Uma dessas sonhadoras, amiga que abandonara o marido frouxo - um notório preguiçoso - decidiu viver sozinha, no último andar de um apartamento no Centro Histórico de Porto Alegre. E aí, certo dia, lá de baixo um sujeito sem expressão, um cara urbano, aquele tipo sem rosto tropeçou e, esborrachado no chão, atraiu a atenção dessa mulher que, imediatamente, avisou o porteiro para chamar a Samu.
E não é que o tal sujeito, apesar do tombo, se deu bem? Aos 68 anos era dono de alguns imóveis. Um deles, imaginem só, aquele onde a personagem desta historieta vivia. Os dois se conheceram. Ela inquilina, ele o proprietário atendido na emergência.
As gentilezas se revezaram, as coincidências se transformaram em risos e a partir daí, resultaram em troca de mensagens e até a noite de um jantar, com direito a pernoite onde ele, feliz e sem arrependimentos, cancelou a cobrança de aluguel, desde que pudesse manter a rotina de visitas. A vida em solo virava à dois.
Lógico, aqui não é um filme Disney. E essa história é 85% vida real. O cotidiano tem dessas coisas. Encontros inimagináveis que se transformam em histórias de roteiro água com açúcar. Hoje estão juntos, a cidade continua de igual para pior, as guerras mundo afora alimentam o ódio, sustentam a indústria bélica.
Mas em um apartamento, no Centro Histórico de Porto Alegre, com vista para o engarrafamento em dois horários, tem gente brindando uma chance - quem sabe a segunda, ou última - para a felicidade.
Encerro deixando essa dica: se um dia tudo estiver andando meia-boca e você sofrer um tombo. Olhe para o alto. Quem sabe, antes do paraíso, você encontre um anjo perdido. Em qualquer andar, de qualquer jeito, mas com a mesma ânsia de parceria. Tem coisa melhor?

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