sexta-feira, 24 de junho de 2022

No frio, In vino veritas


O inverno chegou. A previsão é de que será de muito frio e de pouca chuva. Que consolo! Confesso, já gostei mais dessa estação. Mesmo com o ar gelado a cortar feito diamante as frestas das janelas, os vinhos mais encorpados aqueciam. Em dias passados, eu e meu amigo Werner Thiel, criamos  inclusive uma confraria intitulada pomposamente de In Vino Veritas. Enquanto o gelo cobria a capota dos carros lá fora, no calor da lareira, esquentava-se a vida. Alguns amigos até poesia recitavam, inspirados pelo mesmo deus Baco que, de propósito, os fazia esquecer estrofes, ou engolir rimas.

A lareira parecia nunca apagar, a adega sempre cheia. Tudo quente e aconchegante. Era inverno mas estávamos juntos. Os confrades traziam pães, queijos, salames coloniais e caldos a ferver seus vapores aromáticos. O inverno se cobria de um frio suportável, mesmo que insistisse em chuvas intermináveis, entremeadas de raros dias de sol pleno, abaixo de zero. Lagartear era tudo o que se precisava para recarregar as baterias.

Em casa, chimarrão, chás de todos os tipos e cafés servidos direto da cafeteira italiana. Era energia pura, que se agarrava na certeza de que toda estação tem seu encanto, mesmo que absolutamente fria, com ares melancólicos, quase depressivos. Eu não me permitia sofrer contra o óbvio. Para que reclamar, não tinha como ser diferente. A alternativa, o Nordeste ensolarado, era apenas uma fantasia cara demais para ser verdade. E duraria poucos dias. Longos seriam os meses a pagar passagens aéreas e hospedagem.

A confraria minguou, cada um seguiu seu caminho e hoje, me deparo com o inverno aliado a dias e noites de ódio e extremismo. Quero de volta esse inverno que congela os chatos ou os convida a algum tipo de celebração pacífica. Quero dias e noites em que não me isole exclusivamente em um edredom solidário, enroscado nos pés da amada. É bom, mas não é tudo. 

Enfrentar, reagir ao frio é bem melhor do que chulear as horas rezando pelo advento gostoso da primavera e verão. Não perdi a esperança e quero ressuscitar a certeza de que não faltará parceria para aquecer a alegria de viver. E que no meio de mais um inverno eu finalmente perceba que, dentro de  mim, “permanece um verão invencível," conforme imaginou, certa vez, o genial Albert Camus. 

Que assim seja! 


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