sábado, 25 de novembro de 2023

FAISÕES, CISNES, ENCHENTE E UM CASAL TEDIOSO

 

Conversei via whatsapp com um amigo tiozão - veterano como eu - que desabafou o momento difícil que vive em seu casamento. Muitos anos juntos, ambos presos a uma história que se repete da mesma forma todo dia. E começa a incomodar. Permanecem sem alçar outros voos. Aí chegou a enchente, devastadora, indiferente às crises afetivas, obrigando o casal  a correr para salvar o que fosse possível em uma casa da família na região das ilhas, em Porto Alegre. 


Em dois dias ajudaram vizinhos, gastaram as economias até  retornarem à quase segurança do apartamento no Centro Histórico  da Capital. E a partir daí, de novo, os antigos questionamentos. Eu percebi que um evita machucar o outro, como se houvesse um bloqueio que lhes impedisse retomar à intimidade de um romance. 


Meu amigo é  ornitólogo, um veterinário que  cuida de aves. E ele me diz que a relação deles lembra um casal de faisões, aves que mesmo em cativeiro,  são criadas praticamente soltas. Nunca escapam porque uma delas está sempre presa ao viveiro. Por solidariedade, aquele que teria tudo para voar, permanece ali, ignorando o apelo da mãe natureza.


Quem sabe esse princípio não seja igualmente a base de alguns relacionamentos entre humanos? Um solto e o outro preso. A parte livre não abandona o cativeiro por uma questão de lealdade. Ambos na verdade, presos. Enfeites do cotidiano. Sacodem as penas coloridas das vaidades que, em outras palavras, os confunde entre as amarras. 


Muitos casamentos  surpreendem, em sua longevidade, por essas arapucas em gaiolas de enfadonha resignação. Lhes assusta imaginar-se agarrados às grades finas dos viveiros, a implorar liberdade. E em meio ao temor, não percebem que bastaria a um deles virar as costas e alçar um último voo para libertar seu fatigado par.  


Eu sugeri que, talvez, a insatisfação deles não fosse desamor, mas cansaço por uma agenda cotidiana repetitiva. Quem sabe não buscassem outra metáfora para a vida a dois.  Os cisnes, por exemplo, vivem uma única parceria em sua existência. Os casais cisne superam tudo quando alçam voos juntos. 


Quem sabe novos projetos, em sintonia e MELHOR negociados. Afinal mantinham uma relação sem dramas ou agressões, apesar da modorra e estagnação. Sozinhos, ou com novos pares, mudariam? 


Insisti ao casal para que voltassem às ilhas, lá poderiam ajudar mais pessoas. Aceitaram a minha proposta e, hoje, estão junto a Defesa Civil do Estado, como voluntários, em um trabalho árduo, mas fundamental para as comunidades atingidas, 


Enquanto escrevia esse artigo, a esposa dele me enviou uma pergunta. “Porque quando estamos em atividade o casamento renasce? Parece que ganha sentido.”  Não sou psicoterapeuta de casais, mas  deixei claro que, fosse eu, daria uma segunda chance a história à dois que vi crescer, mantendo esse perfil solidário que os revelou parceiros. 


A decisão não está em minhas teses, nem nas asas dos falcões ou outras lindas aves silvestres. Elas não sofrem por questões sentimentais, vivem presas a seu instinto de sobrevivência. E seguem juntas, uma apoiando outra. 


Entre humanos, essa proximidade pode resultar em admiração mútua, afeto e desejo.  Combinam juntos o voo, mesmo quando um permanecer protegendo o ninho.

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