sexta-feira, 8 de julho de 2022

Voluntários da pátria invertida

 O homem desce da calçada e joga-se no meio fio, em uma das esquinas da  rua Voluntários da Pátria, Centro Histórico de Porto Alegre, onde corre um filete de água misturada de espuma e lixo varrido das lojas e lanchonetes do entorno. Esfrega as bochechas no cimento áspero do calçamento. Lambe aquele líquido turvo e malcheiroso. 

De súbito, levanta-se, seca o rosto com os farrapos que veste e o ouço dizer: “Sede”. Olhos fixos a um ponto perdido entre a retina e a razão. A sua volta, centenas de outras pessoas cruzam sem perceber a cena. Descem e sobem em coletivos, vasculham vitrines, se perdem pelo caminho, apressados para resolver suas vidas.

 É a ansiedade urbana que, aos poucos, desperta após os trágicos números da pandemia. Cada um com seus dramas pessoais, a  maioria quer dar a volta por cima após os prejuízos por tanta coisa ruim. Inflação, desemprego, mazelas políticas, familiares mortos. 

Eu, um senhor aposentado, me sentia como uma espécie de turista em algum mundo invertido de qualquer série de ficção (quem assiste Stranger Things sabe ao que me refiro). Ou, no mínimo, em alguma republiqueta subdesenvolvida

Mas estava na Porto Alegre onde nasci, a capital dos lindos versos de Mário Quintana, “Olho o Mapa da cidade como quem examinasse a anatomia de um corpo”. E o que eu percebia era a anatomia delirante do abandono. “Sinto uma dor infinita das ruas onde jamais passarei…” poetizou. E creio que o sensível Quintana sofreria mais ainda se fosse obrigado a conviver com tamanha degradação a avançar as fronteiras de outros municípios.

Ah! Poetas… Que bom se os versos ganhassem o dom divino de absorver naturalmente o que os compromissos de palanque tantas vezes não conseguem. Que fossem bálsamo contra o abandono que expulsa milhares aos esgotos. Muitos fingem não ver. Outros se auto proclamam uma superioridade  que lhes autoriza a violência do descaso e preconceito.

A cena daquele infeliz - enlouquecido pela miséria - a rastejar no coração da maior cidade do Estado permanece em minha memória como um emblema. Quem sabe, um dia, possamos usar cenas assim como antídoto contra a infâmia que transforma seres humanos em répteis, saciando a sede em esgotos e alimentando, sorrateiramente, a barreira de ódio que une os medíocres, cada vez mais fortes, nessa pátria, nesse mundo invertido.

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