não acabam em bloqueios ou briga a socos porque somos obrigados a agir como os mais bem humorados da espécie humana. Gordo não está autorizado a zangar-se. Mas tem coisa pior! Qual gordo não escuta seguidamente os "conselhos” de amigos transformados em nutrólogos ou endocrinologistas amadores.
“Até que você é bonito, porque não faz um regime?” Arre! É triste! Um sujeito magro não se abalaria, como eu, com uma estranha gritando pelo “gordo”. Não é nada com ele, ora! E mesmo quando o obeso se rende as críticas, a lentidão dos `resultados em exercícios e dietas assusta e desanima. Isso sem contar os riscos das cirurgias bariátricas, de redução do estômago.
Nas dietas, a contabilidade de cada grama eliminada não se equilibra com a distância percorrida nas corridas, ou o sacrifício da comida insossa, das saladas verdes, vermelhas, roxas e outras cores a contrastar com a palidez do gordo. Lembro meus dias de academia quando a recompensa era o bar com cardápio fitness. Saladas de frutas, bebidas e iogurtes light. Sanduíches naturais!
Mas a turma sarada comia – bem ao meu lado - cheeseburgers com bacon e ovo, hotdogs de suspeitos molhos vermelhos e, tortura das torturas, crocantes batatas fritas. Toneladas delas! Se eles podiam, por quê não eu?
Sim, a ansiedade é a maior inimiga dos fofos. Aliás, só de lembrar do incidente que motivou este desabafo, me bateu fissura por algo doce. Estamos em dias de extremismos, radicalismos políticos e assim,não estou em clima de dieta. Tampouco de aceitar bullying sem dar o troco. E se outra tia me confundir com o cãozinho de estimação.
Eu mordo!

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