terça-feira, 26 de setembro de 2023

Paquera digital no ciclone


Choveu como poucas vezes eu havia visto em Porto Alegre. Água a transformar ruas em rios sujos, carregando o relaxamento dos cidadãos que sempre reclamam dos serviços públicos e pouco fazem por sua cidade. Bueiros e bocas-de-lobo vomitavam pedaços de cadeiras, ratos vivos, e dezenas de quinquilharias jogadas fora. Pior, motoristas ansiosos, ensopavam dezenas de pessoas com essas águas. Cenas lamentáveis! Ilhado, na manhã de quarta-feira, desisti da experiência náutica e, de dentro do meu carro, estacionado ao meio-fio,  acompanhei o movimento angustiado das pessoas.


A poucos metros da avenida Mauá, às margens do Guaíba, naquele instante a mais de 20cm da cota de inundação, avistei um rapaz, todo atrapalhado com guarda chuva, a correr à marquise. A água apertava o cerco, com a calçada transformada em piscina. Ali, havia outra pessoa. Uma jovem também. Encharcada dos pés a cabeça. Nem se olharam. Ambos estavam atentos a seus telefones móveis. Conectados, certamente, em redes sociais. 


Ele fotografou meu carro, inclusive, e vi que distribuía a imagem para seu grupo de amigos. No mundo virtual passamos a ser repórteres ou pauta. Imaginei ele postando sobre a possibilidade de eu ser levado pela correnteza em pleno centro da cidade. O tempo foi passando, a chuva cedeu por alguns minutos mas as poças permaneceram irredutíveis. Pouco antes de eu retomar meu caminho, vi que olhou para a moça com mais atenção. Ela percebeu, ficou meio sem jeito. Mas não se animou a sair dali. 


Ele voltou ao celular e tanto fez que achou o que buscava. Abri o vidro, abaixei o volume do rádio, para ouvir o que ele diria a ela. Mas apenas digitou alguma coisa. Ela riu. Ele também. Eram “amigos” na rede social, mas não se conheciam. Um sabia da existência do outro através de uma ou outra frase curta. E precisou o céu desabar para se conhecerem no mundo real. Instagram, Facebook. Twiter e outras redes nos pescam como em um banquete de seita cibernética. Mas, na real, nada substitui o contato olho no olho. 


Ele estendeu a mão, saíram aos pulos entre as poças e ainda me acenaram. Éramos parceiros no infortúnio. E quem sabe daquele encontro, não role um namoro. Ou pelo menos uma lição sobre o significado de uma amizade ou a disposição de "seguir" alguém. Estaremos sendo guiados por gente tipo faz-de-conta, semelhantes aos amigos imaginários da primeira infância. Seguidamente tem gente estranha querendo amizade comigo, mas tenho receio de certas conexões digitais.


 No caso desses dois, a coisa fluiu bem. Tinham, com certeza, amigos em comum. Mas quando uma moça do outro lado do mundo, quer me adicionar, bloqueio imediatamente. Afinal, sou um tiozão analógico mas não perdi o bom senso. Curto as redes sociais, faço amigos e ainda me informo sobre como chegar a determinados locais, eventos ou possibilidade de novos contatos profissionais.  Mas não consigo abandonar o velho e saudável costume de “sair para ver gente”, nos santos botecos da vida ou nas vitrines dos muitos shoppings de minha cidade que, acredito, sobreviverá aos tais ciclones extratropicais.


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