Em um imenso pote de vidro, haviam guardado rolhas de vinho e espumantes de todos os cantos. Ali repousava o espírito feliz de um passeio inesquecível. Em todos os sentidos. Aproximou-se da poltrona e a diarista assustada, desculpou-se por folhear o livro que inundava a mesa de imagens. Pagou a moça que levou consigo o asfixiante rastro de perfume e alvejante.
Mas a mulher amada não estava mais lá nem em fotos, Tivera o trabalho de guardar para si, apenas as paisagens visitadas. Especialmente Praga, a linda cidade tcheca que encerrara a excursão. Com a grana já curta, permaneceram no “Ai 4 Angeli”, um flat restaurado, bonito como tudo naquela cidade acolhedora.
O gerente falava português! E foi assim - às margens do rio Moldávia -, na cidade das cem cúpulas, uma das mais lindas da Europa que juraram um amor tão harmonioso e duradouro quanto aquela romântica metrópole com suas ruelas de traçado irregular, a revelar belezas em cada curva e a surpreender com seu povo simpático e culto.
Por ser a terra de Antonin Dvorak, o famoso compositor erudito, haviam combinado assistir a um concerto no Teatro Nacional. Mas naquela tarde, ela sentiu-se mal. Estava muito enjoada. Cansada da imensa caminhada. Acabou convencendo-o a ir sozinho.
Afinal, era uma oportunidade única de assistir o concerto da Sinfonia do Novo Mundo, escrita no período em que o Dvorak vivera em Nova Iorque. Quando voltariam à Praga? E somente por isso aceitou deixa-la a sós. Mas antes do último movimento sinfônico, a preocupação com a amada, o fez deixar o teatro. Correu de volta ao flat.
Ao entrar no quarto, ao contrário da mulher abatida e nauseada, deparou-se com um cenário kafkaniano! Sim, Praga é a cidade do atormentado escritor Franz Kafka. Na imensa cama, a mulher amada sofria uma terrível metamorfose de anjo em voluptuosa barata a rastejar em busca de roupas e desculpas sensatas. Qual a lógica para um momento assim?
Retornaram em aviões distintos e o casamento que estava programado para o final do ano, foi cancelado em vários idiomas. Ouvi-la - mais tarde - justificar que a euforia, a beleza do passeio, o clima sensual da viagem a levaram a cometer tal desatino, apenas o fazia sofrer ainda mais. "Foi só uma aventura. Eu te amo!" jurou. Só?
O porteiro, um húngaro bonachão procurou consolá-lo: “Aconteceu aqui, longe de tua casa. Ninguém vai saber, se você não contar". Mas qual a vantagem de descobrir – em solo estrangeiro - que a namorada não tinha escrúpulos? Ele ainda perdera o final do concerto! Assim, enquanto folheava o livro, decidiu voltar a Praga. Está em dúvida quanto a data. A única certeza é de que, desta vez, não acontecerão metamorfoses.

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