quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Divertida Mente no espelho

Aconteceu algumas vezes em minha adolescência. Eu acordava, na madrugada, com uma sensação estranha, um peso asfixiante e palpitação fora do comum. Algo como em filmes de suspense, ou terror. Mas os monstros todos estavam guardados lá dentro, embolados em minha imaginação de guri. Certa vez a coisa foi tão forte que desmaiei de pura ansiedade. Imagino o susto de meus familiares. O barulho seco no piso de madeira e o gemido de dor. Mas passada a crise, todos os fantasmas sumiam  e eu voltava, assustado, para a cama.  Esse quadro só aliviou um pouco a base de medicação tarja preta que, um ano depois,  abandonei para enfrentar, sem farmácia, meus problemas.


Lembrei desses dias ao assistir - ao lado de minha neta - a história da jovem Riley, personagem da filme Divertida Mente 2 que, nesta segundo roteiro, enfrenta as mazelas da transição da infância ao amadurecimento. Aquela Sala de Controle Emocional do primeiro filme, se vê obrigada a uma adaptação a esses novos tempos, onde as emoções explodem e ganham tons dramáticos, entre a alegria inocente da infância e os novos sentimentos de tristeza, raiva, medo e ¨nojinho" aquele soberba juvenil.


E aí lembrei das “muletas” psicológicas que encontrei na música. Batia uma ansiedade e depressão mais forte e lá estava eu a ouvir Help! (Socorro!) dos Beatles, “Me ajude a voltar a ter os pés no chão, por favor!” ou “Satisfaction” dos Rolling Stones, onde a lamúria era contra a busca de satisfação pelas coisas ditas boas da vida “ eu tento, tento e não consigo”. Na época eles gritavam por mim e, na semana passada, o inteligente roteiro da Pixar, me lembrou - em cores bem definidas - o temperamento de um jovem em crise existencial.


Recomendo o filme aos papais e mamães e, lógico, aos filhos, para que sintam, com bom humor, como é normal essa fase onde a tristeza muitas vezes bate papo com a depressão e nos deixa assustados e intimidados com a sociedade. Todos tão certinhos e nós, esquisitos, de voz ruim, corpos em mutação e com desejos confusos, aparentemente inadequados. No filme cada emoção possui uma cor específica, lida com o inconsciente e o desenvolvimento da personalidade e aquela sombra assustadora que é a ansiedade. 


Era a missão de ser um bom filho, um colega legal e ter notas satisfatórias apesar da ânsia que sufocava quando eu dependia de conhecimento gramatical para uma boa redação. Ah! E sem  esquecer a diferença entre complemento nominal e adjunto adnominal. Inferno! E nem vamos passar pela matemática. Por favor! Terminou o filme e eu estava tranquilo. Apesar da idade adulta, percebi que ainda guardava o exemplo do adolescente que recusou o alívio medicamentoso de antidepressivos.


Chorar alivia, buscar identidade em uma "multidão fantasiada de gente", conforme cantei em versos que escrevi, te leva a um grupo semelhante e, nessa trilha, nunca se está sozinho. Aprendemos entre erros, acertos, mãos dadas ou negadas. Tudo é construção. Basta abrir os olhos, assumir a realidade que a fantasia se transforma no escudo que espanta a tristeza, essa chata mal amada que insiste em nos impor desânimo  no dia-a-dia. Eu reagi - com ou sem pílulas - é em nosso interior que está o espírito divertida mente.

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