quarta-feira, 27 de julho de 2022

Só para os fãs

Abriu a porta antes de acenar um até logo. Tinha pressa, estava atrasada para mais um dia de trabalho. Dessa vez o marido ficara em casa cuidando das crianças. A creche passaria por uma faxina, necessária após uma infestação de piolhos entre as crianças, professoras e funcionários. Por sorte os meninos - de 3 e 4 anos, não estavam contaminados. Antes haviam enfrentado os sintomas agressivos do Covid, dias complicados de imunidade baixa e viroses misturadas à doença financeira da família. 

Os negócios agora se recuperavam, mas as dívidas ainda interferiam na qualidade de vida doméstica. “Somos mais um casal entre tantos outros na mesma situação”, digitou ela em uma conversa de WhatsApp com uma amiga que, preocupada em ajudar sugeriu que criasse uma conta no OnlyFans, uma rede social onde os perfis inscritos cobram para exibir conteúdos exclusivos. Por exemplo, poderia dar aulas de francês - idioma que dominava com fluência. 

Mas ao conferir sobre essa tal rede, percebeu que a maioria das mulheres (e muitos homens) estavam lá aceitando pagamentos mensais, para exibições de forte conteúdo erótico. “Nunca aceitaria tal exposição. E meu marido? As crianças?” respondeu à amiga que, sem muitos pruridos confessou que estava lá e já conseguira um bom dinheiro, sem expor-se demais. “É muita gente, são milhares de inscritos. Quem iria te localizar?”, argumentou. 

Nem perdeu tempo respondendo, foi pesquisar como funcionava essa rede. Realmente tinha de tudo nesse universo, mas para atrair muitos fãs, precisaria ousar o que, objetivamente, significava produzir material com pouca ou nenhuma roupa. “Não vale a pena”, conclui. 

Ligou para casa, tudo em ordem por lá. O marido preparara o almoço, e no dia seguinte  as crianças poderiam retornar à creche que enviara recado avisando a desinfecção das salas de aula. Aliviada, decidiu sair para o almoço um pouco mais cedo. Ao entrar no elevador, sozinha, examinou-se no espelho. E gostou do que viu. Ainda estava em forma, apesar dos partos e praticamente nenhum exercício em academia. 

Será que renderia alguma gorjeta? Teria uma vida com mais conforto? Mas e a família? Tantas interrogações a fizeram banir a ideia, mas deixaram uma sarna a  lhe coçar o fundo do inconsciente, lá onde se guardam os desejos reprimidos mas sempre prontos para vir à tona.

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